O sol começara a entrar com força no quarto, iluminando-o e o esquentando. Ele levantou para fechar as grandes cortinas que deixavam o quarto na agradável penumbra usual, e então voltou a sentar na poltrona perto das portas do pátio, ao lado da cama, e antes de voltar a mexer em seu computador, ele se perdeu por um momento, observando-a. Ela dormia de bruços e, mesmo que o quarto estivesse consideravelmente mais escuro agora, ele ainda podia perceber o quanto a pele dela estava mais clara, e os cabelos bem mais longos, quase cobrindo inteiramente as costas. Ela ressonava tranquila, de bruços, com o rosto virado para onde ele estava sentado, o rosto infantil com as linha suavizadas, os cabelos lisos bem afastados do rosto, enchendo o travesseiro dele no outro lado. Ele acendeu outro cigarro, tentando voltar a se concentrar no computador, mas agora estava inquieto. Olhou-a outra vez e se levantou, tirando o computador do colo. Havia coisas demais acontecendo para que ele pudesse ficar sentado, e ele simplesmente não podia ficar indiferente. De forma alguma.
Por muito tempo, ele sentira saudade dessa cena cotidiana, ele acordando mais cedo que ela, ela dormindo nua com os cabelos esparramados, acordando sempre meio irritada mas logo se tranquilizando. Era uma vida boa essa, onde ambos não faziam quase nada: ele trabalhava quando queria, já que tinha prazos flexíveis, ela trabalhava por puro entretenimento, também apenas quando estava inspirada. Viajavam juntos, davam festas, passavam dias sem sair do quarto, ficavam bêbados, brigavam e faziam as pazes, tudo num ritmo estranhamente bom, já que ninguém mais pareceria ser capaz de suportar a vida que eles levavam. E ela também, em algum ponto, deixou de suportar. E então, tudo que já não era nada fácil ficou ainda pior. As brigas foram piores, ela foi embora e cada um teve que se arranjar sozinho - o que eles, de fato, não tinham ideia de como fazer. Mas ela achava, tolamente, que o esqueceria indo para longe. E achava que tinha conseguido, até a última noite.
Dentro dele, haviam tantas coisas se passando que ele mal conseguia discernir o que sentia, exceto por saber que não queria que aquilo acabasse. Passara quase dois anos tentando convencê-la de que ele poderia ser um bom homem, que levava a vida normal que ela queria, ou seja, que trabalhava normalmente, que tinha um propósito, um equilíbrio, por menor que fosse - e justo agora, que ele achava que os esforços eram inúteis e estava quase desistindo, ela surgira repentinamente, olhando-o com aquela expressão que ele conhecia tão bem, de quando ela queria se mostrar indiferente, mas que nunca funcionava. Ela o assistia, fascinada, e não pôde mais fingir depois de algum tempo. Não precisaram de palavras, abraçaram-se, foram para casa, transaram incansavelmente até ser fisicamente impossível fazerem qualquer coisa a mais do que fumarem no escuro, de mãos dadas, como gostavam tanto de fazer - e naquela noite, ele próprio se entregara, dando-se por conta do quanto precisavam estar juntos, chorou sem sequer perceber, possuiu-a com tal intensidade que parecia querer tragá-la de uma vez por todas, num derradeiro gesto, mas nunca antes havia sentido que tinha todo o tempo do mundo para ela, nunca como naquela noite. E ela usava a aliança verde, a tão significativa aliança verde que ele comprara para ela, usava como se nunca houvessem estado separados.
Subitamente, ele teve uma ideia. Por que não acabar com tudo isso, agora que as coisas estavam simplesmente perfeitas? Eles haviam tido a melhor noite juntos, sem dúvida, e esse poderia ser um final perfeito para uma história tão longa e significativa. Lentamente, ele abriu a gaveta do criado-mudo e pegou sua arma, olhando-a calmamente, levantando a arma e mirando no pescoço dela. Seria um final perfeito, não? Os dois morreriam felizes e juntos, exatamente como sempre planejaram - talvez não tão exatamente, mas ainda assim, felizes e juntos, e muito mais do que isso, eles teriam acabado a vida juntos, sem ter de sofrer a perda irrecuperável um do outro.
