O vento estava ficando, aos poucos, levemente mais frio,
conforme as horas iam passando, mas mesmo assim eles sequer cogitavam voltar
para casa. Era um dia bom para estar no parque, e o vento outonal animava-os
com a perspectiva da estação nevada por vir, que sempre trazia consigo uma
alegria contínua, uma felicidade infantil que tornava tudo mais fácil e mais
verdadeiro. Ele se perdia em devaneios sobre como aproveitariam o inverno,
enquanto acariciava preguiçosa e distraidamente os cabelos dela. Ela estava
sentada entre as suas pernas, completamente absorta na leitura de um livro.
Gostavam de ficar assim, por horas sentados sob um pinheiro conversando, lendo
ou apenas observando o mundo, nas suas mais diversas formas, e isso estava se
tornando um hábito. Um ótimo hábito.
- Sabe, acho que teremos de nos acostumar com a imperfeição
- falou ela tranquilamente, fechando o livro que terminara e se aconchegando
mais a ele.
- Por que? - questionou ele, sinceramente interessado.
- Porque, por mais que a gente não dê o braço a torcer, no
fundo nós sabemos que ela não existe - ele franziu o cenho, contrariado, mas
continuou ouvindo. - Ou melhor: acho que ela existe sim. Mas nós acabamos a
perdendo de tanto procurá-la, entende?
Ela se virou para olhá-lo, e um lento sorriso foi se
espalhando pelo rosto dele. De fato, a perfeição sempre tomava-o subitamente,
como havia acontecido no verão passado, numa noite no acampamento, ou como,
estupefato, ele percebia ser aquele exato instante. Convidou-a para dançar sons
invisíveis, e ela ria, sendo levada, tornando-se leve nos acordes que ele
inventava brincando, alegre. E riam, simplesmente... simplesmente.
(Escrito às 11:15 p.m.)
(Escrito às 11:15 p.m.)
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