quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

The Dove

Saindo do prédio para fumar um cigarro, ela o avistou num banco de madeira sob um pinheiro. Ele levantou a cabeça e sorriu para ela, enquanto ela ia se sentar junto a ele. Ele lhe ofereceu gentilmente o isqueiro e, por um momento, ambos ficaram fumando em silêncio, apenas observando as pessoas passando por ali. Apesar de toda a sua luta interior, ele ainda sentia vontade de segurar a mão dela. Na verdade, surpreendeu-se com a vontade intensa de um gesto tão simples assim. Talvez, como ele temia, amava-a mais do que podia suspeitar.
- Há um ano atrás, eu não conseguia nos imaginar nessa tranquilidade toda.
- Pois é - concordou ela, pensativa, mas sem querer conversar sobre isso. - Como estão os meninos?
- Estão bem, mas sentem a sua falta.
- Se estiver tudo bem por você, eu pretendo visitá-los hoje.
- Perfeitamente - ele deu uma tragada profunda, evitando olhá-la. Por que tornar as coisas mais difíceis? Ela estava agindo corretamente, eles realmente não deveriam conversar sobre o passado e agir como cunhados que se dão bem. - Onde vocês vão passar o ano novo? - ele se referia a ela e o marido, seu irmão.
- Na casa da mãe de vocês, onde mais? - perguntou ela, finalmente sorrindo. - Todos os irmãos irão para lá, não é mesmo?
- Sim, só pensei que vocês pudessem ir para a Lapponia outra vez.
- Só fomos ano passado por causa da lua-de-mel - respondeu ela, mordendo o lábio inferior, desconfortável. Por que todo e qualquer assunto tinha de se encaminhar para algo que lembrasse o que eles haviam sido um dia? Há muito tempo isso não acontecia, mas hoje o passado parecia simplesmente vir à tona. Decidiu não tentar resistir mais. Havia tido um dos anos mais difíceis de sua vida, e agora percebia que grande parte disso provavelmente se devia ao fato de ter se afastado dele, que apesar de tudo, sempre seria seu melhor amigo. Sentia vontade de olhá-lo, com saudade dos longos cabelos loiros, os incríveis olhos azuis, a barba longa, aquele sorriso bonachão e o rosto redondo, geralmente alegre. Como o adorava, por inteiro! Porém gostaria de não ter esses pensamentos tão facilmente dominando-a. Era ridiculamente dramático ter se envolvido com o irmão de seu marido, não precisava carregar esse tipo de coisa pelo resto de sua vida. Mas sabia que era inevitável que tudo isso ficasse marcado, não só pelo quanto os dois ainda sentiam um pelo outro, mas também pelos filhos dele, que eram tão apegados a ela o quanto duas crianças podem ser. As lembranças dos poucos meses em que moraram juntos, os quatro, eram incríveis, mesmo quando incluíam apenas um domingo entediante olhando filmes infantis na sala. 
- Eu senti a sua falta esse ano - disse ela, subitamente. - Deus, e como! Acho que eu nunca tinha percebido o quanto realmente somos melhores amigos até agora.
Ele ficou em silêncio, olhando-a estupefato. Ela jamais conseguia dizer qualquer coisa, sempre guardando até seus mais simples sentimentos para si mesma, e então aquela confissão súibita... inacreditável! E isso era bom, muito bom. Há um bom tempo ele precisava conversar sobre isso com ela, precisava parar de fingir que tudo não possuía mais importância.
- Acho que nós amadurecemos um pouco, ficando longe - disse ele, dando de ombros com um sorriso cansado. - Nós não aguentaríamos por muito mais tempo do jeito que as coisas estavam. Você fez o que era certo, afinal de contas.
- É, eu acho - ela sentia seus olhos arderem, e sabia que não se manteria calma se continuassem falando sobre aquilo por muito tempo. O problema de calar tudo é que quando as coisas vêm à tona elas transbordam, e havia sido difícil demais mantê-las minimamente abaixo da superfície, mesmo que fosse apenas por um ano. Não queria que ele concordasse que ela havia feito o que era certo, sentia-se infantil, mas ainda queria vê-lo irracionalmente querendo que tudo desse certo. Se conseguisse ser um pouco mais racional, ela talvez pudesse perceber que ele havia apenas mudado de estratégia, porém ela era intensa demais para tal façanha. 
- Nós podíamos continuar sendo melhores amigos, talvez - sugeriu ele, querendo mais do que nunca segurar a sua mão firmemente, oferecer-lhe conforto, mas resistindo. - Nós conseguimos conversar tranquilamente algumas vezes, lembra? E também conseguimos festejar juntos. Talvez...
- Eu acho ótimo - disse ela sorrindo, e finalmente olhando para ele, finalmente se desculpando por todos os seus sentimentos. Porque olhando para ele lhe parecia impossível que houvesse conseguido se distanciar mesmo que fosse por uma semana. Não lhe agradava encarar as coisas tão diretamente, entretanto isso também lhe fazia bem. Ficaram se olhando por um momento, calando inúmeras coisas e sentindo ainda mais saudade do que quando estavam distantes. Ela desviou o olhar primeiro, e perguntou:
- Você ainda tem que fazer alguma coisa no escritório?
- Não.
- Então por que não vamos para casa agora, no meu carro?
- Ok, e eu dirijo.
Ela lhe passou as chaves e os dois foram se encaminhando ao estacionamento. A forma com que ela dissera "vamos para casa" fora tão familiar e íntima que por um momento ele se confundiu, sentindo-se dela ainda. Ela caminhava de cabeça baixa, o que tornava difícil sondar-lhe a expressão. Entraram no carro em silêncio, e ela se limitou a observar a neve durante o caminho. Quando chegaram, ela foi reto ao quarto de Mikael, o mais novo dos meninos. Ele ficou no corredor, e só pôde ouvir a exclamação de alegria do filho, provavelmente já nos braços dela. Sorriu, enquanto ouvia Mikael falar rápida e empolgadamente com ela, e logo ouviu os passos dos dois se dirigindo ao quarto do filho mais velho. Ele entrou para o seu próprio quarto, que um dia dividira com ela, e se deitou na cama sem se despir. Fechou os olhos, tentando não pensar em nada. Sabia que os filhos estavam com ela na sala de jogos, montando o quebra cabeças de cinco mil peças que ela havia dado para Mikael no Natal. Ele adorava quebra cabeças e havia virado uma tradição ela lhe dar em todos os natais um novo, que ela montava com ele pela primeira vez. O mais velho preferia ganhar qualquer coisa relacionada à música, então ganhara camisetas de suas três bandas favoritas e iria a um show na próxima semana com ela. Não conseguia se ressentir que seus filhos gostassem mais dela do que da sua mulher, mãe deles; ele próprio cometia a mesma falta. Perturbado por esses pensamentos, resolveu ir fazer um lanche na cozinha, quando encontrou os três no corredor.
- Papai, nós vamos ao McDonald's agora e amanhã vamos terminar de montar o quebra cabeça!
- Entre três pessoas, cinco mil peças não são tanto - sorriu ela, acariciando os longos cabelos loiros de Mikael, perfeitamente iguais ao do pai. - Posso levá-los?
- É claro.
- Papai, por que você não vem junto? Depois podemos ir ao cinema também - disse o filho mais velho, alegre. 
Constrangido, ele tentou encontrar uma resposta satisfatória. 
- Eu não acho que eu dev...
- Eu acho que é uma ótima ideia, Perkko - disse ela, olhando-o intensamente. Eles ficaram por um momento se olhando, como se ele lhe desse um tempo para se arrepender do que dissera, mas ela se manteve firme, olhando-o pacientemente. Antes que ele pudesse recusar, o que de fato já não ia fazer, ela acrescentou:
- Aliás, minha carteira de motorista está vencida, e os meninos estão muito longe de poder dirigir. Precisamos de você.
Mikael lhe sorria, sempre alegre com esse tipo de passeio. Ele concordou, finalmente sorrindo, e ficou feliz ao vê-la sorrir abertamente e corar com sua concordância. Enquanto desciam as escadas, Mikael dizia que queria "o mesmo que a mamãe", que significava que iria pegar um super McShake de morango, como ela sempre pegava. Permitiu-se observar sorrindo ela e Mikael conversando alegres, sem perceber Perkko ao seu lado.
- Papai, ela nunca vai nos deixar, não é mesmo? - perguntou, entre triste e sonhador. Esperou ouvir uma repreensão do pai por falar em tal assunto, mas ao invés disso ele sorriu.
- É claro que não, Perkko. Ela é sua tia, estará sempre conosco, espero eu - disse ele, sabendo que o filho havia entendido mais do que ele falara, como sempre. E apesar de saber que aquela tranquilidade não poderia durar mais do que algumas horas, ele permitiu que aquela paz tão desejada (e tão necessária) se instalasse não só nele, mas em todos os quatro. Fosse por quatro horas ou por quatro décadas, eles precisavam disso. Ela olhou para trás e, tímida, sorriu para ele, e antes que percebesse ele lhe retribuía em silêncio, porém com esperança. Infinitamente, com esperança.

