Antes de
estender-lhe a mão, ele prendeu a respiração e imaginou como seria pela
primeira vez tocar naquela pele tão incrivelmente branca. Subitamente, ela o olhou
nos olhos, e houve o mesmo impacto sobre ele. Aqueles olhos escuros e
brilhantes haviam mexido em seus recônditos mais profundos desde a primeira vez
em que os vira. Com a mesma gravidade de sempre, ela pousou sua mão de longos
dedos de pianista sobre a mão que ele lhe estendia, o que lhes causou um
impacto mais profundo do que podiam esperar. Ele então conduziu-a para o centro
do salão ricamente decorado, e a levou através do som dos violinos e do piano.
Ela era
absurdamente linda, e ele sabia que todos concordavam com ele. Seus lábios
naturalmente avermelhados e desenhados, seus olhos escuros e brilhantes, sua
tez alva que facilmente corava, suas sardas quase que imperceptíveis, seus
cabelos louro-prateados, os traços finos e graciosos que formavam a bela
pintura que ela toda era, só podiam causar-lhe encantamento. Não bastasse sua
extrema beleza física, havia sua voz rouca, sua forma de sorrir praticamente
apenas através dos olhos, sua inteligência, sua firmeza e sua doçura - e sua
arrogância inegavelmente tornava-a ainda mais atraente. Mas o que ele via nela
e que quase ninguém mais via, e era o que mais o atraía, era a enorme dor que
havia por trás daquela imensidão escura e brilhante que eram seus olhos. Ele
podia ver nela a dor profunda que justificava sua frieza, sua arrogância e sua
eterna beleza; ela era uma jovem que trazia a dor em si desde sempre. Havia tanta
dor nos olhos dela quanto nos próprios olhos escuros dele. E isso era-lhe
profundamente tocante.
Enquanto ela
dançava em seus braços, encarava-o grave e profundamente, girando incrivelmente
graciosa em seus sapatos prateados. Ele se perdia em devaneios observando-a.
Imaginava a si próprio despindo-a do vestido champanhe e esvoaçante que ela
usava, deslizando as alças dele e a beijando intensamente nos ombros claros e
macios, perdendo-se nos seios de maçã, maculando as coxas brancas e atraentes
com suas mãos fortes e intensas. Imaginava o belo corpo de formas arredondadas
e angelicais tremendo sobre o seu, entregando-se, via o deleite e a cascata de
cabelos louro-prateados balançando-se para traz enquanto ela se entregava ao
prazer. O vestido desenhava perfeitamente os belos e delicados seios, os olhos
graves e quase tão negros quanto os dele estavam próximos, intensos, profundos,
graves, brilhantes.
Ele sabia que
jamais poderia amá-la, mas mesmo assim fazia-o em silêncio. Admirava
profundamente os detalhes dela, a intensidade que seus olhos atingiam quando
preenchidos por medo, a delicadeza das pálpebras descansando em seu sono, o seu
ressonar leve que fazia seu peito subir e descer tranquilamente, o olhar
inteligente quando ele falava por metáforas, a escuridão de seus olhos quando
dominados pela mais sombria e divina fúria. Imaginava beijar-lhe o pescoço,
passar a mão pelos longos cabelos lisos, ouvi-la com a respiração profunda, a
voz rouca a sussurrar-lhe seu apelido mais íntimo, o qual ele, homem
profundamente sério, jamais permitira que nem mesmo seus familiares o
chamassem. Ela seria então sua luz, sua divina fonte de prazer e vida, mas
ambos sabiam o quanto esse sonho era impossível.
Subitamente,
ambos foram surpreendidos pela última nota. Pararam no salão, sem saber o que
seria de suas vidas agora que aquele breve sonho havia acabado. Ainda com a
respiração intensa, ele pegou na mão dela e prensou seus lábios suave e profundamente
contra a mão longa e branca. Ela então sorriu mais com os olhos do que com os
lábios, e afastou-se, levando consigo toda a luz da existência sombria que
havia por trás daqueles túneis negros que eram os olhos dele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário