quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Last Dance


    Os anos se passavam e tudo retornava ao mesmo ponto. A escuridão era permanente, apesar dos raros momentos em que parecia haver esperança e um pouco de beleza no meio da podridão. A insistência dela era igualmente proporcional ao cansaço dele e, aos poucos, aquilo que um dia tivera chances de se transformar na única coisa boa que poderiam ter, foi se deteriorando até o insuportável. Então, quando não havia mais caminho, sentaram-se na mesa da cozinha, por um longo momento em silêncio, fumando e tentando encontrar as palavras certas para colocar um fim naquilo tudo.
    - Eu tentei te amar por muito tempo - ele admitiu, encarando o cinzeiro. - Tentei, porque você estava sempre em todos os lugares e parecia precisar de mim. E numa tentativa tola...
    - Ah, claro, você tentou! - ela riu, amargurada. - Você tentou? Eu cuidei de você e estive...
    - QUANDO diabos você cuidou de mim? Quando não havia escapatória? Se bem me lembro, não era você que estava comigo quando perdi meu emprego, pelo contrário, você foi embora na primeira oportunidade, e só voltou quando realmente não tinha mais para onde ir. Você realmente acha que isso é se importar? Eu tento relevar e não me importar com o que você fez para mim, mas chegamos a um ponto...
    - Você querer falar sobre o que fizemos? Realmente quer? Quer puxar a lista de putas que você fodeu...
    - Quais? As que você imaginou? É uma lista muito grande, não vale a pena.
    Ela se levantou em súbita fúria e tentou bater em seu rosto, mas ele segurou a sua mão, olhando com uma imensa raiva contida em seus olhos purpúreos.
    - Você não tem o direito de fazer isso. Você perdeu todo e qualquer direito ao... ao existir da forma que existe - ele soltou a mão dela e respirou fundo, enquanto ela massageava o pulso. - Sinta-se livre para fazer o que você sempre faz, contando aos outros o quanto você é a vítima de tudo e como eu torci e quebrei o seu braço agora.
    Ela tinha os olhos cheios d'água, mas não dizia palavra. Ele saiu em silêncio, batendo a porta. Desceu pelo elevador e entrou em cheio na rua barulhenta, cheia de pessoas, com sol e vento. Ar. Ele olhou ao redor, os olhos se acostumando à claridade, o corpo se refrescando com o vento. Um vazio e um alívio nasciam ao mesmo tempo, enquanto ele respirava fundo e seguia qualquer direção. Para longe dali.