segunda-feira, 31 de maio de 2010

À Palavras de Distância

      Martha Medeiros, Fernando Sabino, Rubem Braga, Caio Fernando Abreu. Nomes comuns e até banais para uns, para outros simplesmente autores legais, mas para algumas pessoas (e agora eu me encaixo) praticamente amigos íntimos.
    Uma amizade geralmente é composta de conversas, momentos compartilhados, coisas em comum, coisas opostas que às vezes acabam se completando, enfim, uma quantidade enorme de pormenores que acabam sendo "pormaiores" (e acho que acabo de inventar uma palavra). Nunca dividi nada disso com nenhum dos ilustres nomes citados acima, não propriamente, mas indiretamente, sim.
    Quantas vezes são descritas situações, estados de espírito, trechos de músicas, lembranças dispersas, enfim, pedaços de nada e tudo que se confudem na mente da gente e a gente vê escrito por outro? São coisas íntimas, banais, profundas, constantes, são tudo e nada, coisas da vida, anyway. A gente lê, dá risada, chora, reflete e acaba percebendo que os textos por vezes nos penetram, ou parecem apenas uma formulação mais concreta de várias ideias que sempre tivemos. Os girassóis, os cigarros, os versos, o café-preto-forte-e-sem-açúcar, as sensações, os suspiros estremecedores, o riso, o tédio, tudo tão nosso e tão deles, acaba que a gente divide o mundo com aqueles que escrevem, que sentem a mesma coisa que nós.
    Em toda essa confusão de vida, que me lembra o barroquismo em seus contrastes tão intensos, a gente tenta de tudo para se exorcizar, para fugir do raso e do sem gosto, sempre procurando algo mais do que o que a gente vê por aí, essa coisa sem gosto, sem cor e sem graça, e então nos afundamos nos livros e então quando achamos essas pessoas, essas adoradas pessoas que colocam seus demônios e suas flores para fora em seus livros, dá um alívio, uma coisa inexplicável: nós percebemos que não estamos sozinhos. Essa densidade toda não se aplica só à nós, mas também àqueles que sofreram e sofrem dessa busca de sentido&felicidade&paz&amor&cultura&tudoqueimporta e muitos outros, e que também já se sentiram desolados por estarem num mundo tão errado como o nosso.
    É incrível que, colocando para fora tudo que nos atormenta, possamos ajudar outras pessoas, encontrar outras pessoas, conectar-se mesmo sem saber aos que são de fundamento. O que serviria apenas para um alívio imediato de tédio, alegria, desespero, ou qualquer outra coisa, acaba sendo um bálsamo para outro e aproxima as pessoas que, por outros meios, nem saberiam talvez que outras pessoas têm os mesmo anseios desvairados e puros.
    Por essas e outras, que continuo a escrever. Inicialmente, para me aliviar da existência, mas agora também para torcer que alguém - seja quem for, como for, onde for - possa sentir que não está sozinho, que ainda existem pessoas com essa ânsia de não-sei-o-quê-só-sei-que-não-é-isso. Porque através das palavras, duas ilhas podem se tornar uma só.

domingo, 30 de maio de 2010

O oceano não é verde.

