terça-feira, 1 de maio de 2012

Mikrokosmos XLII

                Segurando uma xícara de chá entre as mãos, ele se aquecia sentado na varanda, embalando-se levemente e observando o sol se por. O crepúsculo era sempre mais belo com a neve cobrindo todo o lugar. Uma melodia de Hans Zimmer tocava esquecidamente no fundo de sua mente, como se no cansaço que sentia ele fosse incapaz de ouvir claramente qualquer coisa, porém ele ouviu os passos quando ela se aproximou, também com uma xícara de chá, e se sentou na cadeira de balanço ao seu lado. Depois de algum tempo, ele a olhou, finalmente. Ela também parecia cansada, mas diferentemente dele, parecia feliz. Havia repousado a mão esquerda na perna dele, num gesto distraído de carinho.
                - Essa aliança fica realmente bonita em sua mão - disse ele, desejando que aquele gesto simples não acabasse logo. Ela sorriu, sem retirar a mão de sua perna.
                - Alianças de casamento em geral são bonitas. Você também fica muito bem com a sua.
                - Será que existe um limite de tempo para duas pessoas serem felizes juntas?
                - Não sei, mas espero que o nosso tempo não esteja acabando.
                Porém ambos sabiam que, na verdade, já havia acabado. Não por falta de amor, mas por necessidade. Sabiam também que poderiam estar juntos novamente em breve, mas que era igualmente possível que esse fosse o fim. Acertada ou erroneamente, eles não sabiam, porém haviam concordado que seria parte essencial do crescimento dos dois saírem do conforto da vida que possuíam juntos e encararem outras realidades. Ela em Montreal, ele em Kitee mesmo, fazendo as crianças interiores aprenderem que a vida real nem sempre trazia uma árvore com presentes no final do ano, mesmo que eles houvessem sido boas crianças.
                - Eu acho que estou começando a gostar de Montreal, de verdade - disse ela baixinho, no entanto ele não perdeu nenhuma palavra. - É mais difícil do que eu pensava, mas está tudo bem.
                Ele ficou em silêncio por um longo tempo, apenas observando o céu alaranjado por trás dos pinheiros, depois do lago. Acariciou a mão dela, continuando num gesto esquecido enquanto pensava em tudo e em nada, tentando digerir o que ouvira. Era difícil, mesmo que ele soubesse que esse dia se aproximava há meses. Respirou fundo, resignado ao ponto em que finalmente haviam chegado.
                - Eu te amo - foi a única coisa que conseguiu pensar em dizer.
                - Eu também te amo. Muito.
                Ele se levantou e lhe ofereceu a mão gentilmente. Ela a aceitou e se levantou também. Depois de se olharem por um tempo e se reconhecerem um no outro, conseguiram sorrir e se abraçaram, ainda admirando a vista daquela varanda tão segura, tão deles. E escureceu.

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