Quase sem se dar por conta do que fazia, ele foi para a janela de seu quarto olhar a cidade enquanto pensava. Sua mente funcionava quase que furiosamente mas ele não chegava à conclusão alguma. Lembranças supostamente insignificantes atordoavam-o e faziam com que ele se perdesse entre o que imaginara e o pouco que realmente acontecera. Só sabia do seu medo, e este dominava-o - e o paralisava. Justamente quando estava tão próximo da felicidade, o medo impedia-o de viver.
Havia quase um abismo entre os sonhos e a realidade. Mas talvez, se ele se permitisse abrir os olhos, ele poderia ver o quão reais podiam ser todos os seus sonhos. A felicidade vivia ao alcance da mão, e talvez justamente por isso fosse tão inatingível. Não só ele, mas ela também tinha o costume horrível de sempre ser pessimista ao extremo. Sonhavam com a certeza de que jamais realizariam tudo o que sonhavam, e de fato, jamais realizariam - pois se a felicidade pode estar em realizar sonhos ao lado de alguém que se ama, qual dos dois teria coragem disso? De fato, ambos tinham um profundo medo de serem felizes. Tinham tudo o que queriam, e sabiam, no fundo, que poderiam realizar cada sonho, cada plano que fizeram juntos. Mas também sabiam que quando um tomasse coragem, o outro recuaria, assustado da felicidade. E provavelmente nada iria mudar isso.
Afinal, como seria se fossem de uma vez por todas felizes? O que fariam então de suas vidas? Era extremamente estranho considerar a possibilidade de estarem felizes e realizados, enfim. É claro que sabiam que se amavam, não seriam tão tolos a ponto de negar o que sentiam ao se olharem, ao sorrirem um para o outro. Mas uma coisa era se amarem em silêncio, outra completamente diferente era se entregarem a toda a felicidade que esse sentimento poderia trazer para ambos. Sempre haveria um empecilho imaginário, e caso estes faltassem haviam alguns poucos reais, nada realmente sério, mas que pelo menos serviam para adiar a tão, supostamente, desejada felicidade. Talvez no fundo acreditassem que era mais digno viver em dor, ou simplesmente eram tolos demais para aproveitar a chance rara que lhes era generosamente oferecida. Mas será mesmo que se pode jogar tanta felicidade fora assim, sem haver nenhum preço? Ambos podiam ter exatamente o que queriam e sonhavam, mas fugiam disso repetidamente. Eram tolos e platônicos, tolos e mimados, mas ao menos se amavam. Ou pelo menos acreditavam nisso.
Ele suspirou profundamente e tragou seu cigarro. Havia visto ela sorrir para ele naquela manhã, ouvira-a rindo, ela estava falante, alegre como há tempos não estava. Era difícil acreditar, quando olhava para ela, que ela realmente planejara uma vida ao seu lado e que até imaginara a filha que teriam. Ela escrevia tudo, ela dizia, ela sorria sempre, porém era tão esquiva às vezes que era completamente incompreensível. Era capaz de ignorá-lo mesmo que ele estivesse tão perto que ela sentia seu cheiro penetrando-a por inteiro. Se ela o amava tanto, por que conseguia ignorá-lo tão friamente? Por que conseguia desviar o olhar? Isso contradizia tudo que ela havia escrito, contradizia as páginas que ele tinha em suas mãos, páginas escritas com sua letra miúda, com sua lapiseira favorita. Quase podia vê-la escrevendo aquelas páginas, mas também podia vê-la indo embora definitivamente. Seus medos eram reais, ao menos. Mas se ela era tão destemida o quanto dizia nas inúmeras linhas que escrevera, por que não o procurava? Ela sabia bem da sua timidez, da sua profunda insegurança - e sabia que ele a amava. Sim, deveria saber, porque se não pudesse desvendar isso por si própia, ele tinha contado à melhor amiga dela que a amava, e sem querer demonstrava isso repetidamente. Ela tinha de saber, afinal, ela não se lembrava da poesia que ele lhe escrevera naquela noite fatídica? Não se lembrava de que todas as vezes em que ela falara num relacionamento e ele a corrigia, falando em casamento? Ela deveria era ter se esquecido disso tudo. Sim, ela tinha tanta vida pela frente, por que lembraria de planos tão tolos?
Repentinamente, ele foi afastado de seu devaneio por uma forma que se destacava na fraca iluminação da rua. Parecia ser alguém segurando um cartaz... E aquelas formas repentinamente se tornaram conhecidas. Mas não, não podia ser ela segurando um cartaz sob a sua janela, não podia. Quase que respondendo aos seus pensamentos, o cartaz dizia "Vamos enfrentar nossos medos dessa vez?" e ele podia adivinhar que ela estava sorrindo, extremamente corada - exatamente como ele gostava. Ele largou as páginas que tinha nas mãos, completamente apavorado. Seria isso verdade mesmo? Poderia mesmo ela estar ali, esperando-o, amando-o em silêncio? Algo quase instintivo fez com que ele fizesse sinal para que ela o esperasse lá embaixo, ao que ela assentiu rindo, tímida, e então ele foi correndo até a porta, mas ao colocar a mão na maçaneta hesitou. E se fossem felizes agora? O que poderiam desejar do futuro se passassem a se amar verdadeiramente agora? Ele respirou fundo, enquanto ela não respirava, esperando-o. E nenhum dos dois jamais saberia o que fazer com a felicidade que tinham em mãos.
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