segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mikrokosmos XLXII




            O sol já estava se pondo quando eles finalmente sentaram na praia, com um resquício de riso ainda escapando dos lábios. Os cabelos dela pareciam mais afogueados sob essa luminosidade, mas ele nem reparava, aquele riso que permanecia em sua expressão lhe era mais encantador do que qualquer característica física. Alguns fios de cabelo voavam em seu rosto mas ela não parecia se importar. Ainda risonha, falou simplesmente, enquanto se olhavam:
            - Eu realmente te amo – e riu mais um pouco, sem fôlego de tanto que haviam corrido, brincado na água, na areia, feito as crianças que eram.
            Ela nunca havia dito aquilo. Sempre houvera sido carinhosa, sempre lhe tratara com o carinho que só os amigos mais queridos poderiam receber, porém jamais expressa tão claramente seu sentimento. Ele sentiu como se estivesse há horas em silêncio, mas na verdade falou novamente em seguida. Os seus pensamentos é que se moveram rápido demais, revivendo o dia em que a conheceu, a forma com que ela segurou sua mão e se abraçaram em silêncio, já compartilhando intimamente de muito do que jamais sonharam compartilhar com alguém. Ela parecia tão tranquila, tão segura ao dizer aquelas palavras que lhe custariam tanto, que caso houvesse pensado, não teria respondido da forma que respondera.
            - Me ama da mesma forma que eu te amo?
            O sorriso dela evanesceu por um momento. Ela baixou os olhos, se subitamente séria ou tímida ele não saberia dizer, mas o vento continuava a revolver os cabelos finos, e isso só lhe tornava mais adorável aos olhos dele.
            - Sim.
            Ela levantou os olhos, com um sorriso já se anunciando neles. Por um longo momento, ambos não fizeram nada a não ser respirar fundo e se olharem nos olhos.
            O momento era agora. Qualquer gesto, qualquer palavra alteraria para sempre o curso dos acontecimentos insignificantes – e, no entanto, tão caros – na vida de ambos.
            E já havia sido feito. As palavras, as poderosas palavras já haviam sido proferidas. Estenderam a mão um para o outro num gesto único e natural, que seria o começo, apenas o começo.