segunda-feira, 25 de outubro de 2010

No Escuro do Meu Mundo

Como de costume, ela acordou sem saber se tudo havia um sonho. Antes mesmo de abrir os olhos, sentiu o cheiro dele e os braços a envolvê-la e não pôde deixar de sorrir. Abriu os olhos e ali estava o rosto dele, dormindo serenamente, as pálpebras descansando delicadamente e protegendo os brilhantes olhos verdes. Uma imensa ternura apossou-se dela ao observá-lo em seu ressonar tranquilo, e ela se sentia capaz de amá-lo outra vez, mesmo que já tivesse o feito outras vezes naquela mesma noite, mas conteve-se: a imagem dele dormindo era bela demais para que ela pudesse rompê-la fosse pelo o que fosse. Sorrindo, ela passou levemente a mão sobre a barba que lentamente começava a crescer, e repentinamente à vontade em sua alegria, ela começou a mover os lábios, mal sussurrando:
- Meu amor, tem tanta coisa que você nem imagina, na verdade, há tanta coisa incrível que eu jamais havia pensado existir... - ela suspirou e prosseguiu. - Quando você chegou, eu estava acabada, não tinha mais nenhum amor-própio, eu me odiava e me destruía, mas aí você vinha, dia após dia me cativando, sempre sendo gentil, sempre doce... e eu me encantava sem nem perceber. Você veio vindo assim, simples e carinhoso, e eu nem me dei por conta do quanto isso era bom. Quando tudo estava ruindo em mim, você era a doçura, a alegria, o que restava de bom, você sempre foi amoroso, e me envolveu aos poucos, profunda e inesperadamente... Eu só percebi o quanto estava envolvida com você quando me peguei chorando de felicidade porque poderíamos ter uma vida juntos. E pensar que você sonhava com isso desde antes, mesmo quando eu estava no meu pior estado...
A respiração dele tornara-se mais profunda e grave. Ela o observava dormir amorosamente, agora com os olhos marejados pelas lembranças.
- Não sei explicar direito o que você significa para mim, é estranhamente profundo e intenso, mas posso te assegurar com a toda a certeza do mundo que você é algo muito bom para mim, em mim - ela abriu um largo sorriso, beijando-lhe carinhosa e delicadamente a fronte. - Nós temos uns medos parecidos, mas também amamos loucamente, desenfreadamente... É tão inexplicável, tão perfeitamente raro o brilho dos teus olhos, que eu mal ouso acreditar que tudo isso pode ser verdade. Eu não me permitia acreditar que todo o amor que eu via nos teus olhos podia ser para mim, acreditar que havia amor entre eu e você. Assusta-me a dimensão que o meu envolvimento com você tomou, o que eu sinto por você foge totalmente do meu controle, e eu odiava sentir tanto por você... Amor, você não faz ideia da luta que foi para eu me entregar, para eu vir aqui pela primeira vez - ela odiava também as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Mesmo depois de tanto tempo, ainda sentia-se estúpida por poder amar tanto assim alguém. - não imagina o parto que foi um dia ligar e perguntar se você estava em casa, por Deus, antes de olhá-lo nos olhos sempre havia uma batalha em mim, porque sempre tive medo de me perder irremediavelmente na imensidão verde e brilhante do teu olhar, mas no fundo sei que só temia porque já estava irremediavelmente ligada a você.
"Eu vivi milhares de coisas inéditas desde que te conheci. Nunca havia conhecido sentimentos e sensações dessa dimensão, nunca havia sentido alguém tão fundo e tão inexplicavelmente como você em mim, teu toque, teu gosto, teu gesto mais frágil, tudo está profundamente guardado em mim de uma forma que nem eu, que gosto tanto das palavras, consigo explicar. Você é meu silêncio, meu choro de alegria sincera e, apesar de já ter sonhado tanto com isso, nunca pensei que isso pudesse realmente acontecer. Mas cá estou eu, vivendo o amor mais lindo que eu poderia viver, porque eu sei que na minha vida nada se compararia ao que estamos vivendo agora. Será que você pode perceber a raridade disso tudo? Será que para você tudo também tem essa dimensão? A julgar pela maneira que me trata, pelo teu olhar, pelas coisas que me diz com sua voz melodiosa, tenho tudo para acreditar que somos tão igualmente felizes o quanto um casal pode ser. Perdoe-me por ser tão tola, mas tenho medo de acreditar em tamanha felicidade. É incrível demais que estejamos aqui, que eu tenha teu corpo no meu, teu cheiro me invadindo, tua existência profundamente bela em mim, e que nós dois provemos tanto prazer e tanto amor quando o mundo deixa de existir. Você é o escuro do meu mundo, em você eu sou pura e nada mais importa, eu sou amor e prazer, como jamais poderia ser de outra forma, perco-me em ti sem deixar de ser eu mesma, assim como você se perde, permanecendo inteiro e então a gente se ama tanto, mas tanto, que eu sempre acredito que não suportarei outra vez algo tão intenso e belo."
Lágrimas inesperadas desceram pelo rosto dele e os olhos verdes, agora marejados, abriram-se e a encararam gravemente na penumbra. Ela sentiu seus olhos arderem, assustou-se com a reação dele, mas logo o brilho já conhecido de alegria nos olhos dele afastou qualquer preocupação que ela podia ter. Sorriram então, e nada mais precisava ser dito. Ele a beijou intensamente e possuiu-a com todo o amor que indefinivelmente sentiam. E no escuro do mundo amavam-se de forma tão intensa e rara, que descobriam um novo sentido de existir - existiam profundamente no amor. E não precisariam de mais nada, nunca.

