domingo, 10 de outubro de 2010

Deep.

Rapidamente, ele entrou na cafeteria e pediu para atendente um maço de cigarros. Estava atrasado e sonolento, e para piorar ainda tinha uma sessão gigantesca de fotos para fazer. Talvez devesse ter desistido de ser modelo há muito tempo atrás, mas agora tinha muito por fazer, realmente muito.
- Eu também quero um maço de Marlboro vermelho... - pediu uma voz feminina mas rouca ao lado dele. Algo chamou-lhe a atenção, aquele seria um sotaque gaúcho? Ele virou-se então e deparou-se com uma jovem sonolenta, de longos cabelos lisos que lhe caíam sobre o rosto tão sonolento o quanto dele. Ela usava jaqueta e calças de couro, uma camiseta do Motörhead e sorriu agradecida quando a atendente entregou-lhe os cigarros. Quando ela afastou uma mecha de seus cabelos arruivados do rosto, ele chocou-se: viu os mesmos olhos castanhos que há anos habitavam seus devaneios mais profundos. Juntando-se ao fato de ela ter aquele sotaque e aparentar ser uns seis anos mais nova que ele, não havia dúvidas: definitivamente, era ela, a garota com a qual ele vivenciara (ou imaginara?) as mais estranhamente profundas noites de sua vida. E tudo através de uma tela de computador.
Ele hesitou antes de chamá-la. Quem poderia, afinal, garantir que ele não havia cometido um erro de identificação, pela milésima vez? Inutilmente, ele já a havia procurado por todos os lugares, até mesmo nas multidões procurara por aqueles olhos castanhos que ele jamais acreditou que poderiam estar tão próximos, que sequer poderiam existir. Sim, quantas vezes ele se questionara se não seria tudo uma mentira, se aquela foto que ele guardava consigo não era, de fato, daquela que compartilhara noites com ele, que o encantara profundamente? Mas repentinamente, enquanto tudo isso ocorria, logo depois de ele pegar os cigarros e agradecer, ela de súbito virou-se, encarando-o. Repentinamente, atraída por sua voz grave, ela olhou-o desarmada nos olhos e pareceu reconhecer também, naqueles olhos azuis, o rapaz com o qual sonhara por tanto tempo. Os olhos azuis se perderam nos olhos castanhos e vice-versa, e o tempo estava subitamente suspenso. Sensações inesperadamente intensas tomaram conta de ambos, tão misturadas entre amor, saudade, dúvida e ansiedade que eles não foram capaz de identificar nenhuma, mas sentiam que a vida esvaía-se pelos olhos, que poderiam desintegrar-se caso não tivessem rapidamente um gesto, uma palavra que cortasse aquela intensa eternidade. Sem poder suportar mais um segundo que fosse, ela gaguejou:
- Des...desculpe, mas...mas...tu?
- Sim, sou eu, sou eu - apressou-se ele, descobrindo-se  subitamente ainda mais ansioso e emocionado do que ela. A boca dela entreabriu-se, procurando ar, os olhos castanhos graves e emocionados. - Nós precisamos conversar.
- É claro, é claro - apressou-se a concordar ela, já dirigindo-se junto com ele à uma mesa próxima da janela. O corpo dele palpitava inteiro e ele acendeu um cigarro, dando uma tragada profunda. Podia sentir que era ela, mas...seria isso possível? Era uma possibilidade remota demais, impossível demais, tanto que mais parecia um sonho, um devaneio de três anos atrás, quando ele procurava-a por toda a parte. Ele afastou a cadeira para que ela se sentasse e ela sentou-se, e quando ele sentou-se defronte surpreendeu-a com o olhar marejado. Era estranhamente bonito e tocante, aquela menina com roupas de motoqueira, subitamente emocionada. Observando-a, ele percebeu que eram os mesmos lábios bem desenhados, o mesmo nariz, as mesmas sardas, o mesmo olhar lânguido, intenso e um pouco triste. Era ela, sim, só podia ser ela, que outra explicação haveria para tanta semelhança e para ela ter reconhecido-o também?
- Ricardo - falou ela, quase sussurrando, a voz embargada. Ele tocou a mão de longos dedos brancos que estava sobre a mesa e ela sorriu, sorriu fechando os olhos e deixando escorrer uma lágrima que rapidamente ela limpou, logo rindo, envergonhada. - Eu não costumo ser assim, sabe. Não sei o que aconteceu hoje...
- Calma, está tudo bem, tudo bem - falou ele sorrindo, limpando uma lágrima também. Os dois riram, tímidos e felizes, ele acariciou a mão dela, no que ela correspondeu imediatamente. Era maravilhosamente surreal sentirem a pele um do outro, sentirem cada movimento e cada par de células que se tocava. Tinham muito o que dizer mas as palavras haviam escapado, havia apenas as mãos se tocando e o maravilhamento que isso causava a ambos.
