sábado, 15 de outubro de 2011

Conchas


Não era nem seis da manhã ainda, mas era bom acordar cedo assim, agora era bom. Ele se acordara e chamara a mulher, que acordou sem hesitar, mesmo odiando acordar cedo. Arrumaram as coisas, o filho ainda dormindo no colo dela, puseram-se a andar em direção à praia, que ficava no fim da rua onde moravam. Gostavam muito de vir ali àquela hora; ninguém mais vinha, o silêncio e a paz eram inacreditáveis, quase como se a cidade inteira estivesse no mais profundo sono. Ele observava o filho dormindo, o rostinho arrendondado repousando no ombro da mãe, igualzinho ao menino de suas fotos da infância, a não ser pelas sardas que herdara da mãe. Passou um braço pelos ombros dela que não estranhou, afinal, depois de tanto tempo juntos ela já até gostava de ele ser carinhoso assim. Os cabelos dela eram algo que ele jamais iria esquecer, o toque frágil daqueles fios lisos e fininhos que lhe davam um ar de menina, mesmo que os dois já não fossem tão jovens assim.
Como sempre, o barulho do mar acordou o menino, que já abriu os olhos alegre, descendo do colo da mãe e correndo para a água. Ela correu atrás dele para brincarem na água como sempre faziam, esqueciam-se de qualquer outra coisa por horas, mas hoje ele não queria brincar (como acontecia às vezes), queria apenas olhá-los brincando. Sentou-se na areia, acomodando suas coisas por perto e finalmente se perdendo na contemplação não só do mar, mas de tudo aquilo que iria perder. Ali no mar ela era livre; ria, brincava e se soltava como em nenhuma outra circunstância. Ele a observava caminhar com o filho nos ombros, pulando ondas, fazendo o menino rir e a beijar na bochecha com aquele carinho que só os filhos queridos sabem ter. Ela era quinze anos mais nova, mas nenhum dos dois se lembrava disso nunca. Ele a conhecera aos poucos, aproximando-se devagar, percebendo aos poucos seus contornos, seus traços finos e evanescentes. Depois de ter trabalhado e estudado tanto, a única coisa que ele não havia conseguido era formar uma família, ter uma amiga que também fosse seu amor, como ele sempre quis que fosse. Então, despropositadamente, tornou-se amigo dela, descobrindo aos poucos que talvez seus projetos não fossem assim tão tolos. Ela queria crescer, ser melhor, e se entregar àquela vida que ele queria fazia parte do crescimento dela, portanto se casaram, muito menos pelas razões racionais do que eles gostariam.
Os anos se passaram muito rápido. Num momento, ela tinha dezessete anos e se encantava pelas teorias dele, no instante seguinte estavam ali, há anos juntos, e nesses anos tendo acumulado tanta experiência em lidar, em viver um com o outro, que já não precisavam de muita coisa para se entender. Dia após dia, através de gestos simples e madrugadas intermináveis de conversa, eles se apreenderam, tiveram um menino sem planejar, exatamente como deveria ser. “Estou grávida” – e eles simplesmente já sabiam como agir, acima do medo e do turbilhão de expectativas que essa ideia lhes causava. Era simples, estariam juntos criando um filho deles próprios, parecia assustador mas no fundo uma paz sempre reinava. Tendo um ao outro,  haviam passado por inúmeras situações difíceis e as controlado perfeitamente, então por que não seria assim? Mas sabiam que, em algum momento, isso acabaria. O inevitável sempre chegava, e chegou cedo demais para eles.
Sem poder evitar um choro silencioso, ele agradecia mentalmente não só por eles não poderem vê-lo chorando, mas também por tê-los, por ter vivido tudo o que vivera. Nunca havia pensando na morte até ela se apresentar como uma questão de tempo – mas pouco tempo. Não queria dizer para eles, não queria se tratar se sabia que de nada adiantaria e só assustaria aqueles pedaços dele que ele teria que deixar para trás. Queria morrer ali na praia mesmo, ou na cama, dormindo abraçado nos dois como às vezes faziam, a luz matinal invadindo o quarto tão íntimo, tão próprio deles. Seria fácil e limpo, e ele acreditava profundamente que tudo daria certo sem ele por perto também.
- Vem para a água, papai! – gritou o menino, correndo alegre e encharcado para pular no colo do pai. – ‘Tá gelaaaaaaaaada!
O menino tremeu, rindo, enroscando-se na toalha que o pai lhe estendia. Por um momento, ele ficou olhando aquele menino tão simples, tão dele, e quis protegê-lo até mesmo da água fria, de qualquer dano que pudesse lhe ocorrer. Beijou o filho, oferecendo-lhe colo e sanduíches, tentando acreditar que ainda o veria crescer trocando a guitarra de brincadeira por uma verdade, deixando o cabelo crescer, lendo os livros da estante dos pais, como se o tempo dele fosse o mesmo que o dos outros. Sua mulher vinha saindo da água satisfeita, como sempre saía de um banho de mar. Fechou os olhos, guardando na retina a imagem dela no mar e o som do filho contando-lhe os hábitos alimentares dos cavalos marinhos. Ele havia conquistado inúmeras coisas, mas era só isso que queria levar consigo. Só.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mikrokosmos XXIX