sábado, 23 de outubro de 2010

Natal em Família

Segurando-se para não sair saltitante do supermercado, ela caminhava pelo estacionamento, empurrando seu carrinho e tentando caminhar tão rápido o quanto podia com seus sapatos de salto desconfortáveis. Tentou não se importar muito com isso, afinal, logo ela estaria em casa e tinha um fim de semana inteiro e ainda por cima com direito ao feriado de Natal para descansar.
- Não, vocês dois, agora nós vamos para o carro! Não! Vocês já ganharam chocolate o suficiente... Mariana, por favor, larga esse livro para caminhar, pelo menos!
Havia algo de extremamente familiar naquela voz que não parecia muito distante. Ela se virou e deparou-se exatamente com quem esperava. Eram os mesmos cabelos longos e lisos, a mesma forma de xingar já quase rindo, o mesmo sorriso habitual, só que agora com três crianças disputando sua atenção. Sem poder mais se conter em sua alegria, ela correu e, antes que conseguisse alcançá-la ela se virou e também a viu. Por um momento, ela ficou paralisada: a amiga nem parecia mais a mesma. Usava terninho e salto alto, cabelos comportadamente lisos e bem arrumados, mas era a mesma garota que vinha correndo e rindo para abraçá-la. Sem dizer nada, as duas correram e se abraçaram, rindo de nada além de pura felicidade.
- Meu Deus, você não mudou nada! - disse a agora advogada de sucesso, com direito a cabelos arrumados e tudo mais. - Pude te reconhecer de longe! E minha nossa, que crianças mais lindas... Meu Deus...
Ela foi beijar cada uma das crianças, apaixonada por crianças que era, e as própias crianças trataram de se apresentar, bem educadas como haviam sido, enquanto eram observadas pela mãe com um sorriso tranquilo e amoroso.
- Deixe-me adivinhar... Você ganha 425 milhões de libras por mês e é a advogada mais disputada por aqui?
- Não, longe disso - disse ela rindo, já pegando um dos gêmeos no colo. - Mas certamente consegui ter algum dinheiro, afinal, dois advogados ganham mais do que um só...
Ela riu, o mesmo riso alegre e apaixonado de quando tinham 15 anos e a outra apertou os olhos, perscrutando sua expressão. Então, subitamente compreendeu tudo.
- Não, não pode ser! Vocês...
Ela levantou a mão esquerda com seu melhor sorriso e em seguida acariciou a barriga com a mesma mão.
- Não pode... Meu Deus!
Elas se abraçaram de novo, rindo, alegres. Ninguém conseguiria compreender a conversa, mas se tratava de duas velhas amigas... Que subitamente viam seus planos mais impossíveis realizados. Não precisariam jamais de qualquer palavra para compreender o que havia acontecido a cada uma, os sinais eram claros - todos os sonhos haviam dado incrivelmente certo, até mesmo para aquela que era a mais cética, justo ela, acabara realizando seu sonho ainda melhor do que o planejado. Era uma vida muito melhor de viver do que sonhar, o que ambas jamais imaginaram que viriam a saber um dia. Mas felizmente agora sabiam.
- E você...? - perguntou a advogada, com um sorriso de quem já sabe a resposta.
- Confira a cor dos olhos - disse a ruiva, rindo. - Todos verdes. Eu te disse que as crianças sairiam todas a cara dele, se bem que a Mariana é exatamente a mistura de características...
- Você nem acreditava que haveriam crianças, quanto mais dizia isso, eu lembro bem, humpf - ela fez uma expressão fingidamente brava e as duas riram. - Mas viu só? Tudo deu certo, até demais. E eu que sempre achei que ia ter um monte de filhos e você é que vem com a família gigante...
- Você não viu nada ainda, tem mais por vir - ela deu um enorme sorriso, que iluminou os olhos castanhos exatamente como acontecia há anos atrás, quando toda essa história havia começado. - Eu até parei de dar aulas para cuidar das crianças... Justo eu, largando tudo para cuidar de crianças! Eu que sempre fui a pessoa mais independente e orgulhosa...
- Até conhecê-lo - disse a advogada, com aquele seu antigo ar sábio quando se tratava da amiga. Elas pararam por um momento, apenas para se observarem mutuamente, felizes. Tudo estava em seu lugar como elas haviam tanto desejado, até inesperadamente maravilhoso para a cética, que agora via a realidade ainda melhor do que seus sonhos. Ambas sabiam que haviam passado tantos anos longe uma da outra apenas porque fora inevitável, mas agora não se largariam nunca mais, não quando tinham a chance de ter exatamente a vida que, no caso da advogada, sempre sonhara, e no caso da ex-professora, a vida que secretamente sempre desejara... apenas se fosse ao lado dele. Agora havia anos de história para contarem uma à outra, e não se desgrudariam nunca mais e, muito mais do que isso, agora fazia total sentido a forma estranha e incrível que as coisas aconteceram, aproximando-as sempre mais. Mais alegres do que jamais haviam estado antes, combinaram o Natal que um dia a advogada sonhara e contara à ex-professora. Acabaram por formar a família mais maluca e foi o Natal mais cheio de folia que houvera na vida de todos, mas também, haviam formado, inocente e alegremente, uma família estranha e cheia de alegria.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Martine

