domingo, 6 de setembro de 2009

Travessia

Há anos que passam rapidamente, enquanto outros parecem se arrastar. O problema deles jamais é a duração, e sim a qualidade dos dias que se vive neles.
Dá uma tristeza quando está acabando um ano em que a gente riu, virou madrugadas conversando, beijou bastante, trabalhou ou estudou como deveria, fez novos amigos, viu o pôr-do-sol, foi em festas legais, chorou quando teve vontade, sentiu ânimo para seguir em frente quando houveram dificuldades, se apaixonou, enfim, viveu. É muito difícil deixar uma história tão cheia de vida para trás. Mas o fim do ano não precisa ser o fim da história.
É muito difícil ver que já não iremos conviver com as mesmas pessoas. Que mudaremos nosso horário de trabalho, que aquele grande amor já não faz o coração bater mais forte. Mas uma hora isso tudo acontece. Às vezes a vida está ótima e dá uma guinada, e por mais que não fique ruim, temos que lidar com a perda de todas aquelas pessoas, aqueles sentimentos, aquele perfume, aquela canção que se ouvia todo santo dia, a camiseta cheia de histórias, as fotos daqueles momentos inesquecíveis. Não devemos colocar essas coisas fora: pelo contrário, é saudável guardá-las para de vez em quando, relembrarmos daqueles dias maravilhosos que vivemos.
O problema é que, em um dado momento, temos que fazer uma travessia. Temos que deixar de lado tudo aquilo que já não podemos ter e seguir a frente com o que nos restou e não deixarmos de buscar novas sensações, novos prazeres na vida nova que estamos vivendo. O fim de uma história é o começo de outra, assim como um ano segue o outro. Não devemos ficar comparando nossa nova vida com a antiga, senão não poderemos aproveitá-la e vivê-la em toda a sua intensidade e plenitude. Temos que nos libertar da saudade que temos de todas as coisas boas que sabemos que jamais voltarão.
Só quando fizermos a travessia de "um conto para outro" em nossa vida é que poderemos ser felizes. Deixemos para trás aquela banda que tanto gostávamos, deixemos os lugares que frequentávamos. As pessoas já não estarão lá e tampouco as músicas soarão tão boas aos nossos ouvidos. Deixemos as lembranças guardadas para que elas não percam seu sabor.
Eu estou, atualmente, tentando fazer uma travessia. Não é fácil, ainda mais quando temos que conviver com os restos do conto anterior. Mas sem travessia não há vida; ninguém que fique olhando para trás o tempo todo tem o brilho êxtasiado de esperança e expectativa no olhar. O jeito é se atentar para o que está acontecendo especificamente hoje, e se der saudade do passado, por que não ouvir aquela canção ou olhar aquelas fotos? É saudável relembrar, mas não podemos deixar de viver apenas porque o presente não é igual ao passado. Talvez seja tão bom o quanto o passado, mas temos que aproveitá-lo para saber. Então, façamos a travessia. Antes que o tempo não nos deixe outra alternativa.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Bonecas Infláveis

Gostosonas. Assim é descrito o mais novo modelo de bonecas infláveis, que são pessoas de carne e osso, na subdivisão de funkeiras ou mulher melão, mamão, melancia, abacaxi, e todos as frutas imaginárias.
Pergunte o que são crônicas para elas. No máximo elas responderão que é algo muito forte ( claro, isso se forem as intelectuais), exemplo: "uma dor de cabeça crônica". Haha, parabéns. Nada de textos. O negócio é malhação, posar nua, ser cantada por homens na rua, essas coisas totalmente importantes e que faz as pessoas que as admiram a crescerem como pessoas, é claro.
Tudo bem, estou sendo um pouco cruel. Mas é que me apavora que mulheres no mínimo dez anos mais velhas que eu não tenham jamais lido Dom Casmurro ou que não saibam sequer falar num português no mínimo decente. Me apavora que o mínimo de pudor necessário tenha sido deixado de lado, que a cultura não tenha o mínimo valor para essas pessoas, e que elas não façam nada pelos outros e nem por si mesmas e estejam ganhando muito dinheiro mesmo assim, sem contar que algumas até mesmo querem se canditar à cargos políticos. Eita país maravilhoso esse, não?
Enquanto pessoas que não tem nem dinheiro para se alimentar batalham todos os dias, uma mulher com um cérebro de ervilha e um traseiro do tamanho de uma melancia, no mínimo, vai lá, rebola e ganha um monte de dinheiro que gastará com as coisas mais bestas que existem. E o pior de tudo é que justamente as classes mais baixas são as que mantém esse tipo de famosas no "topo", provavelmente porque não conhecem e jamais conhecerão nada de melhor.
Os anos vão se passar, e diferente de Elis Regina ou Machado de Assis, essas "bonecas infláveis" serão totalmente esquecidas. Porque diferente de ambos, elas são exatamente como as tais bonecas, sem nada dentro, puro vento. É só a forma do corpo e acabou. Cérebro, coração, cultura, esqueçam disso. Você pode ser 100% nesses três quesitos, mas sem ser "popozuda" você não vai parar na capa da Playboy e nem vai ouvir assobios ao passar por uma construção civil, e convenhamos, ainda bem que não. Você com certeza tem coisa muito melhor com que se preocupar e para fazer.
Talvez, haja algo de bom nessas mulheres, é claro. Todo mundo tem defeitos e qualidades.O problema é que academia, funk e falta de cultura geralmente não fazem ninguém crescer, tampouco ter uma vida plena. Uma Playboy que foi tão vendida que a pessoa chegou a posar de novo, não vai torná-la autoconfiante ou melhor do que sua vizinha que ouve Chico Buarque. Pelo contrário, sua vizinha vai ter conteúdo ( que é por tempo ilimitado) e ela, com o passar dos anos, vai ser nada, com todo o respeito, é claro. Sempre há tempo para aprender, mas não há o que fazer se a pessoa não quiser abrir sua mente e aprender que é a mente, e não corpo o que importa.

