Eu percebi que a jornada acabou,
Percebi que a vida é sóbria
Shallow Life - Lacuna Coil
Dessa vez, o hotel era de uma qualidade melhor, pelo menos. Gabrielle puxou contra o corpo o sobretudo preto e subiu a enorme escadaria que levava em direção ao sétimo andar. Era um prédio escuro e antigo, no subúrbio de Seattle. Sentia-se extremamente aflita, porque dessa vez ela nem sequer procurara ajuda, já estava se entregando por completo. Respirou fundo antes de entrar no 707, mas como imaginava, a porta estava destrancada.
O quarto era uma bagunça ainda maior do que a que havia sido há cerca de um ano atrás. Agora haviam muito mais carteiras de cigarros vazias, cinzeiros transbordantes, garrafas vazias de vodka e whiskey. O espaço era amplo mas entulhado de coisas; livros jaziam por todos os lados e até mesmo um contrabaixo elétrico repousava de encontro à parede. Instantaneamente, reconheceu o baixo e soube quem estivera ali com ela. Já havia ido longe demais.
Gabrielle estava brava, mas esqueceu-se completamente disso ao vê-la adormecida na cama. A luz da manhã entrava fracamente no quarto, incidindo diretamente sobre o rosto redondo e de traços finos de Gabriella. Os longos cabelos ruivos se espalhavam pelo travesseiro, e o lençol deixava a descoberto os seios brancos e delicados. Dormia com uma expressão séria, quase como se estivesse concentrada em um problema matemático. Uma onda inesperada de ternura e desejo invadiu Gabrielle, e então sem pensar mais, ela tirou o sobretudo e subiu na cama. Gabriella continuou dormindo, então ela foi, aos poucos, subindo até conseguir beijar um dos mamilos rosados. Gabriella então pareceu despertar com um sorriso no rosto. Quando abriu preguiçosamente os olhos, porém levou um susto.
- Gabrielle! Mas que dia...
Ela não respondeu, calando Gabriella com um beijo intenso, que resumia o desejo reprimido durante os meses de ausência. O gosto de cigarro e whiskey ainda persistia na boca avermelhada e perfeitamente desenhada de Gabriella, e ela adorava profundamente isso. O beijo ia intensificando-se, quando Gabrielle se afastou abruptamente, fazendo com que a outra a olhasse, confusa.
- Eu não vim aqui para isso, não posso perder o foco - disse, quase ofegante, fazendo Gabriella rir.
- E desde quando você vem para outra coisa?
- É sério, Gab, é sério - falou ela, atirando os longos cabelos negros para trás. - Você andou se metendo com ele outra vez?
- Com ele quem?
- Você sabe, o Dan.
- Ah sim sim - Gabriella sorriu, acendendo um cigarro. - Até achei que ele estivesse aqui ainda, mas pelo jeito foi comprar comida, ou cigarros. Não sei.
- Por que você se entregou outra vez?
- Porque sim. Ele me faz bem. E eu não podia resistir com ele tão perto.
- Se ele te fizesse bem eu não teria vindo de tão longe para falar com você. Você voltou a fumar e a beber e se entregou de vez, não é mesmo? Por que desistiu de lutar?
- Ah não, não me venha com perguntas difíceis- Gabriella levantou-se dando uma longa tragada em seu cigarro. A nudez dela ainda deixava Gabrielle sem fôlego, mas mesmo assim ela conseguiu prosseguir:
- Você me prometeu que lutaria até o fim. Por que se entregar assim, tão facilmente? Basta um par de olhos verdes e você deixa tudo desmoronar? Você havia construído tudo, e agora vai deixar tudo se esvair tão facilmente?
- Você está sendo cruel e leviana - respondeu Gabriella, a voz repentinamente grave, caminhando pelo quarto, fumando demoradamente. - Não, não foi facilmente que eu me entreguei. Foram sucessivas angústias. Eu não tenho mais forças para seguir lutando, entende? Então eu caí. Mas não quero me destruir outra vez, não quero desistir de todo e qualquer prazer. Quero ao menos ter algo que valha à pena.
- E você realmente acredita que vale à pena se entregar a ele e à essa vida desregrada?
- Não necessariamente, mas não tenho mais escolha. Não tenho estrutura para uma vida normal, nunca tive. Você se lembra do quanto eu estava destruída pela vida normal quando te conheci. E me libertar me trouxe força.
Gabrielle respirou fundo. É claro que lembrava de como ela era quando a conhecera. Não passava de uma menina, tinha apenas 12 anos, mas já carregava beleza e dor em todo o seu ser. Os lisos cabelos ruivos eram ainda mais longos, o corpo mais magro e com curvas ainda indefinidas, mas as esperanças e sonhos já haviam se quebrado. Sim, os olhos castanhos já demonstravam dor e desilusão, desolação. Lembrava-se do toque da boca inexperiente mas surpreendetemente habilidosa, das mãos de longos dedos brancos a tocar-lhe com receio e desejo mas, mais do que tudo isso, lembrava-se da entrega completa, entrega da qual só Gabriella parecia ser capaz. Por isso, amava-a.
- Você não precisa se entregar tão plenamente, meu amor. Você não precisa viver tão intensamente, existir através da dor. Você já foi feliz e era lindo de se ver.
- Não sei viver de outra maneira, só sei me entregar por inteiro, e agora é tarde. Em algum momento, eu sei, ainda havia escolha, ainda havia como recuar, mas nem eu nem ele fomos fortes o suficiente para parar e pesar as implicações disso tudo. Não, nós nos entregamos por inteiro e agora nos despedaçamos. A escolha já foi feita. Agora é só juntar os cacos, é a única coisa que nos resta.
Sem dizer nada, Gabrielle simplesmente foi até ela e a abraçou por trás, aspirando profundamente o cheiro de seus cabelos. Gabriella fez-lhe carinho nos braços, fechando os olhos, resignando-se à sua dor.
- Você é linda - sussurrou Gabrielle - profundamente linda, em todos os sentidos. Lembra que a sua felicidade me contagiou e eu me senti forte outra vez? Pois bem, você tem de ter esperança, meu amor. Sei que você vai insistir nessa entrega, mesmo que doa tanto, porque você já se abriu por inteiro e reconheço o quanto isso é irremediável. Eu vou partir agora, mas se você se sentir forte o suficiente para me procurar outra vez, você sabe onde me encontrar. No fundo, eu sei que você talvez encontre um jeito de lutar mesmo ao lado dele. Eu acredito nisso. Mas não me peça, jamais para parar de te amar, porque nesses cinco anos foi só o que eu soube fazer.
Gabriella sorriu por entre as lágrimas e, virando-se de frente, beijou delicadamente Gabrielle nos lábios. Ambas sorriram, limpando as lágrimas uma da outra. Cair e construir outra vez havia se tornado o ritmo natural na vida delas, e continuaria sendo assim eternamente, elas sabiam. Mas tinham o seu amor e por hora, isso bastaria. Gabrielle partiu em silêncio, deixando-a sorrindo no quarto bagunçado. Não se forçaria a lutar, não tinha forças para isso, mas iria resistir. Sim, iria resistir e continuar amando. Porque era a única coisa que lhe devolvia a leveza e a inocência. Ouviu um barulho na porta, ele havia chegado com cigarros e girassóis. Era tempo de se perder nos olhos verdes de novo, e finalmente, isso podia ser verdadeiramente bom.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
A.F.
Pergunto-me qual foi o momento em que a inocência se esvaiu. Em qual acorde, qual lágrima amarga? O tempo, de fato, é um abismo. Havia tanta pureza, tanta força - e repentinamente nada. Havia esperança também, e esta parecia inesgotável. Sei que muitas vezes a dor torna as pessoas admiráveis, mas a que preço? Viver sem esperança e inocência não é exatamente um presente divino, e só quem já foi bem fundo sabe disso. Mas parece que sempre se pode afundar mais, o fundo do poço é feito de areia movediça.
