sábado, 20 de agosto de 2011

Mikrokosmos XXIV


             I – The Phantom Agony

            Ele ainda não era capaz de entender como todas aquelas pessoas pareciam adorá-lo, principalmente aquelas mulheres. Sentia-se esquisito, como se as pessoas estivessem equivocadas ao lhe dedicarem tamanha admiração, aquelas belas mulheres claramente querendo tê-lo nem que fosse por um momento, tudo aquilo era absurdo e ao mesmo tempo desconfortável. Além disso, ele não queria isso. Soube disso perfeitamente quando subiu no segundo andar do ônibus e, apesar de ter estado pensando na mulher realmente fabulosa com quem estivera conversando na última meia hora, seus pensamentos foram completamente mudados pela simples visão de uma pessoa. Com uma blusa vermelha que lhe realçava a pele clara, ela estava sentada num lugar à janela, ouvindo música e olhando pensativamente para a rua. Os cabelos continuavam caindo extremamente lisos e longos pelas costas, mas todo o resto era diferente, principalmente sua expressão, bem mais leve, mesmo quando pensativa. As orelhas eram adornadas por delicados brincos de ouro, substituindo as antigas “argolas de pirata”, como ela mesma chamava. Sentava-se ereta, com uma bolsa e uma pasta no colo, com uma maquiagem tão leve que alguém que não a conhecesse como ele sequer perceberia. Subitamente foi sobressaltada pelo celular tocando, e já sorriu só ao ver o nome, qualquer que fosse, na tela. Atendeu alegre e, depois de contar algumas coisas de sua manhã, fez planos para o jantar. Disse a esse alguém que poderiam se encontrar na próxima parada, e desligou. Ele se levantou para descer, também queria ver com quem ela estaria. Por sorte, muitas pessoas também desceriam ali e ela não o percebeu. Ele desceu bem antes e atravessou a rua para observá-la de longe. Não tardou a vê-la descendo e se abrindo num sorriso ao ver quem a esperava: era um jovem de cabelos ruivos flamejantes, recostado tranquilamente em seu carro. Eles se beijaram de leve e saíram caminhando abraçados, o jovem ruivo fazendo-a rir serenamente, enquanto brincava com seus cabelos. Ela parecia perfeitamente confortável ali, alegre com aquele menino que não deveria ser mais do que cinco anos mais velho que ela, que certamente lhe trazia segurança, afinal, de longe já era fácil perceber a tranquilidade que ele exalava. Ele não podia ouvir o que o jovem dizia, mas ela o beijou satisfeita na bochecha, depois de qualquer frase, fazendo-o sorrir.
            Ele estava tão distraído, observando-a nessa vida onde ele não podia existir, que não percebeu que eles estavam vindo em sua direção e provavelmente o veriam. Quando se deu por conta, era tarde demais: ela o olhou, mas apenas lhe sorriu brevemente e seguiu seu caminho, como se ele não fosse nada mais que um velho conhecido. O choque da reação tão simples e da tranquilidade com que ela seguiu caminho, sem olhar para trás, foi bem mais chocante do que vê-la feliz ali, tão longe dele, tanto no tempo quanto no espaço. Então, uma dor até então desconhecida se apossou dele, e ele sinceramente desejou que ela não tivesse que passar pelo mesmo. Nunca.

            II – In The Dark

            Ele se sentou na cama, acordado de um pesadelo real demais para o seu gosto. Estava suando, ofegante, mas ao olhar para o lado viu-a dormindo tranquilamente, iluminada pela luz que entrava pela janela. As costas nuas tinham leves marcas vermelhas, manchando sua habitual branquidão, e ele sorriu ao tocá-la e ver que ao seu menor toque a pele se arrepiou. Ainda assim, sentia-se agoniado. Por quanto tempo poderia acordar de madrugada e saber que seus pesadelos não eram reais? Por quanto tempo poderia chamá-la durante a noite, ou simplesmente se aninhar naquele corpo tão seu? Era difícil não se preocupar cada vez mais com isso. Podia ver além do sorriso tranquilizador dela, muito além. E muitas vezes desejou não poder.
            Ela se mexeu, coçou o nariz e se acordou, olhando-o, logo percebendo que havia algo errado. Apoiou-se nos cotovelos para olhá-lo com uma pergunta silenciosa. Ele se limitou a acariciar-lhe o cabelo, beijando-lhe carinhosamente os lábios.
            - Não quero esquecer das nossas madrugadas – sussurrou, repousando o nariz em seus cabelos lisos, enquanto ela lhe envolvia com os braços. – Não quero deixar tudo se esvair como neve derretendo.
            Ela suspirou, deitando-o, acariciando-o sem pressa, mostrando-lhe que estava ali a noite toda, que estava inteiramente ali. Permaneceram em silêncio, mas o toque também era comunicação. Até o amanhecer.

