terça-feira, 31 de maio de 2011

Mikrokosmos XVII

     Decidiram-se por passar o dia fora, por ímpeto dele. Colocaram toalha para piquenique, comida, cigarros e alguns livros no carro e logo estavam na estrada. A animação era tanta que até haviam se esquecido de ligar o som, primeira coisa que sempre faziam ao entrar no carro. Enquanto ela se encarregava disso, ele perguntou:
    - Onde iremos?
    - Como assim?
    - Onde iremos passar o dia? - ele tamborilava no volante, alegre feito uma criança. Ela o olhou, sinceramente confusa.
    - Eu achei que você soubesse onde estávamos indo.
    - Eu te convidei para irmos passar o dia em qualquer lugar fora da cidade, qualquer lugar não é um nome específico - disse ele, sério como se explicasse a alguém que de fato não pudesse entendê-lo. Ela riu, parecia coisa de livro infantil, e era esse tipo de coisa que o fazia ainda mais adorável.
    - E por que não? Podemos sim ir para qualquer lugar. É só não cuidarmos o caminho, apenas a paisagem, e pararmos onde mais nos agradar.
    - É uma boa opção - concordou ele, já sorrindo. Talvez fosse bom mesmo, para eles que planejavam tudo com um tempo imenso de antecedência e em seus mínimos detalhes, simplesmente se esquecer de que planos existem por um dia - e talvez, só talvez, isso fosse muito melhor do que viver planejando. Silenciosamente, foram avançando atentos a tudo ao redor, ele ia pelas ruas que lhe pareciam simpáticas e logo estavam ainda mais longe da cidade do que já moravam.
    - Imagina que legal se a gente chegar no fim da estrada! Teríamos que descer do carro e ver como tudo era ao redor, encontrar esquilos e...
    Ele riu da empolgação dela, olhando tudo como se nunca tivesse visto coníferas e pássaros antes. Tocou-lhe a mão, olhando-a carinhosamente:
    - Mais do que termos de lutar contra um grifo e perdermos o caminho de casa para sempre e caminharmos até Valfenda não pode acontecer.
    - Seria encantador! Será que poderíamos viver perto dos elfos? Imagine acordar com o canto de elfos, ao invés de pássaros! E então nós...
    Mas eles se olharam e caíram na gargalhada. O pior de tudo é que ambos podiam se ver com perfeita naturalidade levando uma vida de camponeses em Valfenda, cumprimentando os elfos com aquela reverência de adoração sincera todos os dias, maravilhosamente num mundo onde nada podia atingí-los. Teriam inúmeros filhos, ele seria guerreiro e ela cuidaria daquelas crianças que seriam todas bastante parecidas com eles, e mesmo que as guerras viessem, ele lutaria milhares delas apenas para poder ver seu rosto sorridente sob o sol quando voltasse, com aquela mecha mais clara dos cabelos ruivos sempre voando no rosto, só que com menininhas sardentas e alegres como ela própria agarrando-se ao seu vestido, correndo para ele. Depois de um tempo em silêncio, ambos deram um longo suspiro e só isso já foi motivo para se olharem e rirem outra vez.
    - Você também estava imaginando como seria nossa vida em Valfenda? - perguntou-lhe retoricamente, mas ela riu.
    - Na verdade eu estava pensando que esqueci em cima da mesa da cozinha uma carteira de cigarros, mas meu subconsciente estava sonhando com isso sim meu amor, é claro.
    Ambos riram, ele balançou a cabeça:
    - E eu achando que tinha mudado você...
