Sentada num banco em frente à catedral, ela chorava silenciosamente. Ao menos a neve estava caindo, o que sempre lhe agradara imensamente, não importava o quanto estivesse mal. E até então, ela nunca havia sentido tamanha dor.
Há muitos anos vinha tentando se proteger de sofrimentos, mesmo inconscientemente. Sempre que tentava abrir-se, magoava-se ainda mais, portanto não poderia imaginar que dessa vez fosse ser diferente. Mas ela sabia que em Kitee a beleza poderia ser verdadeira, no fundo sempre soubera disso. Mas não queria acreditar, para se proteger. Ele tinha belíssimos olhos cinzentos, olhos de lobo, como ela dizia, e ele gostava da comparação. Eram o tipo de casal que parecia estar junto desde sempre e para sempre, mesmo no primeiro dia em que estiveram juntos. Estranhamente, aqueles dois que todos criticavam por serem sérios demais, estudiosos demais, profundos demais, encontraram-se um no outro nas primeiras horas de conversa, nos primeiros olhares. De fato, não pareciam haver barreiras entre eles quando se olhavam nos olhos, e eles faziam isso por horas, tentando nunca deixar que essa sensação lhes escapasse. Num acordo tácito, desde a primeira vez em que os lábios se tocaram, foram fiéis e permaneceram juntos, logo morando juntos, logo habituando-se tão profundamente um com o outro no cotidiano, que se perdiam completamente se um estivesse doente ou dormisse até mais tarde.
Mas aos poucos, o veneno infiltrou-se. Porque ambos possuíam um passado um tanto obscuro, ambos haviam cometidos incontáveis erros antes de atingirem aquele estado de pureza e paz. Conforme os passados foram se revelando, os medos foram surgindo - e se não houvessem mudado? Ambos haviam mudado em essência, mas ela, principalmente, tinha medo de que ele não houvesse mudado, que outra vez ouvisse mentiras e construísse belíssimas ilusões. Diferentemente dela, ele era profundamente empático e logo notou sua desconfiança, ressentindo-se levemente disso. Ela possuía uma alma torturada, mas ele também, e talvez muito mais do que a dela. O egoísmo e o medo podem ser cruéis, ela descobria agora, enquanto sentia-se mais sozinha do que nunca naquela neve em Kitee. Ela era agora a Sra. Lautämaki, mas o Sr.Lautämaki não estava ali com ela, porque ela era tola demais para tê-lo ao seu lado, covarde demais. Subitamente, sentiu-se indigna de todas as vezes em que transaram maravilhosamente, da aliança que usava, da forma como ele a olhava. Ele fora, sem sombra de dúvida, a melhor coisa em sua vida, e ela conseguira fazer com que tudo fosse acabado, com que tudo fosse destruído debilmente. Não estava desesperada, conhecia-se bem o bastante para não estar, e por isso também sabia que carregaria a dor desse erro pelo resto de sua vida. Diferente das outras vezes em que fugira, dessa vez o erro não era consertável e o valor era insubstituível, impagável. Essa era a maior dor que suportaria.
Lembrar-se do seu estado deplorável quando conhecera-o e o quanto ele a transformara numa pessoa melhor era ainda mais doloroso. Se ela era admirável e talentosa agora, devia absolutamente tudo a ele que, dia após dia, com paciência e amor intermináveis, dava-lhe forças para aprender e construir. Quando tudo o que ela queria era desistir e sentia-se indigna do que estava aprendendo e criando, era ele quem lhe dava forças e motivação para seguir em frente, e ele era o grande homem que sustentava a mulher incrível que ela havia se tornado não apenas aos olhos dos outros, mas internamente também. Ainda havia muito a se aperfeiçoar, mas os avanços haviam sido estupendos, graças a ele. Ele mostrara-lhe toda a beleza que ela esquecera e desconhecia, trouxe-lhe as mais belas histórias e os mais belos sentimentos, dando-lhe esperança e paz, quando tudo que havia nela era desolação e angústia. Ela abandonara Helsinki, abandonara sua antiga errônea e fútil vida para estar ao seu lado, e finalmente encontrara um lugar onde ela sentia-se em casa, sentia que pertencia à aquela casa que possuía um belíssimo lago depois do quintal. Ali era o seu lar, ao lado de Erkki.