                Ela chegara com timidez em sua vida. Com seus sorrisos ao mesmo tempo tímidos e com uma certa malícia, com o brilho dos olhos castanhos, enfim, com sua doçura, havia encantando-o, muito mais profundamente do que ele jamais desejara.
                Primeiramente, ele encantara-se com sua humildade de querer aprender tudo, com sua contínua doçura e, principalmente, com a intensidade de seus olhos. Repetidamente ele tentara negar que estava inegavelmente apaixonado por ela, mas nada havia que pudesse evitar o que acontecera naquela noite. Na penumbra silenciosa e densa daquela madrugada, ela subitamente entrara na sala, tirando-o de suas reflexões costumeiras, tirando todo pensamento que não fosse ela própria de sua mente. Nada disseram, num acordo tácito ele levantou-se e indo até ela, passou delicadamente as mãos pelos cabelos lisos, encarou os olhos castanhos que brilhavam intensamente na penumbra e então beijou-a mais intensamente do que jamais havia beijado qualquer mulher em sua vida inteira. Perdeu-se então pela primeira vez naquele corpo jovem e alvo, naquelas formas arredondadas, os cabelos ruivos e lisos envolviam-no e as pernas longas, as mãos, a respiração densa, ela estava profundamente nele e ele a penetrava com amor e angústia, com a dor de amar tão profundamente alguém tão inesperada como ela.
                Através dos dias então, amaram-se. Ela trazia-lhe beleza e luz, enchia o apartamento com seu riso quente e alegre, dançava, entregava-se e fazia-o profundamente feliz. A simples imagem dela tinha o poder de encantá-lo, de alegrá-lo - mal podia caber em si de amor quando via-a em silêncio lendo um livro, os olhos castanhos concentrados nas milhares páginas que pertenciam a ele próprio mas que à ela, e somente à ela, ele não sentia ciúme algum de emprestar, pelo contrário, sentia até prazer de ver cada palavra, cada página ser tocada e lida por ela. Jamais se esqueceria dela com os cabelos molhados da água do chuveiro, completamente entregue, ele beijando os ombros cobertos por pingos de água, a respiração densa dela em seu ouvido; abrir os olhos e vê-la observando-o dormir com um sorriso profundamente carinhoso, e o brilho dos olhos dela ser ainda mais belo que a luz solar de duas da tarde que entrava pela janela; o olhar grave antes dos beijos; o gosto de cigarro e café daqueles lábios desenhados e o pedido para que a chamasse de Martine, sempre de Martine, porque ela adorava seu sotaque francês e a forma que seus lábios adquiriam ao dizer "Marrtine". Ele chamava-a "Marrrtine" e ela fechava os olhos em deleite, em seguida beijando-o, acariciando-o, tão despudorada o quanto pode ser um anjo ruivo amando um humano.
                E então, agora, ele estava sozinho. Súbita e dolorosamente sozinho. Ele sempre soubera que sua Martine teria de ir viver sua própria vida um dia, e ele própio insistira em não ir junto, por mais que os olhos dela houvessem transbordado e certamente houvessem deixado o seu apartamento sem o mesmo brilho original. Ele sofria profundamente por não pode ver o quanto ela o amava, o quanto ela não se importava com nada do que ele considerava dificuldades para que ficassem juntos. Ela amava-o, e apenas sabia disso. Ele sofria, desintegrava-se, chorava seu abandono, sentia a pele clara e macia dela sobre a sua, sentia o cheiro de seus cabelos ruivos, via os olhos brilhando intensamente na penumbra, ouvia sua voz carinhosa chamando-o, sussurrando seu nome, sentia as mãos de dedos longos acariciando-o, podia senti-la em si como jamais havia sentido mulher alguma antes.
                Tão perdido estava ele em seus devaneios naquele entardecer de primavera, que sequer ouviu o barulho das chaves na porta, só sentiu-se desperto quando sentiu o cheiro dela invadindo suas narinas e sua mente. Ele virou-se então e viu-a aproximando-se, e então, encarando seus olhos verdes que ela tanto adorava, ela sussurrou:
                - Ne me quitte pas - com urgência, os olhos de ambos encheram-se de lágrimas e ele beijou-a profundamente, entregando-se ao café e ao cigarro, ao doce e intenso sabor de Martine. Eles se casariam em Paris ou Versalhes, teriam filhos ou não, não importava: ele se perderia na imensidão branca da pele e na escuridão brilhante dos olhos de sua Martine pelo resto de seus dias.