Qual o verdadeiro sentido de continuar, se tudo acaba mudando e sempre acabamos caindo outra vez? É fácil dizer que os bons tempos pagam toda a dor, mas quem está se afogando precisa de oxigênio e não de lembranças. Existe sempre uma voz nos dizendo que temos de continuar, de nos salvarmos de qualquer jeito, mas não vejo porque se levantar para cair outra vez. Otimismo é hipocrisia, todo mundo sabe que a linha que divide o topo e o fundo é extremamente tênue. Batalhar arduamente sempre, construir uma beleza inventada, e que resultado? Nenhum. A angústia permanece. Lenta e corrosiva, ela até se disfarça de esperança às vezes, só para depois se mostrar ainda mais cruel e excruciante. Aos poucos, o que resta é apenas um fantasma pálido e apático, sem forças sequer para morrer. A voz continua insistindo, gritando para que se resista, nem que seja por mais uma semana, por mais uma noite. Mas o tempo se esvai e a dor se acumula, se acumulam os arrependimentos, as mutilações, os abortos. Toda demonstração de força é na verdade um grito mudo de socorro, mas ninguém percebe. Não. Nunca quis me tornar tão sombria, tão densa, mas a leveza se perdeu, certamente nas decepções, nos meus própios erros.
Mas por fim, restam os olhos castanhos, o abraço profundo. Sim, é o único que permanece, sempre aberto, sempre verdadeiro. Teus gritos se tornam os meus e me perco em teus braços, teus longos cabelos castanhos. E respiro outra vez - porque você permanece.
Qual o verdadeiro sentido de continuar, se tudo acaba mudando e sempre acabamos caindo outra vez? É fácil dizer que os bons tempos pagam toda a dor, mas quem está se afogando precisa de oxigênio e não de lembranças. Existe sempre uma voz nos dizendo que temos de continuar, de nos salvarmos de qualquer jeito, mas não vejo porque se levantar para cair outra vez. Otimismo é hipocrisia, todo mundo sabe que a linha que divide o topo e o fundo é extremamente tênue. Batalhar arduamente sempre, construir uma beleza inventada, e que resultado? Nenhum. A angústia permanece. Lenta e corrosiva, ela até se disfarça de esperança às vezes, só para depois se mostrar ainda mais cruel e excruciante. Aos poucos, o que resta é apenas um fantasma pálido e apático, sem forças sequer para morrer. A voz continua insistindo, gritando para que se resista, nem que seja por mais uma semana, por mais uma noite. Mas o tempo se esvai e a dor se acumula, se acumulam os arrependimentos, as mutilações, os abortos. Toda demonstração de força é na verdade um grito mudo de socorro, mas ninguém percebe. Não. Nunca quis me tornar tão sombria, tão densa, mas a leveza se perdeu, certamente nas decepções, nos meus própios erros.
Mas por fim, restam os olhos castanhos, o abraço profundo. Sim, é o único que permanece, sempre aberto, sempre verdadeiro. Teus gritos se tornam os meus e me perco em teus braços, teus longos cabelos castanhos. E respiro outra vez - porque você permanece.
Entwined.
Quando chego, já está me esperando. Sei que apenas não sorri porque sabe que estou debilitado, mas apesar de seu ar grave seus olhos castanhos brilham ao me rever. Olha-me com preocupação e então me oferece abrigo em seus braços, que aceito como o melhor alento. Em teus braços deixo toda a minha angústia se esvair através de minhas sentidas lágrimas. Fica em silêncio, enquanto me acaricia o cabelo e me beija no topo da cabeça, sem jamais se afastar sequer um milímetro. Permaneço então ali contigo, e aos poucos tua presença segura e constante me alivia o peso de estar vivo. Permite-me ficar num silêncio profundo, até que eu próprio te peça para falar ou cantar, que deixe-me ouvir a sua voz até que o sono traga mais algum alívio. Sempre obedece prontamente, e me conta banalidades com sua voz rouca de homem maduro enquanto me faz cafuné, e então adormeço em seus braços. Amanheço disposto a exorcizar todos os meus demônios, e te digo tudo que aguardou pacientemente para saber. Então me diz o que devo fazer, e cuida de mim com o mesmo afeto simples e dedicado que me trata quando chego: me faz sentir melhor sem questionar qualquer ponto que possa ter ficado obscuro e me mima a ponto de eu me sentir novamente digno de ser amado. E então, eu respiro fundo, digo que recomeçarei dando o melhor de mim e você me diz que estará comigo. Dedica-me então todos os teus cuidados, com um amor simples, dedicado e puramente altruísta. Mas então eu parto outra vez...E me espera com a mesma paciência, pois sabe que cedo ou tarde eu voltarei. E então eu volto.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Wasted Heart.
Dando uma tragada profunda, ele se levantou da cama onde estivera deitado pelas últimas horas para atender a porta. Estranhamente, não se sentia desolado naquela madrugada, mesmo que tivesse ficado em casa e os tempos fossem difíceis. Ele estava completamente sem dinheiro e desacreditado, as únicas coisas boas que ainda lhe restavam eram dois maços de Marlboro e uma garrafa pela metade de Jack Daniel's. Nunca fora um cara de sorte, de qualquer forma. Mas pelo menos sempre tivera amigos, e sempre tivera a quem amar, mesmo que à distância. Animou-se então, a caminho da porta. Poderia ser ela, afinal de contas. Sempre poderia.
Sem coragem de olhar antes pelo olho mágico, ele abriu a porta num ímpeto, assustando-a, mas logo a fazendo rir. Sim, era ela. Apesar de estar rindo, parecia ter chorado. Sem dizer nada, ele a abraçou fortemente. Ela correspondeu com mais intensidade do que geralmente o fazia.
- Como você está? - sussurrou ela, sem largá-lo. A voz baixa e perto de seu ouvido causava-lhe coisas que ele ficava grato por ela não saber.
- Indo, não é mesmo? - respondeu ele, com um sorriso forçado, enquanto ela entrava e ele fechava a porta. Ele parou, observando-a. Ela largou a bolsa e acendeu um dos cigarros dele. Deu uma longa tragada, a aliança parecendo reluzir na mão esquerda. Ela era tão jovem, tão linda - por que diabos havia então se casado com um homem tão violento, tão diferente dela? Ele só compreendia porque sabia que ela amava o marido profundamente, sabia que ela sempre sonhara com isso. Mas isso nunca o impediu de amá-la.
- O que foi? - perguntou ela. - Eu vim aqui para te ouvir desabafar, achei que você não queria ficar me assistindo fumar apenas.
- Não não, é claro que não - apressou-se ele a sentar-se ao lado dela, ajeitando seus própios cabelos crespos, longos e loiros que lhe caíam sobre o rosto. - Não acredito que você esteja aqui.
- Nem eu. Ele ficaria furioso e teria mais um ataque se soubesse disso, mas no fim ele vai ter de aceitar que você também é importante para mim, muito importante - ela sorriu, com naturalidade. Ele ficou paralisado diante das palavras dela.
- Muito importante? - repetiu, ainda abismado.
- É claro, por que a surpresa? - ela riu, mas logo parou ao perceber a gravidade do olhar dele. Assumiu também uma gravidade, uma intensidade inesperada. - É claro que você é muito importante. Você esteve comigo o tempo todo, passamos pelas maiores merdas e por muita coisa boa juntos. Você foi quem esteve lá por mim quando eu caí e não queria mais levantar, ficou do meu lado mesmo quando eu estava fazendo besteira. Você cuidou de mim despretensiosamente, e isso não tem preço.