Estava lendo um texto de Caio Fernando Abreu (À Beira do Mar Aberto) e finalmente percebi porque somos tão impenetráveis, tão intensos. E por somos, me refiro unicamente à mim e à um certo poeta finlandês, porque o resto eu não conheço e nem penetro, o resto não vê o mesmo mar que eu e ele. Eu me perguntava tanto porque essas barreiras intransponíveis existiam em mim, porque não conseguia deixar ninguém se aproximar de verdade, mas a resposta é tão simples que chega a ser absurdo que ninguém perceba logo de cara a verdade. Porque é simplesmente isso: se somos o que ninguém enxerga, somos nossa mente, nossa infância, nossas visões, nossos segredos, como alguém que não vê tudo da mesma forma poderia penetrar em nossa essência? É impossível. Porque se eu digo e explico pormenorizado: o mar é cinza como aqueles olhos lindos de lobo, a praia é deserta, existem pedras altas e um vento frio e cortante fazendo os cabelos voarem, mas tudo isso é reconfortante, porque é onde se pode pensar de verdade, é onde se revela tudo e se pode ser um ser humano que tenta ser melhor, é onde se revelam as fraquezas e as belezas, e para isso se passam horas ali, observando o oceano, que de certa forma, é a eternidade. Se alguém vê o oceano verde ou róseo ou não se vê ali, não vê naquelas ondas tudo que envolve sua mente, como poderia compreender isso? Pois nada mais sou do que a garotinha que senta sobre as grandes pedras e abraça os joelhos, observando séria e um tanto obscura o mar em sua imensidão, e pensa não apenas na sua pequenez, mas também em sua fraqueza e seus pecados, e por outro lado sabe que um dia pode conseguir ser algo belo e puro, se esforçar-se bravamente. Quem não entende a dimensão de tudo isso, não pode me penetrar nem me conhecer, porque simplesmente não é assim,  não é como eu, e não existe o que destrua essa barreira. Pode haver convivência, compreensão, amizade e até paixão, mas o amor maior que a vida, a verdadeira conexão inquebrável entre duas almas jamais poderá existir. Não importa o quanto tente desvendar tudo que existe por trás do olhos escuros e brilhantes, não é possível, pois para derrubar todas as barreiras é preciso entender a necessidade da pureza, a escuridão e o sol que aquece suavemente uma manhã de inverno, a imensidão do mar e as longas horas à observá-lo, pois isso é o íntimo, a essência, o que realmente faz ser quem somos. Quem é feito de um mar verde, de umas alegrias diferentes, sem pureza, sem inocência, sem conservar a criança, simplesmente não pode entender e muito menos estar realmente próximo da alma oceânica, pois a alma oceânica só se abre à outra igual, até mesmo porque essa abertura é infinita e eterna: afinal, as duas almas sabem exatamente e perfeitamente cada pequeno átomo que constitui o que são, e o que os tornou assim. O Oceano oscila entre azul escuro, nas noites onde reflete a lua cheia, o azul claro das tardes douradas e o cinza das manhãs frias de vento cortante, onde o céu fica quase branco. Além dessas oscilações, não existe conexão possível: um oceano diferente ou uma diferente visão fica à um abismo intransponível de distância. E isso é infinito e íntimo, não tente entender, isso é da alma oceânica, não de outro tipo de alma ou da mente.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Respirar

é uma coisa tão simples tão banal mas tão necessária que às vezes a gente até acaba esquecendo, mas também, ah, são tantas coisas enchendo a cabeça, começam pelos olhos dele, que são verdes...Por que tão verdes? Justo minha cor favorita, que droga, e aí eu já me desvio para outras coisas, lembro do campo que eu ficava olhando na minha infância nas tardes de sábado, era tudo tão verde tão lindo e eu era tão inocente, o que já me lembra que a inocência é a coisa mais bonita que existe, afinal, por que diabos as pessoas não prezam mais a inocência? Justo ela que origina os atos mais belos e que traz tanta paz para aqueles que a possuem, e aí eu já lembro também do por que que é tão difícil seguir nossa natureza, às vezes queremos fazer a coisa certa e acabamos não fazendo por dúvidas impostas pelo senso comum, e nos enganamos, tudo para que? Para agradar os outros não dá, porque isso não traz felicidade pra ninguém, felicidade vem de amor e inocência, e aí eu lembro dos olhos dele de novo, tem tanto amor e tanta inocência e tanto brilho naqueles belos olhos que tanto me olham, mas será que tanto amor assim pode ser pra mim? Isso também me faz pensar nas barreiras que a gente constrói, eu sei que a gente constrói para se proteger e não sofrer, mas será que de vez em quando não vale a pena se arriscar um pouco? Aí entra também o orgulho de não precisar baixar a guarda nunca, mas pra que tanto orgulho? E outras tantas preocupações tão banais mas tão profundas, porque também a vida da gente não é feita só daqueles momentos inesquecíveis, é a rotina que ocupa as nossas horas e acaba tomando conta da gente, e essa esquizofrenia de ideias só pode acabar em loucura, e quanto mais eu tento fugir da realidade mais ela me domina mas se eu resolvo vivê-la ela se esvai; mas se a chuva continua a cair e a gente se lembra de respirar fundo e, ah...era isso. Respirei.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

As Progenitoras de Hoje.