Despreocupadamente, ela entrou na casa lotada. O som era alto, mas as pessoas estavam no mais absoluto silêncio. Ouviu acordes estranhos, como se a música houvesse sido composta num instrumento diferente, inexistente e marítimo. Ela podia sentir e ouvir claramente o barulho das ondas, o vento forte batendo em seu corpo inteiro, a noite azul fazendo com que não desse para distinguir o fim do oceano e o começo do céu. Fechando os olhos, ela se entregou completamente à música, deixando que a maresia tomasse conta dela, surpreendendo-a com lugares que ela sequer lembrava que existiam, vendo uma menina encarando profundamente o mar. 
E então a música acabou. Mas ela precisava de mais, muito mais daquilo, daquela sensação de infinitude.
Com dificuldade, esgueirou-se através da multidão, tentando chegar mais perto do palco, e estava se aproximando quando outra canção começou, diferente mas com a mesma essência oceânica, fazendo com que ela se movesse ainda mais rápido, desejando profundamente chegar à fonte dessa miríade de acordes e ondas. Olhou avidamente para o palco assim que o alcançou. Um baterista excepcionalmente habilidoso, uma vocalista impressionantemente bela, um baixista mítico e um guitarrista muito bonito, com cara de criança, todos em perfeita harmonia, claramente bons amigos até mesmo fora dos palcos.
Mas não era deles que emanava o oceano dos acordes. Não. Eles apenas a executavam, ainda que perfeitamente bem, apenas faziam isso. O que havia de realmente fantástico e misterioso nas músicas vinha de uma única pessoa, postada à esquerda do palco; era desnecessário que lhe dissessem isso, ela simplesmente sabia. Uma figura alta, de longos cabelos negros e crespos tocava piano como ela jamais havia visto, sequer imaginado em toda a sua vida. Um homem com uma máscara completamente branca, que só deixava entrever belos olhos azul-acinzentados. Talvez fosse a máscara tão branca quanto o paletó, talvez as luzes ou a forma como ele tocava se entregando à música, ela jamais saberia, mas algo fez com que ela ficasse o resto da noite ali, olhando-o paralisada. Quando tudo acabou, ele se curvou numa reverência, agradecido, e percebeu o olhar dela ao se levantar, um momento antes de sair também. Desconcertado, ele saiu do palco com os outros músicos, enquanto ela permanecia ali, tentando digerir tudo o que vira e ouvira; tudo que aquelas composições haviam lhe trazido. Apesar de estar relativamente longe do mar, as ondas ecoavam em sua mente, furiosas, enquanto o lugar se esvaziava e ela permanecia, completamente perdida em si mesma e no que havia da música que a atingira.
Depois de muito ou muito pouco tempo, ela se deu por conta que tinha de sair dali. Foi quando uma mão branca cortou o seu caminho, estendendo-se para ela, que levantou a cabeça. Impressionantes olhos cinzentos a encaravam de volta gravemente, com uma pergunta indecifrável.
Ela começou a caminhar rapidamente sem pegar a mão, adiantando-se para a saída. Parou ao ouvir passos atrás de si. Sua mente estava completamente bloqueada e ela não tinha a mínima noção do que estava fazendo; só naquele momento percebeu o quanto sua respiração estava difícil e seu corpo estava tenso, dolorido. Os passos pararam quase que no mesmo instante em que ela. Lentamente, ela tentou respirar normalmente e se virar para o rosto mascarado, mas não conseguiu. Ao invés disso, saiu sem saber onde ia, avançando cada vez mais depressa, enquanto um desespero crescia rapidamente dentro dela, ameaçando tomá-la por inteiro.
Quando sentiu as ondas batendo em seus pés sobressaltou-se; não percebera estar se dirigindo ao mar, por mais que isso fosse absolutamente natural. Escalou as pedras então, subindo o caminho conhecido para o seu lugar favorito na pedra mais alta. E então, tudo desabou sobre ela. Por um momento, ela encarou profundamente o mar revolto, tomando coragem, enchendo-se da fúria, da vida dele, até saber ser o momento de olhar a outra alma oceânica. Virou-se então, percebendo o mascarado observá-la quase da mesma forma que ela fizera com ele, porém mais encantado. Permitiu-se então se perder na imensidão dos olhos profundos e tristes, significativos. Num movimento delicado, porém preciso, ela lhe tirou a máscara cuidadosamente, revelando o que ela sempre soubera. Há três anos não o via, mas muita coisa havia mudado desde então, coisas demais para um espaço tão curto de tempo. Mas isso era bom, imensamente bom. Era tudo o que precisavam - e apesar de todas as mudanças, eram os mesmos, e isso era tudo.
As ondas, os olhos cinzentos, o vento. O fim ou o começo de tudo?