Ele não conseguiu responder, tanto por não ter palavras, tanto por não ter coragem de dizer-lhe a verdade. Como revelar que a amara desde sempre? Ela tinha uma vida completamente alheia a ele, tinha seu casamento, seus estudos, sua vida, enfim. E ele se afastava cada vez mais, tendo outros compromissos, levando uma vida longe da dela. Mas ainda assim, nada nele mudava. Vira-a crescer e amar imensamente aquele que sempre fora um de seus melhores amigos, e agora que ele havia lhe virado as costas, ela continuava ali. Mesmo com o risco de perder o homem que amava, ali estava ela, simplesmente porque ele parecia precisar dela. Isso também não tinha preço.
Mas o que ele não sabia era que ela também tinha esse amor reprimido, silenciado pelos sonhos errôneos. Não era, como ele pensava, pura imaginação o brilho no olhar dela. Desde quando anunciara que estava com um de seus melhores amigos, ela viu a mudança, a decepção nele. E percebera o real significado disso. Só não esperava que a confirmação de suas suspeitas pudesse afetá-la tão profundamente.
As mesmas lembranças simples e belas atormentavam a mente de ambos. Madrugadas insones e dolorosas, noites bêbados e sentindo-se donos do mundo, dias de ressaca, dias de diversão, dias de dedicação... Enfim, tudo o que passaram juntos. No fim das contas, haviam passado anos praticamente vivendo juntos e nem se deram por conta do que isso lhes causava. Até aquele instante, até aquele momento suspenso no tempo. Os olhos verdes brilhavam tanto quanto os castanhos e nada mais brilhava na penumbra do quarto vagabundo de hotel. Estavam a milímetros de distância um do outro, e mal ousavam respirar - sabiam que um movimento mínimo em falso poderia causar uma reação em cadeira irreversível. Apesar de ser o que mais queriam, não conseguiam se mover, agir por fim. Sabiam que era um passo muito maior do que podiam medir, com implicações eternas. Nada mais seria o mesmo se avançassem, mas também já haviam ido longe demais para recuar.
Há anos eles se sentiam assim. A vida havia mudado várias vezes para ambos mas a ligação perdurava, era a única coisa que ainda resistia apesar de todo o resto. Ele já havia desperdiçado tempo demais, repentinamente se dava por conta disso. Já havia desperdiçado 15 dos seus 46 anos tentando conviver com a dor de não possuí-la por inteiro. Sem hesitar mais, ele se aproximou e ela, apesar de se assustar, não recuou. Não recuou porque sabia que finalmente havia chegado o momento do fim de tanto tempo desperdiçado, de pôr fim à série de erros futéis e desnecessários que eles haviam cometido procurando em outros a cumplicidade que só poderiam encontrar um no outro. Então, os lábios, irremediavelmente se tocaram. E a eternidade finalmente parecia ter começado.
domingo, 29 de agosto de 2010
Permanecer.
Repentinamente, em meio à toda terrível angústia, a música começou em sua mente. Primeiro os violinos, e logo a linda voz, o mais perfeito canto lírico. Soprano. Não precisava tomar uma decisão, automaticamente ia se dirigindo à praia. Precisava do oceano outra vez - ou melhor, tomava consciência dessa necessidade outra vez.
Havia virado um clichê se vestir de branco ao procurar o mar? Não importava. Haviam banalizado tantas coisas maravilhosas, afinal de contas, e elas não perdiam seu verdadeiro valor por isso, não para aqueles que sabiam seu real valor. Ela não se importava, definitivamente, com a banalização do que havia de mais belo. Usava seu vestido branco como se essa ideia fosse apenas e unicamente sua, e de fato, era uma necessidade própia dela.
O mar estava agitado e a noite, completamente sem estrelas. O mar revolto parecia reclamar sua ausência por tanto tempo, mas ela estava de volta, definitivamente. Não se demorou muito olhando o mar, foi direto à pedra onde costumava passar horas olhando o mar. Com uma certa dificuldade, conseguiu escalar a pedra e finalmente viu-se de pé sobre ela, tendo uma visão plena do oceano revolto e quase negro à sua frente. A sua visão. Inesperadamente, sentiu sua pulsação aumentar, seus olhos se tornarem nebulosos. Ali era seu lugar, ali estava perfeitamente segura - por que se permitira ir além disso? Por que buscara uma vida comum, se só podia ser forte dessa forma e sabia disso? Quando as respostas para essas perguntas ameaçaram vir e destruí-la, ela viu, ao longe, um vulto que se aproximava. Reconheceu prontamente, mas teve medo de acreditar que era real. Mas aos poucos sim, se tornava verdade sua boa suspeita.
Usava um longo vestido vermelho. Ela continuava tão linda o quanto sempre fora, e aproximava-se com um sorriso maternal. Os longos cabelos negros pareciam um véu voando livremente, e a pele clara se tornava quase espectral sob o luar. De longe, podia-se distinguir os olhos verdes brilhando, enquanto, com os braços abertos, ela corria até a menina sobre a pedra. Logo se encontraram e se abraçaram longamente, a mulher beijando os cabelos da menina maternalmente.
- Finalmente você veio - falou ela, com alegria. - Finalmente! Nós todos sentimos tanto a sua falta que você não pode imaginar. Lembra o quanto eu te chamava da primeira vez em que você caiu, e o quanto você sofreu por me ignorar? Bom, não importa, o Poeta conseguiu te chamar e você agora costuma me ouvir. Deixe-me te ver.
A mulher rapidamente se afastou e olhou cada mínimo detalhe da menina, como se procurasse um mínimo arranhão que fosse. Balançou a cabeça negativamente, com um olhar preocupado:
- Não, você não deveria estar assim, minha querida. Você tem olheiras e perdeu peso, e seus olhos já não brilham como antes. Você estava segura em casa, por que foi procurar por tudo isso? Ah sim, sua eterna insatisfação. Pois bem mocinha, isso está completamente acabado! Você disse que antes que voltasse a nevar você estaria em casa de novo, e daqui uns dias você...
O falatório quase asmático foi interrompido por uma risada. Uma risada alegre e quente, cheia de vida. Uma risada como há tempos a menina não dava. A mulher esqueceu-se de toda sua raiva maternal e riu também, olhando-a amorosamente. Sim, ali estava sua menina, e ainda havia alguma força nela.
- Calma, eu não estou tão mal o quanto aparento. Quero dizer, eu acho, pelo menos. Eu vou voltar para casa com você, sim, e prometo tentar permanecer dessa vez. Já percebi que é a única forma de me manter forte. Eu preciso de você e deles para me suster da melhor forma. Eu estou desmoronando, e não vou aguentar mais nenhum dia longe de casa.
Os olhos da mulher se encheram de lágrimas e ela abraçou a menina, puxando-a fortemente contra si. Estava disposta, como das outras vezes em que a menina aparecera ali novamente, a tentar convencê-la a voltar, mas jamais esperava que ela própia tomasse consciência da necessidade disso tudo. Sorriu alegre, emocionada, aliviada: agora sim eles poderiam salvá-la.
-E...E o que acontece se eu não conseguir? - sussurrou a menina, de fato agora aparentando ser uma menininha assustada. - Quero dizer, e se eu tiver de fato perdido a minha força, a minha capacidade de ver a beleza de tudo?
-Nós duas sabemos bem que você pode se recuperar. Lembra que você passou um ano inteiro longe e se recuperou totalmente? Todos nós acreditamos em você, pequena, e nós estaremos com você. Você não se corrompeu por coisas tão piores, vai deixar que isso te corrompa agora? Depois de tudo que você já construiu?
- Não. Mas eu preciso de ajuda.