Lembrando-me de que no próximo domingo será comemorado o dia das mães, algumas ideias sobre as mães que a gente vê por aí me voltaram à mente. Com certeza, todas as mães estão esperando, intimamente, no mínimo um bom presente domingo, certas de que se sacrificam até mais do que deveriam pelos filhos. Mas aí fica uma pergunta: será que realmente se sacrificam como pensam que fazem? Serão elas realmente merecedoras dos presentes que esperam?
Existem mães que são inacreditáveis. São capazes de amar e cuidar não apenas dos seus filhos, mas de todos a sua volta, com tanto amor que nos faz até ter esperança na humanidade de novo. São mães que sabem amar sem invadir, sem limitar, sem descuidar nunca, e mesmo assim, jamais sufocar. São mães exemplares que certamente são amadas pelos filhos acima de qualquer outra coisa. Mas essa espécie está em extinção. E o problema é justamente a espécie mais comum encontrada nos dias de hoje.
São mães em que os filhos são simplesmente mais uma parte da vida delas (não que eu ache que as mães deveriam se dedicar apenas aos filhos, deixando suas vidas de lado, afinal isso é doentio), assim como o casamento, a academia, o trabalho, as amigas. Para elas, os filhos são apenas uma parte da rotina. Exibem orgulhosamente seus filhos, sempre fazendo elogios na frente dos outros e os negligenciando pelas costas. Nas fotos de família, abraçam os filhos forte e mostram todos os dentes, como se isso fosse prova irrefutável de que são mulheres felizes e mães exemplarmente amorosas.
Não tenho nada contra as mães que tem uma vida agitada além dos filhos. É perfeitamente normal e até mesmo saudável que elas tenham compromissos e suas vidas não se resumam basicamente aos filhos, mas tem de haver um limite para isso. A partir do momento que tem um filho, a mulher tem de saber suas prioridades: um filho sempre deve vir em primeiro lugar, não importa se a mãe em questão é a Madonna ou a Jéssica da Silva. A maternidade é algo que transcede tudo que é mundano: nessa hora, apenas o amor é que conta. Mas parece que quase todo mundo se esqueceu disso.
As mães "moderninhas" tem uma vida agitada: se preocupam com dietas, academia, trabalho, amigas, vida sexual e uma porção de outras coisas que até podem ser importantes, mas estão sendo erroneamente supervalorizadas. Digo e repito: as mães tem de ter sua própia vida, mas existe uma fina linha que as divide entre as que tem uma vida além dos filhos e as que acabam por se comportar como adolescentes histéricas.
É tenebroso ver que mulheres que supostamente seriam maduras ainda agem como adolescentes (e algumas, até como pré-adolescentes!), acabando por tratar os filhos como se eles fossem os irmãos caçulas que estão sob suas ordens apenas porque não há alguém melhor para tomar conta deles. Acabam entregando seus filhos a todo tipo de profissionais: professores, psicólogos, pedagogistas e tudo mais que o dinheiro permitir. E depois não sabem porque os filhos estão usando drogas, participando de orgias e sabe-se lá Deus o que mais.
É claro que estou exagerando um pouco. Existem algumas poucas crianças superdotadas que conseguem ser maduras o suficiente para ser mãe de si mesmas, e conseguem construir uma vida razoavelmente boa mesmo sendo órfãos de mãe presente. Pois mãe presente apenas em aniversários e reuniões da escola, é a mesma coisa que ser órfão, a única diferença é que ninguém sabe de nada.
Gostaria de ver se nesse dia das mães, houvesse algum fator estranho que fizesse com que as mães recebessem apenas os presentes que realmente merecem. Seria apavorante o número de mães de mãos vazias. E com certeza, com o ar mais inocente do mundo, elas se perguntariam o que haviam feito para lhes acontecer tal desgraça. Mas se pensassem para pensar só um pouco, veriam rapidinho qual é o problema.
Mães que não percebem que os filhos estão em depressão (e aqui não digo uma tristeza qualquer, mas a verdadeira depressão, que necessita de tratamento e tudo mais), que não sabem quem são os amigos e professores dos filhos, que não sabem o que os filhos gostam e não gostam e tampouco sabem quando os filhos estão mentindo ou não, não merecem nem mesmo compaixão. Pois deveriam ao menos ter pensado se tinham suporte para tamanha responsabilidade antes de ter filhos, e não tê-los para salvar um casamento ou simplesmente porque era o que se esperava delas. Os filhos são seres humanos! São pessoas, com sentimentos, dores, alegrias, exatamente como elas, e não uma massa de modelar onde elas simplesmente mandam ser de uma forma e os recriminam o resto da vida se não assumirem a tal forma.
Quando as mães aprenderem que ser uma boa mãe não é pagar natação/psicólogo/escola particular/etc e dizer para fazer uma faculdade que dê dinheiro, mas sim uma questão simples e unicamente de amor e compreensão: é apenas saber que os filhos são pessoas com personalidade própia, que tem desejos e dúvidas e que necessitam de carinho, força e cuidado, aí sim teremos um mundo melhor. Quando elas entenderem que é necessário aprender a amá-los como são e tentar compreendê-los e orientá-los da melhor forma possível, aí sim talvez os problemas do mundo diminuirão. Pois, ao contrário de muitos, eu acredito que o futuro está nas mãos das mães, e não das crianças de hoje. Precisa-se de mais do que simples progenitoras, precisamos de mães: um ser que representa amor, carinho e compreensão, uma fonte de sabedoria que pode transformar o mundo em um lugar melhor.