Mikrokosmos XXIII


          Ele adorava surpresas, mas aquela parecia ser absurdamente estranha. Na véspera de seu aniversário, ou seja, na véspera de Natal, ela saiu cedo de casa e seus melhores amigos vieram arrumá-lo à tardinha, dizendo que ele tinha de estar pronto para uma surpresa. Trouxeram-lhe trajes formais incomumente belos e ele os vestiu, prendendo apenas uma parte dos longos cabelos negros. Arrumou-se bem, conforme lhe pediram, afinal, que opção tinha? Apesar disso, achou que a brincadeira estava indo longe demais quando quiseram vendá-lo antes de entrar no carro que o levaria até a surpresa. Uma ligação dela o convenceu, afinal, ele adorava essa época do ano e sentia-se excepcionalmente animado. Quando desceu do carro, subiu degraus e andou cerca de cem metros, guiado por seus amigos, onde ouvia murmúrios e risadinhas. Esforçava-se por entender onde estava, mas simplesmente não fazia ideia. Sabia que havia muita gente naquele lugar e que ele tivera que subir mais alguns degraus, ficando de frente para a direção de onde viera parado. Achava que então seus amigos lhe tirariam a venda, mas estava enganado. Teve de ficar um bom tempo apenas parado ali, ocasionalmente perguntando se já era tempo de saber logo que diabos lhe esperava, mas seus amigos respondiam-lhe não todas as vezes. Até que os murmúrios aumentaram e, depois de alguns momentos, um de seus amigos tirou-lhe a venda lentamente.
            Piscou várias vezes, já desacostumado com a claridade, mas quando a visão entrou em foco ficou sem fôlego: aquela, sem dúvida, era a catedral mais bonita onde já estivera, era a sua catedral favorita. O teto muito alto era amplamente iluminado e a igreja estava delicadamente decorada, como se algo de especial estivesse por acontecer. Percebeu que conhecia praticamente todas as pessoas que estavam ali, e todas estavam vestidas formalmente, olhando-o ansiosas e excitadas. Ele não fazia ideia do que esperavam dele, até ouvir as portas se abrindo e ter súbita consciência do que estava acontecendo: ele estava no altar, afinal, e ninguém menos do que ela entrava ali, com um vestido longo e belo, algo vagamente medieval, com uma bela tiara nos longos cabelos ruivos. O pai dela, entre alegre e contrariado, levava-a pelo braço, enquanto ela sorria feito uma menina, os olhos brilhando tanto que ele podia perceber mesmo àquela distância. Ela o olhou perguntando se ele gostava, se era isso que ele queria, e seu sorriso foi tão tímido e tão sincero que ela não pôde ter dúvidas. Trocou um olhar respeitoso com o pai dela antes de pegar a mão que ele lhe entregava, e viu o quanto era dolorido para ele entregar-lhe a filha. Tentou, mesmo que não soubesse como, demonstrar que a cuidaria e a amaria tanto o quanto possível. Ele lhe sorriu, e então ele pegou a mão dela, e finalmente olhou-a nos olhos. Aqueles olhos castanhos nunca pareciam ter sido tão intensos, tão profundamente alegres. Teve de ter um imenso autocontrole para não beijá-la naquele mesmo instante, mas a cerimônia era algo que ele considerava importante também. Limitou-se a sorrir então, sorrir como nem se sabia capaz, porque aquilo tudo era muito mais do que ele jamais sonhara. E ela lhe sorriu, feliz, tranquila. Como sempre seria, em algum lugar.