Mais memorável ainda fora aquela noite em que ela estava perdida em Kitee, havia chegado há nada mais do que 15 minutos e se perdera logo ao sair do avião. Não conhecia essa cidade antes, mas alguns amigos seus moravam ali e convidaram-na para passar uns dias ali. Ela resolvera vir antes do combinado para aproveitar uns dias sozinha, e agora estava perdida e ainda por cima desolada. Parecia que, por mais que agora houvesse decidido por tentar arduamente reconstruir a sua vida, mesmo as mínimas coisas insistiam em dar errado. Nevava exatamente como naquela tarde, e as ruas estavam completamente desertas e brancas, e ela, sentindo-se completamente desiludida, começou a vaguear pelas ruas, as mochilas fazendo-lhe com que as costas doessem, os endereços mal podendo ser lidos na penumbra. Erkki surgira como que por um milagre. Eles haviam se conhecido há apenas algumas semanas, e já haviam gostado imensamente um do outro. Quando correram para cumprimentar-se, ela parecia tão aliviada o quanto alguém que tivesse levado um tiro e agora retirassem a bala. Ele assustou-se com a angústia dela e a assombrante delicadeza que a angústia acentuava em seu rosto redondo. Seus olhos escuros brilhavam em meio à neve, e ela ainda não percebia as reais razões de estar tão sinceramente feliz em vê-lo. Ele perguntou-lhe que diabos ela fazia perdida na neve, e ela pediu que ele a levasse a qualquer hotel. Ao invés disso, ele convidou-lhe a conhecer a aconchegante casa com um lago no quintal. Enquanto ela olhava fascinada como uma criança para o lago congelado, ele tirou-lhe uma foto polaróide. Ao invés de ficar brava, ela sorriu e ele abraçou-a, supostamente para mantê-la aquecida nos -19ºC daquela noite. Os olhos de lobo encontraram-se com os olhos castanhos, e logo ela conhecia o belo quarto dele, que logo seria seu também.
Era doloroso lembrar dos detalhes supostamente mais insignificantes, mas justamente por isso mais íntimos. Depois de transarem, era maravilhoso quando perdiam-se um nos olhos do outro e ela podia observar cada mílimetro, cada inspiração de Erkki, os olhos cinzentos, o cavanhaque loiro, a intensidade de seu olhar, os longos cabelos negros esparramados pelo travesseiro, misturados aos quase ruivos dela. Esqueciam-se de qualquer coisa que não fossem seus própios sentimentos naqueles momentos que por vezes duravam horas. Ele acariciava-lhe o rosto delicadamente, beijava-lhe, possuía-lhe da forma mais intensa. E não importava o quanto isso se repetisse, não perdia o seu valor. E era desesperador amar dessa forma.
Ela se afastou aos poucos, não sem que ele percebesse e se magoasse. A dor era clara nos olhos cinzentos de Erkki, e ela fingia não se importar, quando na verdade sufocava internamente. O problema é que ele era muito além do que ela jamais ousara sonhar, e quando você ganha muito além do que pediu, você pode fazer duas coisas: ou desconfiar ou morrer de medo de perder. Ela fez ambas tolamente, porque amava Erkki, e isso não era segredo algum, por mais que ela tentasse negar, disfarçar e reprimir de todas as formas possíveis. A dimensão dos sentimentos por Erkki e o significado que ele adquiria para ela eram imensos demais, profundos e belos demais para se suportar. E ela era apenas uma criança, no fundo. Assim como ele.
- Kirsi!
Ela foi tão violentamente acordada de seus devaneios que sequer lembrou-se de limpar as lágrimas. Erkki corria na neve em sua direção, sem sequer um casaco pesado, e mesmo de longe Kirsi podia ver a dor transformando seu belíssimo rosto. Ela tinha certeza que, apesar de não ser o tipo de coisa que ele normalmente faria, ele estava ali para lhe pedir que fosse definitivamente embora, e talvez até mesmo o divórcio. Eles haviam se casado na véspera de Natal, na data favorita deles - e esse era apenas mais um dos detalhes dolorosos que Kirsi carregaria junto com o seu arrependimento. Quando ele chegou perto dela, ofegante, ela levantou-se, olhando-o completamente desesperançosa, profundamente triste. Havia uma tristeza tão óbvia, tão sincera e profunda que, mesmo se Erkki houvesse vindo com outras intenções, ele sentiria-se profundamente tocado por sua expressão. Os olhos castanhos, outrora brilhantes e vivos mesmo no escuro, agora mal refletiam o brilho da claridade da neve que cobria todo o lugar. Incapaz de conter-se, ele segurou seu rosto entre as mãos com delicadeza e urgência. Ela assustou-se tanto com essa ternura completamente inesperada que por pouco não recuou, mas agora tinha consciência suficiente de quem Erkki era em sua vida para não cometer esse tipo de erro.
- Eu sei que você está assustada - começou ele, com sua voz de trovão -, mas você não tem a mínima razão para estar, acredite em mim. Eu já fui provavelmente tão magoado e traído o quanto você, mas também mantive meu coração e minhas intenções puras. Você não pode ter certeza quando olha em meus olhos? - ele agora parecia tão desolado o quanto ela, os olhos cinzentos cheios de lágrimas, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto de Kirsi. Ele prosseguiu, descendo as mãos para segurar as delas, que estavam congelando como de costume.
- Eu sei tão bem o quanto você como é duro acreditar em uma perfeição, em uma beleza pura, e depois descobrir que tudo é uma grande e suja mentira. Sei o quanto é difícil confiar depois de ilusões e mentiras. Mas nós dois sabemos que encontramos algo raríssimo, sabemos que somos verdadeiros. Não tente mentir para si mesma, fugir ou se enganar tão erroneamente. Lembra-se do quanto estávamos assustados quando começamos, o quanto ficamos assombrados com nossas profundas semelhanças, com nossas afinidades? - ela assentiu com a cabeça, feito uma criança magoada. Se não fosse tão inseguro, ele beijaria-a no mesmo instante. - Nós ficávamos madrugadas inteiras planejando um futuro juntos para nos acalmarmos e acredite, meu amor, eu quero realizar exatamente tudo o que planejamos. Já realizamos boa parte e eu quero seguir, porque você é o meu sonho, e eu não desistiria do que encontramos por nada, absolutamente nada - ele balançou a cabeça negativamente, olhando-a profundamente, e ela sentia-se como se ele a penetrasse por inteiro, como se ele pudesse ver cada sentimento dela. Ele falava grave e desesperadamente, mas ainda assim moderado. Suas lágrimas escorriam silenciosamente, e nem por isso ele parecia-lhe detestável ou sequer sensível demais. Ele era perfeito, a perfeição que ela jamais imaginara de fato existir, e ele lutava por ela sem se humilhar, mas sim com amor, com sinceridade. Ela conhecia-o bem demais para não saber que ele lhe dizia a verdade, e então ela abraçou-o fortemente, libertando toda dor, todo choro, toda angústia que a sufocava. Erkki, completamente aliviado, beijava-a repetidamente no rosto e apertava-a contra si, sentindo-a profundamente nele. Beijaram-se sob a neve, e ela era tão delicada quanto o amor que havia nos olhos dele. E o Sr. e a Sra.Lautämaki voltaram para a sua casa com um belo lago congelado, para comemorar um ano de casamento e do amor mais sincero que jamais poderiam ter de outra forma, aquele que os construía e mantinha-os belos e admiráveis como anjos.