Mas então, só por um momento, ele imaginou que, ao acordar, ela dizia que estava de volta, que ainda poderiam construir uma nova vida juntos. E essa perspectiva, por menor que fosse (e ele tinha consciência do quão pequena era), fez com que ele baixasse a arma, aproximando-se dela, tocado pela ideia de tê-la outra vez, de poder deitar naquela cama sabendo que logo ela estaria ali também, ou o simples fato de saber que ela iria com ele nas viagens de trabalho, que brigaria por ele quando necessário e, mesmo quando estivesse furiosa com ele, logo tudo estaria bem, não importando o quão errado ele estivesse. Ele guardou a arma no lugar, fechou a gaveta e voltou a se sentar, sem pegar o computador de cima da mesinha. Ao invés disso, estendeu os pés e acendeu mais um cigarro, mexendo distraidamente na aliança. Sentia-se um pouco tolo por ter deixado aquela coragem momentânea escapar, mas talvez tivesse feito a coisa certa. Sim, só talvez.
- 'Dia! - sorriu ele, repentinamente animado, notando que ela abrira os olhos. De fato, era bom vê-la acordada, viva, e talvez o desespero de vê-la morrer não fosse suportável, mesmo que ele fosse morrer junto. Ela sorriu, preguiçosa, olhando-o carinhosamente, com aquela demora saudosa que ele tanto apreciava. - Café da manhã, cigarro, banho ou almoço?
- Cigarro. Que horas são?
- 6 e 35 - disse ele, levantando-se para alcançar para ela um cigarro já aceso por ele. Ela tragou e o olhou, espantada.
- Eu não durmo tanto assim desde... Minha nossa, nem me lembro da última vez que eu dormi tanto! - os dois sorriram, enquanto ele se deitava outra vez ao lado dela, espichando o braço para que ela deitasse. Ela se acomodou nele, fumando e olhando preguiçosamente a fumaça subir, parecendo pensativa. Ele estava estranhamente consciente de que tinha a sua esposa, completamente nua, em seus braços depois de muito tempo longe. Tinha vontade de tirar as boxers e partir para cima dela antes que fosse tarde demais, mas ele também sabia dar tempo ao tempo. Por mais difícil que isso fosse, às vezes.
- Eu dormi por quase doze horas e ainda estou com preguiça de levantar e ir tomar banho - ela riu, beijando-o no maxilar. - Acho que uma noite foi suficiente para voltar aos antigos hábitos - sussurrou ela, e ele percebeu o significado bem maior do que ela pretendera deixar transparecer.
- Suas roupas estão no lugar habitual, tudo normal - disse ele, dando uma tragada profunda. Era constrangedor, mas pela primeira vez na vida não sabiam como agir, justo depois de tanto tempo juntos, simplesmente não sabiam o que fazer naquele momento. Aquele era o homem que a conhecia desde que nascera, que a vira crescer e casara com ela quando ela não passava de uma criança... Haviam tantas coisas significativas sobre ambos que o silêncio só podia estar antecedendo uma explosão, fosse ela boa ou ruim. Na cabeça dela ficara ecoando "Tudo normal", porque apesar de ter sido ela a ir embora, sempre temera profundamente tê-lo perdido. Levantou-se de súbito, indo com decisão para o banheiro, não sabendo se queria ou não que ele a acompanhasse, mas ficando certamente aliviada ao perceber que ele permanecera deitado. Precisava respirar um pouco, digerir nem que fosse uma parcela de tudo que havia acontecido. Porque mesmo que ela tivesse planejado encontrá-lo, apreciando seu trabalho, jamais pensou que isso iria tão longe, que sequer iria conversar com ele. Mas a coisa fora longe demais. Longe - e profunda demais, sem dúvida alguma.
Ele gostava de ouvir o barulho do chuveiro. Havia muito tempo, tanto que nem se recordava da última vez que estivera assim, deitado na cama ouvindo o barulho da água enquanto ela tomava banho ou ouvindo seus passos pelo quarto enquanto se arrumava. Repentinamente, sentiu uma súbita esperança: e se tentasse convencê-la de que poderiam tentar uma nova vida? Agora, ele possuía todos os argumentos e as provas de que mudara, de que seriam pessoas diferentes agora, que ela poderia fazer tudo o que quisesse mesmo estando com ele, naquele lugar que "a tornava inútil", na concepção dela, simplesmente porque ela passava tanto tempo envolvida com ele que não tinha tempo de dedicar 85% de seu dia ao trabalho. Se precisasse, ele iria apelar para o fato de ser bem mais velho que ela e dizer, provavelmente fazendo-a ficar brava e emocionada ao mesmo tempo, que ele morreria logo, então ele só estava pedindo mais uns anos ao seu lado, e depois ela podia passar 100% de seu tempo trabalhando, como bem entendesse. Os 31 anos de diferença podiam pesar a favor dele agora, mas ele esperava não precisar disso. Estava tão concentrado trabalhando em sua própria defesa que nem percebeu quando ela saiu do banheiro, indo procurar uma toalha no closet.