    - As pessoas não mudam, você sabe disso. Não no fundo - ela fez-lhe um carinho na perna, olhando-o carinhosamente. Nunca daria o braço a torcer que era tão sonhadora o quanto ele, jamais. Mas de fato não estava pensando naquilo e ficou completamente encantada com o pensamento dele. Mesmo depois de estarem morando há mais de um ano juntos, ainda não havia se acostumado com aquela natureza pura e quase infantil, aquele romantismo que ela jurava por todos os Deuses que não poderia ser bom. Mas estranhamente, era. E aos poucos, ela própria, apesar de dizer que as pessoas não mudam, havia sim, mudado e aprendido a ter sonhos de tamanha delicadeza que ela própria se surpreendia. De fato, era comum pegar-se sonhando com uma existência simples, longa e tranquila ao lado dele, apenas e unicamente ao lado dele.
    Em outros tempos, ela fugiria correndo até mesmo da ideia de poder se sentir assim, mas ali estavam eles, casados, e ela sabia perfeitamente bem que não poderia estar mais entregue.
    À esquerda, as árvores começaram a se tornar mais frequentes e, longinquamente, ouviam-se pequenos ruídos típicos da floresta. Entreolharam-se e, num acordo tácito, avançaram apenas mais um pouco e estacionaram o carro, descendo e entrando na floresta ainda completamente sem rumo. Andavam segurando firmemente a mão um do outro, ela ainda mais forte, afinal, jamais havia entrado numa floresta. Olhava tudo com fascínio e um pouco de medo, e ele, pela primeira vez, não observou a natureza ao redor. Estavam de casacos xadrez quase iguais, a não ser pela inversão das cores: o dele era branco e verde e o dela, verde e branco.
    Havia tanto verde por ali que, se não fosse pelos longos cabelos arruivados ele poderia considerá-la "um elemento da paisagem", o que disse nesses termos mais tarde para ela, fazendo-a rir pela forma com que falou. De alguma forma, estavam subitamente sérios. Os ruídos da floresta, a claridade dourada e cintilante pareciam ter algo de sagrado naquele início de manhã, quase como um ritual. Depois de avançarem por um longo trecho, ele parou, fazendo-a parar consigo. Olhou-a tão intensamente que, mesmo que estivessem em qualquer outro lugar, não havia como não anular tudo o que houvesse por perto. Quase esquecidos do que a paisagem lhes causava, a não ser por um resquício de panteísmo que a ocasião havia ressucitado em ambos, beijaram-se voluptuosamente, por um dia inteiro completamente esquecidos do tempo e do espaço, esquecidos de que havia um mundo real onde existiam outras pessoas que tinha coisas absurdas como compromissos e aborrecimentos.
     Caminharam, amaram-se, às vezes riam simplesmente por verem um esquilo que julgavam divertido ou por ver uma planta bonita. Passeavam, ele lhe oferecia flores que ela jamais havia visto antes, carregava-a na garupa e a mimava ainda mais do que o de costume. Qualquer outro homem iria parecer-lhe detestável agindo desta forma, mas ela não via nada de repreensível nele, simplesmente era incapaz de ser qualquer coisa de quem fora outro dia, longe dele. Ele próprio jamais teria coragem de tratar qualquer outra pessoa assim, mas lá estava ela com seus olhos sorridentes, seu rosto de sardas quase imperceptíveis, seu silêncio que preenchia o dia magicamente. Encontraram um rio, na beira do qual dormiram, sem se lembrar sequer de comer ou fumar, simplesmente abriram um único saco de dormir e ficaram olhando o céu e sentindo a proximidade em que estavam até que adormeceram como crianças cansadas.
    Quando estava amanhecendo, foram retornando para a estrada, para o dia amanhecendo que desintegraria cada átomo em perfeita ordem naquele tempo atemporal. Nunca mais falaram sobre isso, mas foi o dia que brilhou em seus olhares pelo resto de seus dias.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mikrokosmos XVI