As duas se olharam e com um sorriso, deram as mãos e desceram da pedra. Foram caminhando em silêncio pela praia, finalmente voltando para casa. A mulher sabia que a menina iria se recuperar, por mais que pudesse demorar, sabia que sua força de vontade aliada aos cuidados de todos acabaria por dar bons resultados. A menina estava grave e ansiosa, realmente receava ter perdido sua capacidade de acreditar na beleza do mundo e em sua própia capacidade de construir sua força, mas tentaria. Acreditaria no Poeta e em toda beleza desse mundo, apesar de todo e qualquer apesar. E pela primeira vez em toda a sua vida, tentaria o mais difícil: permanecer, de uma vez por todas. E quem sabe? Já conseguira tantas coisas nos últimos tempos que bem no fundo, ainda acreditava em si mesma. Sorriu então, para a mulher e para si mesma. Iria permanecer, sim. Enquanto fosse forte o suficiente.
Havia virado um clichê se vestir de branco ao procurar o mar? Não importava. Haviam banalizado tantas coisas maravilhosas, afinal de contas, e elas não perdiam seu verdadeiro valor por isso, não para aqueles que sabiam seu real valor. Ela não se importava, definitivamente, com a banalização do que havia de mais belo. Usava seu vestido branco como se essa ideia fosse apenas e unicamente sua, e de fato, era uma necessidade própia dela.
O mar estava agitado e a noite, completamente sem estrelas. O mar revolto parecia reclamar sua ausência por tanto tempo, mas ela estava de volta, definitivamente. Não se demorou muito olhando o mar, foi direto à pedra onde costumava passar horas olhando o mar. Com uma certa dificuldade, conseguiu escalar a pedra e finalmente viu-se de pé sobre ela, tendo uma visão plena do oceano revolto e quase negro à sua frente. A sua visão. Inesperadamente, sentiu sua pulsação aumentar, seus olhos se tornarem nebulosos. Ali era seu lugar, ali estava perfeitamente segura - por que se permitira ir além disso? Por que buscara uma vida comum, se só podia ser forte dessa forma e sabia disso? Quando as respostas para essas perguntas ameaçaram vir e destruí-la, ela viu, ao longe, um vulto que se aproximava. Reconheceu prontamente, mas teve medo de acreditar que era real. Mas aos poucos sim, se tornava verdade sua boa suspeita.
Usava um longo vestido vermelho. Ela continuava tão linda o quanto sempre fora, e aproximava-se com um sorriso maternal. Os longos cabelos negros pareciam um véu voando livremente, e a pele clara se tornava quase espectral sob o luar. De longe, podia-se distinguir os olhos verdes brilhando, enquanto, com os braços abertos, ela corria até a menina sobre a pedra. Logo se encontraram e se abraçaram longamente, a mulher beijando os cabelos da menina maternalmente.
- Finalmente você veio - falou ela, com alegria. - Finalmente! Nós todos sentimos tanto a sua falta que você não pode imaginar. Lembra o quanto eu te chamava da primeira vez em que você caiu, e o quanto você sofreu por me ignorar? Bom, não importa, o Poeta conseguiu te chamar e você agora costuma me ouvir. Deixe-me te ver.
A mulher rapidamente se afastou e olhou cada mínimo detalhe da menina, como se procurasse um mínimo arranhão que fosse. Balançou a cabeça negativamente, com um olhar preocupado:
- Não, você não deveria estar assim, minha querida. Você tem olheiras e perdeu peso, e seus olhos já não brilham como antes. Você estava segura em casa, por que foi procurar por tudo isso? Ah sim, sua eterna insatisfação. Pois bem mocinha, isso está completamente acabado! Você disse que antes que voltasse a nevar você estaria em casa de novo, e daqui uns dias você...
O falatório quase asmático foi interrompido por uma risada. Uma risada alegre e quente, cheia de vida. Uma risada como há tempos a menina não dava. A mulher esqueceu-se de toda sua raiva maternal e riu também, olhando-a amorosamente. Sim, ali estava sua menina, e ainda havia alguma força nela.
- Calma, eu não estou tão mal o quanto aparento. Quero dizer, eu acho, pelo menos. Eu vou voltar para casa com você, sim, e prometo tentar permanecer dessa vez. Já percebi que é a única forma de me manter forte. Eu preciso de você e deles para me suster da melhor forma. Eu estou desmoronando, e não vou aguentar mais nenhum dia longe de casa.
Os olhos da mulher se encheram de lágrimas e ela abraçou a menina, puxando-a fortemente contra si. Estava disposta, como das outras vezes em que a menina aparecera ali novamente, a tentar convencê-la a voltar, mas jamais esperava que ela própia tomasse consciência da necessidade disso tudo. Sorriu alegre, emocionada, aliviada: agora sim eles poderiam salvá-la.
-E...E o que acontece se eu não conseguir? - sussurrou a menina, de fato agora aparentando ser uma menininha assustada. - Quero dizer, e se eu tiver de fato perdido a minha força, a minha capacidade de ver a beleza de tudo?
-Nós duas sabemos bem que você pode se recuperar. Lembra que você passou um ano inteiro longe e se recuperou totalmente? Todos nós acreditamos em você, pequena, e nós estaremos com você. Você não se corrompeu por coisas tão piores, vai deixar que isso te corrompa agora? Depois de tudo que você já construiu?
- Não. Mas eu preciso de ajuda.
As duas se olharam e com um sorriso, deram as mãos e desceram da pedra. Foram caminhando em silêncio pela praia, finalmente voltando para casa. A mulher sabia que a menina iria se recuperar, por mais que pudesse demorar, sabia que sua força de vontade aliada aos cuidados de todos acabaria por dar bons resultados. A menina estava grave e ansiosa, realmente receava ter perdido sua capacidade de acreditar na beleza do mundo e em sua própia capacidade de construir sua força, mas tentaria. Acreditaria no Poeta e em toda beleza desse mundo, apesar de todo e qualquer apesar. E pela primeira vez em toda a sua vida, tentaria o mais difícil: permanecer, de uma vez por todas. E quem sabe? Já conseguira tantas coisas nos últimos tempos que bem no fundo, ainda acreditava em si mesma. Sorriu então, para a mulher e para si mesma. Iria permanecer, sim. Enquanto fosse forte o suficiente.
sábado, 28 de agosto de 2010
Diálogo
- Não compreendo como você consegue se manter tão forte. Quero dizer, um dia você estava desmoronando como eu nunca havia visto antes e repentinamente você tem uma vida outra vez.
- Não é que eu tenha força, sabe. É só que eu me arrasto através dos dias e sempre arranjo uma desculpa qualquer para continuar vivendo, apesar de tudo. Acho que a beleza de tudo também me ajuda muito. Ele se redime quando penetra em mim com aqueles olhos tão lindos. Ele sofre também, você sabe disso, ou melhor, foi você mesma quem me contou.
- Sim, é inegável que vocês dois estão sofrendo. E isso me parece tão errado que eu tenho vontade de matá-lo! Desperdiçar uma oportunidade incrível dessas? Ainda bem que ele própio diz que perdeu a oportunidade da vida dele.
- Calma, essa revolta não leva a lugar algum. Você sabe bem que eu não senti raiva dele em momento algum, talvez no máximo indiferença. Não, eu não seria capaz de um sentimento tão mesquinho contra ele, não com tudo o que ele representou em minha vida. Você percebe que ele me fez ter os sonhos mais belos? Percebe que ele me amou silenciosamente e me permitiu amá-lo demoradamente com meus olhos, exatamente como eu tanto gosto?
- Não, isso não pode ser suficiente! Não sei como diabos você consegue viver com isso.
- Nem eu sei.
- Pois é, disso que eu estou falando. Apesar de toda dor você ainda consegue sorrir ao falar dele e seus olhos ainda se iluminam. Você ainda tem esse carinho, essa calma.
- O caso é que carinho não se acaba fácil assim. Se eu fosse apaixonada por ele tudo seria imensamente mais fácil, ia doer no começo mas então eu me convenceria a odiá-lo e então eu iria desprezá-lo pelo resto dos meus dias, mas não. Eu inventei de querer algo mais belo, mais certo e consequentemente mais profundo e duradouro. Quando você se entregar completamente a um sentimento puro e despretensioso, vai entender como eu me sinto. Por isso que ele dói tanto em mim, porque eu me entreguei profundamente e agora eu me sinto sem chão. Não sei que rumo minha vida toma agora, não sei como vou viver com tudo isso. Mas acho que vou achar um jeito, eu tenho que me salvar de qualquer forma. Porque talvez haja ainda alguma esperança no futuro...