- Bom, eu acho que é inevitável dizer que a gente precisa conversar...
Ela parou o que estava fazendo para olhá-lo. Ele havia se levantado e estava parado ao seu lado, olhando-a sério. Todas as vezes em que ela voltara para casa depois que havia ido morar na Noruega eles não haviam conversado: ela vinha, eles farreavam por uma noite e tudo ficava bem, ele nem percebia quando ela saía de manhã para pegar o primeiro avião para Oslo, geralmente no dia do aniversário dele. Mas, mesmo não querendo, ela sabia que ele estava certo. Era indispensável que conversassem, porque dessa vez, havia sido tudo menos diversão o que havia acontecido. Qualquer coisa, menos isso.
- Eu acho que...
- Eu espero que você tenha notado, mas mesmo que não tenha, eu mudei nos últimos dois anos - ele a olhava como não fazia há muitos anos, talvez como não fazia desde quando ainda não eram casados. - Eu foquei no trabalho, tentei ser menos orgulhoso, dediquei-me a estruturar coisas, a ser uma pessoa melhor... De maneira geral, eu tentei ter uma vida normal, o mais normal que eu posso chegar - ele respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos ruivos que iam rareando aos poucos, mas que ainda eram compridos. - E eu, obviamente, não fiz isso por ter estado melhor desde que você se foi. Eu fiz isso porque você foi embora dizendo que tinha que "tomar jeito" - ele fez as aspas no ar, exasperado - e que simplesmente não podia continuar vivendo aqui se quisesse isso. Pois bem, eu "tomei jeito", e foi para mostrar para você que a gente pode fazer isso, que diabos! Você não precisava ir para aquela merda daquele país nórdico e se envolver com aquela bichinha loira que...
- Ei, calma aí! - ela foi perdendo a paciência junto com ele. - Depois que você concluiu seu projeto antigo, você simplesmente achou que não tinha mais nada para fazer e não fazia nada! Eu perdia todo o meu tempo tentando te mostrar que você...
- Eu ia voltar a trabalhar!
- Eu só queria que você voltasse porque isso te faz feliz! - ela já sentia as lágrimas encherem os seus olhos, nunca soubera ficar furiosa com ele sem sentir uma imensa tristeza ao mesmo tempo. - Nós sempre tivemos dinheiro e tudo o que queríamos, você sabe bem que eu só queria...
- Não interessa, não interessa - disse ele baixo, fechando os olhos e massageando as têmporas, acalmando-se com um autocontrole que a deixou estupefata. Era ele quem gritava e fazia as tempestades, que subitamente invadia o quarto convencido de que havia milhões de motivos para discutirem por uma noite inteira. Ela ficou ali, completamente surpreendida pela súbita imagem dele se acalmando ali, sozinho. Esperou em silêncio ele continuar. Ele levantou os olhos, encarando-a profundamente, medindo as palavras. Por fim, continuou:
- Se formos pensar em todas as razões para tudo o que já aconteceu, ficaremos gritando aqui noite adentro - disse ele, claramente cansado. Passou a mão pelo cavanhaque, pensativo. - Eu sei que você me apoiou na fase mais difícil da minha vida e eu te devo muito por isso, mas não acho que isso sirva de justificativa para me abandonar quando...
- Você não me deve nada - disse ela, olhando para o chão. - Você também esteve comigo na fase mais difícil da minha vida, e mesmo que não tivesse estado, não importaria. Eu ainda te amo, e isso vai continuar sendo o suficiente para que você me tenha sempre que prec...
- Não minta para mim, mulher! - disse ele, já quase gritando outra vez, quase perdendo o controle. - Quando você achou que era "a hora de mudar de vida", você simplesmente foi embora, sem sequer me perguntar se eu estava bem ou mal! Quando eu me dei por conta você estava indo cada vez mais frequentemente para a Noruega, e eu sabia o que estava acontecendo, você estava mudando e...
- Você nunca disse que precisava...
- E desde quando eu preciso te dizer alguma coisa hein? Desde quando eu preciso abrir a minha boca para dizer que você não pode sair daqui? Isso é mais do que uma desculpa esf...