    O celular parecia estar tocando há séculos quando ela finalmente conseguiu se acordar para atendê-lo.
    - Sim, sim, eu cheguei ontem à noite - ela esfregou os olhos, o quarto de hotel estava completamente iluminado pela luz matinal que entrava pelas grandes janelas. Cobriu os olhos com um braço, amaldiçoando mentalmente toda e qualquer coisa que a estivesse mantendo acordada. - Não, no bar de sempre...
    Ouviu um suspiro e sentiu alguém se mexendo ao seu lado. Sobressaltou-se e viu-o dormindo ao seu lado: então não havia sido um sonho! Repentinamente se sentiu mais acordada do que nunca. Ele franzia levemente o rosto pálido por causa da claridade e, começando a falar mais baixo ao telefone, ela foi fechando as cortinas.
    - É, eu sei...Eu encontrei ele no bar...Não, não vou voltar para Los Angeles hoje...Ahn, talvez...Não sei onde ele está não...Ok, ok, tudo bem...Sim, nos veremos.
    Ela desligou o celular e largou-o no chão ao lado de onde havia sentado. Acendeu um cigarro e deu uma tragada profunda, hábito seu para clarear os pensamentos. Não fazia a mínima ideia de como havia ido parar ali, mas no fundo, de alguma forma, todos os últimos cinco anos acabariam por levá-la até ele definitivamente, de qualquer forma. Ela sabia disso, assim como ele também sempre soubera, tão tranquilamente que sequer formulavam pensamentos conscientes sobre isso, apenas sabiam com a certeza tranquila de algo forte e inevitável - o problema é que jamais imaginara assim tão rápido, tão inesperado. Algo havia mudado profundamente nela, mas não de uma hora para outra, aquela noite havia sido apenas o rompimento final, o desenlace necessário daquelas transformações todas. Algo de muito importante começara a acontecer há alguns anos e agora borbulhava mais forte do que nunca sob a superfície e, apesar de sentir isso intensamente, não conseguia pensar sobre, apenas sentia, sentia numa vastidão que nem ela própia poderia explicar, um sentimento estranhamente novo e ao mesmo tempo levemente familiar, como voltar para casa depois de acabar de se mudar.
    Um barulho nos lençóis e ele estava sentado nos pés da cama, perto de onde ela estava, observando-a sem sequer um resquício da timidez que ela supusera que ele sentiria estando nu em frente a uma mulher com quem transara pela primeira vez na última noite. Estava absolutamente sério, os olhos azuis penetrando-a profundamente, claramente questionando o que viria pela frente. Ambos sabiam que não havia sido, nem de longe, um ato que não traria grandes consequências. Redescobrindo sua própia imensa timidez, ela levantou-se de súbito indo guardar o celular, indo arranjar qualquer coisa para fazer que não fosse ficar ali sob aquele olhar assustadoramente intenso (e mesmo que ela ainda não percebesse, que lhe agradava imensamente). Queria fingir uma naturalidade inatingível agora, tentando fingir que nada fora do comum havia acontecido, nada além do esperado para duas pessoas que todo mundo sabia, de alguma forma, que ficariam juntos de algum jeito mesmo que fosse apenas por um segundo ou uma vida inteira. Inclusive (inquietantemente) eles própios sabiam disso. Ele esperou pacientemente que ela desistisse da inútil tentativa de continuar no cotidiano esperado. Não sabia que, de algum modo, ela também estava testando a veracidade da relevância de tudo, e com uma alegria tão sincera e reprimida que nenhum dos dois jamais perceberia, ela virou-se para encará-lo outra vez, pedindo-lhe com o olhar que não lhe perguntasse nada agora, pedindo desesperadamente o alívio de poder permanecer em silêncio, nada poderia ser feito ou decidido agora.
    Um mínimo, frágil gesto: quando ela ia para o banheiro ele estendeu-lhe a mão. Ela olhou para a mão e em seguida para ele, que olhava-a impertubavelmente, os olhos azuis cada vez mais cinzentos - e apesar da angústia, do medo visceral que sentiu, ao invés de correr, fingir que não havia notado nada, com delicadeza e receio ela tocou levemente sua mão, deslizando até que ele pudesse segurá-la e apertá-la suavemente. Depois de anos, pela primeira vez, seus olhos ardiam de lágrimas. De ambos.