A Dança

Antes de estender-lhe a mão, ele prendeu a respiração e imaginou como seria pela primeira vez tocar naquela pele tão incrivelmente branca. Subitamente, ela o olhou nos olhos, e houve o mesmo impacto sobre ele. Aqueles olhos escuros e brilhantes haviam mexido em seus recônditos mais profundos desde a primeira vez em que os vira. Com a mesma gravidade de sempre, ela pousou sua mão de longos dedos de pianista sobre a mão que ele lhe estendia, o que lhes causou um impacto mais profundo do que podiam esperar. Ele então conduziu-a para o centro do salão ricamente decorado, e a levou através do som dos violinos e do piano.
Ela era absurdamente linda, e ele sabia que todos concordavam com ele. Seus lábios naturalmente avermelhados e desenhados, seus olhos escuros e brilhantes, sua tez alva que facilmente corava, suas sardas quase que imperceptíveis, seus cabelos louro-prateados, os traços finos e graciosos que formavam a bela pintura que ela toda era, só podiam causar-lhe encantamento. Não bastasse sua extrema beleza física, havia sua voz rouca, sua forma de sorrir praticamente apenas através dos olhos, sua inteligência, sua firmeza e sua doçura - e sua arrogância inegavelmente tornava-a ainda mais atraente. Mas o que ele via nela e que quase ninguém mais via, e era o que mais o atraía, era a enorme dor que havia por trás daquela imensidão escura e brilhante que eram seus olhos. Ele podia ver nela a dor profunda que justificava sua frieza, sua arrogância e sua eterna beleza; ela era uma jovem que trazia a dor em si desde sempre. Havia tanta dor nos olhos dela quanto nos próprios olhos escuros dele. E isso era-lhe profundamente tocante.
Enquanto ela dançava em seus braços, encarava-o grave e profundamente, girando incrivelmente graciosa em seus sapatos prateados. Ele se perdia em devaneios observando-a. Imaginava a si próprio despindo-a do vestido champanhe e esvoaçante que ela usava, deslizando as alças dele e a beijando intensamente nos ombros claros e macios, perdendo-se nos seios de maçã, maculando as coxas brancas e atraentes com suas mãos fortes e intensas. Imaginava o belo corpo de formas arredondadas e angelicais tremendo sobre o seu, entregando-se, via o deleite e a cascata de cabelos louro-prateados balançando-se para traz enquanto ela se entregava ao prazer. O vestido desenhava perfeitamente os belos e delicados seios, os olhos graves e quase tão negros quanto os dele estavam próximos, intensos, profundos, graves, brilhantes.
Ele sabia que jamais poderia amá-la, mas mesmo assim fazia-o em silêncio. Admirava profundamente os detalhes dela, a intensidade que seus olhos atingiam quando preenchidos por medo, a delicadeza das pálpebras descansando em seu sono, o seu ressonar leve que fazia seu peito subir e descer tranquilamente, o olhar inteligente quando ele falava por metáforas, a escuridão de seus olhos quando dominados pela mais sombria e divina fúria. Imaginava beijar-lhe o pescoço, passar a mão pelos longos cabelos lisos, ouvi-la com a respiração profunda, a voz rouca a sussurrar-lhe seu apelido mais íntimo, o qual ele, homem profundamente sério, jamais permitira que nem mesmo seus familiares o chamassem. Ela seria então sua luz, sua divina fonte de prazer e vida, mas ambos sabiam o quanto esse sonho era impossível.
Subitamente, ambos foram surpreendidos pela última nota. Pararam no salão, sem saber o que seria de suas vidas agora que aquele breve sonho havia acabado. Ainda com a respiração intensa, ele pegou na mão dela e prensou seus lábios suave e profundamente contra a mão longa e branca. Ela então sorriu mais com os olhos do que com os lábios, e afastou-se, levando consigo toda a luz da existência sombria que havia por trás daqueles túneis negros que eram os olhos dele.

domingo, 10 de outubro de 2010

Deep.

