domingo, 10 de agosto de 2014

Luzes

Luzes. Milhares de luzes brilhavam ao longe, pela cidade, tornando a noite bela. Da sacada do 15º andar era impossível não encontrar beleza, mesmo que na paisagem urbana. Uma mulher observava a vida que seguia a se agitar mesmo que passasse da meia-noite, as luzes do apartamento desligadas, apenas apreciando a iluminação da cidade.
            Os anos realmente passavam rápido, quase na mesma rapidez com que os carros se moviam ao longe. No princípio, era fácil ter esperança, acreditar que a vida não precisava ser árdua, difícil e violenta. Quem tenta se proteger da realidade acaba sendo pego pelas torturas que uma mente solitária infiltra lentamente por uma existência, e o único meio de fugir disso é estar novamente vivendo, cercado de tudo e de todos que são destrutivos, corrosivos. O sangue é pegajoso e deixa marcas, ainda mais quando alheio. Esses pensamentos invadiam a mente da mulher, que se lembrava de cada perda, cada grito de medo, cada noite sem dormir. Tudo por nada
            Pensar nos amigos, nos amores, nos familiares, nada disso ajudava – de fato, era isso que machucava. Ao longo de seus 33 anos, ela podia ter sido incapaz de alcançar alguns de seus sonhos, mas isso não lhe doía, não da forma que doía ter sido forçada a desistir de quem amava, ter perdido amigos tanto para a violência quanto para as casualidades do cotidiano, a família a decepcionar todas as expectativas mais básicas. Cada vez mais a certeza era uma só: que a solidão é a única coisa que existe, o único fator inexorável e com o qual se pode contar, acima até mesmo da morte. Havia um alívio infinito na ideia de simplesmente cessar de existir, não sofrer mais pela criança em si que havia morrido há tanto tempo, pelas mágoas, pelos erros e tudo mais que havia acontecido – não mais ter aquela desesperadora sensação de que as coisas haviam se tornado um carro desgovernado que só podia ser parado com um choque final.
            Noites de vento como aquela lhe lembravam de sua infância, do calor do Mississippi e das alegrias infantis de aproveitar o verão como se fosse a melhor coisa do mundo. Todas as pequenas coisas que um dia fizeram sua vida tão completa e que agora se tornavam em nada. Lembrava de seu tio cantando belas canções com sua voz rouca e lhe levando pelo país, até que um dia chegaram em Nova York, como ela tanto sonhava em criança, e as maravilhas daquela cidade pareciam tão grandes que não cabiam em seu peito. Na primeira noite na cidade estava tão exausta que lembrava de ter dormido com as roupas da viagem ainda e com metade de seu jantar ainda por comer. Nunca havia sido tão feliz. E quatro anos depois daquela noite, quando seu tio morreu, nunca foi tão infeliz.
A beleza, a inteligência, todas as coisas boas podiam se tornar uma maldição. Era ruim ser bonita quando isso lhe impedia de ter amigos homens. Era ruim se inteligente quando isso não lhe permitia se acomodar com o que incomodava, quando não lhe permitia aceitar as coisas e ser feliz do jeito que desse. Cansada disso tudo, ela subiu e sentou no apoio da sacada, para sentir melhor o vento, tentando lembrar as músicas que seu tio lhe cantava. Lembrou-se logo de uma de suas favoritas:

“God's drifting in heaven, devil's in the mailbox
I got dust on my shoes, nothing but teardrops”

Ela ficou de pé, olhando para as luzes embaixo, a voz de seu tio, a música ecoando em seus pensamentos.  Todos os sonhos de inocência haviam sido destruídos, não havia como recuperá-los. Num impulso simples, seguro, ela mergulhou na noite. E finalmente se fez silêncio em sua mente.