Mikrokosmos XXXII

A caixinha de música tocava incessantemente os delicados acordes que tanto lhes faziam bem. O gracioso macaquinho batia levemente os pratos e olhava sorrindo para quem o segurasse. Ela estava sentada perto da janela, há muito tempo perdida em seus pensamentos, apenas ouvindo a bela canção que saía da caixinha. Às vezes seu olhar se perdia na neve lá fora, que tornava aquela noite um cenário ainda mais encantado do que aquele lugar já era para ela. Por muitas vezes se perguntara, não tanto por si própria mas por seus familiares, se seria certo permanecer numa terra tão distante, por mais bela que fosse. Na verdade, ninguém compreendia o quanto aquele lugar fazia bem a ela, tampouco podiam imaginar a necessidade mútua que havia entre ela e seu marido. Como uma criança, agora ela sorria feliz, ainda encantada pela mesma antiga canção da caixinha. Sim, ela podia sentir que aquilo tudo era o que ela queria, acima de ser certo ou errado, necessário ou não. E esse pensamento lhe trazia uma paz que dificilmente poderia ser alcançada de outra forma, pelo menos por ela.
Ele se sentou ao lado dela no chão, acomodando-se sobre o tapete fofo e se reunindo para desfrutarem da música da qual seus ouvidos jamais se cansavam. Ela repousou sua cabeça no ombro dele, entregando-lhe a caixinha que ele segurou com cuidado e admiração. Exatamente como na sua infância, ele ficou por muito tempo deixando-se flutuar por aqueles acordes mágicos, feliz que os sonhos daquele tempo até parecessem pequenos comparados aos que ele havia realizado agora.
Num impulso, ele abaixou a cabeça para olhá-la e percebeu suas lágrimas. Mesmo sem perguntar, ele sabia que isso era algo bom, conhecia-a suficientemente bem para isso. Soltou cuidadosamente a caixinha no chão e se virou para ela, levantando-lhe delicadamente o rosto. 
- Você pode me prometer uma coisa? Por mais sem sentido ou... não sei, impossível que possa soar?
Ele assentiu, sério, com cuidado. Eram raros os momentos em que ela pedia alguma coisa, ainda mais verbalmente. Era quase doloroso poder ver tão claramente através dela, mas também era fantástico. Nem em seus mais ousados sonhos conseguira acreditar que poderia se ligar dessa forma à alguém, e ali estavam aqueles olhos escuros dizendo mais do que ele julgava poder ouvir.
- Eu não quero que essas noites acabem - falou ela baixinho, como se estivessem embaixo das cobertas em pleno dezembro branco. - Nem essa música, muito menos a sua inocência. Pode tentar nos manter juntos? Pode fazer com que a neve continue me encantando?
Ele não pôde responder. Abraçou-a fortemente contra si por um longo tempo, sem saber sinceramente o que dizer. As coisas se invertiam agora, e era ela que dava voz ao que nem ele sabia nomear dentro de si. A caixinha continuava tocando a música suave da noite, protegendo-os. Todas as máscaras e defesas já haviam ido embora há muito tempo, então tudo aquilo era desnecessário, já não havia mais escolha. Estavam juntos, verdadeiramente, em um mundo que ninguém mais talvez fosse capaz de compreender, porém era verdadeiro. Em cada floco.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mikrokosmos XXXI