Rapidamente, ele entrou na cafeteria e pediu para atendente um maço de cigarros. Estava atrasado e sonolento, e para piorar ainda tinha uma sessão gigantesca de fotos para fazer. Talvez devesse ter desistido de ser modelo há muito tempo atrás, mas agora tinha muito por fazer, realmente muito.
- Eu também quero um maço de Marlboro vermelho... - pediu uma voz feminina mas rouca ao lado dele. Algo chamou-lhe a atenção, aquele seria um sotaque gaúcho? Ele virou-se então e deparou-se com uma jovem sonolenta, de longos cabelos lisos que lhe caíam sobre o rosto tão sonolento o quanto dele. Ela usava jaqueta e calças de couro, uma camiseta do Motörhead e sorriu agradecida quando a atendente entregou-lhe os cigarros. Quando ela afastou uma mecha de seus cabelos arruivados do rosto, ele chocou-se: viu os mesmos olhos castanhos que há anos habitavam seus devaneios mais profundos. Juntando-se ao fato de ela ter aquele sotaque e aparentar ser uns seis anos mais nova que ele, não havia dúvidas: definitivamente, era ela, a garota com a qual ele vivenciara (ou imaginara?) as mais estranhamente profundas noites de sua vida. E tudo através de uma tela de computador.
Ele hesitou antes de chamá-la. Quem poderia, afinal, garantir que ele não havia cometido um erro de identificação, pela milésima vez? Inutilmente, ele já a havia procurado por todos os lugares, até mesmo nas multidões procurara por aqueles olhos castanhos que ele jamais acreditou que poderiam estar tão próximos, que sequer poderiam existir. Sim, quantas vezes ele se questionara se não seria tudo uma mentira, se aquela foto que ele guardava consigo não era, de fato, daquela que compartilhara noites com ele, que o encantara profundamente? Mas repentinamente, enquanto tudo isso ocorria, logo depois de ele pegar os cigarros e agradecer, ela de súbito virou-se, encarando-o. Repentinamente, atraída por sua voz grave, ela olhou-o desarmada nos olhos e pareceu reconhecer também, naqueles olhos azuis, o rapaz com o qual sonhara por tanto tempo. Os olhos azuis se perderam nos olhos castanhos e vice-versa, e o tempo estava subitamente suspenso. Sensações inesperadamente intensas tomaram conta de ambos, tão misturadas entre amor, saudade, dúvida e ansiedade que eles não foram capaz de identificar nenhuma, mas sentiam que a vida esvaía-se pelos olhos, que poderiam desintegrar-se caso não tivessem rapidamente um gesto, uma palavra que cortasse aquela intensa eternidade. Sem poder suportar mais um segundo que fosse, ela gaguejou:
- Des...desculpe, mas...mas...tu?
- Sim, sou eu, sou eu - apressou-se ele, descobrindo-se  subitamente ainda mais ansioso e emocionado do que ela. A boca dela entreabriu-se, procurando ar, os olhos castanhos graves e emocionados. - Nós precisamos conversar.
- É claro, é claro - apressou-se a concordar ela, já dirigindo-se junto com ele à uma mesa próxima da janela. O corpo dele palpitava inteiro e ele acendeu um cigarro, dando uma tragada profunda. Podia sentir que era ela, mas...seria isso possível? Era uma possibilidade remota demais, impossível demais, tanto que mais parecia um sonho, um devaneio de três anos atrás, quando ele procurava-a por toda a parte. Ele afastou a cadeira para que ela se sentasse e ela sentou-se, e quando ele sentou-se defronte surpreendeu-a com o olhar marejado. Era estranhamente bonito e tocante, aquela menina com roupas de motoqueira, subitamente emocionada. Observando-a, ele percebeu que eram os mesmos lábios bem desenhados, o mesmo nariz, as mesmas sardas, o mesmo olhar lânguido, intenso e um pouco triste. Era ela, sim, só podia ser ela, que outra explicação haveria para tanta semelhança e para ela ter reconhecido-o também?
- Ricardo - falou ela, quase sussurrando, a voz embargada. Ele tocou a mão de longos dedos brancos que estava sobre a mesa e ela sorriu, sorriu fechando os olhos e deixando escorrer uma lágrima que rapidamente ela limpou, logo rindo, envergonhada. - Eu não costumo ser assim, sabe. Não sei o que aconteceu hoje...
- Calma, está tudo bem, tudo bem - falou ele sorrindo, limpando uma lágrima também. Os dois riram, tímidos e felizes, ele acariciou a mão dela, no que ela correspondeu imediatamente. Era maravilhosamente surreal sentirem a pele um do outro, sentirem cada movimento e cada par de células que se tocava. Tinham muito o que dizer mas as palavras haviam escapado, havia apenas as mãos se tocando e o maravilhamento que isso causava a ambos.
- Por que tu desapareceste? - perguntou ela, sem mágoa nem raiva, apenas triste, com a tristeza daqueles que realmente amam mas sentem saudade. - Por que não se despediu ao menos?
- Eu nunca quis partir - disse ele, olhando-a gravemente nos olhos. Seus olhos azuis faiscavam, tornando-se mais escuros e brilhantes. - Quando eu te disse que queria estar eternamente ao seu lado, eu nunca menti, por mais estranho que possa parecer, já que estávamos apenas na internet e tudo supostamente deveria ser uma brincadeira. Mas nós dois sabemos que nada do que escrevemos juntos foi uma simples brincadeira, senão não estaríamos aqui nesse estado...
- É verdade - anuiu ela, perdida nos olhos dele. - Eu te esperei por meses, escrevi para ti, fiquei remoendo cada segundo que passamos juntos. Mas a espera não te trouxe de volta nunca.
- Você...você não se esqueceu de mim?
Ele estava comovido outra vez. Como poderia ela não ter se esquecido dele? Ele havia ido embora, havia deixado-a de lado, havia sido um cafajeste que se disfarçara de cavalheiro - mas nunca havia tido essa intenção. Tratava-a como um verdadeiro cavalheiro não para tentar seduzí-la, mas sim porque não via outra forma de tratá-la, ela trazia à tona o melhor que havia nele.
- É claro que eu nunca te esqueci - ela sorriu. - Senão eu não teria até mesmo chorado na tua frente, não acha?
- Mas...mas é incrível demais para ser verdade... - ele riu, perdido na alegria súbita. Sim, ela ainda amava-o, podia ver em seus olhos brilhantes. Ela riu também, reconhecendo o mesmo sentimento nos olhos azuis. - Eu só me afastei porque o meu trabalho começou a exigir total dedicação e eu simplesmente não podia te prender a alguém que não poderia estar ao seu lado sempre...
- Eu não me importaria.
- Mas eu me importo. Não poderia te prender a mim tão irresponsavelmente, então, aos poucos deixei de fazer todo tipo de esforço para conseguir um computador e falar com você. Eu pensava que você já deveria ter seguido em frente e eu chegaria apenas para atrapalhar tudo...
- Como tu poderia atrapalhar? Eu te amei o tempo todo, esperava que tu voltasse, e de qualquer forma eu nunca consegui realmente seguir em frente. Agora, há pouco tempo, é que eu comecei a ter uma vida outra vez...
- Mas já se passaram quase quatro anos! - ele balançou a cabeça, incrédulo. - Não posso dizer nada, também. Os quase quatro anos não passaram só para você, e no entanto cá estou eu segurando sua mão, deixando tudo de lado para aproveitar cada segundo desse sonho incrível demais para ser real.
Ela suspirou profundamente e levantou-se indo até ele e pressionando seus lábios contra os dele. Ele mal pode suportar: os lábios dela eram macios e perfeitos como ele sempre sonhara.
- Dessa vez sou eu quem pressiona levemente meus lábios contra os seus - disse ela, sorrindo mais próxima e mais real do que nunca. Os cigarros esquecidos, o mundo, o tempo e a vida esquecidos, eles beijaram-se profundamente na cafeteria barulhenta, eram nove horas da manhã e eles eram felizes, real e definitivamente felizes. Lembravam-se dos sonhos, dos contos escritos juntos, das fugas imaginárias onde ela pegava suas coisas e ia correndo morar com ele em São Paulo, das fugas incríveis onde ele largava tudo e se mudava para o Rio Grande do Sul e deixava tudo para trás. Ele não se importaria de deixar sua carreira de lado, não gostava de fato de ser modelo, poderia tentar uma faculdade de filosofia que era seu sonho primitivo. Ela, por sua vez, viveria num comodo só com ele, se fosse preciso, ela que não gostava São Paulo não se importaria de viver o resto de sua vida lá. Porque aqueles olhos azuis, aquela barba por fazer e aqueles cabelos negros e bagunçados eram incomparáveis, assim como eram as noites em que eles experimentavam uma profundidade inexplicável e sabiam que era estranhamente real cada palavra dos sonhos que escreviam juntos. E agora eles seriam profunda e realmente felizes juntos, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, posteriormente pelo mundo todo, ambos escritores, ambos um acaso profundo e belo de uma história virtual da madrugada.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Prayers For Rain