(Escrito em 05/10/11 - 07:59 p.m.)

"In my dreams you're mine to keep"

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Distant Sun

O sol começara a entrar com força no quarto, iluminando-o e o esquentando. Ele levantou para fechar as grandes cortinas que deixavam o quarto na agradável penumbra usual, e então voltou a sentar na poltrona perto das portas do pátio, ao lado da cama, e antes de voltar a mexer em seu computador, ele se perdeu por um momento, observando-a. Ela dormia de bruços e, mesmo que o quarto estivesse consideravelmente mais escuro agora, ele ainda podia perceber o quanto a pele dela estava mais clara, e os cabelos bem mais longos, quase cobrindo inteiramente as costas. Ela ressonava tranquila, de bruços, com o rosto virado para onde ele estava sentado, o rosto infantil com as linha suavizadas, os cabelos lisos bem afastados do rosto, enchendo o travesseiro dele no outro lado. Ele acendeu outro cigarro, tentando voltar a se concentrar no computador, mas agora estava inquieto. Olhou-a outra vez e se levantou, tirando o computador do colo. Havia coisas demais acontecendo para que ele pudesse ficar sentado, e ele simplesmente não podia ficar indiferente. De forma alguma.
Por muito tempo, ele sentira saudade dessa cena cotidiana, ele acordando mais cedo que ela, ela dormindo nua com os cabelos esparramados, acordando sempre meio irritada mas logo se tranquilizando. Era uma vida boa essa, onde ambos não faziam quase nada: ele trabalhava quando queria, já que tinha prazos flexíveis, ela trabalhava por puro entretenimento, também apenas quando estava inspirada. Viajavam juntos, davam festas, passavam dias sem sair do quarto, ficavam bêbados, brigavam e faziam as pazes, tudo num ritmo estranhamente bom, já que ninguém mais pareceria ser capaz de suportar a vida que eles levavam. E ela também, em algum ponto, deixou de suportar. E então, tudo que já não era nada fácil ficou ainda pior. As brigas foram piores, ela foi embora e cada um teve que se arranjar sozinho - o que eles, de fato, não tinham ideia de como fazer. Mas ela achava, tolamente, que o esqueceria indo para longe. E achava que tinha conseguido, até a última noite.
Dentro dele, haviam tantas coisas se passando que ele mal conseguia discernir o que sentia, exceto por saber que não queria que aquilo acabasse. Passara quase dois anos tentando convencê-la de que ele poderia ser um bom homem, que levava a vida normal que ela queria, ou seja, que trabalhava normalmente, que tinha um propósito, um equilíbrio, por menor que fosse - e justo agora, que ele achava que os esforços eram inúteis e estava quase desistindo, ela surgira repentinamente, olhando-o com aquela expressão que ele conhecia tão bem, de quando ela queria se mostrar indiferente, mas que nunca funcionava. Ela o assistia, fascinada, e não pôde mais fingir depois de algum tempo. Não precisaram de palavras, abraçaram-se, foram para casa, transaram incansavelmente até ser fisicamente impossível fazerem qualquer coisa a mais do que fumarem no escuro, de mãos dadas, como gostavam tanto de fazer - e naquela noite, ele próprio se entregara, dando-se por conta do quanto precisavam estar juntos, chorou sem sequer perceber, possuiu-a com tal intensidade que parecia querer tragá-la de uma vez por todas, num derradeiro gesto, mas nunca antes havia sentido que tinha todo o tempo do mundo para ela, nunca como naquela noite. E ela usava a aliança verde, a tão significativa aliança verde que ele comprara para ela, usava como se nunca houvessem estado separados.
Subitamente, ele teve uma ideia. Por que não acabar com tudo isso, agora que as coisas estavam simplesmente perfeitas? Eles haviam tido a melhor noite juntos, sem dúvida, e esse poderia ser um final perfeito para uma história tão longa e significativa. Lentamente, ele abriu a gaveta do criado-mudo e pegou sua arma, olhando-a calmamente, levantando a arma e mirando no pescoço dela. Seria um final perfeito, não? Os dois morreriam felizes e juntos, exatamente como sempre planejaram - talvez não tão exatamente, mas ainda assim, felizes e juntos, e muito mais do que isso, eles teriam acabado a vida juntos, sem ter de sofrer a perda irrecuperável um do outro.
