quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mikrokosmos XLIII

             O vestido vermelho que ela escolhera era, de fato, muito belo. Apesar de ser simples, era longo e possuía um belo corte, apropriado ao corpo dela. Naqueles tempos difíceis aquela festa parecia ser, ao menos, uma boa coisa para ela. Poderia se divertir e, nem que fosse por uma noite, esquecer de si própria e dos problemas que tinha consigo mesma.
                Depois de pronta, desceu as escadas que a levariam ao salão lotado. Os trajes elegantes, a música agradável, os rostos desconhecidos, tudo lhe parecia bom naquela noite, inexplicavelmente. Havia um novo pianista tocando e, talvez por isso mesmo, a música parecesse tão boa. Afastando-se de alguns conhecidos com quem trocava palavras inúteis, foi se aproximando do piano para poder ouvir melhor a música e ter um pouco de paz. Depois de permanecer por um tempo apenas ouvindo a música, de olhos fechados, ao fim de uma canção ela abriu os olhos, e olhou para o pianista. E nenhum rosto jamais foi capaz de lhe causar tamanha impressão.
                Os olhos eram de uma cor indefinida, entre azul e cinza, que ela nunca havia visto. Olhos belos, de alguma forma profundos. Os cabelos longos e negros eram crespos, soltos, distoando do porte elegante do pianista. Um cavanhaque quase lhe escondia os lábios pequenos, bonitos, e os dentes levemente amarelados pelo cigarro. Havia algo, talvez o contraste da pele muito clara com os cabelos negros, ou talvez o contraste de sua elegância com a intensidade com que tocava o piano, ela não sabia, porém havia algo fascinante nele, algo que não permitiria que ela quisesse ir embora.
                Os olhos cinzentos se levantaram e encontraram os dela. Depois de olhá-la por um longo tempo, ele voltou a tocar, e pelo resto da noite ela permaneceu ali por perto, apenas admirando-o, entregando-se ao belo som que ele produzia prazerosamente. Por horas, nada mais parecia existir, até que a última nota foi tocada e, exausto, ele respirou fundo e se levantou, fazendo uma reverência aos convidados que o aplaudiam. Ela estava tão chocada com o término da música que não conseguiu se mover.
                Mesmo tão profundamente encantada, por fim acabou ouvindo uma voz que repetidamente chamava o seu nome. Ainda sem querer desviar o olhar, ela foi seguindo a sua audição, que a levou a subir as escadas e entrar numa sala, ao fim do corredor. Uma vitrola tocava uma música bela, misteriosa, que a intrigou por um momento. Ficou ouvindo por um momento, de cenho franzido, até perceber que havia mais alguém na sala com ela. Levantou os olhos e viu um homem sentado perto da janela, uma parte dos cabelos longos elegantemente presa, olhando-a silenciosamente.
                - Olá – disse, simplesmente.
                - Olá – ela respondeu, intrigada, incapaz de sorrir. Era mais um homem muito belo, certamente bem diferente do pianista, mas tão encantador o quanto. Seus olhos eram esverdeados, mas havia algo de cinza neles também – como também havia um cavanhaque, um porte elegante, algo que a fascinava também. Ele se levantou, aproximando-se aos poucos, enquanto ela o olhava pensativa, perguntando-se de onde ele surgira.
                - Concede-me uma dança? – perguntou ele, estendendo-lhe gentilmente uma mão.
                Em silêncio, ela repousou sua mão sobre a dele, permitindo que ele a puxasse contra si, e então eles começaram a dançar. A música era lenta, mas nada havia nela de monótono. Estranhamente, ela se sentia segura ali, envolvida por ele, com aqueles olhos tentando desnudá-la, olhando e sendo olhada, lábios avermelhados como os dela, um cavanhaque claro... O que, afinal de contas, estava acontecendo? A sala estava quase na penumbra e, apesar de ter vindo naquela casa muitas vezes, nunca soubera da existência dessa sala, muito menos da existência desse homem. Algo nele pedia que ela baixasse suas guardas, que ouvisse a música de olhos fechados, sentindo em seu íntimo os acordes, sentindo o prazer daquelas mãos deslizando por entre seus cabelos finos e longos, esquecendo de qualquer noção de realidade, tempo, probabilidade e imaginação.
                Fechando os olhos depois de algum tempo, ela sentiu o rosto dele mais próximo, respirando com ela, nem se dando por conta de quando o vento entrou pela janela tão fortemente que fechou a porta. Só sabia daquelas mãos que a sustentavam, da música que lhe fazia se perder, o cheiro bom e a pele macia dele, como se...
                Como se ela não pudesse pensar mais. E, de fato, não podia. Antes que soubesse estavam se beijando, perdidos entre a atmosfera surreal daquela penumbra e a realidade da pele, do toque, dos gestos. O cabelo se desfazia aos poucos, um alça do vestido vermelho deslizando suavemente pelo ombro, tudo tão certo, tão impossível que se tornava ainda mais prazeroso. Ainda mais porque, de olhos fechados, ela se entregava ao prazer e jamais saberia dos olhos cinzentos que, por um tempo, esperaram-na ansiosamente na porta, observando cada movimento com esperança de que fosse o último e ela o visse. Porém, antes disso, a música acabou e ele se fora.
(Escrito em 01/05/2012 – 07:38 p.m.)