- Eu não acredito que você queira se salvar por uma esperança remota de no futuro reencontrá-lo!
- Não, não, eu jamais pensei nisso. Não. Você precisa ouvir tudo primeiro, meu amor, para depois poder tentar interpretar o que eu digo. Sei que você não costuma compreender o que eu digo, mas ouve, e isso me ajuda mais do que você possa me imaginar. Retomando o foco, não, não quero me salvar por uma esperança remota. Já senti duramente o quão perigosas podem ser as esperanças remotas, principalmente quando elas ameaçam se tornar reais mas não se tornam. Não. Só quero construir uma vida legal para mim, apreciar a beleza que existe no mundo. Nunca se sabe o que os próximos dias nos reservam, e quem sabe? Sempre pode haver uma boa surpresa.
- Você é incrível. Honestamente, você é incrível. Eu no seu lugar estaria morrendo.
- Não se iluda, eu estou morrendo sim. Mas sempre encontro um motivo qualquer para seguir em frente.
- Eu te amo.
- Não, você ama a imagem que tem de mim, e acredite, ela é errônea. Você me pinta em sua mente como uma mulher forte e segura, mas eu estou muito longe de ser isso. Eu te amo, e posso dizer isso, porque te conheço melhor do que você imagina, e te aceito com seus defeitos e qualidades. Sim, eu te amo pelo que já vivemos e pelos teus olhos amorosos, teu cuidado comigo. Eu te amo, sim sim.
sábado, 21 de agosto de 2010
Ao Fim de Tudo.
O relógio do som do carro mostrava: 02:03 am. Fazia calor, mas não a ponto de fazê-la suar. Parou o carro em frente aos portões brancos tão conhecidos, tão sonhados. Olhou para as árvores que ladeavam a subida que dobrava para a esquerda, e sorriu. Nunca se esquecera da primeira vez que entrara ali sendo dona daquilo tudo. E muito mais importante do que isso, sendo mulher dele. Sim, mulher dele, oficialmente, no cartório e na igreja. Exatamente como havia sonhado por toda a sua vida.
Acionou o portão eletrônico com o controle que ainda possuía. Mesmo quando passara um ano inteiro separada dele, jamais deixara de ter as chaves de casa e de saber onde ele estava. Não, ela jamais procurara por isso. Mas ele fazia questão de manter as portas abertas - porque sabia que ela voltaria. Era ruim de admitir, mas sim, todos sabiam disso: ela voltava, sempre voltava.
Dirigiu até a garagem e desligou o carro, acendendo um cigarro e ficando ali dentro. O carro dele estava estacionado na vaga ao lado, como de costume. Era sábado, mas mesmo assim, ele estava em casa. Talvez haja uma festa aqui em casa mesmo, pensou ela. Teve de fumar mais três cigarros antes de ter coragem suficiente para encará-lo outra vez, para pedir perdão. Apesar de ele ter se tornado imensamente mais calmo através dos anos e sempre ter sido amoroso com ela, nunca se sabia quando os olhos azuis se tornariam cinzentos e a tempestade viria. E ela sabia bem o perigo disso tudo.
Respirou fundo. Sabia que mesmo que voltasse para ele sempre poderia partir outra vez. Mas, e se um dia ele não a aceitasse de volta? E se esse dia houvesse chegado? Ela só saberia se tentasse. Olhou para seu celular: haviam inúmeras chamadas daquele que havia mentido para ela. Isso a fez perceber o quanto a volta era certa. Tomou coragem e saiu do carro.
Decidiu-se por ir direto ao quarto que eles dividiam. Não se importava se o encontrasse com outra mulher pela casa (porque ele insistia em manter o quarto dos dois como "sagrado" e jamais dormia com outra mulher ali), pois a monogamia jamais teve grande importância para ambos. Ele gostava de ter mulheres para se divertir, e ela sabia ser discreta para que ele não ficasse furioso. Ele sabia de tudo, mas enquanto não precisasse se confrontar diretamente com isso não se importava. Ela havia sido a única mulher que ele realmente amara em toda a vida, não a perderia por qualquer besteira.
Enquanto atravessava o pátio em direção à casa, viu um vulto na beira da piscina. Por maior que fosse a tensão que a dominava, ela sorriu. Por fim, ali estava ele, sozinho, fumando, com uma garrafa de whiskey, sentado com os pés dentro d'água e olhando a superfície da água, os longos cabelos caindo-lhe sobre o rosto. Ela se aproximou alguns passos sem fazer barulho. Quando ela estava perto da piscina, sem levantar a cabeça, ele falou:
- Dessa vez foram seis meses. Honestamente, achei que seria um ano ou mais. Mas eu estava enganado. Acho que no fundo eu sempre soube que você voltaria logo - ele levantou a cabeça e ela o olhava, apreensiva. Não sabia se ele estava furioso ou alegre, a voz havia sido inexpressiva o tempo todo. Propositalmente, ele ficou por vários segundos a encará-la em silêncio. Sabia que aquilo a assustava mas ao mesmo tempo a fascinava, inexplicavelmente. Então, lentamente, um sorriso foi iluminando o rosto agora redondo e os olhos extremamente azuis e brilhantes. Ele levantou-se, e com um sorriso amoroso, abriu bem os braços. Sem sequer se dar por conta do que fazia, ela correu o mais rápido que podia e atirou seus braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para si com uma força que ela própia desconhecia. Ao sentir um beijo carinhoso e demorado em seus longos cabelos ruivos, ela não pôde evitar que lágrimas escorressem pelo seu rosto. Odiava fazer esse papel ridículo de mocinha-que-reencontrou-o-seu-amor, mas estava de fato emocionada. Não era mulher de chorar por qualquer coisa, mas haviam situações, exatamente como aquela, em que não podia evitar. Sentir o cheiro dele, os braços fortes envolvendo-a carinhosa porém firmemente, passar as mãos pelos cabelos tão ruivos e tão lisos quanto os dela própia, tudo isso tinha um valor incalculável. Ao fim de tudo, ele é o único verdadeiro, pensou. É o único que sempre assumiu suas imperfeições com dignidade, que nunca mentiu para mim.
Ele não queria chorar também, mas sentiu seus olhos se tornarem marejados. Não era nenhuma porra de homem sensível não, era macho de verdade, oras! Mas o problema era que ela era a sua única e total exceção. Num rápido relance, vislumbrou no dedo anelar esquerdo dela a aliança verde que ele lhe dera quando fizeram aniversário de 5 anos de casamento. Lembrava-se perfeitamente bem da noite na praia vazia, dos corpos cheios de areia, dos risos, do brilho no olhar dela na escuridão. Ele lhe comprara uma aliança verde porque essa era a sua cor favorita, disse-lhe brincalhão: "Comprei verde para ver se você usa uma aliança, porque mulher minha não anda solta assim!" e ela ria, ria alegre, encantada com a aliança, encantada com a inesperada delicadeza dele. Era um homem rude, de modos bruscos. Mas com ela se tornava um verdadeiro gentleman. Tratava todas as outras mulheres feito bonecas infláveis, mas ela não. Nela havia algo mais, e ele a amava - profundamente.