Quase sem se dar por conta do que fazia, ele foi para a janela de seu quarto olhar a cidade enquanto pensava. Sua mente funcionava quase que furiosamente mas ele não chegava à conclusão alguma. Lembranças supostamente insignificantes atordoavam-o e faziam com que ele se perdesse entre o que imaginara e o pouco que realmente acontecera. Só sabia do seu medo, e este dominava-o - e o paralisava. Justamente quando estava tão próximo da felicidade, o medo impedia-o de viver.
Havia quase um abismo entre os sonhos e a realidade. Mas talvez, se ele se permitisse abrir os olhos, ele poderia ver o quão reais podiam ser todos os seus sonhos. A felicidade vivia ao alcance da mão, e talvez justamente por isso fosse tão inatingível. Não só ele, mas ela também tinha o costume horrível de sempre ser pessimista ao extremo. Sonhavam com a certeza de que jamais realizariam tudo o que sonhavam, e de fato, jamais realizariam - pois se a felicidade pode estar em realizar sonhos ao lado de alguém que se ama, qual dos dois teria coragem disso? De fato, ambos tinham um profundo medo de serem felizes. Tinham tudo o que queriam, e sabiam, no fundo, que poderiam realizar cada sonho, cada plano que fizeram juntos. Mas também sabiam que quando um tomasse coragem, o outro recuaria, assustado da felicidade. E provavelmente nada iria mudar isso.
Afinal, como seria se fossem de uma vez por todas felizes? O que fariam então de suas vidas? Era extremamente estranho considerar a possibilidade de estarem felizes e realizados, enfim. É claro que sabiam que se amavam, não seriam tão tolos a ponto de negar o que sentiam ao se olharem, ao sorrirem um para o outro. Mas uma coisa era se amarem em silêncio, outra completamente diferente era se entregarem a toda a felicidade que esse sentimento poderia trazer para ambos. Sempre haveria um empecilho imaginário, e caso estes faltassem haviam alguns poucos reais, nada realmente sério, mas que pelo menos serviam para adiar a tão, supostamente, desejada felicidade. Talvez no fundo acreditassem que era mais digno viver em dor, ou simplesmente eram tolos demais para aproveitar a chance rara que lhes era generosamente oferecida. Mas será mesmo que se pode jogar tanta felicidade fora assim, sem haver nenhum preço? Ambos podiam ter exatamente o que queriam e sonhavam, mas fugiam disso repetidamente. Eram tolos e platônicos, tolos e mimados, mas ao menos se amavam. Ou pelo menos acreditavam nisso.
Ele suspirou profundamente e tragou seu cigarro. Havia visto ela sorrir para ele naquela manhã, ouvira-a rindo, ela estava falante, alegre como há tempos não estava. Era difícil acreditar, quando olhava para ela, que ela realmente planejara uma vida ao seu lado e que até imaginara a filha que teriam. Ela escrevia tudo, ela dizia, ela sorria sempre, porém era tão esquiva às vezes que era completamente incompreensível. Era capaz de ignorá-lo mesmo que ele estivesse tão perto que ela sentia seu cheiro penetrando-a por inteiro. Se ela o amava tanto, por que conseguia ignorá-lo tão friamente? Por que conseguia desviar o olhar? Isso contradizia tudo que ela havia escrito, contradizia as páginas que ele tinha em suas mãos, páginas escritas com sua letra miúda, com sua lapiseira favorita. Quase podia vê-la escrevendo aquelas páginas, mas também podia vê-la indo embora definitivamente. Seus medos eram reais, ao menos. Mas se ela era tão destemida o quanto dizia nas inúmeras linhas que escrevera, por que não o procurava? Ela sabia bem da sua timidez, da sua profunda insegurança - e sabia que ele a amava. Sim, deveria saber, porque se não pudesse desvendar isso por si própia, ele tinha contado à melhor amiga dela que a amava, e sem querer demonstrava isso repetidamente. Ela tinha de saber, afinal, ela não se lembrava da poesia que ele lhe escrevera naquela noite fatídica? Não se lembrava de que todas as vezes em que ela falara num relacionamento e ele a corrigia, falando em casamento? Ela deveria era ter se esquecido disso tudo. Sim, ela tinha tanta vida pela frente, por que lembraria de planos tão tolos?
Repentinamente, ele foi afastado de seu devaneio por uma forma que se destacava na fraca iluminação da rua. Parecia ser alguém segurando um cartaz... E aquelas formas repentinamente se tornaram conhecidas. Mas não, não podia ser ela segurando um cartaz sob a sua janela, não podia. Quase que respondendo aos seus pensamentos, o cartaz dizia "Vamos enfrentar nossos medos dessa vez?" e ele podia adivinhar que ela estava sorrindo, extremamente corada - exatamente como ele gostava. Ele largou as páginas que tinha nas mãos, completamente apavorado. Seria isso verdade mesmo? Poderia mesmo ela estar ali, esperando-o, amando-o em silêncio? Algo quase instintivo fez com que ele fizesse sinal para que ela o esperasse lá embaixo, ao que ela assentiu rindo, tímida, e então ele foi correndo até a porta, mas ao colocar a mão na maçaneta hesitou. E se fossem felizes agora? O que poderiam desejar do futuro se passassem a se amar verdadeiramente agora? Ele respirou fundo, enquanto ela não respirava, esperando-o. E nenhum dos dois jamais saberia o que fazer com a felicidade que tinham em mãos.

