I – The Phantom Agony
Ele ainda não era capaz de entender como todas aquelas pessoas pareciam adorá-lo, principalmente aquelas mulheres. Sentia-se esquisito, como se as pessoas estivessem equivocadas ao lhe dedicarem tamanha admiração, aquelas belas mulheres claramente querendo tê-lo nem que fosse por um momento, tudo aquilo era absurdo e ao mesmo tempo desconfortável. Além disso, ele não queria isso. Soube disso perfeitamente quando subiu no segundo andar do ônibus e, apesar de ter estado pensando na mulher realmente fabulosa com quem estivera conversando na última meia hora, seus pensamentos foram completamente mudados pela simples visão de uma pessoa. Com uma blusa vermelha que lhe realçava a pele clara, ela estava sentada num lugar à janela, ouvindo música e olhando pensativamente para a rua. Os cabelos continuavam caindo extremamente lisos e longos pelas costas, mas todo o resto era diferente, principalmente sua expressão, bem mais leve, mesmo quando pensativa. As orelhas eram adornadas por delicados brincos de ouro, substituindo as antigas “argolas de pirata”, como ela mesma chamava. Sentava-se ereta, com uma bolsa e uma pasta no colo, com uma maquiagem tão leve que alguém que não a conhecesse como ele sequer perceberia. Subitamente foi sobressaltada pelo celular tocando, e já sorriu só ao ver o nome, qualquer que fosse, na tela. Atendeu alegre e, depois de contar algumas coisas de sua manhã, fez planos para o jantar. Disse a esse alguém que poderiam se encontrar na próxima parada, e desligou. Ele se levantou para descer, também queria ver com quem ela estaria. Por sorte, muitas pessoas também desceriam ali e ela não o percebeu. Ele desceu bem antes e atravessou a rua para observá-la de longe. Não tardou a vê-la descendo e se abrindo num sorriso ao ver quem a esperava: era um jovem de cabelos ruivos flamejantes, recostado tranquilamente em seu carro. Eles se beijaram de leve e saíram caminhando abraçados, o jovem ruivo fazendo-a rir serenamente, enquanto brincava com seus cabelos. Ela parecia perfeitamente confortável ali, alegre com aquele menino que não deveria ser mais do que cinco anos mais velho que ela, que certamente lhe trazia segurança, afinal, de longe já era fácil perceber a tranquilidade que ele exalava. Ele não podia ouvir o que o jovem dizia, mas ela o beijou satisfeita na bochecha, depois de qualquer frase, fazendo-o sorrir.
Ele estava tão distraído, observando-a nessa vida onde ele não podia existir, que não percebeu que eles estavam vindo em sua direção e provavelmente o veriam. Quando se deu por conta, era tarde demais: ela o olhou, mas apenas lhe sorriu brevemente e seguiu seu caminho, como se ele não fosse nada mais que um velho conhecido. O choque da reação tão simples e da tranquilidade com que ela seguiu caminho, sem olhar para trás, foi bem mais chocante do que vê-la feliz ali, tão longe dele, tanto no tempo quanto no espaço. Então, uma dor até então desconhecida se apossou dele, e ele sinceramente desejou que ela não tivesse que passar pelo mesmo. Nunca.
II – In The Dark
Ele se sentou na cama, acordado de um pesadelo real demais para o seu gosto. Estava suando, ofegante, mas ao olhar para o lado viu-a dormindo tranquilamente, iluminada pela luz que entrava pela janela. As costas nuas tinham leves marcas vermelhas, manchando sua habitual branquidão, e ele sorriu ao tocá-la e ver que ao seu menor toque a pele se arrepiou. Ainda assim, sentia-se agoniado. Por quanto tempo poderia acordar de madrugada e saber que seus pesadelos não eram reais? Por quanto tempo poderia chamá-la durante a noite, ou simplesmente se aninhar naquele corpo tão seu? Era difícil não se preocupar cada vez mais com isso. Podia ver além do sorriso tranquilizador dela, muito além. E muitas vezes desejou não poder.
Ela se mexeu, coçou o nariz e se acordou, olhando-o, logo percebendo que havia algo errado. Apoiou-se nos cotovelos para olhá-lo com uma pergunta silenciosa. Ele se limitou a acariciar-lhe o cabelo, beijando-lhe carinhosamente os lábios.
- Não quero esquecer das nossas madrugadas – sussurrou, repousando o nariz em seus cabelos lisos, enquanto ela lhe envolvia com os braços. – Não quero deixar tudo se esvair como neve derretendo.
Ela suspirou, deitando-o, acariciando-o sem pressa, mostrando-lhe que estava ali a noite toda, que estava inteiramente ali. Permaneceram em silêncio, mas o toque também era comunicação. Até o amanhecer.