Ele a puxou ainda mais para si, beijando-lhe os olhos, o rosto, beijando-lhe os lábios com imensa volúpia. Já estava velho demais para procurar erroneamente em outros corpos o prazer que desejava tanto no dela, e havia estado sozinho esse tempo todo. Além do mais, ela era a única com a qual ele tinha história, a única com quem o prazer se tornava significativo, inesquecível. Ela havia estado ao lado dele quando o mundo inteiro acusava-o por erros que ele não cometera, estivera ao lado dele quando todos os "amigos" dele o traíam. Nunca, jamais mentira para ele ou o abandonara num momento complicado, por menos complicado que pudesse ser. Aguentara o sucesso unânime que ele um dia fizera entre as mulheres, aguentara o falatório de que ela supostamente não era boa o bastante para ele. Ele não sabia, mas ela seria capaz de aguentar tudo isso de novo, porque ela podia sentir que ele a considerava boa o bastante para ele. Isso se confirmava por ele, mesmo podendo ter a mulher que quisesse, manter-se casado e amando ela o tempo todo. Ela via, sentia que ele a amava profundamente. E só continuava vivendo por isso.
Pegando-a no colo, ele começou a andar para dentro da grande casa branca que dividiam já há quase 15 anos. Esquecera-se do whiskey, dos cigarros, de tudo na beira da piscina. Olharam-se sorrindo, alegres. Ele perguntou, com sua voz rouca e grave:
- Onde estão suas malas? - ele perguntava com a certeza de que ela as havia trazido.
- No meu carro - respondeu ela, sorrindo imensamente. Ele amava esse sorriso que só ela sabia dar; esse sorriso sem mostrar os dentes, apenas iluminando seus olhos castanhos. - E você que vai buscar tudo lá amanhã de tarde.
- De...tarde? - perguntou ele, arfando, enquanto subia as escadas com ela no colo. Ela riu mais ainda, aquele riso alegre, quente, que o fazia sentir vivo. - Ora, você já não tem mais 45 quilos e eu não tenho mais 30 anos! - protestou ele, fingidamente bravo, mas logo rindo com ela. Levou-a para o quarto onde tanto se amaram através dos dias e das noites. Afastou-lhe uma mecha de cabelos ruivos e lisos feito os seus própios, e sorriu para os olhos castanhos que o olhavam profundamente. Ele havia procurado o mundo todo, mas só se encontrava nos olhos dela. E ela pertenceria à ele, inevitavelmente, sempre.
Acionou o portão eletrônico com o controle que ainda possuía. Mesmo quando passara um ano inteiro separada dele, jamais deixara de ter as chaves de casa e de saber onde ele estava. Não, ela jamais procurara por isso. Mas ele fazia questão de manter as portas abertas - porque sabia que ela voltaria. Era ruim de admitir, mas sim, todos sabiam disso: ela voltava, sempre voltava.
Dirigiu até a garagem e desligou o carro, acendendo um cigarro e ficando ali dentro. O carro dele estava estacionado na vaga ao lado, como de costume. Era sábado, mas mesmo assim, ele estava em casa. Talvez haja uma festa aqui em casa mesmo, pensou ela. Teve de fumar mais três cigarros antes de ter coragem suficiente para encará-lo outra vez, para pedir perdão. Apesar de ele ter se tornado imensamente mais calmo através dos anos e sempre ter sido amoroso com ela, nunca se sabia quando os olhos azuis se tornariam cinzentos e a tempestade viria. E ela sabia bem o perigo disso tudo.
Respirou fundo. Sabia que mesmo que voltasse para ele sempre poderia partir outra vez. Mas, e se um dia ele não a aceitasse de volta? E se esse dia houvesse chegado? Ela só saberia se tentasse. Olhou para seu celular: haviam inúmeras chamadas daquele que havia mentido para ela. Isso a fez perceber o quanto a volta era certa. Tomou coragem e saiu do carro.
Decidiu-se por ir direto ao quarto que eles dividiam. Não se importava se o encontrasse com outra mulher pela casa (porque ele insistia em manter o quarto dos dois como "sagrado" e jamais dormia com outra mulher ali), pois a monogamia jamais teve grande importância para ambos. Ele gostava de ter mulheres para se divertir, e ela sabia ser discreta para que ele não ficasse furioso. Ele sabia de tudo, mas enquanto não precisasse se confrontar diretamente com isso não se importava. Ela havia sido a única mulher que ele realmente amara em toda a vida, não a perderia por qualquer besteira.
Enquanto atravessava o pátio em direção à casa, viu um vulto na beira da piscina. Por maior que fosse a tensão que a dominava, ela sorriu. Por fim, ali estava ele, sozinho, fumando, com uma garrafa de whiskey, sentado com os pés dentro d'água e olhando a superfície da água, os longos cabelos caindo-lhe sobre o rosto. Ela se aproximou alguns passos sem fazer barulho. Quando ela estava perto da piscina, sem levantar a cabeça, ele falou:
- Dessa vez foram seis meses. Honestamente, achei que seria um ano ou mais. Mas eu estava enganado. Acho que no fundo eu sempre soube que você voltaria logo - ele levantou a cabeça e ela o olhava, apreensiva. Não sabia se ele estava furioso ou alegre, a voz havia sido inexpressiva o tempo todo. Propositalmente, ele ficou por vários segundos a encará-la em silêncio. Sabia que aquilo a assustava mas ao mesmo tempo a fascinava, inexplicavelmente. Então, lentamente, um sorriso foi iluminando o rosto agora redondo e os olhos extremamente azuis e brilhantes. Ele levantou-se, e com um sorriso amoroso, abriu bem os braços. Sem sequer se dar por conta do que fazia, ela correu o mais rápido que podia e atirou seus braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para si com uma força que ela própia desconhecia. Ao sentir um beijo carinhoso e demorado em seus longos cabelos ruivos, ela não pôde evitar que lágrimas escorressem pelo seu rosto. Odiava fazer esse papel ridículo de mocinha-que-reencontrou-o-seu-amor, mas estava de fato emocionada. Não era mulher de chorar por qualquer coisa, mas haviam situações, exatamente como aquela, em que não podia evitar. Sentir o cheiro dele, os braços fortes envolvendo-a carinhosa porém firmemente, passar as mãos pelos cabelos tão ruivos e tão lisos quanto os dela própia, tudo isso tinha um valor incalculável. Ao fim de tudo, ele é o único verdadeiro, pensou. É o único que sempre assumiu suas imperfeições com dignidade, que nunca mentiu para mim.
Ele não queria chorar também, mas sentiu seus olhos se tornarem marejados. Não era nenhuma porra de homem sensível não, era macho de verdade, oras! Mas o problema era que ela era a sua única e total exceção. Num rápido relance, vislumbrou no dedo anelar esquerdo dela a aliança verde que ele lhe dera quando fizeram aniversário de 5 anos de casamento. Lembrava-se perfeitamente bem da noite na praia vazia, dos corpos cheios de areia, dos risos, do brilho no olhar dela na escuridão. Ele lhe comprara uma aliança verde porque essa era a sua cor favorita, disse-lhe brincalhão: "Comprei verde para ver se você usa uma aliança, porque mulher minha não anda solta assim!" e ela ria, ria alegre, encantada com a aliança, encantada com a inesperada delicadeza dele. Era um homem rude, de modos bruscos. Mas com ela se tornava um verdadeiro gentleman. Tratava todas as outras mulheres feito bonecas infláveis, mas ela não. Nela havia algo mais, e ele a amava - profundamente.
Ele a puxou ainda mais para si, beijando-lhe os olhos, o rosto, beijando-lhe os lábios com imensa volúpia. Já estava velho demais para procurar erroneamente em outros corpos o prazer que desejava tanto no dela, e havia estado sozinho esse tempo todo. Além do mais, ela era a única com a qual ele tinha história, a única com quem o prazer se tornava significativo, inesquecível. Ela havia estado ao lado dele quando o mundo inteiro acusava-o por erros que ele não cometera, estivera ao lado dele quando todos os "amigos" dele o traíam. Nunca, jamais mentira para ele ou o abandonara num momento complicado, por menos complicado que pudesse ser. Aguentara o sucesso unânime que ele um dia fizera entre as mulheres, aguentara o falatório de que ela supostamente não era boa o bastante para ele. Ele não sabia, mas ela seria capaz de aguentar tudo isso de novo, porque ela podia sentir que ele a considerava boa o bastante para ele. Isso se confirmava por ele, mesmo podendo ter a mulher que quisesse, manter-se casado e amando ela o tempo todo. Ela via, sentia que ele a amava profundamente. E só continuava vivendo por isso.
