sábado, 24 de julho de 2010

Talvi

Honestamente, gostaria de permanecer em absoluto silêncio. Mas como sempre, não posso. Não tenho nada concreto a dizer, mas tenho tanto em mente que não posso me calar. Especialmente hoje, é difícil ficar em silêncio.
Sei que deveria procurá-lo com doces palavras hoje. É o que se espera, não? Mas não posso, porque não saberia o que dizer. Não posso, por mais que queira, entender a dimensão de sua dor e tampouco sei se existe algum laço que nos ligue, ainda. Um senso de dever me obriga a escrever, tanto para registrar que não me esqueci que hoje é uma data importante quanto para tentar aliviar tudo o que gira incansavelmente em meus pensamentos.
Estamos num frio inverno, literalmente. A temperatura nessa sexta-feira, 23 de julho de 2010 de fato não deveria estar mais alta. Ela condiz perfeitamente com meu estado de espírito – estou hibernando. Não que seja por vontade própria (mas também não por obrigação), talvez apenas concordando silenciosamente com uma necessidade que se subentende. Não apenas eu estou hibernando, como minha vida também está. O outuno já passou, e posso orgulhosamente dizer que possuo minhas reservas para esse inverno, que está sendo mais rigoroso do que eu esperava. É claro que meu eterno escapismo torna os dias mais terríveis em dias de beleza incomparável, mas nem sempre o escapismo é o bastante. Infelizmente a realidade sempre encontra um meio de infiltrar-se. Estava me perdendo – doce e profundamente – em mim mesma, nos meus belos sonhos nórdicos, enquanto estudo finlandês e aprendo palavras bonitas como Talvi, que significa inverno, de fato. Mas voltei à realidade por um momento simplesmente por ele. Como sempre.
Não me arrependo jamais de ter saído dos meus belos sonhos para me entregar à realidade de sua presença – isso é impensável. No entanto, sinto que deveria ter sido mais prudente, se pudesse (o que não era o caso). Respirei bem fundo e mergulhei com tudo na realidade, confiando cegamente num fio quase imperceptível de esperança – que talvez, na verdade, nunca existiu. Esse é problema de ser escapista, sofre-se para voltar à realidade, e quando se volta, é difícil distinguir a realidade daquilo que é sonho, apenas. E, novamente, asas se quebram.
Permiti-me sonhar alucinantemente. Minha mente voava em belas paisagens que a esperança havia me mostrado. E por mais que agora eu tenha plena e absoluta consciência de que, por mais possível que parecesse, é de fato impossível que tudo se realize, não me arrependo de ter sonhado. Dói, machuca mesmo. Mas a beleza contida nesses sonhos e a alegria pura e sincera que eles me causaram pagam toda lágrima que derrubei, e que certamente virei a derrubar. Eram sonhos belos demais para serem esquecidos tão facilmente.
“Só é impossível porque você acredita que é impossível.” Quem dera as coisas, de fato, fossem assim! O caso é que tudo, quando depende apenas de você, realmente é possível (e mesmo assim existem limites). Mas tudo se torna extremamente pior quando não depende só de você – porque então temos o magnifíco e assustador elemento: a outra pessoa. E você vê que seus planos e seus sonhos todos podem ser destruídos por apenas uma palavra. Você percebe que está nas mãos da pessoa, totalmente entregue, pois lhe deu a grandiosa possibilidade de ser realizadora dos seus sonhos e planos, que por vezes, são conjuntos. E o caso é que você realmente depende da pessoa, por mais independente que você seja em todos os outros aspectos de sua vida, e de repente você é apenas uma frágil criatura nas mãos de outra. É assustadora tamanha entrega, não obstante possui uma beleza incomparável.
Sei que este inverno (ou melhor, tämä talvi) pode ser apenas o prelúdio de uma belíssima primavera. Realmente, não há nada de concreto tenho que possa me convencer de que este inverno seja o fim, o irrevogável fim. Porém sei que as coisas não são simples assim, e o inverno é longo e rigoroso. Tudo tem o seu tempo, a voz dele ecoa em minha mente. Posso compreender perfeitamente isso agora, mas não me faz ter esperança alguma. Apesar da dor, aprendi a esperar, a calar, a ter paciência. Mesmo assim, nada que não seja concreto me fará ter esperança outra vez. Vivo em meus sonhos, e ele foi causador de alguns dos mais belos – senão dos mais belos, certamente, dos mais realizáveis. Não faço ideia do porque eles não se realizarão e, no entanto, acho que sempre soube disso. Ofereceste-se a mim sem se dar por conta da gravidade de seu ato, e sempre soube que era demais para mim, tão pequena, sabendo tão pouco da vida como sei. Provavelmente foi um ato de inocência, mas que certamente teve (e terá) muitas consequências em minha vida. Sinto que algo mudou em mim, profundamente. E isso fará parte de quem eu serei, daqui em diante, inevitavelmente.
Então, seguirei enfrentando meu rigoroso inverno. Escapismos e sonhos finlandeses à parte, quando infelizmente tiver de voltar à realidade, ele ainda será, sempre, uma das melhores partes. Talvez a mais bela, sim, mesmo que esse inverno não acabe. Por ora, perco-me novamente em mim mesma (volto ao finlandês (idioma), ao poeta finlandês e ao povo élfico, em breve), não pretendendo voltar à realidade tão cedo. Quero perder-me em terras distantes onde a neve cai e o idioma falado é o mais belo que existe. Enfrento meu rigoroso (e, estranhamente amado) inverno, com dor mas com calma, com desesperança mas com beleza e fantasia. “In my World / Love is for poets” e assim me perderei, infinitamente, em mim mesma e no poeta finlandês, o que é quase o mesmo. No entanto, não esqueci dele e de sua dor hoje – e sinto-me grata por ele ter nascido, por existir, por fazer parte da minha vida e principalmente por ter despertado em mim os mais belos sonhos. Certamente, jamais esquecerei seus olhos verdes, tão belos e tão brilhantes, e se esse inverno é o fim apenas o tempo irá dizer. O tempo, ele sim será o mediador, não é mesmo? Em suas próprias palavras.
A Farewell then / My path goes forever on”.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Acreditar ou não?

