terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mikrokosmos XXIX


Despreocupadamente, ela entrou na casa lotada. O som era alto, mas as pessoas estavam no mais absoluto silêncio. Ouviu acordes estranhos, como se a música houvesse sido composta num instrumento diferente, inexistente e marítimo. Ela podia sentir e ouvir claramente o barulho das ondas, o vento forte batendo em seu corpo inteiro, a noite azul fazendo com que não desse para distinguir o fim do oceano e o começo do céu. Fechando os olhos, ela se entregou completamente à música, deixando que a maresia tomasse conta dela, surpreendendo-a com lugares que ela sequer lembrava que existiam, vendo uma menina encarando profundamente o mar. 
E então a música acabou. Mas ela precisava de mais, muito mais daquilo, daquela sensação de infinitude.
Com dificuldade, esgueirou-se através da multidão, tentando chegar mais perto do palco, e estava se aproximando quando outra canção começou, diferente mas com a mesma essência oceânica, fazendo com que ela se movesse ainda mais rápido, desejando profundamente chegar à fonte dessa miríade de acordes e ondas. Olhou avidamente para o palco assim que o alcançou. Um baterista excepcionalmente habilidoso, uma vocalista impressionantemente bela, um baixista mítico e um guitarrista muito bonito, com cara de criança, todos em perfeita harmonia, claramente bons amigos até mesmo fora dos palcos.
Mas não era deles que emanava o oceano dos acordes. Não. Eles apenas a executavam, ainda que perfeitamente bem, apenas faziam isso. O que havia de realmente fantástico e misterioso nas músicas vinha de uma única pessoa, postada à esquerda do palco; era desnecessário que lhe dissessem isso, ela simplesmente sabia. Uma figura alta, de longos cabelos negros e crespos tocava piano como ela jamais havia visto, sequer imaginado em toda a sua vida. Um homem com uma máscara completamente branca, que só deixava entrever belos olhos azul-acinzentados. Talvez fosse a máscara tão branca quanto o paletó, talvez as luzes ou a forma como ele tocava se entregando à música, ela jamais saberia, mas algo fez com que ela ficasse o resto da noite ali, olhando-o paralisada. Quando tudo acabou, ele se curvou numa reverência, agradecido, e percebeu o olhar dela ao se levantar, um momento antes de sair também. Desconcertado, ele saiu do palco com os outros músicos, enquanto ela permanecia ali, tentando digerir tudo o que vira e ouvira; tudo que aquelas composições haviam lhe trazido. Apesar de estar relativamente longe do mar, as ondas ecoavam em sua mente, furiosas, enquanto o lugar se esvaziava e ela permanecia, completamente perdida em si mesma e no que havia da música que a atingira.
Depois de muito ou muito pouco tempo, ela se deu por conta que tinha de sair dali. Foi quando uma mão branca cortou o seu caminho, estendendo-se para ela, que levantou a cabeça. Impressionantes olhos cinzentos a encaravam de volta gravemente, com uma pergunta indecifrável.
Ela começou a caminhar rapidamente sem pegar a mão, adiantando-se para a saída. Parou ao ouvir passos atrás de si. Sua mente estava completamente bloqueada e ela não tinha a mínima noção do que estava fazendo; só naquele momento percebeu o quanto sua respiração estava difícil e seu corpo estava tenso, dolorido. Os passos pararam quase que no mesmo instante em que ela. Lentamente, ela tentou respirar normalmente e se virar para o rosto mascarado, mas não conseguiu. Ao invés disso, saiu sem saber onde ia, avançando cada vez mais depressa, enquanto um desespero crescia rapidamente dentro dela, ameaçando tomá-la por inteiro.
Quando sentiu as ondas batendo em seus pés sobressaltou-se; não percebera estar se dirigindo ao mar, por mais que isso fosse absolutamente natural. Escalou as pedras então, subindo o caminho conhecido para o seu lugar favorito na pedra mais alta. E então, tudo desabou sobre ela. Por um momento, ela encarou profundamente o mar revolto, tomando coragem, enchendo-se da fúria, da vida dele, até saber ser o momento de olhar a outra alma oceânica. Virou-se então, percebendo o mascarado observá-la quase da mesma forma que ela fizera com ele, porém mais encantado. Permitiu-se então se perder na imensidão dos olhos profundos e tristes, significativos. Num movimento delicado, porém preciso, ela lhe tirou a máscara cuidadosamente, revelando o que ela sempre soubera. Há três anos não o via, mas muita coisa havia mudado desde então, coisas demais para um espaço tão curto de tempo. Mas isso era bom, imensamente bom. Era tudo o que precisavam - e apesar de todas as mudanças, eram os mesmos, e isso era tudo.
As ondas, os olhos cinzentos, o vento. O fim ou o começo de tudo?

(Escrito em 05/10/11 - 07:59 p.m.)

"In my dreams you're mine to keep"

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