sexta-feira, 25 de março de 2011

Mikrokosmos X

    Olhando ao redor, ela não pôde conter um suspiro. Gostaria de poder dizer que ver a si própria ali novamente, com toda aquela neve e naquela casa tão diferente e bonita não lhe agradava, mas isso seria mentir cruelmente - o fato de estar ali outra vez quase lhe levava às lágrimas. Largou suas malas no chão e, sem fazer mais nada, ficou por um bom momento no vestíbulo, apenas olhando ao redor. Por mais que tudo e quase todos estivessem contra isso, era aquele o seu lugar, o seu santuário. Sorriu mais com os olhos do que com a boca, como de costume, e foi inundada por uma paz triste e bonita de pertencer àquele lugar. Houve um barulho na escada e logo ela pode vê-lo descendo em sua direção. Vinha distraído, com os cabelos presos num rabo-de-cavalo e com papéis nas mãos. Quando levantou a cabeça sorriu.
    - Você voltou! - ele desceu com um pulo os últimos quatro degraus e, soltando os papéis, foi correndo beijá-la, já levantando-a no colo e fazendo-a rir.
    - Se eu imaginasse que haveria uma recepção tão boa, teria voltado mais cedo - disse ela, olhando-o alegre. Os olhos cinzentos dele brilhavam.
    - Como foi sua viagem?
    - Ótima - disse ela, beijando-o nos lábios outra vez e descendo do seu colo.
    Lá eu percebi que, de fato, já não consigo viver longe de você. Lá eu percebi que, de uma forma estranha e inesperada, agora já não é esforço algum permanecer aqui ao seu lado, nessa vida tranquila e bela - na verdade, percebi que é exatamente disso que preciso. Por mais seja difícil às vezes. Por mais que seja triste.
    Depois de terem subido as escadas e ele ter largado sua bagagem no quarto, ela ficou olhando-o por um longo tempo, enquanto pensava essas coisas. Súbito então, beijou-o com imensa volúpia, sem nada dizer-lhe e tampouco deu-lhe tempo de pensar em outra coisa senão no que estavam fazendo. Internamente, ele sorria. Sabia que isso era o mesmo que ela segurar seu rosto entre as mãos e dizer repetidamente que amava-o, essa era apenas a maneira dela de demonstrar. E ele admitia, essa maneira era muito melhor do que qualquer outra possível.

domingo, 6 de março de 2011

Homesick

desilusão

           s.f. Perda da ilusão; decepção, desapontamento.

A chuva era fina e irritante, com uma ventania boa. Não é que não houvesse dor ou angústia, o problema é que simplesmente ele não sabia como deveria se sentir, como engoliria tudo aquilo. Não via um "depois", sequer conseguia se imaginar ao entardecer daquela tarde fria. Não conseguia pensar, não conseguia se dar por conta que, repentinamente, aquele que sempre fora o seu ideal mais alto, o modelo de perfeição, fosse igual ou pior do que todo mundo. Em meses, toda a esperança, toda a força se resumiam aos sonhos de um dia tê-lo por perto, porque assim é que era para ser. Mas algumas palavras podem acabar com absolutamente tudo, destruir um mundo inteiro, um mundo seguro e belo - que já não existia mais, ou melhor, jamais poderia existir. 

Seus cabelos longos eram fustigados pelo vento, suas pernas se moviam automaticamente e completamente sem rumo. Nada fazia sentido, simplesmente não podia fazer. Fumava sem sentir, assim como caminhava sem saber que horas eram ou para onde iria agora. Não podia voltar para aquele apartamento que fora muito mais do que a sua casa pelos últimos meses, não passaria mais as madrugadas perdido nos olhos dele, em suas pernas, seus pelos, tudo simplesmente havia se desintegrado. Por horas, ele se sentou num banco e ficou olhando um arbusto sem realmente vê-lo. Ninguém mais conseguiria tirá-lo de casa e fazer com que ele jamais quisesse voltar, ninguém mergulharia em filosofia e música com ele daquela forma. Mas as máscaras se desintegram na chuva. Ele se levantou, colocou o sobretudo e pegou seu livro, como se estivesse indo embora da vida dele. A desilusão havia chegado, destruído tudo. Mas o que ele não imaginava é que ela só estava começando, e ele mesmo assim não iria embora - porque ele era a mentira mais bela em sua vida.

sábado, 5 de março de 2011

(Out of) Gallows Pole

Sei lá, por um tempos nós achamos que tu voltaria, assim, numa boa, como tu sempre fazia. Aquela tua blusinha florida que tu usava quase mostrando os seios, aquele teu sorriso que desviava a atenção de qualquer outra coisa, nossa, teus entusiasmos malucos eram maravilhosos, porque tu era linda daquele jeito, dançando Velvet Underground na cozinha e rindo do que estressava todo mundo. Aí tu leu aquele ensaio do Artur Távola e chegou toda apaixonada, querendo fazer amor com todo mundo - era assim, tu brilhava por aí, lia na grama, viajava e não se preocupava muito, era bom e bonito assim. Lembra dos sábados com incenso e cigarro, só? A gente conversava por horas, falava merda mesmo mas às vezes saía coisa boa, como aquele teu trabalho de sociologia que saiu das nossas teorias de sábado - e lembra daquela vez que falamos em quanto era besteira pra nós todo aquele negócio de relaxamento e tudo mais, aí começamos a compor uns mantras estranhos e ficamos quase sem ar de tanto rir? Essa era a guria que tu era, assim, simples e bonita mesmo, sem grandes problemas. Teus olhos são intensos e combinam com a tua boca que combina com todo o resto, e isso bastava, deveria bastar. 
Lembro que quando tu chegou, pela primeira vez, tu tava perdida, sem rumo. Aí a gente te deu abrigo, colocou umas saias legais, tirou tua roupa, te mostrou Aguaturbia e um montão de girassóis, um campo só deles, e tudo ficou bem. Ainda não entendo e acho que nunca vou entender porque tu não pode ficar, mas tudo bem. Sei que o mundo lá fora é grande também, e que grandes coisas podem e talvez até mesmo devem ser feitas, mas será que vale a pena mesmo? Os anos podem passar rápido, mas os dias jamais. Estamos vivendo cada segundo, e por que agonizá-los? Não é muito melhor passarmos horas apenas nos olhando nos olhos, porque nos amamos, sem complicação alguma? A grandeza e a burocracia podem trazer grandes coisas, mas traz grandes bostas junto e acho que tu não foi feita pra isso. Vem aqui pra casa, coloca uma roupa mais solta ou nem coloca, vou encher a casa de incensos, colocar um bom Love pra tocar e vamos ouvir Arthur Lee e rir dessas merdas todas. A gente sabe bem que as coisas não tem que ser tão pesadas, que pode ter riso e alegria também, pode ter amor e paz mesmo num cotidiano tão sem graça e sem música como o que geralmente temos. Lembra que as obrigações do dia não duram 24 horas, e que tu pode chegar em casa e sorrir pra mim e largar tudo, só por algumas horas. Vem aqui, fica quietinha e respira fundo. Tu tá bem, mesmo aí longe, eu sei, mas vem pra cá, é diferente e mais feliz. Te amo, bosta.