Pegando-a no colo, ele começou a andar para dentro da grande casa branca que dividiam já há quase 15 anos. Esquecera-se do whiskey, dos cigarros, de tudo na beira da piscina. Olharam-se sorrindo, alegres. Ele perguntou, com sua voz rouca e grave:
- Onde estão suas malas? - ele perguntava com a certeza de que ela as havia trazido.
- No meu carro - respondeu ela, sorrindo imensamente. Ele amava esse sorriso que só ela sabia dar; esse sorriso sem mostrar os dentes, apenas iluminando seus olhos castanhos. - E você que vai buscar tudo lá amanhã de tarde.
- De...tarde? - perguntou ele, arfando, enquanto subia as escadas com ela no colo. Ela riu mais ainda, aquele riso alegre, quente, que o fazia sentir vivo. - Ora, você já não tem mais 45 quilos e eu não tenho mais 30 anos! - protestou ele, fingidamente bravo, mas logo rindo com ela. Levou-a para o quarto onde tanto se amaram através dos dias e das noites. Afastou-lhe uma mecha de cabelos ruivos e lisos feito os seus própios, e sorriu para os olhos castanhos que o olhavam profundamente. Ele havia procurado o mundo todo, mas só se encontrava nos olhos dela. E ela pertenceria à ele, inevitavelmente, sempre.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Letargia
Não fazia ideia de quantas horas já fazia que estava ali, calada. Mexia-se apenas para acender um novo cigarro, e logo voltava a deitar-se, olhando para o teto. Dava tragadas profundas, intensas, sem fechar os olhos. Mal piscava, nem isso conseguia mais.
I've really, been the best, the best of fools / I did what I could, yeah. Doía. Doía muito no começo, mas agora havia vindo o entorpecimento. Era sempre assim: o desespero, depois o esquecimento. Que jamais chegava a ser um esquecimento de fato. Apenas deixava tudo momentaneamente suspenso. A mente voava livre entre lembranças sem sentido, via apenas olhos verdes na penumbra. Desejara tanto esquecer tudo, deixar de existir. Mas não. Quanto mais ela fugia, mais se tornava claro que tudo não ocorrera apenas na sua cabeça. Os indícios se tornavam gritantes. Baby, since I've been loving you, yeah / I'm about to lose my worried mind, oh yeah. Jimmy Page invadia o quarto, invadia seu corpo, sua mente. Sentia os acordes vibrarem dentro de si e finalmente fechava os olhos, entregue. Não havia dor nem prazer, amor nem desolação. Entregava-se, desintegrava-se. Existiam apenas acordes e olhos verdes.
Não queria se sentir culpada, não queria que doesse, mas não queria o entorpecimento também. Sabia o quão perigoso podia ser não sentir nada. Havia horas ouvia a mesma música. As lágrimas haviam secado por conta própia. O rosto normalmente branco estava vermelho, manchado de lágrimas, e os cabelos molhados. Havia prometido a si mesma, numa atitude não muito sua, que não derramaria mais nenhuma lágrima por esses mesmos motivos. Mas não adiantava. O peso da realidade a abrangia por completo: então repentinamente lembrava-se de tudo. Seria ela a culpada, ao fim de tudo? Poderia viver com isso tudo? Não podia responder, o tempo talvez respondesse. Queria se entregar, se destruir, mas ainda era cedo. Cedo demais para qualquer coisa. Apenas a preocupação a corroía, aos poucos. Feito um pingo d'água caindo por horas no mesmo lugar.
Tinha amigos, tinha livros para ler, tinha compromissos e mais do que isso, tinha lembranças - mas não tinha o mar para olhar. Não, não podia se sentar numa pedra e ficar por horas ali, em silêncio. Não tinha uma imensidão, um silêncio, um resguardo. Então permanecia ali, absolutamente calada, observando o teto branco e inexpressivo.
Um vento levemente mais forte entrou pela janela semiaberta. Fechou os olhos para sentí-lo, e algo mais a possuiu. Um quê de desolação, um quê de nada mais fazer sentido. Finalmente levantou-se, aproximando-se da janela. Debruçou-se sobre ela, e ficou a fumar, observando a cidade. Muitas luzes já haviam sido acesas mas ainda era cedo, muito cedo. Novamente, uma lufada de vento veio, agora lhe fazendo voar os cabelos e sorrir. Sim, sorrir. O vento a acariciar-lhe o rosto lembrou-a de uma coisa: apesar dos apesares, ainda tinha uma ilusão, uma ilusão final (e grandiosa): ela era a oportunidade da vida de alguém. Assim, grande, bonito mesmo. Sorriu, sorriu alegre, sentia seu coração pulsando outra vez. E os olhos verdes brilhando.
Verdes, Sempre Verdes
O ônibus parecia avançar mais rápido agora, e isso era bom. Ela podia ver as árvores passando mais rapidamente e fazia sol, ela gostava da luminosidade dessa hora do dia. Encostou sua cabeça no vidro da janela e fechou os olhos. Estava extremamente exausta.
Os fones de ouvido certamente poderiam ser ouvidos por alguém por perto, mas ela não se importava, não mais. Arthur Lee cantava Orange Skies pela milésima vez naquele dia, mas ela não conseguia se sentir mais leve. Não. Sua existência havia ganho um peso quase insuportável. Tentava não pensar no que havia ouvido, no que havia sentido, mas era impossível. Tudo o que podia ver era a dor com que aqueles olhos verdes procuravam-na desesperadamente. Lembrava-se perfeitamente disso, dos olhos verdes invadindo-a, sufocando-a, transbordando nela. Era isso. Eles transbordavam sobre ela e ela se perdia.
Por certos momentos, sim, ela havia se sentido feliz - e como havia! Quanto gozo e quanta beleza havia vivido, sim, tanta alegria em viver...Justo ela, que sempre fora tão grave. Sempre fora consciente demais da fatalidade da vida para conseguir ter a leveza de atravessar seus dias alegremente. Agora ela sufocava outra vez. Podia sentir o cheiro de cigarro em seus cabelos, suas mãos, sentir o gosto em sua boca. Era seu cigarro favorito, pelo menos. Havia passado um bom tempo rindo e conversando com outras pessoas, expansiva, alegre, como se nada de pesado houvesse em sua mente. Mas não. Ela sentia, a cada minuto, a gravidade de tudo. Falava frivolidades e poucas vezes de assuntos que realmente lhe interessavam, porque esses assuntos a remetiam imediatamente ao estado em que sua vida se encontrava. E este era incompreensível.
Haviam tantas pessoas. Sim, e tantas que se importavam. A gravidade dos olhos pequenos e castanhos dela dizendo-lhe que ela era incrível, dizendo que lhe amava. Os abraços, os carinhos, os sorrisos, as perguntas ansiosas pelo seu estado de espírito. A voz que sempre lhe elogiava, rasgando-se em elogios exaltados, os elogios ecoavam em sua cabeça, não só na voz dela, mas em muitas outras vozes, elogios, elogios - mas não, ela nunca acreditaria. Não que não confiasse nela, longe disso. Mas era realista, sabia de suas própias limitações e, principalmente, do quão pequena era. Ainda teria que melhorar muito para chegar aos pés da pessoa que lhe diziam que ela era.
