domingo, 27 de novembro de 2011

A Silver Tear

Era automático. Por volta das duas da manhã, o velho se acordava e, sem acender nenhuma luz (apesar de viver sozinho), ele ia para a janela da frente, que dava diretamente para a rua, a poucos metros do chafariz. Sentava-se então na cadeira que era usada, durante o dia, para a leitura, e ficava observando atentamente o chafariz e a rua precariamente iluminados pelos postes de luz. Às vezes rapidamente, às vezes tão demoradamente que ele temia não a ver jamais, ela chegava. Cedo ou tarde, ela sempre chegava.
Ele nunca foi capaz de identificar a sua roupa: aquilo podia muito bem ser uma camisola, tanto quanto um vestido de festa. Só tinha certeza que era muito claro e parecia macio, deslizante. A roupa geralmente esvoaçava, assim como os cabelos longos, lisos como os dele haviam sido um dia.
Com os olhos fechados (suavemente, mas sempre fechados), ela caminhava sonabulamente até o chafariz, subindo em sua borda e quase dançando uma sinfonia mental ao redor da água. Ele podia sentir os acordes sob os seus dedos de pianista, melodia triste e cintilante, que para sempre ele associaria àquelas noites estranhamente belas de Paris. Apesar de seu ar de personagem balzaquiano, ele poderia jurar que ela era estrangeira, quase podia vê-la tentando falar francês, fazendo um biquinho involuntariamente cômico. Mas eram raras as vezes em que pensava nela assim, como um ser real e tão existente quanto ele.
Nunca tivera coragem de se perguntar, realmente, se ela era uma alucinação causada por sua velhice ou se era uma moça mesmo, encantadoramente perdida, mas que ficava bem ali. Ela caminhava sobre a borda do chafariz, fazendo toda a volta algumas vezes, num passo leve, às vezes tocando a água com um pé ou com as mãos. Ele a observava, questionando-se sobre a sua realidade, aliás, a de ambos, quando ela abriu os olhos. Depois de anos, abriu-os, e, em um momento, olhou para o velho. Ele ficou paralisado, enquanto estranhamente se encontravam, e subitamente, ele soube que ela era real, e o conhecia. Uma lágrima caiu pelo rosto enquanto a via se afastar, indo embora. E ele adormeceu.

domingo, 6 de novembro de 2011

... and don't worry

After a long time, the silence was even good for her. That house was darker then when she lived there, but yet she could have good feelings being there. It was amazing to remember his gray eyes, his hoarse laughter and his presence, which still lingers in her. For sure, she was actually an adult, but it was still very hard to not miss him, to not think about how would have been their lives, if he was alive and cleared of all blame. Now she could spend a really great time without thinking about all of that, but sometimes it was still real, still close. The most shining star - and she was alone. No matter how many people she had met and loved after his death, she was alone all along. And she had to face it.

 Slowly, she went upstairs, looking everything around, just like if she could bring him back by recovering all the memories of those places. Then, she entered his room, trying to not stay long, to not belong there again. She knew that no one could ever replace him, so it was amazing to close her eyes and dream that he was sitting on the bed, by her side, as if she was still fifteen and the war hadn't take him away.

 - Oh, don't worry my dear - he said, laughing and holding her hand. - You know, I'll be dead before you can even think of me getting really old, and if it doesn't happen, your dad will never let us stay together...

 - It's war time, love - she said, now seriously. - Anyone can get married.

 - So you really should not worry. Let's get married. Let's do it tomorrow morning.

 - Always forgetting that I'm under age and you're a hunted prisoner - she suddenly started to laugh too.

 - Yes, these are just details, my little one...

 He kissed her, pushing her close in the bed, his white t-shirt smelling so good that she would never forget that afternoon, the rain on the rooftop...

 She opened her eyes, wide awake. It was time to leave, to go for her new home, her new life that really fulfilled her. Indeed, it was amazing to have such a past to remember, but she needed to be strong and move on. Death should be left with all his friends, and she did not belong with them. Not anymore.

sábado, 5 de novembro de 2011

Mikrokosmos XXX

- Está tudo bem?
- Uhum - concordou ela, virando-se para olhá-lo. Por mais triste que estivesse, era animador e reconfortante ouvir passos no quarto e saber que eram dele, virar-se e se deparar com aquele rosto tão querido, tão dela. Ele se deitou e ela se aninhou nele, ficando muito calada, como há tempos não fazia. Ele percebeu a mudança e, entre surpreso e alegre, acariciou-lhe os cabelos, pensativo. 
Depois de quase dois anos morando juntos, ele sabia bem ler cada gesto dela, e podia perceber perfeitamente bem que algo estava mudando. Depois de muito tempo, ela estava finalmente voltando ao seu natural silêncio, recolhendo-se mais, falando bem menos e o olhando mais, sem medo de se perder naquela proximidade. Em silêncio, ele a olhou demoradamente, como se pudesse confirmar suas impressões, como se pudesse pedir-lhe para permanecer ali, completamente protegida com ele, até ser inevitável que tudo desaparecesse. Ela o olhava de tal forma que ele se sentiu, outra vez, como o menino que um dia fora, inundado em sua própria inocência, perdido na vastidão de tudo que desejara. 
Ela o beijou, sem pudor, surpreendendo-o, fazendo com que ele se envolvesse exatamente no que ele queria. Por que, repentinamente, já não era errado se perderem dessa forma? E por que, tão subitamente, eram casados no sentido mais profundo da palavra, no sentido que nem era a verdadeira intenção mas que, por isso mesmo, tornou-se a verdadeira? Mas eles não podiam e não queriam perder tempo pensando nisso tudo, tentando descobrir o que significava cada átomo - e nem era disso que precisavam. O que realmente precisavam era entregarem-se, era aprenderem a confiar no que ninguém podia convencê-los, a não ser eles próprios. Mas não, no fundo sabiam que estavam certos, e nada disso importava.
O oceano, a neve, silêncio. Talvez a beleza fosse a inexistência de tudo o que criaram. E talvez, apenas talvez, estivessem verdadeiramente ligados: e se isso fosse verdade, tudo teria valido a pena. Tudo.