sábado, 6 de agosto de 2011

Mikrokosmos XXII


- Venha para dentro, você vai congelar aí fora! – disse ele, da janela, mas ela o ignorou completamente. Franzindo o cenho, ele foi até a beira do lago, onde ela estava sentada, abraçando os joelhos e olhando para frente, imperturbável.
- Ei, está tudo bem? – perguntou ele, aproximando-se, mas ela permaneceu em silêncio, olhando a neve que começava a cair. Usava uma blusa cavada e ele podia ver seus braços arrepiados, mesmo que ela não desse o mínimo sinal de perceber isso. Depois de alguns minutos, ela finalmente se manifestou.
- Há quinze anos atrás, eu teria uma casa – disse ela, com a voz tão embargada que era difícil de compreender o que ela dizia. – Eu ia ter uma casa, e as coisas ficariam bem, sabe? Porque era tempo de guerra e todos podiam se casar, e as coisas iam ficar bem, eu sabia disso, eu e todos os meus amigos. A esperança ainda existia – ela fechou os olhos e ficou por um bom tempo calada, como se visse seu futuro perdido perfeitamente, como se o penetrasse sem dificuldade alguma. – Quinze anos e dois meses, é. A sua intenção é boa – disse ela, finalmente olhando para ele e dando um sorriso fraco, cansado – mas eu não posso mais. Não dá. Os pedaços que me tiraram não aceitam substituição.
Ela repousou a cabeça nos joelhos, virada para o lado oposto. Ele olhou para o horizonte, calado. Por muito tempo, compartilhara com ela a ilusão de que poderiam construir tudo do zero e serem felizes, como se o passado simplesmente não houvesse existido. Acreditaram, na mais pura inocência, que se podia apagar o que era mais importante para ambos, achavam que seriam fortes o suficientes para simplesmente fazer o que quisessem de suas vidas, como se não tivessem um passado, uma história.
Ele passou um braço sobre os ombros dela e ela recostou sua cabeça no ombro dele. A desconfiança de que as histórias que ele ignorava ainda acabariam tendo uma importância maior do que ele próprio sempre estivera presente, e era óbvio que, de alguma forma, a estrela mais brilhante agora a levava, pegando-a de volta com o direito legítimo de quem nunca esteve distante. Não havia o que dizer ou quem culpar, as coisas tinham de ser assim. Eles sabiam. Provavelmente, ela ficaria ali, mesmo que sua mente estivesse acompanhando o brilho mais forte e mais distante. Na verdade, essa era a esperança dele, que ela ficasse ali, apenas pensando na estrela mais brilhante. Mas o certo e o justo era que ela fosse levada, pelo bem de todos eles. O sorriso que ele sempre quisera ver no rosto dela então seria real e, pela primeira vez, o olhar dela não seria enevoado. Podia quase vê-la sorrindo, finalmente feliz, sob a luz estrelar.
- Eu te amo­ – murmurou para ela, que havia fechado os olhos e repousava tranquila nele. Beijou-a na fronte e ficou ali acordado, a noite inteira. Com ela.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Drown

Ela poderia reconhecer aqueles cabelos loiros mesmo na total escuridão, mas vê-los ali, no meio da neve, foi inesperadamente impactante. Porque ela tinha ido embora sem olhar para trás, sem se despedir. E agora aqueles olhos azuis perscrutavam-na e, num simples instante, desvendavam tudo. Melhor do que ela própria.
Os dois se aproximaram sem pressa. Aos poucos, eles haviam descoberto que sempre estariam ligados, sob quaisquer circunstâncias, então não havia urgência, apenas a calma simples da certeza. A certeza total que, de alguma forma, juntos ou não, as coisas se ajeitariam, e que sempre poderiam correr de volta para aquele lugar, sob a árvore dela. E estavam certos.
Ele lhe estendeu a mão um átimo antes de ela fazer o mesmo. Os sobretudos pretos os protegiam do frio da neve naquela floresta branca, mas nada seria capaz de retratar o que sentiam, porque eles próprios não sabiam. Simplesmente não sabiam o que lhes causava aquele adiantado reencontro, enquanto ainda era tão cedo, porque era simplesmente difícil. Ele não cobrava nada, segurava suas mãos nas dele, aquecendo-as e a fitava nos olhos pacientemente, a tranquilidade transbordando dos olhos azuis. Pedir desculpas seria suficiente, necessário?  Na verdade, nunca fora. As explosões de raiva dele e as partidas dela eram parte disso tudo, e ponto. Não havia pelo que se sentirem tristes ou culpados.
Ele se aproximou dela e a beijou devagar, sentindo a volúpia crescer aos poucos. Ela respirou fundo e então abriu os olhos, concordando. Ele a levou para casa pela mão, sem saber se seria por uma hora, uma noite ou por anos a fio. Só sabia que teria um fim, mas era bom enquanto durava. Sempre era bom, e sempre teria uma volta. Sempre.