Martha Medeiros

    Poeta, cronista, romancista, colunista. É como ela é geralmente descrita em seus livros, mas a verdadeira descrição dela está no conteúdo de seus livros.
    Uma mulher completa. Responsável, mãe, amiga, enfim, todas essas coisas que a maioria das mulheres da idade dela são. A diferença está em como ela executa todos esses papéis.
    Talvez seja por ser uma artista; e aqui, não estou usando "artista" vulgarmente, apenas para definir alguém famoso, mas sim em seu sentido literal, para definir alguém que produz arte. E convenhamos, de altíssima qualidade, no caso dela. Em suas crônicas, principalmente, Martha consegue ser bem humorada, culta, inteligente, moderna, "cool" e psicóloga, isso tudo sem ser fútil, banal, sem se achar uma garota de 16 anos (nada contra, é exatamente a minha idade) e sem dar uma de escritora de auto-ajuda que fica dizendo que há técnicas para ser confiante e essas bobagens. Não. Ela escreve sutilmente, com elegância e delicadeza. Nos indica filmes e livros, faz comentários inteligentes, dá suas opiniões sobre os mais variados assuntos, e ainda tenta nos despertar para algo que tem sido deixado de lado pela maioria das pessoas: viver.
    Martha se expõe em suas crônicas sem ser vulgar nem desnecessária, apenas mostrando aos outros o que ela tem de bom e pode dividir. Isso não seria exposição, mas sim compartilhamento. Ela compartilha e mostra sua personalidade cheia de arte, cultura e vida. Nos estimula a buscarmos nossa essência e pararmos para respirar e pensar um pouco, mesmo que estejamos nessa esquizofrênia chamada "vida moderna". Nos faz parar e olhar para os outros de verdade, repararmos nas pequenas coisas, e não levar a vida tão à sério.
    Eu gostaria de ler todas as suas obras, mas infelizmente ainda não tive a oportunidade. Mas agora vou seguir o exemplo da própria Martha e dar uma dica: leiam Martha Medeiros. Leiam, leiam mesmo. Trem-bala, Non-stop, Topless, Doidas e Santas, Divã, Coisas da vida, De Cara Lavada... Enfim, leiam, aprendam, comentem, indiquem.
    Se você ler Trem-bala, verá que as crônicas se mantém atuais mesmo cerca de dez anos depois. Ela é como uma versão feminina de Machado de Assis, porque, apesar de terem estilos diferentes, duvido que ambos deixem de ser atuais um dia. No meu ver, ela é brilhante, irreverente e única. Uma artista não só com "A" maiúsculo, mas que poderia ser toda escrita em maiúsculas. Uma escritora que sabe ser realista e romântica, prática e poética, genial e conselheira, ou seja, completa.
    Depois disso tudo, só me resta uma coisa: agradecer. Obrigada, Martha. Por existir, por se interessar por arte, por ter tido coragem de procurar uma editora um dia, por ter essa essência incrível e dividí-la com seus leitores, e instigá-los a buscar sua própria essência. Obrigada por mesmo sem saber, servir de psicóloga, amiga e professora. E por fim, parabéns Martha. Por que? Por existir.