É unânime: todos as pessoas que conheço e já leram algo que escrevi dizem que eu escrevo bem. Nunca sei se agradeço, se digo "Bem capaz" ou só se só sorrio amarelo, acho que acabo mostrando os dentes numa tentativa de sorriso e fico vermelha, ou algo assim. Professores, colegas, amigos, parentes, todos já me disseram que escrevo bem. O máximo de crítica foi que eu tinha sido enfática (ou como eles disseram: "tu pegou pesado") em um texto ou outro, mas só no sentido que poderia parecer ofensivo às pessoas que se enquadrassem no que foi dito - mas que nem por isso era menos verdadeiro o que escrevi.
Sei que é extremamente lisonjeador receber elogios, e admití-los assim como eu estou fazendo agora pode parecer uma grande presunção, o que realmente seria - se eu acreditasse nesses elogios. Porque simplesmente não consigo me convencer de que escrevo bem.
Dizem que algumas pessoas repentinamente decidem "ser escritores" e tentam produzir algo que faça-lhes ouvir de todo mundo que são ótimos escritores. Eu jamais sequer cogitei essa possibilidade - aliás, eu própia, apesar de escrever com uma certa regularidade, jamais realmente cogitei ser escritora, quanto mais fazer sucesso com isso. Comecei a escrever por mera necessidade: é a forma que encontro de extravasar meus sentimentos e minhas ideias e dúvidas, que às vezes ficam tão absurdamente fortes à ponto de me sufocar. E então, da mesma forma espontânea que comecei, também comecei a mostrar para as pessoas o que escrevia, simplesmente porque às vezes surge em uma conversa algum assunto sobre o qual eu já escrevi. Comecei a receber elogios então, mas como acreditar? Eu mantenho meus dois pés atrás, obrigada.
Ninguém tem a coragem de dizer: o que você escreveu está horrível. As normas de boa educação jamais permitiriam, e em certos casos a pessoa realmente pode se magoar (principalmente se a pessoa procura ser um sucesso literário). Mas às vezes eu acredito que seja necessário dizer: está repetitivo, está chato, está ralo, está frívolo, ou ainda, "Você realmente deveria tentar outra coisa". Tudo isso deveria ser permitido, porque muito pior é a pessoa mostrar seus textos com orgulho - e todos eles serem mal escritos.
Já li muitos escritores falando sobre (aspirantes à) novos escritores, dizendo que a maioria dos textos que chegam à eles são terrivelmente mal escritos, e ainda por cima acompanhados de uma carta cheia de esperanças literárias do autor. Aí, por mais horrível que seja o texto, os escritores simplesmente não tem coragem de desestimular os "novos escritores" e geralmente ou não dizem nada, ou dizem um elogiozinho só para não desestimular. Já vi meus autores favoritos dizerem que são raríssimos os que escrevem bem hoje em dia (ler Caio Fernando Abreu e Fernando Sabino dizendo isso tirou qualquer mínima convicção que eu poderia ter de que escrevo bem). Aí eu penso: como posso acreditar que realmente escrevo bem se nem tenho a intenção e as pessoas jamais teriam coragem de dizer a verdade, de qualquer forma? Como acreditar que realmente não estou apenas escrevendo besteiras e os outros dizem que é bom só para me agradar? Impossível saber. E o pior é que eu não consigo parar de escrever, nunca. Só não perco o sono e não paro de escrever porque a opinião dos outros é secundária; escrevo por necessidade e apenas admito que é realmente bom que elogiem o que eu escrevo. Mas quando é sincero, é claro.
Já comentei com alguns amigos meus que o maior elogio que alguém pode me fazer é dizer que escrevo bem. Porque em tudo que escrevo coloco minhas opiniões, meus sentimentos, minhas lembranças, enfim, costumo escrever colocando minha essência para fora, de certa forma (e esse negócio de colocar a essência para fora soa horrível, como pude escrever isso?) e então, elogiando o que escrevo, a pessoa está automaticamente elogiando quem eu realmente sou - mas isso contando que eu me expresse realmente bem, à ponto de colocar exatamente o que penso e sinto no que escrevo, e quem me garante que realmente faço isso? Para mim, é claro que parece óbvio, pois tanto o que escrevo quanto o que penso são coisas minhas, então para mim é muito claro. Mas como saber se outras pessoas, certamente com diferentes opiniões e diferentes visões de mundo, vêem o mesmo que eu vejo ao ler meus textos? Impossível saber.
Já me dei por conta que estou num labirinto sem fim, e totalmente assustador. Por mais que eu não queira ser uma "revelação literária", não escrever bem me aflige, não pelo o que os outros podem pensar, mas sim porque escrevo para me expressar, e se não consigo me expressar através da escrita, como farei, então? Se não consigo usar corretamente minha válvula de escape, então escapo para onde? Realmente, é um labirinto sem fim. Vou parando por aqui então, porque quanto mais escrevo, mais me parece que estou escrevendo bobagens desinteressantes - e mais as minhas perguntas se tornam assustadoramente reais.