Para tentar descansar após um dia particularmente
exaustivo, ele saiu para caminhar pelas ruas de Helsinki. Nada no trabalho
parecia avançar, ele só encontrara pessoas que não queria encontrar e, apesar
de estar com uma necessidade particularmente grande de ficar sozinho naquele
dia, parecia que todos repentinamente tinham coisas para dizer a ele, e poucos
foram os minutos calmos. Porém finalmente a noite chegara e ele podia caminhar
sozinho pelas ruas, observando desconhecidos com simpatia, fumando seu cigarro
calmamente, tentando esquecer a irritação do dia. Esses estavam sendo dias
difíceis, pois após anos, tinha fazer tudo sem o amparo e a constante alegria
trazidos por ela, assim como tinha de se acostumar à nova rotina que aos poucos
se delineava mais claramente, mas que não era nem de longe boa como a antiga.
Era difícil, porém necessário, e ele aguentava corajosamente cada dia difícil,
cada momento de desespero pelas mudanças bruscas em sua vida.
Depois de caminhar por quase uma hora, resolveu
pegar um metrô para ir para casa. Já estava mais calmo; os problemas no
trabalho já lhe pareciam mais simples e ele, aparentemente, não encontraria
mais ninguém que subitamente teria assunto para horas com ele. No entanto, mais
uma vez, ele se enganara. Ao longe, avistou longos cabelos lisos, e apesar de
tentar dizer para si mesmo que era apenas fruto da imaginação repentinamente
liberta após um dia muito cansativo, ela levantou a cabeça e mexeu nos cabelos,
afastando qualquer dúvida que pudesse restar nele. Aproximou-se sem pressa,
tentando ignorar as malas que via perto dela, tentando não pensar em
absolutamente nada, apesar das mil vozes gritando em sua mente tudo que lhe
havia passado pelo pensamento nos últimos meses. Não sabia o que dizer,
portanto apenas ficou de pé perto dela, olhando-a. Ela levantou a cabeça e,
antes que ele tivesse tempo de perguntar, disse:
- Estou reunindo todas as minhas forças para não
ficar.
Ele respirou fundo e se sentou ao seu lado, sem
tocá-la. Ambos ficaram em silêncio por um tempo, o olhar perdido num ponto
fixo. Era tranquilizador o simples fato de estarem assim tão perto, mesmo que
aparentemente não estivessem nem prestando atenção um no outro, mas não
precisavam de mais do que isso.
- Apesar do que eu lhe dizia, as coisas não tem
sido fáceis para mim também. Tudo é mais difícil e menos profundo agora. Não
consigo me habituar ao cotidiano que eu possuía antes de vivermos juntos -
admitiu ele, sem conseguir olhá-la. Surpreendentemente, percebeu que sua voz
estava embargada e não podia dizer mais absolutamente nada. Ela o observou e
sorriu de leve, cansada, gesto que ele não viu, muito concentrado em se manter
firme, olhando para frente. Depois de ponderar as palavras por muito tempo, ela
finalmente se manifestou:
- Não aguento mais. Não vejo sentido em
continuarmos tentando tudo isso, mas também sei que precisamos de dinheiro e de
novas oportunidades de carreira. Se ao menos pudéssemos tentar juntos...
- Você sabe que seria impossível, querida.
- Seria, mesmo? - perguntou ela, com uma tristeza
profunda e sincera, como há muito ambos não sentiam. Ele a abraçou forte e ela
simplesmente deixou que as lágrimas escorressem pelo seu rosto, exatamente como
ele fez. Depois de passarem muito tempo assim, eles se recompuseram e
finalmente trocaram um pequeno sorriso.
- Bem, acho que tem uma linha para o aeroporto em
alguns minutos. Desculpe-me por aparecer assim, eu juro que estava tentando não
ir procurá-lo...
- Eu estou feliz que tenha vindo. Você foi a
única coisa boa que me aconteceu hoje.
Eles sorriram e, outra vez, sentiram que não
precisavam de nada além da presença um do outro. Ela se levantou e, num gesto
súbito, ele segurou o seu braço:
- Passe a noite. Não vai fazer mal.
Eles se fitaram por um longo momento, onde todas
as dúvidas possíveis pareciam invadi-la. Mas, como sempre, o olhar tranquilo e
seguro nos olhos cinzentos fez com que ela ficasse. E não fez mal algum.