O som do mar era tão suave e agradável que lhe lembrava a mistura de uma flauta e um piano, complementando-se. A noite ainda era escura, mas o amanhecer não estava distante, e ele esperava em silêncio, como sempre havia feito apesar da angústia. Ainda estava com as roupas do trabalho: um belo traje à rigor antigo, mas havia tirado o paletó e seus cabelos já estavam voltando ao cacheado natural. Por alguma razão, olhava para os próprios pés, ignorando o mar à sua esquerda, perdido em pensamentos. Seu aniversário e sua data preferida do ano estavam chegando, além do primeiro aniversário de casamento. Tinha medo que algo estivesse errado, as coisas vinham sendo difíceis no último ano, mas a sua infindável esperança e inexplicável crescente confiança faziam com que ele conseguisse ficar tranquilo sobre seu futuro. Havia feito seu trabalho, dado tudo o que podia, sofrido muito, mas agora a beleza de seu resultado era visível; apesar de ainda ter muito por fazer, sentia-se contente e sabia que era tempo de ter esperanças - e ele estava certo.
Quando olhou para a frente, finalmente a viu caminhando em sua direção, um longo vestido verde e elegante movendo-se fortemente por causa do vento. Ela vinha de pés descalços, a cabeça baixa, porém ele sabia que ela estava sorrindo, aquele sorriso tímido e infantilmente feliz que só ela possuía. Seus cabelos estavam soltos, longos, voando livremente e parecendo totalmente ruivos sob a luz que começava a se tornar mais forte. Em silêncio, ela parou de caminhar quando estava próxima dele, ainda sem olhá-lo. Ele ficou por um longo tempo a contemplá-la; nada além disso era necessário, afinal de contas. Ele havia a levado ao aeroporto, havia checado suas malas e ligado para saber se ela conseguiria sobreviver, e ali estava ela, sã e salva, apesar das cicatrizes recentes. 
Lembrando-se de tudo que havia acontecido, todas as dificuldades que tiveram de enfrentar, ainda por cima separados, ele teve um desejo intenso de abraçá-la fortemente como se pudesse prendê-la a si, mas não era isso que ele queria, de verdade. Queria tê-la frouxamente por sua mão, com aqueles olhos escuros repousando tranquilamente sobre ele, o abraço por trás enquanto ele dedilhava uma melodia, a paz e o silêncio compartilhados numa tarde tranquila. Tudo isso vinha livremente, eles sabiam, então ele se limitou a estender-lhe a mão. Sorrindo mais abertamente, ela repousou sua mão sobre a dele, logo a pressionando levemente. O sol subia lentamente e o vento tornava-se quase ensurdecedor às vezes, mas estava subitamente calmo. No mesmo instante, ambos levantaram a cabeça e se olharam nos olhos.
Era como se os olhos de ambos fossem infinitos. Ela olhava cada átimo cinza da vastidão daqueles olhos tão adorados, percebia cada nuance naquele olhar puro e brilhante, e ele fazia o mesmo com ela, percebendo o quanto isso era mais do que eles mereciam, mais do que jamais ousaram realmente desejar. Então ela se aproximou, passando a mão lentamente pelo cavanhaque loiro, olhando o rosto dele emocionada e se sentindo extremamente tola por isso.
- Eu...
- Não diga nada - pediu ele, aproximando-se, nunca parando de olhá-la. - Passou. Acabou - sussurrou ele e, antes que pudesse perceber, ela o abraçou fortemente, aliviada que tantas dificuldades finalmente pudessem ter uma trégua, que finalmente eles fossem capazes de ter esperança outra vez e, acima disso tudo, pudessem ficar juntos, verdadeiramente juntos. Ele era o homem que a amara acima de seu próprio bem, que a conhecia o suficiente para compreender tudo o que ela precisava fazer, mesmo que não entendesse algumas vezes, exatamente como ela própria fazia com ele. Nunca houveram dúvidas, mas mais do que nunca ela sabia que ele era o que havia de mais precioso em sua vida; com tudo o mais ela podia cometer erros, consertar, desistir e fazer qualquer outra coisa, mas nunca com ele. Ali estava sua essência personificada, ali estava tudo que ela precisava para nunca perder sua inocência e seu verdadeiro ser, por mais difuso que esse pudesse ser.
Eles se afastaram, dando-se as mãos e se olhando nos olhos por mais um momento. O sol agora clareava um pouco a praia; era muito pouco, mas era o suficiente para que pudessem se ver perfeitamente bem. Depois de um momento em que ela, sem sentir, estava com os olhos marejados, e sem perceber os dois foram sorrindo aos poucos, acabando por rirem juntos sem nem saber por quê; provavelmente uma mistura de alívio, alegria, paz e cansaço. Ele a beijou por um longo tempo e então eles sentaram na areia, olhando para o mar abraçados. Mesmo que ele odiasse isso, ela conseguira outra vez fazê-lo cantar sua música favorita, e em algum tempo ela dormia recostada em seu ombro, segurando suave mas firmemente sua mão esquerda. Ele a olhou, respirou fundo e deixou que sua mão direita brincasse com aqueles cabelos lisos que ele tanto gostava de sentir entre seus dedos. Finalmente, em paz, pensou ele, e se permitiu ficar ali até que o momento se perdesse. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Resto