Mas então, só por um momento, ele imaginou que, ao acordar, ela dizia que estava de volta, que ainda poderiam construir uma nova vida juntos. E essa perspectiva, por menor que fosse (e ele tinha consciência do quão pequena era), fez com que ele baixasse a arma, aproximando-se dela, tocado pela ideia de tê-la outra vez, de poder deitar naquela cama sabendo que logo ela estaria ali também, ou o simples fato de saber que ela iria com ele nas viagens de trabalho, que brigaria por ele quando necessário e, mesmo quando estivesse furiosa com ele, logo tudo estaria bem, não importando o quão errado ele estivesse. Ele guardou a arma no lugar, fechou a gaveta e voltou a se sentar, sem pegar o computador de cima da mesinha. Ao invés disso, estendeu os pés e acendeu mais um cigarro, mexendo distraidamente na aliança. Sentia-se um pouco tolo por ter deixado aquela coragem momentânea escapar, mas talvez tivesse feito a coisa certa. Sim, só talvez.
- 'Dia! - sorriu ele, repentinamente animado, notando que ela abrira os olhos. De fato, era bom vê-la acordada, viva, e talvez o desespero de vê-la morrer não fosse suportável, mesmo que ele fosse morrer junto. Ela sorriu, preguiçosa, olhando-o carinhosamente, com aquela demora saudosa que ele tanto apreciava. - Café da manhã, cigarro, banho ou almoço?
- Cigarro. Que horas são?
- 6 e 35 - disse ele, levantando-se para alcançar para ela um cigarro já aceso por ele. Ela tragou e o olhou, espantada.
- Eu não durmo tanto assim desde... Minha nossa, nem me lembro da última vez que eu dormi tanto! - os dois sorriram, enquanto ele se deitava outra vez ao lado dela, espichando o braço para que ela deitasse. Ela se acomodou nele, fumando e olhando preguiçosamente a fumaça subir, parecendo pensativa. Ele estava estranhamente consciente de que tinha a sua esposa, completamente nua, em seus braços depois de muito tempo longe. Tinha vontade de tirar as boxers e partir para cima dela antes que fosse tarde demais, mas ele também sabia dar tempo ao tempo. Por mais difícil que isso fosse, às vezes.
- Eu dormi por quase doze horas e ainda estou com preguiça de levantar e ir tomar banho - ela riu, beijando-o no maxilar. - Acho que uma noite foi suficiente para voltar aos antigos hábitos - sussurrou ela, e ele percebeu o significado bem maior do que ela pretendera deixar transparecer.
- Suas roupas estão no lugar habitual, tudo normal - disse ele, dando uma tragada profunda. Era constrangedor, mas pela primeira vez na vida não sabiam como agir, justo depois de tanto tempo juntos, simplesmente não sabiam o que fazer naquele momento. Aquele era o homem que a conhecia desde que nascera, que a vira crescer e casara com ela quando ela não passava de uma criança... Haviam tantas coisas significativas sobre ambos que o silêncio só podia estar antecedendo uma explosão, fosse ela boa ou ruim. Na cabeça dela ficara ecoando "Tudo normal", porque apesar de ter sido ela a ir embora, sempre temera profundamente tê-lo perdido. Levantou-se de súbito, indo com decisão para o banheiro, não sabendo se queria ou não que ele a acompanhasse, mas ficando certamente aliviada ao perceber que ele permanecera deitado. Precisava respirar um pouco, digerir nem que fosse uma parcela de tudo que havia acontecido. Porque mesmo que ela tivesse planejado encontrá-lo, apreciando seu trabalho, jamais pensou que isso iria tão longe, que sequer iria conversar com ele. Mas a coisa fora longe demais. Longe - e profunda demais, sem dúvida alguma.
Ele gostava de ouvir o barulho do chuveiro. Havia muito tempo, tanto que nem se recordava da última vez que estivera assim, deitado na cama ouvindo o barulho da água enquanto ela tomava banho ou ouvindo seus passos pelo quarto enquanto se arrumava. Repentinamente, sentiu uma súbita esperança: e se tentasse convencê-la de que poderiam tentar uma nova vida? Agora, ele possuía todos os argumentos e as provas de que mudara, de que seriam pessoas diferentes agora, que ela poderia fazer tudo o que quisesse mesmo estando com ele, naquele lugar que "a tornava inútil", na concepção dela, simplesmente porque ela passava tanto tempo envolvida com ele que não tinha tempo de dedicar 85% de seu dia ao trabalho. Se precisasse, ele iria apelar para o fato de ser bem mais velho que ela e dizer, provavelmente fazendo-a ficar brava e emocionada ao mesmo tempo, que ele morreria logo, então ele só estava pedindo mais uns anos ao seu lado, e depois ela podia passar 100% de seu tempo trabalhando, como bem entendesse. Os 31 anos de diferença podiam pesar a favor dele agora, mas ele esperava não precisar disso. Estava tão concentrado trabalhando em sua própria defesa que nem percebeu quando ela saiu do banheiro, indo procurar uma toalha no closet.