O problema era que ninguém sabia de fato da sua pequenez. Não, ninguém parecia perceber que ela era apenas mais uma na multidão - sim, talvez com roupas um pouco diferentes, mas simplesmente porque só usava o que lhe fazia se sentir bem. Ninguém parecia perceber que ela era apenas uma menina perdida, que lia livros, ouvia discos, existia e escrevia simplesmente para tentar ser melhor, para tentar fazer com que sua vida adquirisse alguma beleza, algum valor. Não viam sua grande fraqueza, sua constante depressão, sua busca desesperada por sentido. Porque honestamente, já não fazia mais sentido para ela.
Sim, ela ficara sabendo. Sabendo que os olhos verdes haviam chorado, haviam caído por ela. Não sabia o que pensar ou no que acreditar, mas as palavras eram coerentes demais para serem deixadas de lado. Podia sentir a destruição daqueles olhos, daquela voz melodiosa, e não queria isso, nunca quisera. Lembrava-se da angústia, do brilho dos olhos - e do amor. Sim, via, sentia isso. Tinha a plena consciência de que costumamos enxergar apenas aquilo que queremos, mas haviam coisas transparentes demais para se esconderem assim. Não poderia assistir à destruição, não poderia se importar, mas como tirar isso tudo de sua vida? Como tornar-se alheia aos olhos verdes, insistentes, brilhantes, constantes...Não, ela não poderia simplesmente apagar tudo aquilo. Mas não sabia o que viria pela frente - e tinha medo.
Desceu do ônibus automaticamente, seguindo aquelas ruas sem sentir. Só se deu por conta de onde estava quando passou pela rua por onde havia corrido feliz, extremamente feliz, porque naquela dia havia sentido uma profunda esperança de que finalmente poderia se perder nos olhos verdes e brilhantes. Mas já não fazia sentido, e ela seguia caminhando. Ajeitou os óculos de sol e desligou a música. Não ouviria The Cure, não, não se destruiria. Não agora.
Sabia que, ironicamente, assim como ele dizia, o tempo era a solução. Mas lembrou-se de algo: haviam outros olhos verdes. Eram de outro tom de verde, mas brilhavam também. Sim, os outros olhos verdes também brilhavam, também a procuravam entre as outras pessoas, também se iluminavam quando a viam. Mas esses, esses sim estavam sempre perto dela. Esses a ouviam, não lhe pediam promessas, não lhe pediam a eternidade, tampouco sonhos em comum. Simplesmente estavam ali, porque os castanhos olhos dela também estavam, e isso bastava. Sorriu, por fim. Sempre há motivo para viver de novo, lembrou-se. Chegou em casa, largou suas coisas e parou, depois de tanto tempo, para olhar sua flor amarela que crescia no quintal. Sorriu imensamente, como se a flor fosse a sua própia esperança ali esquecida. Sim, continuaria vivendo - por outros olhos verdes, mas sim, verdes, sempre verdes.
Os fones de ouvido certamente poderiam ser ouvidos por alguém por perto, mas ela não se importava, não mais. Arthur Lee cantava Orange Skies pela milésima vez naquele dia, mas ela não conseguia se sentir mais leve. Não. Sua existência havia ganho um peso quase insuportável. Tentava não pensar no que havia ouvido, no que havia sentido, mas era impossível. Tudo o que podia ver era a dor com que aqueles olhos verdes procuravam-na desesperadamente. Lembrava-se perfeitamente disso, dos olhos verdes invadindo-a, sufocando-a, transbordando nela. Era isso. Eles transbordavam sobre ela e ela se perdia.
Por certos momentos, sim, ela havia se sentido feliz - e como havia! Quanto gozo e quanta beleza havia vivido, sim, tanta alegria em viver...Justo ela, que sempre fora tão grave. Sempre fora consciente demais da fatalidade da vida para conseguir ter a leveza de atravessar seus dias alegremente. Agora ela sufocava outra vez. Podia sentir o cheiro de cigarro em seus cabelos, suas mãos, sentir o gosto em sua boca. Era seu cigarro favorito, pelo menos. Havia passado um bom tempo rindo e conversando com outras pessoas, expansiva, alegre, como se nada de pesado houvesse em sua mente. Mas não. Ela sentia, a cada minuto, a gravidade de tudo. Falava frivolidades e poucas vezes de assuntos que realmente lhe interessavam, porque esses assuntos a remetiam imediatamente ao estado em que sua vida se encontrava. E este era incompreensível.
Haviam tantas pessoas. Sim, e tantas que se importavam. A gravidade dos olhos pequenos e castanhos dela dizendo-lhe que ela era incrível, dizendo que lhe amava. Os abraços, os carinhos, os sorrisos, as perguntas ansiosas pelo seu estado de espírito. A voz que sempre lhe elogiava, rasgando-se em elogios exaltados, os elogios ecoavam em sua cabeça, não só na voz dela, mas em muitas outras vozes, elogios, elogios - mas não, ela nunca acreditaria. Não que não confiasse nela, longe disso. Mas era realista, sabia de suas própias limitações e, principalmente, do quão pequena era. Ainda teria que melhorar muito para chegar aos pés da pessoa que lhe diziam que ela era.
O problema era que ninguém sabia de fato da sua pequenez. Não, ninguém parecia perceber que ela era apenas mais uma na multidão - sim, talvez com roupas um pouco diferentes, mas simplesmente porque só usava o que lhe fazia se sentir bem. Ninguém parecia perceber que ela era apenas uma menina perdida, que lia livros, ouvia discos, existia e escrevia simplesmente para tentar ser melhor, para tentar fazer com que sua vida adquirisse alguma beleza, algum valor. Não viam sua grande fraqueza, sua constante depressão, sua busca desesperada por sentido. Porque honestamente, já não fazia mais sentido para ela.
Sim, ela ficara sabendo. Sabendo que os olhos verdes haviam chorado, haviam caído por ela. Não sabia o que pensar ou no que acreditar, mas as palavras eram coerentes demais para serem deixadas de lado. Podia sentir a destruição daqueles olhos, daquela voz melodiosa, e não queria isso, nunca quisera. Lembrava-se da angústia, do brilho dos olhos - e do amor. Sim, via, sentia isso. Tinha a plena consciência de que costumamos enxergar apenas aquilo que queremos, mas haviam coisas transparentes demais para se esconderem assim. Não poderia assistir à destruição, não poderia se importar, mas como tirar isso tudo de sua vida? Como tornar-se alheia aos olhos verdes, insistentes, brilhantes, constantes...Não, ela não poderia simplesmente apagar tudo aquilo. Mas não sabia o que viria pela frente - e tinha medo.
Desceu do ônibus automaticamente, seguindo aquelas ruas sem sentir. Só se deu por conta de onde estava quando passou pela rua por onde havia corrido feliz, extremamente feliz, porque naquela dia havia sentido uma profunda esperança de que finalmente poderia se perder nos olhos verdes e brilhantes. Mas já não fazia sentido, e ela seguia caminhando. Ajeitou os óculos de sol e desligou a música. Não ouviria The Cure, não, não se destruiria. Não agora.
Sabia que, ironicamente, assim como ele dizia, o tempo era a solução. Mas lembrou-se de algo: haviam outros olhos verdes. Eram de outro tom de verde, mas brilhavam também. Sim, os outros olhos verdes também brilhavam, também a procuravam entre as outras pessoas, também se iluminavam quando a viam. Mas esses, esses sim estavam sempre perto dela. Esses a ouviam, não lhe pediam promessas, não lhe pediam a eternidade, tampouco sonhos em comum. Simplesmente estavam ali, porque os castanhos olhos dela também estavam, e isso bastava. Sorriu, por fim. Sempre há motivo para viver de novo, lembrou-se. Chegou em casa, largou suas coisas e parou, depois de tanto tempo, para olhar sua flor amarela que crescia no quintal. Sorriu imensamente, como se a flor fosse a sua própia esperança ali esquecida. Sim, continuaria vivendo - por outros olhos verdes, mas sim, verdes, sempre verdes.
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