Fingindo impaciência, ele permaneceu encarando-a. Ele nunca havia visto ela hesitar dessa forma, nunca parecera-lhe tão perdida e tão adorável. Ela mordia o lábio inferior e olhava para o chão, num gesto de ansiedade tão típico seu que ele sorriria de amor, se não estivesse tão ansioso o quanto ela. Depois de inspirar profundamente, ela levantou os olhos para encontrar os dele. Ele conhecia aquela intensidade nos olhos dela, sabia o quão perigoso seria perder-se na infinitude quase negra daquele olhar, mas contra isso ele não possuía grandes poderes.
- Eu estou aqui outra vez porque sei que cometi um erro indo embora – mesmo alguém que não a conhecesse como ele perceberia a dor em sua voz. Isso fazia com que ele quisesse abraçá-la e protegê-la de tudo o que pudesse ser ruim, mas ainda não era o momento para isso. - Eu sei que nada justifica eu ter ido embora, sei bem disso. Mas eu sinto muito a sua falta e você sabe que eu não esqueci de você por um dia que fosse. É difícil admitir para mim mesma isso, mas eu te amo desde que éramos crianças. Acho que mesmo que eu tente, não existe outra forma de felicidade para mim, a não ser aqui – ela mordeu o lábio inferior outra vez e suspirou profundamente, os olhos cintilando. - Eu compreedo se não pudermos mais sequer ser amigos, mas eu desejo profundamente continuar ao seu lado, eu quero que você saiba disso. Eu queria que você soubesse que eu não voltei para cá apenas porque minha família e meu lar estão aqui, mas por você também. Para ter você por perto outra vez, para ouvir seu riso, sentir seu cheiro, ver seus cílios ruivos, seus olhos brilhantes, ficar enrolando as pontas da sua franja até que você finja estar irritado e me pegue no colo, faça-me rir com suas cócegas...
Repentinamente mesmo ela, que sempre houvera sido um tanto fria, tentou disfarçar uma lágrima e fungou, esfregando os olhos. Ele também mordia o lábio inferior agora, olhando completamente comovido para ela. Seus olhos azuis traiçoeiramente encheram-se d'água, mesmo que sua intenção primária fosse assustá-la, fingindo não se importar. Ela havia crescido tanto mas, de alguma forma, se mantido tão pura o quanto era quando partira, há quase quatro anos atrás, que era impossível não ver nela exatamente a menina que ele amava, com a qual um dia fizera planos e passara por inúmeras histórias. Ele não podia ignorar o conhecido cheiro de flores que vinha do seu cabelo, a lembrança do gosto dos seus lábios desenhados, a beleza dos traços finos no rosto arredondado e principalmente, não podia ignorar a intensidade do brilho de seus olhos castanhos – ainda havia o mesmo brilho de quando ela dizia que o amava. Justamente ela, que era a pessoa mais inconstante que alguém poderia conhecer, mantinha o seu amor por ele, e provavelmente essa era a única coisa que se mantinha inalterável através dos anos nela.
Ela odiava romantismos que ela própria definia como sendo idiotas, mas se emocionava ao lembrar de coisas simples como os hábitos e brincadeiras íntimas que os dois tiveram um dia. Ele sabia que ela já tinha se declarado até demais, ela certamente já se expressara o seu máximo dizendo que sentia a sua falta – porque na linguagem britânica dela, isso era o mesmo que dizer que o amava. E ela já havia dito que o amava tantas vezes no passado que não era difícil saber que as coisas não haviam mudado essencialmente. Ele levantou delicadamente o rosto dela com uma das mãos, e ela o olhou, sem esperança ou medo, apenas amor e saudade. Ele percebia agora que havia sentido a falta dela a cada dia mais, também. Beijou-a delicada e intensamente, e ver o sorriso dela depois do beijo só não foi melhor do que ela ter finalmente voltado da longa viagem que havia feito.
Em pouco tempo então, ele percebeu que ela havia voltado definitivamente. Como num sonho, ele tinha outra vez todos os dias o riso e o cheiro dela constantemente ao seu lado, logo ele voltou a ver os livros dela pelo apartamento, algumas peças de roupa esparsas, e logo ele a convenceu a voltar a morar ali, de onde jamais deveria ter saído, mas tudo bem. Ela havia amadurecido muito e se tornado mais forte nessa longa viagem que fizera sozinha, pela primeira vez na vida, e parecia amá-lo ainda mais agora, como se já não pudesse haver qualquer dúvida.
Então, rapidamente, eles se viram realizando os planos que um dia haviam feito, e em poucos anos eles já haviam feito a maior parte do que queriam e deviam: plantaram árvores, ela escreveu um livro, ele fez mais alguns filmes, e tiveram filhos ruivos que eram o antigo sonho de ambos, e ninguém podia discordar que eles haviam subido rapidamente na vida – das formas mais importantes que existem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário