quarta-feira, 28 de março de 2012

Mikrokosmos XL

    O oceano se aproximava com força, mesmo sem se virar ela podia perceber as ondas violentamente perto, atrás de si, o vento forte deixando seus olhos marejados. Ainda assim, ela ignorava conscientemente o oceano se aproximando e continuava a caminhar pela biblioteca, procurando sem sequer saber o que queria encontrar, apenas sabia que em algum lugar daquele labirinto haveria conforto. E então ela seguia caminhando.
    Cansado, ele finalmente conseguira um tempo para ler, depois de meses de trabalho exaustivo. Acomodou-se para reler um de seus livros favoritos, porém algo sempre parecia tirar-lhe a atenção. Ao longe, podia ouvir o mar agitado, e aos poucos ele percebeu que era esse som que não o deixava se concentrar. Sabia perfeitamente bem que não deveria ir, que aquele era o ponto onde ele, o mar e ela se afastavam para poderem se enxergar melhor, entretanto era quase impossível permanecer imóvel enquanto eles estavam lá chamando, precisando dele.
    As estantes eram intermináveis; os autores desconhecidos e absurdos. Ela continuava procurando, caminhando cada vez mais rápido, guiada mais pelos instintos do que pela visão. As ondas não diminuíam o seu ritmo, seguindo cada passo dela. O som delas era tão reconfortante quanto assustador, e por isso mesmo ela não sabia o que fazer além de seguir caminhando, procurando. Depois de caminhar infinitamente, ela pensou ter visto, num relance, longos cabelos negros, e no mesmo instante correu para eles. Parou quase caindo sobre ele, mas este continuou a acariciar a lombada de um livro quase esquecidamente. Mesmo sem olhar o título, ela saberia que se tratava de Leaves of Grass, de Walt Whitman. Pegou o livro por um instante, sob o olhar cuidadoso do poeta de cabelos negros, e abriu numa página aleatória; sabia que ele e o livro estavam ali apenas de passagem, apenas para lembrá-la do que era importante. Levantou os olhos do livro e encarou os olhos cinzentos por um longo tempo, sem sequer pensar em nada. Por tanto tempo não fizera isso que...
    - "There is no fear in a dream".
    Ela assentiu, muito calada e perdida, esperando pacientemente que o próximo movimento se mostrasse. As ondas já molhavam-na e batiam em suas pernas, porém ela não se importava. Quando os olhos cinzentos estavam ali, em silêncio, de fato não havia medo. Ela segurou suavemente a mão que ele lhe estendia; ele apertou de leve a sua mão assim que esta repousou na dele. Num abraço então, ela se permitiu afundar nos cabelos negros, na pele clara, nela mesma. Em casa.
(Escrito em 17/03/2012 - 11:21 a.m.)

domingo, 25 de março de 2012

Landslide

    Olhando a avenida através das janelas da melhor cafeteria da cidade, era difícil querer sair dali. O dia muito frio e chuvoso dava um ar muito belo à cidade, como se tudo estivesse em seu devido lugar. Porém, demorariam anos até que ela pudesse sentir as coisas dessa forma outra vez.
    Em dias chuvosos como aquele, eles gostavam de fumar mais do que o habitual, e o café preto, sem açúcar, era mais gostoso. A voz de Robert Smith adequava-se perfeitamente ao apartamento que permanecia, de resto, silencioso, exceto pelo delicado ruído de uma página sendo virada ou do papel sendo escrito. E nesse mesmo silêncio, o súbito gesto de carinho que se transformava em volúpia, durando a tarde inteira. Ou pelo menos era essa a vida que ele havia lhe prometido, dia após dia, por um ano inteiro.
    Violência. Cocaína, álcool, selvageria, rompimento. A pele dela, clara, sob as roupas íntimas vermelhas que, nada originalmente, enlouqueciam-no e a deixavam ainda mais indefesa, perdida, tentando sempre compreender o menino que havia por trás do homem maduro, tentando lembrar da beleza dos olhos verdes sóbrios. Conseguia e então, só por mais um outro dia, esperaria que as coisas melhorassem. Inutilmente.
    Apesar de todos os atos abomináveis, era muito difícil partir. Agora ela estava mais próxima; o apartamento era a poucas quadras dali e uma caixa para colocar as suas coisas a esperava na sala, provavelmente sobre o sofá, perto da janela. Perto da claridade, onde ela gostava de estudar e criar, sabendo que poderia contar com a leitura crítica, porém cheia de incentivo, dele. A leitura atenciosa, com correção de trechos, sugestões bibliográficas e elogios ao lado de trechos destacados. O olhar atencioso que lhe ouvia as dúvidas e respondia mais do que ela perguntava, ensinando-lhe o melhor possível, dando-lhe esperança de realizar grandes feitos.
    Mas não sem ele. Nunca sem ele. Mesmo sabendo que agora já não perderia noites se preocupando com sua saúde ou sua localização, ela sabia que a separação também teria um vasto efeito sobre seu crescimento, afinal, apesar da diferença de idade, eles não iriam crescer juntos? Para onde iam os artigos e livros não escritos, a filha que nunca tiveram, o casamento nunca celebrado? Felizes dos casais que passavam pela rua sem nem notar a cafeteria, sem jamais se perguntarem para onde as coisas não feitas vão. Por isso doía. Doía, e era ainda pior porque ela não havia aprendido a odiar.
    Levantou-se de súbito, pegando seu sobretudo e juntando um sorriso não se sabe de onde para agradecer à atendente do caixa. Vestiu o sobretudo preto e apertou o passo por causa da insistente garoa. Em menos de cinco minutos, quase sem sentir, ela chegava ao prédio. E tinha de subir.
    Ao contrário do que imaginava, as suas coisas já estavam cuidadosamente organizadas dentro da caixa, as roupas e livros cabendo quase perfeitamente, tornando as coisas mais fáceis. Tranquila, ela pegou a caixa do sofá e já ia saindo, quando repentinamente avistou uma nesga de tecido azul claro entre as suas roupas. Largando a caixa novamente, desorganizou-a para confirmar o que já sabia. A camiseta azul que já era mais dela do que dele estava ali, cuidadosamente lavada, passada e dobrada. Num gesto automático, começou a levá-la ao nariz para sentir o cheiro, mas parou um instante antes. Se sentisse aquele cheiro, sentaria no sofá e o esperaria até o amanhecer. Então, num ataque de pânico e clareza que surpreendeu a si própria, ela dobrou cuidadosamente a camiseta e a pousou sobre o sofá. Sem um último olhar que fosse, ela pegou a caixa e desceu as escadas correndo, parando sem fôlego a quadras dali. Para onde ir?

(Escrito em 13/03/2012 - 10:38 p.m.)

sábado, 3 de março de 2012

Gone

    - I'm sorry, but I have to ask you. Are you ok with it?
    - With what?
    - Leaving.
    - Oh... Yes, leaving. I'm fine, I suppose. Why?
    - Well... It's just that it was very hard for me, even though I've been with him just for a while. Two years... I can't even imagine how hard would that be.
    - There's this... this part of me, you know? It keeps screaming for me to stay, screaming that I don't have to go, but I know it's not truth.
    - Did he ask you to stay?
    - No. He only said I could've. He just... felt that things were changing, and the time was ending. And he tried very hard to make it easier for me, most of the time. It's very unfair, don't you think? I mean, they both helped us, giving us a new chance to live, and we leave them, even before we're sure that we're ready for it.
    - We are ready, we surely are. And no, it's not unfair, it's just... life. We can't heal them, because what they have goes far beyond our reach. But we were less damaged, and they knew how to fix it, and they're glad for having done this, we both know.
    - Yet, I don't like this. I wish I could just... stay. But there is no option, it's time.
    - Yes. He's going to be fine, you know? He will miss you, but he knows that you have to go, and that you'll never forget his essence. He knows what he is doing, trust me.
    - It's fucking scary.
    - I know, I'm freaking out too. However, there's a part of me that remains calm, just like if t knew that this is the way things should be.
    - Oh yes, I feel that way too.
    - Really?
    - Yes.
    - We're going to be fine. We just have to... breathe, and be brave.
    - Yes.

    "The train has arrived at Dublin..."

    - Good luck, so. With everything.
    - Thanks. For you too. Goodbye.

(Written in 03/01/2012 - 08:34 p.m.)