- Por que tu desapareceste? - perguntou ela, sem mágoa nem raiva, apenas triste, com a tristeza daqueles que realmente amam mas sentem saudade. - Por que não se despediu ao menos?
- Eu nunca quis partir - disse ele, olhando-a gravemente nos olhos. Seus olhos azuis faiscavam, tornando-se mais escuros e brilhantes. - Quando eu te disse que queria estar eternamente ao seu lado, eu nunca menti, por mais estranho que possa parecer, já que estávamos apenas na internet e tudo supostamente deveria ser uma brincadeira. Mas nós dois sabemos que nada do que escrevemos juntos foi uma simples brincadeira, senão não estaríamos aqui nesse estado...
- É verdade - anuiu ela, perdida nos olhos dele. - Eu te esperei por meses, escrevi para ti, fiquei remoendo cada segundo que passamos juntos. Mas a espera não te trouxe de volta nunca.
- Você...você não se esqueceu de mim?
Ele estava comovido outra vez. Como poderia ela não ter se esquecido dele? Ele havia ido embora, havia deixado-a de lado, havia sido um cafajeste que se disfarçara de cavalheiro - mas nunca havia tido essa intenção. Tratava-a como um verdadeiro cavalheiro não para tentar seduzí-la, mas sim porque não via outra forma de tratá-la, ela trazia à tona o melhor que havia nele.
- É claro que eu nunca te esqueci - ela sorriu. - Senão eu não teria até mesmo chorado na tua frente, não acha?
- Mas...mas é incrível demais para ser verdade... - ele riu, perdido na alegria súbita. Sim, ela ainda amava-o, podia ver em seus olhos brilhantes. Ela riu também, reconhecendo o mesmo sentimento nos olhos azuis. - Eu só me afastei porque o meu trabalho começou a exigir total dedicação e eu simplesmente não podia te prender a alguém que não poderia estar ao seu lado sempre...
- Eu não me importaria.
- Mas eu me importo. Não poderia te prender a mim tão irresponsavelmente, então, aos poucos deixei de fazer todo tipo de esforço para conseguir um computador e falar com você. Eu pensava que você já deveria ter seguido em frente e eu chegaria apenas para atrapalhar tudo...
- Como tu poderia atrapalhar? Eu te amei o tempo todo, esperava que tu voltasse, e de qualquer forma eu nunca consegui realmente seguir em frente. Agora, há pouco tempo, é que eu comecei a ter uma vida outra vez...
- Mas já se passaram quase quatro anos! - ele balançou a cabeça, incrédulo. - Não posso dizer nada, também. Os quase quatro anos não passaram só para você, e no entanto cá estou eu segurando sua mão, deixando tudo de lado para aproveitar cada segundo desse sonho incrível demais para ser real.
Ela suspirou profundamente e levantou-se indo até ele e pressionando seus lábios contra os dele. Ele mal pode suportar: os lábios dela eram macios e perfeitos como ele sempre sonhara.
- Dessa vez sou eu quem pressiona levemente meus lábios contra os seus - disse ela, sorrindo mais próxima e mais real do que nunca. Os cigarros esquecidos, o mundo, o tempo e a vida esquecidos, eles beijaram-se profundamente na cafeteria barulhenta, eram nove horas da manhã e eles eram felizes, real e definitivamente felizes. Lembravam-se dos sonhos, dos contos escritos juntos, das fugas imaginárias onde ela pegava suas coisas e ia correndo morar com ele em São Paulo, das fugas incríveis onde ele largava tudo e se mudava para o Rio Grande do Sul e deixava tudo para trás. Ele não se importaria de deixar sua carreira de lado, não gostava de fato de ser modelo, poderia tentar uma faculdade de filosofia que era seu sonho primitivo. Ela, por sua vez, viveria num comodo só com ele, se fosse preciso, ela que não gostava São Paulo não se importaria de viver o resto de sua vida lá. Porque aqueles olhos azuis, aquela barba por fazer e aqueles cabelos negros e bagunçados eram incomparáveis, assim como eram as noites em que eles experimentavam uma profundidade inexplicável e sabiam que era estranhamente real cada palavra dos sonhos que escreviam juntos. E agora eles seriam profunda e realmente felizes juntos, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, posteriormente pelo mundo todo, ambos escritores, ambos um acaso profundo e belo de uma história virtual da madrugada.

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