Sem nem perceber o que fazia, ele entrou em sua cafeteria favorita, uma das poucas da cidade onde os cigarros ainda eram permitidos. Ele pediu um café sem açúcar e acendeu um cigarro, sentando-se numa mesa perto das belas janelas que davam para a avenida central. A cidade, mesmo nos dias ensolorados, parecia cinzenta dali, e ele gostava disso. De fato, gostava imensamente de dias cinzentos, apesar de quase ninguém mais fazer o mesmo.
A moça que lhe entregou o café olhou-o com curiosidade, parecendo avaliar a camisa amassada, os cabelos longos e as argolas. Ele pôde ler claramente o interesse em seus olhos. Sorriu-lhe então, e ela se afastou, entre tímida e lisonjeada. Gostava de fazer as mulheres sorrirem, mesmo as desinteressantes como aquela.
Dando um longa tragada, ele permitiu-se relaxar e olhar ao redor. Há muito tempo ele não tinha descanso, mas agora ele poderia cuidar um pouco de si próprio. Haviam algumas pessoas lendo, outras conversando, outras comendo apressadamente. Uma vez terminara com uma namorada naquele lugar, lembrava de súbito, mas não tinha importância. Aquele era o seu lugar favorito e ele não a amava. Era bom estar ali, tranquilamente, sem mais nenhuma preocupação, sem obrigações e compromissos. Era um homem livre, apenas por um dia, mas era.
Estranhamente, de alguns dias para cá, ele vinha sentindo a sua vida mudar lentamente. Vinha ouvindo outras bandas, lendo outros tipos de livros, conversando com outras pessoas, tudo num ritmo absolutamente natural e desconhecido. Sua rotina suavemente se transformava, como águas que simplesmente desviam seu curso natural, e aos poucos a luz infiltrava-se por baixo das portas, por todas as frestas possíveis. Ele até que tentava lutar contra, mas era tão bom que não valia a pena. Havia esperado tanto por uma leveza, por que não aceitá-la? O bom era que agora ele poderia ficar sozinho por um longo tempo, poderia refletir sobre tudo isso e colocar sua vida em ordem, na verdade, apenas tentar organizá-la, pois algo sempre curiosa e graciosamente escapava de seu controle, desviava de seu curso pré-destinado, tanto que sua vida nunca se tornava no que era esperado que fosse se tornar em algum tempo. Ele sabia que a beleza é ilusória, a dor cruel e suja. Lenta. Como um pingo d'água caindo por anos exatamente no mesmo lugar, sem trégua. E sabia que não há cura, sabia bem. Acreditava ser quase ridículo acreditar que as coisas possam mudar para melhor, de fato, as coisas nunca mudam. O escapismo ajuda mas não soluciona, fingir força destrói mais do que se entregar. Mas apesar de tudo isso, contrariando toda a lógica e toda a desesperança, as coisas se tornavam leves e claras como uma brisa repentina.
Na verdade, ele não estava muito preocupado com isso agora. Via um menino que, muito sério, com seus óculos de grau de armação redondas e antiquadas escorregando-lhe pelo nariz o tempo todo, parecia extremamente concentrado em problemas matemáticos, o suco e o sanduíche esquecidos ao lado dos cadernos. O menino fez com que ele se lembrasse de si próprio naquela idade, ele também usava camisetas grandes demais para sua magreza e meninice, também usava óculos, também estudava silenciosamente numa cafeteria. Era tão bom preocupar-se apenas com a nota de matemática, viver sem nenhuma merda existencial torturando-lhe cotidianamente. Mas os tempos haviam passado, ele era um homem agora, um homem que, ao invés de ler livros de aventura e resolver problemas de matemática, lia Sartre e escrevia para descobrir respostas que nunca viriam. Ainda assim, uma ternura calma e quente apossou-se dele naquele instante: a mansidão dos dias sem surpresas que um dia vivera, uma outra vida, onde havia uma paz triste que ele sempre gostara. Repentinamente percebeu que a paz triste era quem se infiltrava em sua vida, como não havia percebido? O menino levantou a cabeça, quase incomodado por olharem-no tão fixamente. Ele sorriu para o menino, que não teve tempo de decidir se lhe sorria de volta ou não, pois ele já saía da cafeteria, caminhando tranquilamente pelas ruas relativamente movimentadas da cidade. Caminhava para seu velho apartamento, seus velhos dias, sua velha calmaria de um cotidiano sem surpresas e sem dores. Sem mais dores.