domingo, 3 de outubro de 2010

Criticar é Crítico

    Não há, em lugar algum, uma pessoa que não critique absolutamente nada. Não importa se são pessoas, objetos, fatos: sentimos uma necessidade quase que instantânea de julgarmos o que vemos. Mas temos de ter muito cuidado com isso, porque pior do que ser criticado é fazer algo que nós próprios criticamos.
    É claro que as pessoas podem (e devem, para evoluir) mudar de ideia ao longo de suas vidas. É natural que suas concepções mudem, assim como seus gestos e a forma que encaram a vida. Facilmente, podemos condenar tudo aquilo que não nos agrada, seja pelo motivo que for, mas dificilmente somos compreensivos, porque pode soar mais bonito ter opinião sobre tudo, pode parecer que temos mais autoridade se opinarmos sobre tudo o que vemos. Mas essas opiniões precipitadas e por vezes mal formuladas podem acabar tendo o efeito oposto sobre nós.
    Nenhum de nós está livre de criticar algo que futuramente teremos ou faremos em nossas vidas, mas sempre podemos ter a humildade de reconhecer que estávamos errados - é natural que as circunstâncias mudem. Porém, pior ainda do que criticarmos ignorantemente é quando defendemos aquilo que nós mesmo não fazemos, isso é nada mais nada menos do que pura hipocrisia. Defender grandes valores e ideias, criticar uma postura que nós próprios assumimos é mais do que hipócrita, é triste, pois demonstra a nossa fraqueza, a nossa impotência diante do que gostaríamos de ser e não somos.
    Sei que muitas pessoas criticam e depois mudam de opinião, isso é natural e não há nada de errado com isso. Sei também que eu própria já cometi erros em relação à crítica, mas somos tão viciados em criticar tudo que é comum cometer erros - e que estou fazendo senão uma crítica à crítica? Pois bem, que assim seja então. Criticar é um hábito tão comum que é impossível tirá-lo de nossas vidas, já que estamos, a todo momento, julgando tudo o que vemos. Já que não podemos perder essa mania de julgar tudo e todos, que pelo menos não sejamos tão cruéis, tão radicais: a vida sempre muda, e um dia a crítica pode cair sobre o crítico, sempre pode. Se formos mais indulgentes para com os outros, poderemos, no futuro, sermos mais indulgentes com nós mesmos também, pois infalivelmente nos contradiremos em algum momento. Mas que a contradição seja por evolução, e não por hipocrisia - porque dela todos já estão fartos.

sábado, 2 de outubro de 2010

(Re)Começo

- Acabou.

