sábado, 1 de outubro de 2011

Mikrokosmos XXVII

O vento estava ficando, aos poucos, levemente mais frio, conforme as horas iam passando, mas mesmo assim eles sequer cogitavam voltar para casa. Era um dia bom para estar no parque, e o vento outonal animava-os com a perspectiva da estação nevada por vir, que sempre trazia consigo uma alegria contínua, uma felicidade infantil que tornava tudo mais fácil e mais verdadeiro. Ele se perdia em devaneios sobre como aproveitariam o inverno, enquanto acariciava preguiçosa e distraidamente os cabelos dela. Ela estava sentada entre as suas pernas, completamente absorta na leitura de um livro. Gostavam de ficar assim, por horas sentados sob um pinheiro conversando, lendo ou apenas observando o mundo, nas suas mais diversas formas, e isso estava se tornando um hábito. Um ótimo hábito.
- Sabe, acho que teremos de nos acostumar com a imperfeição - falou ela tranquilamente, fechando o livro que terminara e se aconchegando mais a ele.
- Por que? - questionou ele, sinceramente interessado.
- Porque, por mais que a gente não dê o braço a torcer, no fundo nós sabemos que ela não existe - ele franziu o cenho, contrariado, mas continuou ouvindo. - Ou melhor: acho que ela existe sim. Mas nós acabamos a perdendo de tanto procurá-la, entende?
Ela se virou para olhá-lo, e um lento sorriso foi se espalhando pelo rosto dele. De fato, a perfeição sempre tomava-o subitamente, como havia acontecido no verão passado, numa noite no acampamento, ou como, estupefato, ele percebia ser aquele exato instante. Convidou-a para dançar sons invisíveis, e ela ria, sendo levada, tornando-se leve nos acordes que ele inventava brincando, alegre. E riam, simplesmente... simplesmente.

(Escrito às 11:15 p.m.)

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