- Bom, eu acho que é inevitável dizer que a gente precisa conversar...
Ela parou o que estava fazendo para olhá-lo. Ele havia se levantado e estava parado ao seu lado, olhando-a sério. Todas as vezes em que ela voltara para casa depois que havia ido morar na Noruega eles não haviam conversado: ela vinha, eles farreavam por uma noite e tudo ficava bem, ele nem percebia quando ela saía de manhã para pegar o primeiro avião para Oslo, geralmente no dia do aniversário dele. Mas, mesmo não querendo, ela sabia que ele estava certo. Era indispensável que conversassem, porque dessa vez, havia sido tudo menos diversão o que havia acontecido. Qualquer coisa, menos isso.
- Eu acho que...
- Eu espero que você tenha notado, mas mesmo que não tenha, eu mudei nos últimos dois anos - ele a olhava como não fazia há muitos anos, talvez como não fazia desde quando ainda não eram casados. - Eu foquei no trabalho, tentei ser menos orgulhoso, dediquei-me a estruturar coisas, a ser uma pessoa melhor... De maneira geral, eu tentei ter uma vida normal, o mais normal que eu posso chegar - ele respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos ruivos que iam rareando aos poucos, mas que ainda eram compridos. - E eu, obviamente, não fiz isso por ter estado melhor desde que você se foi. Eu fiz isso porque você foi embora dizendo que tinha que "tomar jeito" - ele fez as aspas no ar, exasperado - e que simplesmente não podia continuar vivendo aqui se quisesse isso. Pois bem, eu "tomei jeito", e foi para mostrar para você que a gente pode fazer isso, que diabos! Você não precisava ir para aquela merda daquele país nórdico e se envolver com aquela bichinha loira que...
- Ei, calma aí! - ela foi perdendo a paciência junto com ele. - Depois que você concluiu seu projeto antigo, você simplesmente achou que não tinha mais nada para fazer e não fazia nada! Eu perdia todo o meu tempo tentando te mostrar que você...
- Eu ia voltar a trabalhar!
- Eu só queria que você voltasse porque isso te faz feliz! - ela já sentia as lágrimas encherem os seus olhos, nunca soubera ficar furiosa com ele sem sentir uma imensa tristeza ao mesmo tempo. - Nós sempre tivemos dinheiro e tudo o que queríamos, você sabe bem que eu só queria...
- Não interessa, não interessa - disse ele baixo, fechando os olhos e massageando as têmporas, acalmando-se com um autocontrole que a deixou estupefata. Era ele quem gritava e fazia as tempestades, que subitamente invadia o quarto convencido de que havia milhões de motivos para discutirem por uma noite inteira. Ela ficou ali, completamente surpreendida pela súbita imagem dele se acalmando ali, sozinho. Esperou em silêncio ele continuar. Ele levantou os olhos, encarando-a profundamente, medindo as palavras. Por fim, continuou:
- Se formos pensar em todas as razões para tudo o que já aconteceu, ficaremos gritando aqui noite adentro - disse ele, claramente cansado. Passou a mão pelo cavanhaque, pensativo. - Eu sei que você me apoiou na fase mais difícil da minha vida e eu te devo muito por isso, mas não acho que isso sirva de justificativa para me abandonar quando...
- Você não me deve nada - disse ela, olhando para o chão. - Você também esteve comigo na fase mais difícil da minha vida, e mesmo que não tivesse estado, não importaria. Eu ainda te amo, e isso vai continuar sendo o suficiente para que você me tenha sempre que prec...
- Não minta para mim, mulher! - disse ele, já quase gritando outra vez, quase perdendo o controle. - Quando você achou que era "a hora de mudar de vida", você simplesmente foi embora, sem sequer me perguntar se eu estava bem ou mal! Quando eu me dei por conta você estava indo cada vez mais frequentemente para a Noruega, e eu sabia o que estava acontecendo, você estava mudando e...