Ela olhou espantada para a outra que estava fumando deitada na sua cama. Ela estava no computador e fazia tempo que a outra não se manifestava, há uma hora atrás havia pedido para ouvir Led Zeppelin e se calara. Como ela não se explicou e continou olhando para a fumaça do próprio cigarro, ela leu, em voz alta:
- Por Deus, isso que você escreveu é perfeito! - exclamou empolgada, então começou a ler as palavras para a própria autora delas. Elas pareciam mais verdadeiras assim, sendo lidas por outras pessoa. Doíam mais. - “ e eu só queria você não não precisamos casar nem nada disso só quero que tu exista perto de mim que tu segure minha mão respire perto sorria sim me beije ou não tanto faz me abrace simplesmente fica perto de mim fica em silêncio sorrindo com os olhos sim me olhe me olhe profundamente se perca em meus olhos me deixe existir tão somente em ti e em ti eu viverei noutra dimensão mais bela mais viva mais intensa nada mais é necessário quero largar tudo correr correr te roubar gritar e nada dizer quero te olhar nos olhos quero que você leia você veja dentro de mim e então diga qualquer coisa mas não não quero que seja como da outra vez não quero compreender teu silêncio por outros não quero saber notícias tuas quero te ouvir falar me olhando sim me olhando diretamente assim como me olhou na penumbra daquela manhã tão bonita e tão distante nós estávamos sozinhos e eu tinha tanta certeza...”
- Chega, é o suficiente. Não posso mais viver com isso e acho que nunca pude, mas agora é tempo de desistir de uma vez por todas. Acabou.
- Mas... Mas você não pode, você não deve fazer isso – ela se aproximou, sentando-se na beirada da cama, estudando a outra. Estranhamente, ela não procurou seus olhos. Os olhos dela, outrora tão brilhantes e escuros, olhavam inexpressivos e doloridos para o teto. Os cabelos ruivos e lisos estavam espalhados pela cama, e pareciam tão entregues o quanto ela própria, o corpo alvo relaxado sobre a cama de solteiro. Ela passsou uma de suas pequenas mãos pelos longos e lisos cabelos ruivos, a outra fechou os olhos e deixou que lágrimas escorressem pelos seus olhos. Robert Plant cantava incessantemente e tudo tinha de acabar, simplesmente tinha.
- Você sabe que não precisa desistir – sussurrou. - Ele te ama, você sabe disso. Ele pode ser inseguro, mas é óbvio que é você quem ele ama. Você não vê? Os olhos dele brilham quando você surge, ele se perde olhando para você. Até parece que os olhos dele são mais verdes quando estão olhando para você. Lembra do dia das maçãs? Do quanto ele se emocionou falando com você, lembra dos olhos cheios de lágrimas simplesmente por que você estava ali?
- Chega, chega – sussurrou a ruiva, cansada. - Não é suficiente, simplesmente não pode ser o suficiente esse silêncio, essas adivinhações, quando por uma noite nós planejamos uma vida inteira juntos. Nós poderíamos ter deixado tudo como estava, tudo isso poderia ser apenas uma possibilidade remota, poderíamos nos amar em silêncio. Mas não, ele veio e despejou todos os sonhos dele em mim, e eu os absorvi, tomei-os como meus. E eles se tornaram meus. Mas sei que eles não irão se realizar...
- Como pode saber? Sei que existem muitos mal-entendidos agora, que...
- Não, eles não vão se realizar!- abruptamente, ela se sentou na cama para encarar a outra. Seus olhos estavam vermelhos e ela tocou fora o toco de cigarro que ainda mantinha inultimente na mão direita. - Não vou, recuso-me a ficar mais tempo sonhando feito uma adolescente com alguém que nunca vai estar realmente ao meu lado!
- Mas você é uma adolescente!
- Não é por isso que preciso me comportar como uma! - ela se levantou, andando irritada pelo quarto. - Você acha que ele teria se encantado por mim se eu me comportasse, de fato, como uma adolescente? É claro que não! O primeiro elogio que ele me fez foi sobre “o jeito especial que eu tenho de ser” - ela fez aspas no ar e deu um riso amargo. - Eu nunca deveria ter deixado tudo chegar a esse ponto, eu não deveria ter me entregado tanto, não, nunca, nunca!
- Mas é tão lindo! Ouça – a outra levantou-se e postou-se diante dela. Os dois pares de olhos castanhos se encontraram profundamente. - você não pode se culpar por amá-lo. Garanto-lhe que ele corresponde, mas você sabe quantos medos, quantos traumas ele tem. Por que você não tenta de uma vez por todas? Por que não corre o mundo atrás dele e esclarece tudo de uma vez?
- Porque já é tarde demais – disse ela, se afastando e indo até a janela para se debruçar sobre ela. - Já me gastei demais com isso tudo, já perdi o sono e a fome, já enlouqueci nas madrugadas insones, já perdi a esperança de uma alegria futura, de um epílogo feliz. Já é um milagre que eu queria desistir dele e continuar vivendo...
- Não diga isso... Não – ela se abraçou por trás na outra, que fez carinho nos braços que a envolviam. Ela pousou a cabeça no ombro dela, sentindo o cheiro dos cabelos ruivos bem próximos de si e sorriu. - Ninguém mais no mundo teria esses cabelos ruivos, esse cheiro bom de cigarro e perfume. Nenhum par de olhos castanhos pode brilhar tanto o quanto os seus.
- Mas que importância tem isso? Continuar vivendo simplesmente para tentar superar uma perda não é viver, não para mim. As marcas são profundas demais, sabe? Dói demais – disse, com a voz embargada. A outra a abraçou mais forte.
- Então tudo bem – sussurrou. - Esqueça os olhos verdes e tudo o que eles significam. Volte a sonhar com sua faculdade de filosofia, com sua vida futura de psicodelia e amor livre. Lembre-se que aquele francês setentista sempre espera por você, e com ele você é perfeitamente livre para amar. Lembre-se que os livros sempre estarão disponíveis para você, que você sempre poderá assistir todos os filmes que gosta, e que assistirá milhares ainda. Lembre-se que eu estarei aqui por você, e deixe isso tudo para trás então.
Entre lágrimas, a ruiva sorriu. Havia esperança, pensando dessa forma.
- Eu te amo – sussurrou. - E continuarei vivendo.