- Escuta aqui! - gritou ela, subitamente fora de si. - Eu estive sim com você, quando você perdeu todos os seus amigos e perdeu seu emprego, briguei por você com meus amigos e até no tribunal, lutei e acreditei em você o tempo todo, e sim, eu costumava saber exatamente o que você precisava. Mas você já parou para pensar no que eu precisava? Nem eu sabia mais! Você me tomava por inteiro e...
- E que merda mulher, para que foi que nos casamos se não foi para isso? POR QUE DIABOS VOCÊ DISSE QUE QUERIA SE CASAR E ME FEZ IR ATÉ A INGLATERRA CONSEGUIR UMA MERDA DE UMA PERMISSÃO PARA CASAR COM UMA GAROTINHA DE 16 ANOS SE VOCÊ NÃO QUERIA ESTAR COMIGO?
- VOCÊ SABE BEM QUE NÃO É BEM ASSIM!
- ENTÃO EXPLIQUE-SE!
- Você estava me destruindo - disse ela, simplesmente, dando de ombros. - Você estava acabando comigo, literalmente. Tudo o que enchia a minha mente era como eu iria fazer para evitar que você sofresse o mínimo possível e não brigasse comigo...
- Eu não brigava com você - falou ele, num tom baixo mas ainda assim furioso.
- Brigava, sim. E adorava implicar com tudo o que eu fazia, desconfiar...
- Ah sim - ele riu debochadamente. - Você vai ver um apartamento com os meus ex melhores amigos e volta só uma semana depois, e quer que eu pense o quê? Que vocês estavam limpando o lugar? Pelo amor de Deus!
- Eu também errei, inúmeras vezes, mas não importa - retomou ela, com firmeza. - Você tinha as suas putas e tudo ficava bem, não é mesmo? Eu nunca me importei com isso, mas eu não podia respirar para...
- Se você tivesse dito uma vez, uma vez que se importava, eu não teria trepado com nenhuma delas! - explodiu ele, desarmando-se. - Eu não costumava nem olhar para outras mulheres quando começamos, quando você dizia claramente que sentia ciúmes?
- Eu queria ser madura...
- E eu queria ter você! Será que isso era pedir demais, depois de... deixa eu ver, 14 anos de casamento? Eu estava enlouquecendo, você não se importava com nada do que eu fazia e continuava saindo com esses seus amigos músicos que...
- Eu queria ser uma pessoa melhor!
- Então para você esse casamento foi uma merda? A maior merda que você fez em toda a sua vida? Vamos, pode admitir! - gritou ele, intensamente vermelho de raiva. - Eu dando o meu sangue...
- Você foi a melhor coisa...
- NÃO SE ATREVA! - berrou ele, aproximando-se ameaçadoramente dela, segurando-se para não a puxar pelos cabelos para perto de si. - Não-minta-para-mim! - ele quase cuspiu as palavras, e ela avançou para ele, segurando o seu rosto, entre furiosa e desesperada.
- VOCÊ-FOI-A-MELHOR-COISA-NA-MINHA-VIDA! - gritou ela. - Eu nunca mentiria sobre isso.
Num movimento rápido, ele correu até o criado mudo e pegou a arma, voltando e a apontado para o peito nu dela, por onde ainda escorriam pingos d'água. Agora ele podia ver na pele dela manchas vermelhas por toda parte, manchas dele, que a pele tornada mais clara e mais sensível pelo clima frio agora sentia mais profundamente, era machucada mais facilmente. Ela abriu os braços, olhando-o conformada.
- Atire então - disse ela, de um fôlego só. - Atire. Seria um final justo para o nosso casamento, nada muito distante do que todos já imaginaram. Atire. Eu não queria morrer longe de você mesmo - as lágrimas começaram as escorrer pelo rosto dela, e num impulso, ele largou a arma e a pegou no colo, explodindo enfim, deixando-se destruir por tudo que o sufocara por tanto tempo. Ela se abraçou nele, chorando desesperadamente, sentindo em seu rosto a sua pulsação, com uma felicidade completamente absurda por sentir aquelas mãos fortes segurando seus cabelos e seu corpo, ouvindo-o chorar sinceramente como jamais nenhum dos dois havia chorado. Deixaram-se esvair então, perdendo-se um no outro, até que o momento se perdesse, o momento pelo qual aqueles quase 16 anos de casamento parecia ter existido. E depois - bem, depois, era complicado, como sempre fora. Mas então tudo seria mais claro, nunca mais fácil, mas mais claro. E isso bastava.