sábado, 28 de maio de 2011

A Verdadeira Fome do Brasil

    Futebol, novela e cesta básica: a política do "pão e circo" permanece desde os tempos dos gladiadores romanos e, incrivelmente, mesmo agora que o conhecimento é extremamente acessível, o povo continua alienado dos reais problemas brasileiros através desses simples artifícios. Ora, se a população recebe entretenimento que nada lhe exige de conhecimento, sequer possui consciência da própria ignorância, e esta percepção é crucial para a busca da verdade através do conhecimento - e provavelmente por esta falta de estímulo terrivelmente salutar aos governantes o Brasil parece jamais evoluir.
    A "cultura" brasileira de carnaval e de sexo, principalmente, faz com que a sensibilidade seja anulada, afinal, o "sentimento" acaba sendo identificado apenas e unicamente com o prazer, o que impede os brasileiros de seguir Locke na busca pela verdade. Os sentidos acabam sendo tão deturpados pelo falso epicurismo corrente, que torna-se impossível confiar nos sentidos. Com uma análise crítica, afastando-se dos prazeres erroneamente saboreados e aliando um sentimento mais puro à razão, podemos chegar mais próximos de um conhecimento maior da realidade - não seguindo puramente a razão, como Descartes sugeria, mas sim com uma inteligência ligada a uma sensibilidade não-vulgar.
    Apesar de toda a "cultura contra cultura" que existe no Brasil, ainda existem muitas pessoas que buscam o conhecimento e, a partir de uma mínima consciência do que realmente se passa aqui, não é difícil deixar de acreditar em tudo, afinal, como convencer um povo de sua própria ignorância? Como lutar contra uma estrutura social injusta com a qual a maioria das pessoas está conformada, mesmo que seja absurda? Considerando esses fatores, há certamente uma altíssima probabilidade de que o ceticismo mais absoluto se instale nas pessoas. É, de fato, uma situação desesperadora que o país está, mas se não acreditarmos sequer na possibilidade de descobrir as terríveis verdades sobre o Brasil para tentar mudá-lo, que sentido haveria na vida dessa população gigantesca que luta enganada e exploradamente por sua reles sobrevivência, se ninguém tentar salvá-la?
    É certo que não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro sofre um sério problema em relação à procura pelo conhecimento, o que não é razão para deixarmos de buscá-lo, afinal, este pode nos aproximar da verdade. Se cada indivíduo tiver consciência da própria ignorância perseguirá a sua própria verdade e assim evoluirá, agindo de uma forma que talvez ajude o mundo a evoluir também.

