sexta-feira, 17 de maio de 2013

Mikrokosmos XLXI




            Sobre o criado-mudo, numa folhinha verde de bloco de notas, naquela caligrafia apertada, ele pôde reler os versos tão conhecidos:
           
            Good-bye my Fancy!
            Farewell dear mate, dear love!
            I’m going away, I know not where,
            Or to what fortune, or whether I may ever see you again,
            So Good-bye my Fancy.

            Now for my last – let me look back a moment;
            The slower fainter ticking of the clock is in me,
            Exit, nightfall, and soon the heart-thud stopping.

            Long have we lived, joy’d, carres’d together;
            Delightful! – now separation – Good-bye my Fancy.

            Yet let me not be too hasty,
            Long indeed have we lived, slept, filter’d, become really blended into one;
            Then if we die we die together, (yes, we’ll remain one,)
            If we go anywhere we’ll go together to meet what happens,
            May-be we’ll be better off and blither, and learn something,
            May-be it is yourself now really ushering me to the true songs, (who knows?)
            May-be it is you the mortal knob really undoing, turning – so now
            finally,
            Good-bye – and hail! my Fancy.”

            E tudo se apagou. Demorou um tempo até que ele pudesse se mover para se sentar na cama, muito rígido, sem lágrimas.
seria a coisa certa?
            O corpo dela, muito branco e arredondado, ressonando tranquilamente na cama, enquanto ele se distraía durante a vigília com o mesmo livro do qual ela copiara o poema, num tempo em que ela ainda era pura. Ela acordaria então e desceria para preparar o café e ler um pouco, enquanto ele arrumava a cama e preparava-se para mais uma vez viajarem juntos. Às vezes ela acordava muito séria, com um sorriso triste, e ele sabia que ela lembrava da morte, da família que não tinha mais, da finitude das coisas. Eram dias onde nada além deles era necessário, mas o inevitável acontecia e logo as coisas mudaram e ele, por algum instinto não justificado, passou a acreditar que o melhor seria “seguirem em frente e crescer”, sem que ele próprio pudesse entender ao certo o que isso significava, apenas o que envolvia – separação. E então foi o que fizeram e, depois de tanto tempo, de tantos avanços e recuos, ali ele encontrava o poema que mais belamente descrevia a delicada rendição dela. O pensamento, a imagem de tal alma se rendendo tão tranquilamente, longe de qualquer tipo de ódio, fez com que ele lembrasse quem ela realmente era. E com isso, subitamente, toda a distância, todo o crescimento forçado e toda insegurança se tornaram apenas fruto da ignorância e do medo. Entretanto, era tarde demais para que qualquer coisa fosse feita a respeito, as folhas já haviam caído e nascido novamente e só então ele se deu por conta de seu erro.
            Então chorou. Chorou como o menino que era, menino que em sua inocência havia pecado, mesmo sem saber que era pecado. A neve era reconfortante, porém a desolação por ter cometido tamanha falta não permitia que ele se sentisse tranquilo por muito tempo. De imediato entendeu que aquela seria uma noite bastante difícil, e para noites assim, mesmo suas mais antigas fórmulas de conforto e aconchego (os livros de Tolkien, uma xícara bem quente de chá, café ou um bom vinho e a solidão de seu quarto, com a janela aberta para os pinheiros) não funcionavam. Resolveu então procurar algum bom filme para assistir, e não pôde pensar em algo melhor e mais triste do que Born of Hope – o qual, ele lembrou depois de uns trinta minutos, era o favorito dela. Não era meia-noite ainda quando uma batida leve soou na porta.
            - Pode entrar- disse ele, resignado a ser incomodado nesse momento.
            - Tem alguém querendo te ver, filho – uma pausa, hesitante. – Mando subir?
            Só poderia ser o irmão dele. Haviam brigado há poucos dias e ele certamente viera se desculpar. É claro que, na verdade, ele tinha esperanças que ela tivesse aparecido, mesmo depois dos anos passados, e sua esperança aumentava à medida que ouvia ruídos nas escadas e olhava para o bilhete que ainda naquele dia havia sido depositado em seu criado-mudo. Uma batida de leve e, no mesmo instante, é claro, ele a mandou entrar.
            - Perdoe-me por aparecer assim sem avisar e em hora tão inapropriada – começou ela, muito timidamente, sem olhá-lo nos olhos. – Eu avisei a sua mãe, porém ela se esqueceu de pegar os livros e o suéter do seu quarto, e insistiu que eu mesma subisse e os pegasse. Espero não estar atrapalhando muito, e prometo ser rápida.
            - Você é bem-vinda, não se preocupe. Fique à vontade, o quarto é seu também.
            Ele se sentou na cama e ali permaneceu, completamente constrangido, sem saber o que deveria fazer. Ela tinha a mesma aparência de dois anos atrás, exceto por estar mais magra, talvez um pouco abatida. Ela andava de cabeça baixa e muito rápida e cuidadosamente recolhia os objetos esquecidos por tanto tempo – ou talvez perdidos pela falta de coragem de toma-los de volta. Tomado por um impulso, tão súbito que ele nem se deu por conta do que estava fazendo, levantou-se e tocou de leve no cotovelo dela, a pedir que o olhasse. Ela se virou, parecendo um pouco ansiosa. Esperou em silêncio que ele se manifestasse.
            - Aquele poema era exatamente o que eu precisava ler. Obrigado por tê-lo deixado aqui.
            - Por nada. É apenas como me sinto.
            - Existe alguma maneira de mudar isso?
            Ela franziu o cenho, mas ele reconhecia o interesse, a esperança nos olhos dela. Poderia estar errado, afinal, talvez não a conhecesse tão bem depois de tanto tempo distante, no entanto parecia-lhe claro que a ansiedade que ele sentia por falar era a mesma que ela sentia por ouvir.
            - Eu acredito que nosso futuro juntos nunca deixou de existir. Mesmo quando ambos deixamos de acreditar, ele sempre esteve lá.
            - O que quer dizer... ?
            - Eu só preciso saber se você também sabe da existência do resto das nossas vidas em comum. Preciso saber se, assim como no dia em que nos casamos, você ainda acredita que só podemos ser verdadeiramente felizes um com o outro.
            Ela respirou fundo, com os olhos cintilando. Depois de um bom tempo, parecendo quase irritada, perguntou:
            - Você tem noção do que está propondo, sugerindo... ?
            - Absoluta noção. Você ainda me deseja por perto, Elizabeth?
            Ela tremeu. E de repente, não mais que de repente, seu rosto se transformou em pranto e ela não pôde mais esconder as lágrimas. Ela as limpou bruscamente, como se não gostasse de si mesma por chorar assim, e respondeu:
            - Sim, eu quero. De uma vez por todas.
            Eles não sorriram ou choraram. Olharam-se e logo se beijaram, intensificando tudo à medida que outra vez sentiam-se preenchidos pela presença mútua. Pela primeira vez, em anos, dormiram tranquilamente. E quando ela despertou, desceu para preparar o café enquanto ele repousava o livro da vigília na cabeceira, não mais um livro triste, mas as mais belas histórias que lhe preenchiam com alegria e um pequeno gosto de eternidade.