sábado, 12 de maio de 2012

Mikrokosmos XLIV

    Conduzindo-a gentilmente, ele abriu a porta da biblioteca, mas não ligou a luz. Muito séria, ela observava tudo ao seu redor, olhando verdadeiramente para aquele lugar pela primeira vez em quase dois anos. Não se moveu de perto dele, tampouco disse alguma coisa. Ficou apenas observando silenciosamente as estantes intermináveis na penumbra.
    - Você pode explorar o quanto quiser, ou melhor, você deve. Eu construí esse lugar para você, é desnecessário temer qualquer coisa.
    Ela respirou fundo, ainda sem se mover. Os olhos, porém, moviam-se famintos pelas estantes, como se não vissem livros há muito tempo. Hesitante, ela deu um passo e fez um gesto vago com a mão, como se não soubesse se teria força para pegar um livro ou não soubesse se deveria.
    - Você nunca será capaz de confiar em mim, não é mesmo?
    Fechando os olhos, ela assentiu, de costas para ele, que estendeu uma mão para tocar-lhe no ombro, mas parou um instante antes de tocá-la. Era como se ele fosse tocar um animal ferido, e este fosse incapaz de perceber que ele queria curá-lo. Pensativo, ele ficou por um longo tempo observando-a, enquanto ela permanecia muito calada, talvez até mesmo de olhos fechados. Naquela penumbra, os cabelos dela pareciam escuros, uma cortina sobre as costas que ele não podia tocar. Afastou-se então, para tentar tornar as coisas mais fáceis, e se sentou à mesa.
    - Não importa o que acontecer, este lugar é seu. Você deveria saber e acreditar nisso.
    Ela se virou e o encarou. Apesar de sua profunda empatia, ele não conseguia enxergar nada além de medo e dor naquele olhar que ele parecia conhecer tão bem. Aos poucos, ele se aproximou novamente, parando à uma distância segura, esperando. Depois de desviar o olhar algumas vezes e voltar a olhá-lo, ela se decidiu por um título que ele não pôde ver e saiu da biblioteca. Calado, sem saber o que pensar, ele permaneceu em pé, olhando para o nada, incapaz de sentir qualquer coisa, até ser despertado de seu torpor por ela.
    - Você não vem para a cama?

terça-feira, 1 de maio de 2012

Mikrokosmos XLII

                Segurando uma xícara de chá entre as mãos, ele se aquecia sentado na varanda, embalando-se levemente e observando o sol se por. O crepúsculo era sempre mais belo com a neve cobrindo todo o lugar. Uma melodia de Hans Zimmer tocava esquecidamente no fundo de sua mente, como se no cansaço que sentia ele fosse incapaz de ouvir claramente qualquer coisa, porém ele ouviu os passos quando ela se aproximou, também com uma xícara de chá, e se sentou na cadeira de balanço ao seu lado. Depois de algum tempo, ele a olhou, finalmente. Ela também parecia cansada, mas diferentemente dele, parecia feliz. Havia repousado a mão esquerda na perna dele, num gesto distraído de carinho.
                - Essa aliança fica realmente bonita em sua mão - disse ele, desejando que aquele gesto simples não acabasse logo. Ela sorriu, sem retirar a mão de sua perna.
                - Alianças de casamento em geral são bonitas. Você também fica muito bem com a sua.
                - Será que existe um limite de tempo para duas pessoas serem felizes juntas?
                - Não sei, mas espero que o nosso tempo não esteja acabando.
                Porém ambos sabiam que, na verdade, já havia acabado. Não por falta de amor, mas por necessidade. Sabiam também que poderiam estar juntos novamente em breve, mas que era igualmente possível que esse fosse o fim. Acertada ou erroneamente, eles não sabiam, porém haviam concordado que seria parte essencial do crescimento dos dois saírem do conforto da vida que possuíam juntos e encararem outras realidades. Ela em Montreal, ele em Kitee mesmo, fazendo as crianças interiores aprenderem que a vida real nem sempre trazia uma árvore com presentes no final do ano, mesmo que eles houvessem sido boas crianças.
                - Eu acho que estou começando a gostar de Montreal, de verdade - disse ela baixinho, no entanto ele não perdeu nenhuma palavra. - É mais difícil do que eu pensava, mas está tudo bem.
                Ele ficou em silêncio por um longo tempo, apenas observando o céu alaranjado por trás dos pinheiros, depois do lago. Acariciou a mão dela, continuando num gesto esquecido enquanto pensava em tudo e em nada, tentando digerir o que ouvira. Era difícil, mesmo que ele soubesse que esse dia se aproximava há meses. Respirou fundo, resignado ao ponto em que finalmente haviam chegado.
                - Eu te amo - foi a única coisa que conseguiu pensar em dizer.
                - Eu também te amo. Muito.
                Ele se levantou e lhe ofereceu a mão gentilmente. Ela a aceitou e se levantou também. Depois de se olharem por um tempo e se reconhecerem um no outro, conseguiram sorrir e se abraçaram, ainda admirando a vista daquela varanda tão segura, tão deles. E escureceu.