terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Dança

Antes de estender-lhe a mão, ele prendeu a respiração e imaginou como seria pela primeira vez tocar naquela pele tão incrivelmente branca. Subitamente, ela o olhou nos olhos, e houve o mesmo impacto sobre ele. Aqueles olhos escuros e brilhantes haviam mexido em seus recônditos mais profundos desde a primeira vez em que os vira. Com a mesma gravidade de sempre, ela pousou sua mão de longos dedos de pianista sobre a mão que ele lhe estendia, o que lhes causou um impacto mais profundo do que podiam esperar. Ele então conduziu-a para o centro do salão ricamente decorado, e a levou através do som dos violinos e do piano.
Ela era absurdamente linda, e ele sabia que todos concordavam com ele. Seus lábios naturalmente avermelhados e desenhados, seus olhos escuros e brilhantes, sua tez alva que facilmente corava, suas sardas quase que imperceptíveis, seus cabelos louro-prateados, os traços finos e graciosos que formavam a bela pintura que ela toda era, só podiam causar-lhe encantamento. Não bastasse sua extrema beleza física, havia sua voz rouca, sua forma de sorrir praticamente apenas através dos olhos, sua inteligência, sua firmeza e sua doçura - e sua arrogância inegavelmente tornava-a ainda mais atraente. Mas o que ele via nela e que quase ninguém mais via, e era o que mais o atraía, era a enorme dor que havia por trás daquela imensidão escura e brilhante que eram seus olhos. Ele podia ver nela a dor profunda que justificava sua frieza, sua arrogância e sua eterna beleza; ela era uma jovem que trazia a dor em si desde sempre. Havia tanta dor nos olhos dela quanto nos próprios olhos escuros dele. E isso era-lhe profundamente tocante.
Enquanto ela dançava em seus braços, encarava-o grave e profundamente, girando incrivelmente graciosa em seus sapatos prateados. Ele se perdia em devaneios observando-a. Imaginava a si próprio despindo-a do vestido champanhe e esvoaçante que ela usava, deslizando as alças dele e a beijando intensamente nos ombros claros e macios, perdendo-se nos seios de maçã, maculando as coxas brancas e atraentes com suas mãos fortes e intensas. Imaginava o belo corpo de formas arredondadas e angelicais tremendo sobre o seu, entregando-se, via o deleite e a cascata de cabelos louro-prateados balançando-se para traz enquanto ela se entregava ao prazer. O vestido desenhava perfeitamente os belos e delicados seios, os olhos graves e quase tão negros quanto os dele estavam próximos, intensos, profundos, graves, brilhantes.
Ele sabia que jamais poderia amá-la, mas mesmo assim fazia-o em silêncio. Admirava profundamente os detalhes dela, a intensidade que seus olhos atingiam quando preenchidos por medo, a delicadeza das pálpebras descansando em seu sono, o seu ressonar leve que fazia seu peito subir e descer tranquilamente, o olhar inteligente quando ele falava por metáforas, a escuridão de seus olhos quando dominados pela mais sombria e divina fúria. Imaginava beijar-lhe o pescoço, passar a mão pelos longos cabelos lisos, ouvi-la com a respiração profunda, a voz rouca a sussurrar-lhe seu apelido mais íntimo, o qual ele, homem profundamente sério, jamais permitira que nem mesmo seus familiares o chamassem. Ela seria então sua luz, sua divina fonte de prazer e vida, mas ambos sabiam o quanto esse sonho era impossível.
Subitamente, ambos foram surpreendidos pela última nota. Pararam no salão, sem saber o que seria de suas vidas agora que aquele breve sonho havia acabado. Ainda com a respiração intensa, ele pegou na mão dela e prensou seus lábios suave e profundamente contra a mão longa e branca. Ela então sorriu mais com os olhos do que com os lábios, e afastou-se, levando consigo toda a luz da existência sombria que havia por trás daqueles túneis negros que eram os olhos dele.

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