Há muitos anos vinha tentando se proteger de sofrimentos, mesmo inconscientemente. Sempre que tentava abrir-se, magoava-se ainda mais, portanto não poderia imaginar que dessa vez fosse ser diferente. Mas ela sabia que em Kitee a beleza poderia ser verdadeira, no fundo sempre soubera disso. Mas não queria acreditar, para se proteger. Ele tinha belíssimos olhos cinzentos, olhos de lobo, como ela dizia, e ele gostava da comparação. Eram o tipo de casal que parecia estar junto desde sempre e para sempre, mesmo no primeiro dia em que estiveram juntos. Estranhamente, aqueles dois que todos criticavam por serem sérios demais, estudiosos demais, profundos demais, encontraram-se um no outro nas primeiras horas de conversa, nos primeiros olhares. De fato, não pareciam haver barreiras entre eles quando se olhavam nos olhos, e eles faziam isso por horas, tentando nunca deixar que essa sensação lhes escapasse. Num acordo tácito, desde a primeira vez em que os lábios se tocaram, foram fiéis e permaneceram juntos, logo morando juntos, logo habituando-se tão profundamente um com o outro no cotidiano, que se perdiam completamente se um estivesse doente ou dormisse até mais tarde.
Mas aos poucos, o veneno infiltrou-se. Porque ambos possuíam um passado um tanto obscuro, ambos haviam cometidos incontáveis erros antes de atingirem aquele estado de pureza e paz. Conforme os passados foram se revelando, os medos foram surgindo - e se não houvessem mudado? Ambos haviam mudado em essência, mas ela, principalmente, tinha medo de que ele não houvesse mudado, que outra vez ouvisse mentiras e construísse belíssimas ilusões. Diferentemente dela, ele era profundamente empático e logo notou sua desconfiança, ressentindo-se levemente disso. Ela possuía uma alma torturada, mas ele também, e talvez muito mais do que a dela. O egoísmo e o medo podem ser cruéis, ela descobria agora, enquanto sentia-se mais sozinha do que nunca naquela neve em Kitee. Ela era agora a Sra. Lautämaki, mas o Sr.Lautämaki não estava ali com ela, porque ela era tola demais para tê-lo ao seu lado, covarde demais. Subitamente, sentiu-se indigna de todas as vezes em que transaram maravilhosamente, da aliança que usava, da forma como ele a olhava. Ele fora, sem sombra de dúvida, a melhor coisa em sua vida, e ela conseguira fazer com que tudo fosse acabado, com que tudo fosse destruído debilmente. Não estava desesperada, conhecia-se bem o bastante para não estar, e por isso também sabia que carregaria a dor desse erro pelo resto de sua vida. Diferente das outras vezes em que fugira, dessa vez o erro não era consertável e o valor era insubstituível, impagável. Essa era a maior dor que suportaria.
Lembrar-se do seu estado deplorável quando conhecera-o e o quanto ele a transformara numa pessoa melhor era ainda mais doloroso. Se ela era admirável e talentosa agora, devia absolutamente tudo a ele que, dia após dia, com paciência e amor intermináveis, dava-lhe forças para aprender e construir. Quando tudo o que ela queria era desistir e sentia-se indigna do que estava aprendendo e criando, era ele quem lhe dava forças e motivação para seguir em frente, e ele era o grande homem que sustentava a mulher incrível que ela havia se tornado não apenas aos olhos dos outros, mas internamente também. Ainda havia muito a se aperfeiçoar, mas os avanços haviam sido estupendos, graças a ele. Ele mostrara-lhe toda a beleza que ela esquecera e desconhecia, trouxe-lhe as mais belas histórias e os mais belos sentimentos, dando-lhe esperança e paz, quando tudo que havia nela era desolação e angústia. Ela abandonara Helsinki, abandonara sua antiga errônea e fútil vida para estar ao seu lado, e finalmente encontrara um lugar onde ela sentia-se em casa, sentia que pertencia à aquela casa que possuía um belíssimo lago depois do quintal. Ali era o seu lar, ao lado de Erkki.