- Vai falar agora?
Ela se virou, olhando-o por um longo tempo. Seria mesmo possível tudo que havia passado por sua cabeça nos últimos meses? O marido a olhava pacientemente, os olhos azuis tranquilamente esperando o que talvez jamais pudesse ouvir. Vendo-o tão tranquilo, tão mudado, parecia-lhe realmente possível que pudessem voltar a viver juntos, porém de uma forma imensuravelmente melhor do que antes. Haviam passado quase dois anos separados, apenas se vendo raramente e tendo algumas recaídas que não duravam mais do que uma ou duas noites e deixavam dúvidas por meses em ambos, mas nenhum se manifestava, principalmente por medo, mas também por orgulho: medo de arriscarem uma última chance de estarem juntos e orgulho de saber que o outro talvez viesse correndo e admitisse que, depois de quase dezesseis anos de casados só sabiam viver tranquilos juntos, por mais tempestuosa que a superfície fosse. Ela mexeu no machucado que a aliança deixara em sua mão, aliança que mesmo quando separada ela nunca gostar de tirar, a aliança verde e especialmente comprada para ela, já que ela insistia em não usar a comum (na verdade, ela sempre se esquecia de colocá-la, mas ele não acreditava nisso).
- Eu quero que o meu dedo cure logo. Quero usar a minha aliança de novo, sinto-me um pouco nua sem ela.
- Não faz mal ficar nua na minha frente - disse ele, e havia algo de comovente no tom carinhoso com que disse essas palavras, quase como se eles estivessem ainda na penumbra de uma madrugada calma. Ele se sentou ao lado dela sem tocá-la, mexendo distraidamente em seu joelho. Entendia perfeitamente a saudade que ela sentia da aliança, ele próprio usava a mesma há quase 16 anos, ou melhor, 15 anos, 11 meses e 18 dias. Era ridículo, mas ele era estranhamente consciente de detalhes insignificantes como datas de noivado, casamento e similares. Sentia-se envergonhado disso e nunca admitia, porém sabia que no fundo só se lembrava de tudo pela importância que ela tinha em sua vida. Quando a conhecera, nunca pensara que aquela menininha que o adorava tanto e dizia brincando que ele era um príncipe seria sua mulher, de verdade, e o faria muito mais feliz do que jamais fora. Sua vida era terrivelmente agitada e nada parecia ser verdadeiro e/ou confiável, mas então ela cresceu e as coisas simplesmente mudaram. Ainda parecia completamente absurdo que 31 anos de diferença não os separassem nem um pouco, contudo eles se amavam muito acima disso. Sem querer, haviam ultrapassado os limites das pessoas comuns sobre os sentimentos, deixando-se levar pelos mais inesperados e sinceros impulsos. Por tudo isso, ele, que era um homem passional e difícil, conseguia se controlar e a esperava calmamente ali, sentado ao seu lado, contra todos os seus desejos de gritar com ela e lhe mostrar que era sua maldita obrigação ficar ao seu lado. Ela lhe pertencia, e ele se julgava no direito de ordernar que ela não o abandonasse, todavia ele preferia educadamente ignorar tudo à que tinha direito, porque sabia que ela significava bem mais do que isso em sua vida. Fora bastante duro, mas ele conseguira aprender até que ponto ele podia deixar seu orgulho e seus impulsos dominarem tudo que fazia para com ela. E isso era a melhor coisa que havia aprendido nos anos longe dela.
Lentamente, ele aproximou as mãos dos cabelos dela, longos e lisos, fininhos como os dele próprio. Encostou levemente os dedos na superfície macia, enquanto ela ainda encarava o chão com as mãos desajeitadamente sobre as pernas, mexendo inconscientemente no dedo da aliança. Ele não podia ver o rosto dela porque os cabelos arruivados eram exatamente como uma cortina sobre o rosto claro e de traços finos. Aos poucos, ele começou a acariciar mais de perto seus cabelos, tocando-os verdadeiramente, deixando que a sua mão aos poucos também tocassem a orelha, o pescoço dela. Ela primeiro se inclinou para se encostar na mão grande e forte dele, fechando os olhos, sentindo aquele cheiro tão familiar... Por quanto tempo aturou a distância! Não percebeu que uma lágrima caía, e o abraçou longamente, sentindo a pulsação de seu pescoço sob seu rosto, os cabelos compridos ainda macios e cheirosos como antigamente, aquele cheiro de cigarro com perfume...
- Não me deixe ser tão idiota assim, nunca mais - falou ela baixinho. - Nada disso é culpa sua. 
Ele a apertou contra si, mais emocionado do que jamais supusera poder ficar por algo aparentemente tão simples. A verdade é que, apesar de encher os seus dias com trabalho e festas e todo tipo de diversão, ele fazia tudo isso apenas porque era insuportável ficar em casa com todos os pensamentos torturando-o o tempo todo, além de que ele esperava conquistá-la por mostrar-se independente dela. Aquelas palavras ditas baixinho, tão baixo que era até difícil ouvir, elas sim eram o que ele havia secretamente desejado ouvir durante todo esse tempo, mesmo que não admitisse nem para si próprio tal sonho absurdo para um homem maduro como ele. Mas ele queria sim, queria que ela voltasse e que eles construíssem uma vida inteiramente nova se isso fosse a fazer feliz, queria ter uma vida o mais equilibrada possível, queria tudo que envolvesse estarem mais uma vez inseparavelmente casados. Fizera as pazes com amigos que não falava há anos, começara a realizar projetos que há muito deixara para trás por pura desilusão, tudo para ter apenas uma chance, mesmo que conscientemente ele apenas achasse que estava "endireitando a sua vida". Esse era o último passo para endireitá-la de vez, ele sabia disso. Precisava fazer muitas coisas ainda, mas se a conseguisse de volta, sessenta por cento já estaria feito, e muito bem feito. Então, por que não arriscar? Porém, ele nunca teve a chance de fazer isso.
- Casa comigo, às nove da noite do dia seis de janeiro de dois mil e doze?
- Não, só às dez.
- Por que? - ela já o olhou meio rindo, meio chorando, sem se desvencilhar completamente dele. Olhava-o como se jamais fosse vê-lo outra vez e tivesse que decorar cada traço, cada luz de seu rosto. Podia ver seus olhos marejados e o peito levemente arfante, os cabelos ruivos parecendo flamejantes sob a luz que entrava no quarto.
- Porque eu só caso, exatamente, de dezesseis em dezesseis anos.
Ela o beijou, ainda sorrindo, mas já sem tempo para brincadeiras. Era besteira achar que uma mudança total de vida poderia torná-la uma pessoa melhor e, afinal, qual era o tão bem estimado valor de ser uma pessoa melhor? Haviam coisas muito mais importantes na vida, pelo menos para ela, e ele era uma delas, ela simplesmente não podia mentir para si mesma - e, quem sabe, talvez isso também fizesse parte de se tornar uma pessoa melhor, admitir o quanto se ama alguém e cuidar disso acima de tudo, principalmente do próprio desejo de poder e orgulho. Porque ela sempre soubera que não havia nada melhor do que ele e, se isso fosse tolice para os outros, para ela seria tolice valorizar qualquer outra coisa. Ela o amava, sim, e ficaria ao seu lado, porque ela sabia que poderia ajeitar o resto de sua vida se tivesse um pouco de paciência e ele ao seu lado, o resto era o que menos importava, ao fim de tudo. Sim, ela sabia muito bem, e ele também.