- Você nunca disse que precisava...
- E desde quando eu preciso te dizer alguma coisa hein? Desde quando eu preciso abrir a minha boca para dizer que você não pode sair daqui? Isso é mais do que uma desculpa esf...
- Escuta aqui! - gritou ela, subitamente fora de si. - Eu estive sim com você, quando você perdeu todos os seus amigos e perdeu seu emprego, briguei por você com meus amigos e até no tribunal, lutei e acreditei em você o tempo todo, e sim, eu costumava saber exatamente o que você precisava. Mas você já parou para pensar no que eu precisava? Nem eu sabia mais! Você me tomava por inteiro e...
- E que merda mulher, para que foi que nos casamos se não foi para isso? POR QUE DIABOS VOCÊ DISSE QUE QUERIA SE CASAR E ME FEZ IR ATÉ A INGLATERRA CONSEGUIR UMA MERDA DE UMA PERMISSÃO PARA CASAR COM UMA GAROTINHA DE 16 ANOS SE VOCÊ NÃO QUERIA ESTAR COMIGO?
- VOCÊ SABE BEM QUE NÃO É BEM ASSIM!
- ENTÃO EXPLIQUE-SE!
- Você estava me destruindo - disse ela, simplesmente, dando de ombros. - Você estava acabando comigo, literalmente. Tudo o que enchia a minha mente era como eu iria fazer para evitar que você sofresse o mínimo possível e não brigasse comigo...
- Eu não brigava com você - falou ele, num tom baixo mas ainda assim furioso.
- Brigava, sim. E adorava implicar com tudo o que eu fazia, desconfiar...
- Ah sim - ele riu debochadamente. - Você vai ver um apartamento com os meus ex melhores amigos e volta só uma semana depois, e quer que eu pense o quê? Que vocês estavam limpando o lugar? Pelo amor de Deus!
- Eu também errei, inúmeras vezes, mas não importa - retomou ela, com firmeza. - Você tinha as suas putas e tudo ficava bem, não é mesmo? Eu nunca me importei com isso, mas eu não podia respirar para...
- Se você tivesse dito uma vez, uma vez que se importava, eu não teria trepado com nenhuma delas! - explodiu ele, desarmando-se. - Eu não costumava nem olhar para outras mulheres quando começamos, quando você dizia claramente que sentia ciúmes?
- Eu queria ser madura...
- E eu queria ter você! Será que isso era pedir demais, depois de... deixa eu ver, 14 anos de casamento? Eu estava enlouquecendo, você não se importava com nada do que eu fazia e continuava saindo com esses seus amigos músicos que...
- Eu queria ser uma pessoa melhor!
- Então para você esse casamento foi uma merda? A maior merda que você fez em toda a sua vida? Vamos, pode admitir! - gritou ele, intensamente vermelho de raiva. - Eu dando o meu sangue...
- Você foi a melhor coisa...
- NÃO SE ATREVA! - berrou ele, aproximando-se ameaçadoramente dela, segurando-se para não a puxar pelos cabelos para perto de si. - Não-minta-para-mim! - ele quase cuspiu as palavras, e ela avançou para ele, segurando o seu rosto, entre furiosa e desesperada.
- VOCÊ-FOI-A-MELHOR-COISA-NA-MINHA-VIDA! - gritou ela. - Eu nunca mentiria sobre isso.
Num movimento rápido, ele correu até o criado mudo e pegou a arma, voltando e a apontado para o peito nu dela, por onde ainda escorriam pingos d'água. Agora ele podia ver na pele dela manchas vermelhas por toda parte, manchas dele, que a pele tornada mais clara e mais sensível pelo clima frio agora sentia mais profundamente, era machucada mais facilmente. Ela abriu os braços, olhando-o conformada.
- Atire então - disse ela, de um fôlego só. - Atire. Seria um final justo para o nosso casamento, nada muito distante do que todos já imaginaram. Atire. Eu não queria morrer longe de você mesmo - as lágrimas começaram as escorrer pelo rosto dela, e num impulso, ele largou a arma e a pegou no colo, explodindo enfim, deixando-se destruir por tudo que o sufocara por tanto tempo. Ela se abraçou nele, chorando desesperadamente, sentindo em seu rosto a sua pulsação, com uma felicidade completamente absurda por sentir aquelas mãos fortes segurando seus cabelos e seu corpo, ouvindo-o chorar sinceramente como jamais nenhum dos dois havia chorado. Deixaram-se esvair então, perdendo-se um no outro, até que o momento se perdesse, o momento pelo qual aqueles quase 16 anos de casamento parecia ter existido. E depois - bem, depois, era complicado, como sempre fora. Mas então tudo seria mais claro, nunca mais fácil, mas mais claro. E isso bastava.