Mais memorável ainda fora aquela noite em que ela estava perdida em Kitee, havia chegado há nada mais do que 15 minutos e se perdera logo ao sair do avião. Não conhecia essa cidade antes, mas alguns amigos seus moravam ali e convidaram-na para passar uns dias ali. Ela resolvera vir antes do combinado para aproveitar uns dias sozinha, e agora estava perdida e ainda por cima desolada. Parecia que, por mais que agora houvesse decidido por tentar arduamente reconstruir a sua vida, mesmo as mínimas coisas insistiam em dar errado. Nevava exatamente como naquela tarde, e as ruas estavam completamente desertas e brancas, e ela, sentindo-se completamente desiludida, começou a vaguear pelas ruas, as mochilas fazendo-lhe com que as costas doessem, os endereços mal podendo ser lidos na penumbra. Erkki surgira como que por um milagre. Eles haviam se conhecido há apenas algumas semanas, e já haviam gostado imensamente um do outro. Quando correram para cumprimentar-se, ela parecia tão aliviada o quanto alguém que tivesse levado um tiro e agora retirassem a bala. Ele assustou-se com a angústia dela e a assombrante delicadeza que a angústia acentuava em seu rosto redondo. Seus olhos escuros brilhavam em meio à neve, e ela ainda não percebia as reais razões de estar tão sinceramente feliz em vê-lo. Ele perguntou-lhe que diabos ela fazia perdida na neve, e ela pediu que ele a levasse a qualquer hotel. Ao invés disso, ele convidou-lhe a conhecer a aconchegante casa com um lago no quintal. Enquanto ela olhava fascinada como uma criança para o lago congelado, ele tirou-lhe uma foto polaróide. Ao invés de ficar brava, ela sorriu e ele abraçou-a, supostamente para mantê-la aquecida nos -19ºC daquela noite. Os olhos de lobo encontraram-se com os olhos castanhos, e logo ela conhecia o belo quarto dele, que logo seria seu também.
Era doloroso lembrar dos detalhes supostamente mais insignificantes, mas justamente por isso mais íntimos. Depois de transarem, era maravilhoso quando perdiam-se um nos olhos do outro e ela podia observar cada mílimetro, cada inspiração de Erkki, os olhos cinzentos, o cavanhaque loiro, a intensidade de seu olhar, os longos cabelos negros esparramados pelo travesseiro, misturados aos quase ruivos dela. Esqueciam-se de qualquer coisa que não fossem seus própios sentimentos naqueles momentos que por vezes duravam horas. Ele acariciava-lhe o rosto delicadamente, beijava-lhe, possuía-lhe da forma mais intensa. E não importava o quanto isso se repetisse, não perdia o seu valor. E era desesperador amar dessa forma.
Ela se afastou aos poucos, não sem que ele percebesse e se magoasse. A dor era clara nos olhos cinzentos de Erkki, e ela fingia não se importar, quando na verdade sufocava internamente. O problema é que ele era muito além do que ela jamais ousara sonhar, e quando você ganha muito além do que pediu, você pode fazer duas coisas: ou desconfiar ou morrer de medo de perder. Ela fez ambas tolamente, porque amava Erkki, e isso não era segredo algum, por mais que ela tentasse negar, disfarçar e reprimir de todas as formas possíveis. A dimensão dos sentimentos por Erkki e o significado que ele adquiria para ela eram imensos demais, profundos e belos demais para se suportar. E ela era apenas uma criança, no fundo. Assim como ele.
- Kirsi!