domingo, 27 de novembro de 2011

A Silver Tear

Era automático. Por volta das duas da manhã, o velho se acordava e, sem acender nenhuma luz (apesar de viver sozinho), ele ia para a janela da frente, que dava diretamente para a rua, a poucos metros do chafariz. Sentava-se então na cadeira que era usada, durante o dia, para a leitura, e ficava observando atentamente o chafariz e a rua precariamente iluminados pelos postes de luz. Às vezes rapidamente, às vezes tão demoradamente que ele temia não a ver jamais, ela chegava. Cedo ou tarde, ela sempre chegava.
Ele nunca foi capaz de identificar a sua roupa: aquilo podia muito bem ser uma camisola, tanto quanto um vestido de festa. Só tinha certeza que era muito claro e parecia macio, deslizante. A roupa geralmente esvoaçava, assim como os cabelos longos, lisos como os dele haviam sido um dia.
Com os olhos fechados (suavemente, mas sempre fechados), ela caminhava sonabulamente até o chafariz, subindo em sua borda e quase dançando uma sinfonia mental ao redor da água. Ele podia sentir os acordes sob os seus dedos de pianista, melodia triste e cintilante, que para sempre ele associaria àquelas noites estranhamente belas de Paris. Apesar de seu ar de personagem balzaquiano, ele poderia jurar que ela era estrangeira, quase podia vê-la tentando falar francês, fazendo um biquinho involuntariamente cômico. Mas eram raras as vezes em que pensava nela assim, como um ser real e tão existente quanto ele.
Nunca tivera coragem de se perguntar, realmente, se ela era uma alucinação causada por sua velhice ou se era uma moça mesmo, encantadoramente perdida, mas que ficava bem ali. Ela caminhava sobre a borda do chafariz, fazendo toda a volta algumas vezes, num passo leve, às vezes tocando a água com um pé ou com as mãos. Ele a observava, questionando-se sobre a sua realidade, aliás, a de ambos, quando ela abriu os olhos. Depois de anos, abriu-os, e, em um momento, olhou para o velho. Ele ficou paralisado, enquanto estranhamente se encontravam, e subitamente, ele soube que ela era real, e o conhecia. Uma lágrima caiu pelo rosto enquanto a via se afastar, indo embora. E ele adormeceu.

domingo, 6 de novembro de 2011

... and don't worry

After a long time, the silence was even good for her. That house was darker then when she lived there, but yet she could have good feelings being there. It was amazing to remember his gray eyes, his hoarse laughter and his presence, which still lingers in her. For sure, she was actually an adult, but it was still very hard to not miss him, to not think about how would have been their lives, if he was alive and cleared of all blame. Now she could spend a really great time without thinking about all of that, but sometimes it was still real, still close. The most shining star - and she was alone. No matter how many people she had met and loved after his death, she was alone all along. And she had to face it.