A moça que lhe entregou o café olhou-o com curiosidade, parecendo avaliar a camisa amassada, os cabelos longos e as argolas. Ele pôde ler claramente o interesse em seus olhos. Sorriu-lhe então, e ela se afastou, entre tímida e lisonjeada. Gostava de fazer as mulheres sorrirem, mesmo as desinteressantes como aquela.
Dando um longa tragada, ele permitiu-se relaxar e olhar ao redor. Há muito tempo ele não tinha descanso, mas agora ele poderia cuidar um pouco de si próprio. Haviam algumas pessoas lendo, outras conversando, outras comendo apressadamente. Uma vez terminara com uma namorada naquele lugar, lembrava de súbito, mas não tinha importância. Aquele era o seu lugar favorito e ele não a amava. Era bom estar ali, tranquilamente, sem mais nenhuma preocupação, sem obrigações e compromissos. Era um homem livre, apenas por um dia, mas era.
Estranhamente, de alguns dias para cá, ele vinha sentindo a sua vida mudar lentamente. Vinha ouvindo outras bandas, lendo outros tipos de livros, conversando com outras pessoas, tudo num ritmo absolutamente natural e desconhecido. Sua rotina suavemente se transformava, como águas que simplesmente desviam seu curso natural, e aos poucos a luz infiltrava-se por baixo das portas, por todas as frestas possíveis. Ele até que tentava lutar contra, mas era tão bom que não valia a pena. Havia esperado tanto por uma leveza, por que não aceitá-la? O bom era que agora ele poderia ficar sozinho por um longo tempo, poderia refletir sobre tudo isso e colocar sua vida em ordem, na verdade, apenas tentar organizá-la, pois algo sempre curiosa e graciosamente escapava de seu controle, desviava de seu curso pré-destinado, tanto que sua vida nunca se tornava no que era esperado que fosse se tornar em algum tempo. Ele sabia que a beleza é ilusória, a dor cruel e suja. Lenta. Como um pingo d'água caindo por anos exatamente no mesmo lugar, sem trégua. E sabia que não há cura, sabia bem. Acreditava ser quase ridículo acreditar que as coisas possam mudar para melhor, de fato, as coisas nunca mudam. O escapismo ajuda mas não soluciona, fingir força destrói mais do que se entregar. Mas apesar de tudo isso, contrariando toda a lógica e toda a desesperança, as coisas se tornavam leves e claras como uma brisa repentina.
Na verdade, ele não estava muito preocupado com isso agora. Via um menino que, muito sério, com seus óculos de grau de armação redondas e antiquadas escorregando-lhe pelo nariz o tempo todo, parecia extremamente concentrado em problemas matemáticos, o suco e o sanduíche esquecidos ao lado dos cadernos. O menino fez com que ele se lembrasse de si próprio naquela idade, ele também usava camisetas grandes demais para sua magreza e meninice, também usava óculos, também estudava silenciosamente numa cafeteria. Era tão bom preocupar-se apenas com a nota de matemática, viver sem nenhuma merda existencial torturando-lhe cotidianamente. Mas os tempos haviam passado, ele era um homem agora, um homem que, ao invés de ler livros de aventura e resolver problemas de matemática, lia Sartre e escrevia para descobrir respostas que nunca viriam. Ainda assim, uma ternura calma e quente apossou-se dele naquele instante: a mansidão dos dias sem surpresas que um dia vivera, uma outra vida, onde havia uma paz triste que ele sempre gostara. Repentinamente percebeu que a paz triste era quem se infiltrava em sua vida, como não havia percebido? O menino levantou a cabeça, quase incomodado por olharem-no tão fixamente. Ele sorriu para o menino, que não teve tempo de decidir se lhe sorria de volta ou não, pois ele já saía da cafeteria, caminhando tranquilamente pelas ruas relativamente movimentadas da cidade. Caminhava para seu velho apartamento, seus velhos dias, sua velha calmaria de um cotidiano sem surpresas e sem dores. Sem mais dores.
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