domingo, 2 de outubro de 2011

Mikrokosmos XXVIII

Mesmo que ainda faltasse mais de mês para o Natal, com toda aquela neve era difícil não pensar sobre as festas de fim de ano. Ele não deveria estar contente, mas sentia-se mais seguro e o frio só ajudava. Aquele vilarejo parecia, de fato, um cartão de Natal, o que o colocava na atmosfera de sonho que ele tanto adorava.
Eles caminhavam devagar, as mãos dadas no bolso do sobretudo dele, protegidamente aquecidas, enquanto ela observava cuidadosamente tudo ao seu redor. Ele sabia que ela tentava recuperar memórias que talvez sequer existissem, mas que ainda assim eram reais. Mais do que eles próprios.
A única coisa que ela fez ao chegar em frente à casa onde morara foi para de caminhar por um momento, olhando-a por inteiro, mas logo conduzindo-o para seguir em frente. Foi ele quem viu o cemitério primeiro, bem no final do vilarejo. Havia apenas um portal para demarcar o início, mas não havia grades ou muros. Menos de cinquenta lápides organizavam-se belamente no pequeno gramado coberto de neve, as famílias reunidas claramente localizáveis pelos seus sobrenomes. Não precisaram caminhar muito para chegar a um túmulo simples, belo e duplo, onde estava inscrito:

"In loving memory of Lily and David.
Their love shall be stronger than the tides of life;
their beloved children are the beacons of their immortal souls.
"The last enemy that shall be destroyed is death."
July 23rd, 2007."