 Slowly, she went upstairs, looking everything around, just like if she could bring him back by recovering all the memories of those places. Then, she entered his room, trying to not stay long, to not belong there again. She knew that no one could ever replace him, so it was amazing to close her eyes and dream that he was sitting on the bed, by her side, as if she was still fifteen and the war hadn't take him away.

 - Oh, don't worry my dear - he said, laughing and holding her hand. - You know, I'll be dead before you can even think of me getting really old, and if it doesn't happen, your dad will never let us stay together...

 - It's war time, love - she said, now seriously. - Anyone can get married.

 - So you really should not worry. Let's get married. Let's do it tomorrow morning.

 - Always forgetting that I'm under age and you're a hunted prisoner - she suddenly started to laugh too.

 - Yes, these are just details, my little one...

 He kissed her, pushing her close in the bed, his white t-shirt smelling so good that she would never forget that afternoon, the rain on the rooftop...

 She opened her eyes, wide awake. It was time to leave, to go for her new home, her new life that really fulfilled her. Indeed, it was amazing to have such a past to remember, but she needed to be strong and move on. Death should be left with all his friends, and she did not belong with them. Not anymore.

sábado, 5 de novembro de 2011

Mikrokosmos XXX

- Está tudo bem?
- Uhum - concordou ela, virando-se para olhá-lo. Por mais triste que estivesse, era animador e reconfortante ouvir passos no quarto e saber que eram dele, virar-se e se deparar com aquele rosto tão querido, tão dela. Ele se deitou e ela se aninhou nele, ficando muito calada, como há tempos não fazia. Ele percebeu a mudança e, entre surpreso e alegre, acariciou-lhe os cabelos, pensativo. 
Depois de quase dois anos morando juntos, ele sabia bem ler cada gesto dela, e podia perceber perfeitamente bem que algo estava mudando. Depois de muito tempo, ela estava finalmente voltando ao seu natural silêncio, recolhendo-se mais, falando bem menos e o olhando mais, sem medo de se perder naquela proximidade. Em silêncio, ele a olhou demoradamente, como se pudesse confirmar suas impressões, como se pudesse pedir-lhe para permanecer ali, completamente protegida com ele, até ser inevitável que tudo desaparecesse. Ela o olhava de tal forma que ele se sentiu, outra vez, como o menino que um dia fora, inundado em sua própria inocência, perdido na vastidão de tudo que desejara. 
Ela o beijou, sem pudor, surpreendendo-o, fazendo com que ele se envolvesse exatamente no que ele queria. Por que, repentinamente, já não era errado se perderem dessa forma? E por que, tão subitamente, eram casados no sentido mais profundo da palavra, no sentido que nem era a verdadeira intenção mas que, por isso mesmo, tornou-se a verdadeira? Mas eles não podiam e não queriam perder tempo pensando nisso tudo, tentando descobrir o que significava cada átomo - e nem era disso que precisavam. O que realmente precisavam era entregarem-se, era aprenderem a confiar no que ninguém podia convencê-los, a não ser eles próprios. Mas não, no fundo sabiam que estavam certos, e nada disso importava.
O oceano, a neve, silêncio. Talvez a beleza fosse a inexistência de tudo o que criaram. E talvez, apenas talvez, estivessem verdadeiramente ligados: e se isso fosse verdade, tudo teria valido a pena. Tudo.