sábado, 7 de maio de 2011

As The Future

A brisa trazia as últimas folhas remanescentes nas árvores, dando um certo ar de magia, ao menos aos olhos de Aleen para aquela tarde. Karel sorria ao seu lado, caminhando com as mãos enterradas nos bolsos, eventualmente olhando-a. Era bom, era quase necessário caminhar por aquele bosque, de vez em quando. Ela podia percebê-lo inquieto, como sempre que ele estava se segurando para dizer algo, mas não perguntou nada, apenas porque se divertia com ele a espiando com um sorriso no rosto. Logo Karel não aguentou mais e disse:
- Mas honestamente, por que você não vem morar aqui?
Aleen sorriu, olhando-o com carinho. Tinha quase certeza que ele falaria nisso antes mesmo que ele a convidasse para darem o passeio habitual. Pensando na melhor forma de responder, subitamente ficou séria outra vez. Olhou para frente, caminhando mais devagar agora, enterrando também as mãos nos bolsos do longo casaco vermelho.
- Talvez... Talvez se a oportunidade houvesse surgido há um ano e meio atrás... Sim, certamente, certamente eu teria vindo - ela mordeu o lábio inferior, olhando o horizonte sem realmente vê-lo. Lembrou-se de seu marido, do que havia feito nesse meio tempo e, no íntimo, duvidou que estivesse sendo sincera. Se houvesse, por menor que fosse, uma chance de ter seguido o caminho que havia seguido, ela sabia que teria feito a mesma escolha. Karel sabia disso também, mas ainda assim passou um braço sobre os ombros dela acolhedoramente - afinal, quem sabia? Era uma possibilidade que, de fato, jamais fora explorada mas continuava ali, Karel fazia questão de mantê-la tão forte o quanto fora quando surgiu. Mas só Deus sabia até onde Aleen poderia ir.
- Acho que, no fundo, eu sempre soube que você não viria – ele lhe beijou carinhosamente o rosto, o que fez com que ela corasse. Não era acostumada com pessoas tão calorosas, mas gostava imensamente dos estranhos costumes de Karel, por qualquer razão que fosse. 
- Talvez se eu não estivesse tão ligada ao meu marido e ao meu próprio país...
- Sim, eu juro que ainda mato essa tal Finlândia - disse ele, revirando os olhos, fazendo-a rir. - Pelas barbas de Merlin! Você é filha de uma irlandesa com um holandês e nasceu na Finlândia - ele balançou a cabeça, fingidamente bravo. - Você é, literalmente, um acidente geográfico.
- Obrigada - ela sorriu, beliscando-lhe levemente no quadril. Ele fez uma careta e riu, logo ficando sério. Olhou-a e ele nem precisou dizer que agora realmente começaria a conversar.
- Nunca imaginei que estaríamos aqui hoje. Lembra quando nos conhecemos? Você ainda era uma garotinha completamente encantada por Harry Potter...
- Ainda sou!
-... e continua sendo, mas na época você era absolutamente diferente, apesar de ainda ser essencialmente igual...
Aleen riu e Karel calou-se, olhando-a fixamente, como se não percebesse o que dizia de errado. Ela comentou, quase rindo:
- Ainda bem que eu mudei muito mas não mudei absolutamente nada.
- Ah, poxa, você entende, não me interrompa - quis xingar ele, mas sorria também. - Enfim, eu achava que jamais ficaria longe de Edda e tinha certeza que você se tornaria uma freira em algum ponto ou viveria a vida inteira conversando sobre anjos com Petteri... Mas agora Edda é uma amiga e você se casou com Petteri como se vocês houvessem fugido de um conto de fadas estranhamente católico...
- Eu também não imaginava absolutamente nada disso - disse ela, franzindo o cenho e parando sob uma árvore, sem se desenlaçar de Karel. Os cabelos crespos e longos dele estavam graciosamente revoltos e, apesar de serem castanhos, pareciam mais claros sob aquela luminosidade. Seus olhos quase negros estavam claramente perdidos em profunda meditação, ainda que encarassem os dela. Aleen suspirou, ajeitando uma mecha de cabelo que caía no rosto de Karel.
- Acho que em algum ponto eu poderia ter ficado aqui - disse ela, pela primeira vez realmente considerando a ideia. - Funcionamos juntos, sei lá. Consigo me imaginar crescendo com a sua amizade, sinceramente. Acho que, mesmo que estejamos morando muito longe um do outro, sua amizade me faz crescer, me faz muito bem - ela mordeu o lábio inferior, olhando-o. Ele lhe escutava atentamente, como se cada palavra dela tivesse vital importância. - Em algum ponto, eu juro que quero viver perto de você ainda, seja daqui dois ou vinte anos. Você é incrível.
- Você também... - pela primeira vez, Karel corou em sua frente. Ela sorriu mais ainda diante dessa súbita timidez. - Vou te transformar numa pessoa ecologicamente correta, que faz exercícios, tem boa alimentação, uma ex-fumante, principalmente...
- Karel! - repreendeu ela, mas riu com ele também. - Ok. Você será um fumante sedentário e católico assim que eu me mudar para Amstelveen.
- Você pode se mudar exatamente agora! - disse ele, apontando, subitamente excitado como uma criança, para um floco de neve solitário que caía. - Viu só? Aqui também tem inverno e neve! Por que não tenta nem que seja por uma semana?
Pelo sorriso triste que Aleen lhe deu como resposta, ele não falou mais nada. Nem ela própria entendia a resistência em viver ali, justo onde tinha tantos amigos verdadeiros, onde uma vida completamente nova e interessante se apresentava completamente disponível para ela. Do seu bolso, Aleen ouviu seu celular tocar, e ambos sabiam que era Petteri, avisando que vinha buscá-la. Por um momento, ainda se encararam, ambos sentindo-se inexplicavelmente impotentes. Karel puxou-a para si num abraço apertado como se jamais fosse vê-la outra vez. Aconchegaram-se um no outro e, mesmo que estivessem tristes, sorriram um para o outro, indo de mãos dadas para o carro. Karel acreditava em destino, e talvez o de Aleen fosse justamente o de estar sempre longe dele, não? Mesmo que geralmente tentasse se enganar assim, sabia que no fundo jamais se consolaria com Aleen tão longe em todos os sentidos. Com ela sabia que passado, presente e até mesmo o futuro não pareciam tão importantes, afinal, quem pensaria muito se pudesse acariciar aqueles cabelos lisos e longos, quem se preocuparia com qualquer coisa se conhecesse a Aleen alegre, aquela que chorava de rir por besteiras e que era capaz de se comover verdadeiramente porque uma criança machucara o joelho? Em algum ponto Karel desejava mais do que tudo que pudessem tentar juntos, fosse o que fosse. E Aleen também.

