sábado, 2 de outubro de 2010

(Re)Começo

- Acabou.

Ela olhou espantada para a outra que estava fumando deitada na sua cama. Ela estava no computador e fazia tempo que a outra não se manifestava, há uma hora atrás havia pedido para ouvir Led Zeppelin e se calara. Como ela não se explicou e continou olhando para a fumaça do próprio cigarro, ela leu, em voz alta:
- Por Deus, isso que você escreveu é perfeito! - exclamou empolgada, então começou a ler as palavras para a própria autora delas. Elas pareciam mais verdadeiras assim, sendo lidas por outras pessoa. Doíam mais. - “ e eu só queria você não não precisamos casar nem nada disso só quero que tu exista perto de mim que tu segure minha mão respire perto sorria sim me beije ou não tanto faz me abrace simplesmente fica perto de mim fica em silêncio sorrindo com os olhos sim me olhe me olhe profundamente se perca em meus olhos me deixe existir tão somente em ti e em ti eu viverei noutra dimensão mais bela mais viva mais intensa nada mais é necessário quero largar tudo correr correr te roubar gritar e nada dizer quero te olhar nos olhos quero que você leia você veja dentro de mim e então diga qualquer coisa mas não não quero que seja como da outra vez não quero compreender teu silêncio por outros não quero saber notícias tuas quero te ouvir falar me olhando sim me olhando diretamente assim como me olhou na penumbra daquela manhã tão bonita e tão distante nós estávamos sozinhos e eu tinha tanta certeza...”
- Chega, é o suficiente. Não posso mais viver com isso e acho que nunca pude, mas agora é tempo de desistir de uma vez por todas. Acabou.
- Mas... Mas você não pode, você não deve fazer isso – ela se aproximou, sentando-se na beirada da cama, estudando a outra. Estranhamente, ela não procurou seus olhos. Os olhos dela, outrora tão brilhantes e escuros, olhavam inexpressivos e doloridos para o teto. Os cabelos ruivos e lisos estavam espalhados pela cama, e pareciam tão entregues o quanto ela própria, o corpo alvo relaxado sobre a cama de solteiro. Ela passsou uma de suas pequenas mãos pelos longos e lisos cabelos ruivos, a outra fechou os olhos e deixou que lágrimas escorressem pelos seus olhos. Robert Plant cantava incessantemente e tudo tinha de acabar, simplesmente tinha.
- Você sabe que não precisa desistir – sussurrou. - Ele te ama, você sabe disso. Ele pode ser inseguro, mas é óbvio que é você quem ele ama. Você não vê? Os olhos dele brilham quando você surge, ele se perde olhando para você. Até parece que os olhos dele são mais verdes quando estão olhando para você. Lembra do dia das maçãs? Do quanto ele se emocionou falando com você, lembra dos olhos cheios de lágrimas simplesmente por que você estava ali?
- Chega, chega – sussurrou a ruiva, cansada. - Não é suficiente, simplesmente não pode ser o suficiente esse silêncio, essas adivinhações, quando por uma noite nós planejamos uma vida inteira juntos. Nós poderíamos ter deixado tudo como estava, tudo isso poderia ser apenas uma possibilidade remota, poderíamos nos amar em silêncio. Mas não, ele veio e despejou todos os sonhos dele em mim, e eu os absorvi, tomei-os como meus. E eles se tornaram meus. Mas sei que eles não irão se realizar...
- Como pode saber? Sei que existem muitos mal-entendidos agora, que...
- Não, eles não vão se realizar!- abruptamente, ela se sentou na cama para encarar a outra. Seus olhos estavam vermelhos e ela tocou fora o toco de cigarro que ainda mantinha inultimente na mão direita. - Não vou, recuso-me a ficar mais tempo sonhando feito uma adolescente com alguém que nunca vai estar realmente ao meu lado!
- Mas você é uma adolescente!
- Não é por isso que preciso me comportar como uma! - ela se levantou, andando irritada pelo quarto. - Você acha que ele teria se encantado por mim se eu me comportasse, de fato, como uma adolescente? É claro que não! O primeiro elogio que ele me fez foi sobre “o jeito especial que eu tenho de ser” - ela fez aspas no ar e deu um riso amargo. - Eu nunca deveria ter deixado tudo chegar a esse ponto, eu não deveria ter me entregado tanto, não, nunca, nunca!
- Mas é tão lindo! Ouça – a outra levantou-se e postou-se diante dela. Os dois pares de olhos castanhos se encontraram profundamente. - você não pode se culpar por amá-lo. Garanto-lhe que ele corresponde, mas você sabe quantos medos, quantos traumas ele tem. Por que você não tenta de uma vez por todas? Por que não corre o mundo atrás dele e esclarece tudo de uma vez?
- Porque já é tarde demais – disse ela, se afastando e indo até a janela para se debruçar sobre ela. - Já me gastei demais com isso tudo, já perdi o sono e a fome, já enlouqueci nas madrugadas insones, já perdi a esperança de uma alegria futura, de um epílogo feliz. Já é um milagre que eu queria desistir dele e continuar vivendo...
- Não diga isso... Não – ela se abraçou por trás na outra, que fez carinho nos braços que a envolviam. Ela pousou a cabeça no ombro dela, sentindo o cheiro dos cabelos ruivos bem próximos de si e sorriu. - Ninguém mais no mundo teria esses cabelos ruivos, esse cheiro bom de cigarro e perfume. Nenhum par de olhos castanhos pode brilhar tanto o quanto os seus.
- Mas que importância tem isso? Continuar vivendo simplesmente para tentar superar uma perda não é viver, não para mim. As marcas são profundas demais, sabe? Dói demais – disse, com a voz embargada. A outra a abraçou mais forte.
- Então tudo bem – sussurrou. - Esqueça os olhos verdes e tudo o que eles significam. Volte a sonhar com sua faculdade de filosofia, com sua vida futura de psicodelia e amor livre. Lembre-se que aquele francês setentista sempre espera por você, e com ele você é perfeitamente livre para amar. Lembre-se que os livros sempre estarão disponíveis para você, que você sempre poderá assistir todos os filmes que gosta, e que assistirá milhares ainda. Lembre-se que eu estarei aqui por você, e deixe isso tudo para trás então.
Entre lágrimas, a ruiva sorriu. Havia esperança, pensando dessa forma.
- Eu te amo – sussurrou. - E continuarei vivendo.

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