Ela parecia paralisada diante das inscrições. Uma foto de uma bela mulher ruiva e de um bondoso homem loiro no dia de seu casamento estava emoldurada acima; ambos riam, com tal inocência que era impossível acreditar que estavam mortos. Pareciam reais, prestes a saírem da casa por onde haviam passado há pouco, David olhando inquisidoramente para ele, com ciúmes da filha; Lily entre divertida e formal, sinceramente encantada pelo genro, e ainda mais encantada pela alegria da filha. Ele podia perceber agora que ela havia herdado tudo da mãe, a não ser pelos olhos e a boca, mas emanava algo que parecia vir dos dois, uma essência inconfundivelmente misturando as expressões de ambos. 
Era desnecessário dizer qualquer coisa; ele a puxou para si no exato momento em que ela não pôde mais suportar tamanha dor. Por um longo tempo ele ficou ali a acariciá-la lenta e carinhosamente, olhando a neve cair, chorando junto sem perceber, desejando profundamente que ela não tivesse de passar por isso. Quando a conhecera ela tinha perdido sua mãe recentemente, mas jamais falava sobre isso, e ele sabia perfeitamente que ela não falava por ser difícil demais, duro demais.
- Bem, eles estão mortos, não há motivo para ficar mais tempo aqui, eu suponho - ela se afastou, virando-se novamente para o túmulo, ainda abraçada nele. Seu olhar demorou-se na foto e nos nomes, e então ela se deixou ser levada embora, caminhando pelo tapete fofo de neve que cobria todo o vilarejo.
- Seu irmão iria ficar feliz em vê-la - sussurrou ele, tentando confortá-la.
- Eu já passei bastante tempo com ele esse ano - disse ela, finalmente dando um sorriso fraco. - Agora quero voltar para casa com você e ficar no nosso quarto até ser inevitável sairmos.
Ele a beijou na cabeça, levando-a para o hotel, onde ficariam até pegarem o primeiro voo da manhã para Helsinki. Ele a viu levantar de madrugada, indo fumar na janela, e depois voltar se aconchegando nele, dormindo tranquilamente, já sem lágrimas. Voltariam para Kitee então, e talvez fosse mais fácil agora... sim, agora seria mais fácil. Ele garantiria isso, pelos dois.

sábado, 1 de outubro de 2011

Mikrokosmos XXVII

O vento estava ficando, aos poucos, levemente mais frio, conforme as horas iam passando, mas mesmo assim eles sequer cogitavam voltar para casa. Era um dia bom para estar no parque, e o vento outonal animava-os com a perspectiva da estação nevada por vir, que sempre trazia consigo uma alegria contínua, uma felicidade infantil que tornava tudo mais fácil e mais verdadeiro. Ele se perdia em devaneios sobre como aproveitariam o inverno, enquanto acariciava preguiçosa e distraidamente os cabelos dela. Ela estava sentada entre as suas pernas, completamente absorta na leitura de um livro. Gostavam de ficar assim, por horas sentados sob um pinheiro conversando, lendo ou apenas observando o mundo, nas suas mais diversas formas, e isso estava se tornando um hábito. Um ótimo hábito.
- Sabe, acho que teremos de nos acostumar com a imperfeição - falou ela tranquilamente, fechando o livro que terminara e se aconchegando mais a ele.
- Por que? - questionou ele, sinceramente interessado.
- Porque, por mais que a gente não dê o braço a torcer, no fundo nós sabemos que ela não existe - ele franziu o cenho, contrariado, mas continuou ouvindo. - Ou melhor: acho que ela existe sim. Mas nós acabamos a perdendo de tanto procurá-la, entende?
Ela se virou para olhá-lo, e um lento sorriso foi se espalhando pelo rosto dele. De fato, a perfeição sempre tomava-o subitamente, como havia acontecido no verão passado, numa noite no acampamento, ou como, estupefato, ele percebia ser aquele exato instante. Convidou-a para dançar sons invisíveis, e ela ria, sendo levada, tornando-se leve nos acordes que ele inventava brincando, alegre. E riam, simplesmente... simplesmente.

(Escrito às 11:15 p.m.)