Era automático. Por volta das duas da manhã, o velho se acordava e, sem acender nenhuma luz (apesar de viver sozinho), ele ia para a janela da frente, que dava diretamente para a rua, a poucos metros do chafariz. Sentava-se então na cadeira que era usada, durante o dia, para a leitura, e ficava observando atentamente o chafariz e a rua precariamente iluminados pelos postes de luz. Às vezes rapidamente, às vezes tão demoradamente que ele temia não a ver jamais, ela chegava. Cedo ou tarde, ela sempre chegava.
Ele nunca foi capaz de identificar a sua roupa: aquilo podia muito bem ser uma camisola, tanto quanto um vestido de festa. Só tinha certeza que era muito claro e parecia macio, deslizante. A roupa geralmente esvoaçava, assim como os cabelos longos, lisos como os dele haviam sido um dia.
Com os olhos fechados (suavemente, mas sempre fechados), ela caminhava sonabulamente até o chafariz, subindo em sua borda e quase dançando uma sinfonia mental ao redor da água. Ele podia sentir os acordes sob os seus dedos de pianista, melodia triste e cintilante, que para sempre ele associaria àquelas noites estranhamente belas de Paris. Apesar de seu ar de personagem balzaquiano, ele poderia jurar que ela era estrangeira, quase podia vê-la tentando falar francês, fazendo um biquinho involuntariamente cômico. Mas eram raras as vezes em que pensava nela assim, como um ser real e tão existente quanto ele.
Nunca tivera coragem de se perguntar, realmente, se ela era uma alucinação causada por sua velhice ou se era uma moça mesmo, encantadoramente perdida, mas que ficava bem ali. Ela caminhava sobre a borda do chafariz, fazendo toda a volta algumas vezes, num passo leve, às vezes tocando a água com um pé ou com as mãos. Ele a observava, questionando-se sobre a sua realidade, aliás, a de ambos, quando ela abriu os olhos. Depois de anos, abriu-os, e, em um momento, olhou para o velho. Ele ficou paralisado, enquanto estranhamente se encontravam, e subitamente, ele soube que ela era real, e o conhecia. Uma lágrima caiu pelo rosto enquanto a via se afastar, indo embora. E ele adormeceu.