Ela foi tão violentamente acordada de seus devaneios que sequer lembrou-se de limpar as lágrimas. Erkki corria na neve em sua direção, sem sequer um casaco pesado, e mesmo de longe Kirsi podia ver a dor transformando seu belíssimo rosto. Ela tinha certeza que, apesar de não ser o tipo de coisa que ele normalmente faria, ele estava ali para lhe pedir que fosse definitivamente embora, e talvez até mesmo o divórcio. Eles haviam se casado na véspera de Natal, na data favorita deles - e esse era apenas mais um dos detalhes dolorosos que Kirsi carregaria junto com o seu arrependimento. Quando ele chegou perto dela, ofegante, ela levantou-se, olhando-o completamente desesperançosa, profundamente triste. Havia uma tristeza tão óbvia, tão sincera e profunda que, mesmo se Erkki houvesse vindo com outras intenções, ele sentiria-se profundamente tocado por sua expressão. Os olhos castanhos, outrora brilhantes e vivos mesmo no escuro, agora mal refletiam o brilho da claridade da neve que cobria todo o lugar. Incapaz de conter-se, ele segurou seu rosto entre as mãos com delicadeza e urgência. Ela assustou-se tanto com essa ternura completamente inesperada que por pouco não recuou, mas agora tinha consciência suficiente de quem Erkki era em sua vida para não cometer esse tipo de erro.
- Eu sei que você está assustada - começou ele, com sua voz de trovão -, mas você não tem a mínima razão para estar, acredite em mim. Eu já fui provavelmente tão magoado e traído o quanto você, mas também mantive meu coração e minhas intenções puras. Você não pode ter certeza quando olha em meus olhos? - ele agora parecia tão desolado o quanto ela, os olhos cinzentos cheios de lágrimas, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto de Kirsi. Ele prosseguiu, descendo as mãos para segurar as delas, que estavam congelando como de costume.
- Eu sei tão bem o quanto você como é duro acreditar em uma perfeição, em uma beleza pura, e depois descobrir que tudo é uma grande e suja mentira. Sei o quanto é difícil confiar depois de ilusões e mentiras. Mas nós dois sabemos que encontramos algo raríssimo, sabemos que somos verdadeiros. Não tente mentir para si mesma, fugir ou se enganar tão erroneamente. Lembra-se do quanto estávamos assustados quando começamos, o quanto ficamos assombrados com nossas profundas semelhanças, com nossas afinidades? - ela assentiu com a cabeça, feito uma criança magoada. Se não fosse tão inseguro, ele beijaria-a no mesmo instante. - Nós ficávamos madrugadas inteiras planejando um futuro juntos para nos acalmarmos e acredite, meu amor, eu quero realizar exatamente tudo o que planejamos. Já realizamos boa parte e eu quero seguir, porque você é o meu sonho, e eu não desistiria do que encontramos por nada, absolutamente nada - ele balançou a cabeça negativamente, olhando-a profundamente, e ela sentia-se como se ele a penetrasse por inteiro, como se ele pudesse ver cada sentimento dela. Ele falava grave e desesperadamente, mas ainda assim moderado. Suas lágrimas escorriam silenciosamente, e nem por isso ele parecia-lhe detestável ou sequer sensível demais. Ele era perfeito, a perfeição que ela jamais imaginara de fato existir, e ele lutava por ela sem se humilhar, mas sim com amor, com sinceridade. Ela conhecia-o bem demais para não saber que ele lhe dizia a verdade, e então ela abraçou-o fortemente, libertando toda dor, todo choro, toda angústia que a sufocava. Erkki, completamente aliviado, beijava-a repetidamente no rosto e apertava-a contra si, sentindo-a profundamente nele. Beijaram-se sob a neve, e ela era tão delicada quanto o amor que havia nos olhos dele. E o Sr. e a Sra.Lautämaki voltaram para a sua casa com um belo lago congelado, para comemorar um ano de casamento e do amor mais sincero que jamais poderiam ter de outra forma, aquele que os construía e mantinha-os belos e admiráveis como anjos.