sábado, 15 de outubro de 2011

Conchas


Não era nem seis da manhã ainda, mas era bom acordar cedo assim, agora era bom. Ele se acordara e chamara a mulher, que acordou sem hesitar, mesmo odiando acordar cedo. Arrumaram as coisas, o filho ainda dormindo no colo dela, puseram-se a andar em direção à praia, que ficava no fim da rua onde moravam. Gostavam muito de vir ali àquela hora; ninguém mais vinha, o silêncio e a paz eram inacreditáveis, quase como se a cidade inteira estivesse no mais profundo sono. Ele observava o filho dormindo, o rostinho arrendondado repousando no ombro da mãe, igualzinho ao menino de suas fotos da infância, a não ser pelas sardas que herdara da mãe. Passou um braço pelos ombros dela que não estranhou, afinal, depois de tanto tempo juntos ela já até gostava de ele ser carinhoso assim. Os cabelos dela eram algo que ele jamais iria esquecer, o toque frágil daqueles fios lisos e fininhos que lhe davam um ar de menina, mesmo que os dois já não fossem tão jovens assim.
Como sempre, o barulho do mar acordou o menino, que já abriu os olhos alegre, descendo do colo da mãe e correndo para a água. Ela correu atrás dele para brincarem na água como sempre faziam, esqueciam-se de qualquer outra coisa por horas, mas hoje ele não queria brincar (como acontecia às vezes), queria apenas olhá-los brincando. Sentou-se na areia, acomodando suas coisas por perto e finalmente se perdendo na contemplação não só do mar, mas de tudo aquilo que iria perder. Ali no mar ela era livre; ria, brincava e se soltava como em nenhuma outra circunstância. Ele a observava caminhar com o filho nos ombros, pulando ondas, fazendo o menino rir e a beijar na bochecha com aquele carinho que só os filhos queridos sabem ter. Ela era quinze anos mais nova, mas nenhum dos dois se lembrava disso nunca. Ele a conhecera aos poucos, aproximando-se devagar, percebendo aos poucos seus contornos, seus traços finos e evanescentes. Depois de ter trabalhado e estudado tanto, a única coisa que ele não havia conseguido era formar uma família, ter uma amiga que também fosse seu amor, como ele sempre quis que fosse. Então, despropositadamente, tornou-se amigo dela, descobrindo aos poucos que talvez seus projetos não fossem assim tão tolos. Ela queria crescer, ser melhor, e se entregar àquela vida que ele queria fazia parte do crescimento dela, portanto se casaram, muito menos pelas razões racionais do que eles gostariam.
Os anos se passaram muito rápido. Num momento, ela tinha dezessete anos e se encantava pelas teorias dele, no instante seguinte estavam ali, há anos juntos, e nesses anos tendo acumulado tanta experiência em lidar, em viver um com o outro, que já não precisavam de muita coisa para se entender. Dia após dia, através de gestos simples e madrugadas intermináveis de conversa, eles se apreenderam, tiveram um menino sem planejar, exatamente como deveria ser. “Estou grávida” – e eles simplesmente já sabiam como agir, acima do medo e do turbilhão de expectativas que essa ideia lhes causava. Era simples, estariam juntos criando um filho deles próprios, parecia assustador mas no fundo uma paz sempre reinava. Tendo um ao outro,  haviam passado por inúmeras situações difíceis e as controlado perfeitamente, então por que não seria assim? Mas sabiam que, em algum momento, isso acabaria. O inevitável sempre chegava, e chegou cedo demais para eles.
Sem poder evitar um choro silencioso, ele agradecia mentalmente não só por eles não poderem vê-lo chorando, mas também por tê-los, por ter vivido tudo o que vivera. Nunca havia pensando na morte até ela se apresentar como uma questão de tempo – mas pouco tempo. Não queria dizer para eles, não queria se tratar se sabia que de nada adiantaria e só assustaria aqueles pedaços dele que ele teria que deixar para trás. Queria morrer ali na praia mesmo, ou na cama, dormindo abraçado nos dois como às vezes faziam, a luz matinal invadindo o quarto tão íntimo, tão próprio deles. Seria fácil e limpo, e ele acreditava profundamente que tudo daria certo sem ele por perto também.
- Vem para a água, papai! – gritou o menino, correndo alegre e encharcado para pular no colo do pai. – ‘Tá gelaaaaaaaaada!
O menino tremeu, rindo, enroscando-se na toalha que o pai lhe estendia. Por um momento, ele ficou olhando aquele menino tão simples, tão dele, e quis protegê-lo até mesmo da água fria, de qualquer dano que pudesse lhe ocorrer. Beijou o filho, oferecendo-lhe colo e sanduíches, tentando acreditar que ainda o veria crescer trocando a guitarra de brincadeira por uma verdade, deixando o cabelo crescer, lendo os livros da estante dos pais, como se o tempo dele fosse o mesmo que o dos outros. Sua mulher vinha saindo da água satisfeita, como sempre saía de um banho de mar. Fechou os olhos, guardando na retina a imagem dela no mar e o som do filho contando-lhe os hábitos alimentares dos cavalos marinhos. Ele havia conquistado inúmeras coisas, mas era só isso que queria levar consigo. Só.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mikrokosmos XXIX


Despreocupadamente, ela entrou na casa lotada. O som era alto, mas as pessoas estavam no mais absoluto silêncio. Ouviu acordes estranhos, como se a música houvesse sido composta num instrumento diferente, inexistente e marítimo. Ela podia sentir e ouvir claramente o barulho das ondas, o vento forte batendo em seu corpo inteiro, a noite azul fazendo com que não desse para distinguir o fim do oceano e o começo do céu. Fechando os olhos, ela se entregou completamente à música, deixando que a maresia tomasse conta dela, surpreendendo-a com lugares que ela sequer lembrava que existiam, vendo uma menina encarando profundamente o mar. 
E então a música acabou. Mas ela precisava de mais, muito mais daquilo, daquela sensação de infinitude.
Com dificuldade, esgueirou-se através da multidão, tentando chegar mais perto do palco, e estava se aproximando quando outra canção começou, diferente mas com a mesma essência oceânica, fazendo com que ela se movesse ainda mais rápido, desejando profundamente chegar à fonte dessa miríade de acordes e ondas. Olhou avidamente para o palco assim que o alcançou. Um baterista excepcionalmente habilidoso, uma vocalista impressionantemente bela, um baixista mítico e um guitarrista muito bonito, com cara de criança, todos em perfeita harmonia, claramente bons amigos até mesmo fora dos palcos.
Mas não era deles que emanava o oceano dos acordes. Não. Eles apenas a executavam, ainda que perfeitamente bem, apenas faziam isso. O que havia de realmente fantástico e misterioso nas músicas vinha de uma única pessoa, postada à esquerda do palco; era desnecessário que lhe dissessem isso, ela simplesmente sabia. Uma figura alta, de longos cabelos negros e crespos tocava piano como ela jamais havia visto, sequer imaginado em toda a sua vida. Um homem com uma máscara completamente branca, que só deixava entrever belos olhos azul-acinzentados. Talvez fosse a máscara tão branca quanto o paletó, talvez as luzes ou a forma como ele tocava se entregando à música, ela jamais saberia, mas algo fez com que ela ficasse o resto da noite ali, olhando-o paralisada. Quando tudo acabou, ele se curvou numa reverência, agradecido, e percebeu o olhar dela ao se levantar, um momento antes de sair também. Desconcertado, ele saiu do palco com os outros músicos, enquanto ela permanecia ali, tentando digerir tudo o que vira e ouvira; tudo que aquelas composições haviam lhe trazido. Apesar de estar relativamente longe do mar, as ondas ecoavam em sua mente, furiosas, enquanto o lugar se esvaziava e ela permanecia, completamente perdida em si mesma e no que havia da música que a atingira.
Depois de muito ou muito pouco tempo, ela se deu por conta que tinha de sair dali. Foi quando uma mão branca cortou o seu caminho, estendendo-se para ela, que levantou a cabeça. Impressionantes olhos cinzentos a encaravam de volta gravemente, com uma pergunta indecifrável.
Ela começou a caminhar rapidamente sem pegar a mão, adiantando-se para a saída. Parou ao ouvir passos atrás de si. Sua mente estava completamente bloqueada e ela não tinha a mínima noção do que estava fazendo; só naquele momento percebeu o quanto sua respiração estava difícil e seu corpo estava tenso, dolorido. Os passos pararam quase que no mesmo instante em que ela. Lentamente, ela tentou respirar normalmente e se virar para o rosto mascarado, mas não conseguiu. Ao invés disso, saiu sem saber onde ia, avançando cada vez mais depressa, enquanto um desespero crescia rapidamente dentro dela, ameaçando tomá-la por inteiro.
Quando sentiu as ondas batendo em seus pés sobressaltou-se; não percebera estar se dirigindo ao mar, por mais que isso fosse absolutamente natural. Escalou as pedras então, subindo o caminho conhecido para o seu lugar favorito na pedra mais alta. E então, tudo desabou sobre ela. Por um momento, ela encarou profundamente o mar revolto, tomando coragem, enchendo-se da fúria, da vida dele, até saber ser o momento de olhar a outra alma oceânica. Virou-se então, percebendo o mascarado observá-la quase da mesma forma que ela fizera com ele, porém mais encantado. Permitiu-se então se perder na imensidão dos olhos profundos e tristes, significativos. Num movimento delicado, porém preciso, ela lhe tirou a máscara cuidadosamente, revelando o que ela sempre soubera. Há três anos não o via, mas muita coisa havia mudado desde então, coisas demais para um espaço tão curto de tempo. Mas isso era bom, imensamente bom. Era tudo o que precisavam - e apesar de todas as mudanças, eram os mesmos, e isso era tudo.
As ondas, os olhos cinzentos, o vento. O fim ou o começo de tudo?