Miséria

- Esse lugar me agrada - disse ela, de súbito, fazendo com que ele se sobressaltasse. Ela sentira sua presença, afinal, e depois de meses lhe dirigia a palavra outra vez. Sentou-se no degrau sob a árvore ao lado dela, sem nada dizer, esperando pelas palavras dos lábios dela, já que nada lhe ocorria - de qualquer forma, ele não tinha o que dizer. Com o canto do olho podia vê-la mordendo o lábio inferior, um hábito tão frequente quando estava nervosa que, por um momento, ele se lembrou exatamente como era estar com ela, não apenas perto.
- É interessante - prosseguiu ela, como se estivesse falando consigo mesma e, de certa forma, não deixava de estar. Houve um tempo onde ele era ela também, e isso não pode terminar inteiramente. - Eu sempre pensei que, se você mentisse para mim ou eu tivesse qualquer tipo de mágoa com você, iria te esquecer e deixar de lado como qualquer outro, iria te odiar por um tempo e depois ser absolutamente indiferente. Mas eu ainda te amo, e não acho que isso vá mudar tão cedo e, para meu próprio espanto, não me importo com isso. Eu tenho um amor maior que a vida e isso, por si só, já faz com que eu consiga viver, porém não sei até que ponto isso é diferente do que planejávamos. Gosto das coisas assim, mesmo que sinta saudade de dias mais brilhantes e mais escuros.
Mesmo quando disse que o amava, sua voz não se alterou, sempre num tom tranquilo de quem se acostumou com as coisas más (e afinal, nem eram de todo ruins) e continua lutando, de uma forma ou de outra. A maturidade dela sempre surpreendia-o, mesmo quando ele achava que já não podia fazê-lo. Finalmente, ela o olhou nos olhos intensamente e, para sua grande surpresa, ela sorriu. Não um sorriso irônico ou amargo, mas sim o mesmo sorriso de sempre. Levantou-se, fez-lhe uma leve reverência e se afastou pelo gramado, caminhando tranquilamente na manhã cinzenta. Não olhou para trás, mas aqueles olhos verdes nunca estiveram tão fixos nela.

Mikrokosmos XV

    Ele sorriu ao finalmente vê-la. Seus longos cabelos caíam para a frente, enquanto ela parecia muito concentrada em observar uma florzinha amarela à sua frente, tocando na barra de seu vestido. Uma brisa suave fazia com que tênues mechas de seus cabelos esvoassem sobre os ombros nus, numa carícia delicada, mechas absolutamente laranjas ao sol. O vestido caía-lhe bem, assim como a luz, o gramado e tudo mais que a envolvia. Quando ouviu-o se aproximando, por um momento fixou-lhe um olhar intenso, mas logo sorriu, levemente assustada da leitura dele em seu rosto, mas era inevitável.
    - Estou triste porque o dia é lindo e meu vestido também, e ainda assim não sou feliz - respondeu ela à sua pergunta muda, entrelaçando seus dedos na mão que ele lhe oferecia, sentando-se ao seu lado no tronco de árvore.
    - Teus cabelos estão delicados e muito ruivos, muito brilhantes. Gosto da brisa em ti, te traz uma beleza frágil.
    Ela nada respondeu-lhe, apenas deu um sorriso triste e cansado, olhando o dia bonito que se estendia pelo campo. Acariciou-lhe os belos e longos dedos de pianista, completamente absorta em seus pensamentos. O vestido branco era perfeito em cada mínimo ponto, assim como as pequenas flores que pontilhavam o campo e as folhas que balançavam aleatória e encantadoramente nas árvores.
    - Assisti um filme tão triste quanto belo hoje. Lembrou-me de ti.
    - Conte a história.
    - Era bastante clichê, mas ao menos o homem era um padre e, obviamente, é por isso que me lembrei de ti - os dois trocaram um sorriso divertido e carinhoso. - Minto. Na verdade não foi só por isso. Era aquela velha história de jovens que se amaram mas acabaram se separando e continuaram se amando, e aí se encontram no final da vida.
    - Mas...?
    - Mas ele disse que dormia todas as noites com ela - sem perceber, se aconchegou mais a ele ao dizer isso, acariciando-lhe a mão. - Ele fechava os olhos e simplesmente imaginava-a em seus braços, e isso é tão impossível que é bonito de se acreditar. Eles tiveram uma filha que herdou os olhos azuis dele, e ela simplesmente não conseguia se irritar com a criança - ela deu de ombros. - Acho que nossos filhos serão extremamente mal-criados.
    Ele riu, acariciando-lhe o rosto e olhando-a perscrutadoramente. O motivo de sua tristeza ainda lhe escapava, mas havia algo intenso ali, ele podia ver seus olhos ardentes e sentia sua pulsação acelerada, sua respiração densa. Acariciou as alianças na mão dela, olhando-a significativamente e, de alguma forma, eles se perderam na imensidão dos olhares outra vez, como se fosse a primeira vez, como se acabassem de descobrir que eram preenchidos pelas mesmas águas. A brisa tornava tudo esvoaçante, mas o olhar era profundo, inesperado no meio da tarde. Os medos mais uma vez esvaíam-se e inesperadamente a certeza, agora absoluta, nascia tímida, quase fraca demais para aparecer. Mas as florzinhas amarelas brilhavam por todo lado, lindas e inegáveis.

Pedaço de Mim

Não mais que um vulto, uma sombra esguia e diáfana de longos cabelos. Era São Paulo, era manhã, garoava e era bonito. Ele abriu a porta e mais adivinhou do que sentiu o cheiro da fumaça de cigarro, seus olhos negros mal vislumbrando um resto de cabelos ruivos que esvoaçava enquanto ela descia rapidamente as escadas do edifício. Por alguma razão esperou que ela voltasse e, certamente sem razão alguma, ela realmente voltou, e ele jamais saberia dizer quanto tempo ela demorou. Voltou com uma xícara de café que segurava em uma das mãos parecendo, de alguma forma, se aconchegar naquele gesto simples. Seus olhos, tão negros quanto os dele, subitamente levantaram-se, adentrando os dele, sendo invadidos por ele também. Sua expressão não se alterou sequer um milímetro, mas parecia que seu olhar havia se transformado completamente, como se algo nele a invadisse como jamais alguém ousara antes e, longe de estar ofendida, ela ficava simples e honestamente surpresa. Eram nove horas da manhã, os carros buzinavam, as crianças estudavam e o mundo nunca parou - mas subitamente eles tinham uma vida inteira juntos, o paletó enlaçando o vestido, o cigarro de filtro vermelho tocando prazerosamente os lábios bem desenhados de mesma cor, aquelas mãos longas acariciavam-lhe a nuca, ela ria na neve de Londres, aqueles olhos alegres de criança, tudo ganhado, tudo perdido, num átimo. E quem saberia, afinal? Eram dois estrangeiros em sua terra natal, mas que no íntimo dividiam um chimarrão, um pão de queijo e talvez, apenas talvez, um sorriso secreto.