(Escrito em 05/10/11 - 07:59 p.m.)

"In my dreams you're mine to keep"

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Distant Sun

O sol começara a entrar com força no quarto, iluminando-o e o esquentando. Ele levantou para fechar as grandes cortinas que deixavam o quarto na agradável penumbra usual, e então voltou a sentar na poltrona perto das portas do pátio, ao lado da cama, e antes de voltar a mexer em seu computador, ele se perdeu por um momento, observando-a. Ela dormia de bruços e, mesmo que o quarto estivesse consideravelmente mais escuro agora, ele ainda podia perceber o quanto a pele dela estava mais clara, e os cabelos bem mais longos, quase cobrindo inteiramente as costas. Ela ressonava tranquila, de bruços, com o rosto virado para onde ele estava sentado, o rosto infantil com as linha suavizadas, os cabelos lisos bem afastados do rosto, enchendo o travesseiro dele no outro lado. Ele acendeu outro cigarro, tentando voltar a se concentrar no computador, mas agora estava inquieto. Olhou-a outra vez e se levantou, tirando o computador do colo. Havia coisas demais acontecendo para que ele pudesse ficar sentado, e ele simplesmente não podia ficar indiferente. De forma alguma.
Por muito tempo, ele sentira saudade dessa cena cotidiana, ele acordando mais cedo que ela, ela dormindo nua com os cabelos esparramados, acordando sempre meio irritada mas logo se tranquilizando. Era uma vida boa essa, onde ambos não faziam quase nada: ele trabalhava quando queria, já que tinha prazos flexíveis, ela trabalhava por puro entretenimento, também apenas quando estava inspirada. Viajavam juntos, davam festas, passavam dias sem sair do quarto, ficavam bêbados, brigavam e faziam as pazes, tudo num ritmo estranhamente bom, já que ninguém mais pareceria ser capaz de suportar a vida que eles levavam. E ela também, em algum ponto, deixou de suportar. E então, tudo que já não era nada fácil ficou ainda pior. As brigas foram piores, ela foi embora e cada um teve que se arranjar sozinho - o que eles, de fato, não tinham ideia de como fazer. Mas ela achava, tolamente, que o esqueceria indo para longe. E achava que tinha conseguido, até a última noite.
Dentro dele, haviam tantas coisas se passando que ele mal conseguia discernir o que sentia, exceto por saber que não queria que aquilo acabasse. Passara quase dois anos tentando convencê-la de que ele poderia ser um bom homem, que levava a vida normal que ela queria, ou seja, que trabalhava normalmente, que tinha um propósito, um equilíbrio, por menor que fosse - e justo agora, que ele achava que os esforços eram inúteis e estava quase desistindo, ela surgira repentinamente, olhando-o com aquela expressão que ele conhecia tão bem, de quando ela queria se mostrar indiferente, mas que nunca funcionava. Ela o assistia, fascinada, e não pôde mais fingir depois de algum tempo. Não precisaram de palavras, abraçaram-se, foram para casa, transaram incansavelmente até ser fisicamente impossível fazerem qualquer coisa a mais do que fumarem no escuro, de mãos dadas, como gostavam tanto de fazer - e naquela noite, ele próprio se entregara, dando-se por conta do quanto precisavam estar juntos, chorou sem sequer perceber, possuiu-a com tal intensidade que parecia querer tragá-la de uma vez por todas, num derradeiro gesto, mas nunca antes havia sentido que tinha todo o tempo do mundo para ela, nunca como naquela noite. E ela usava a aliança verde, a tão significativa aliança verde que ele comprara para ela, usava como se nunca houvessem estado separados.
Subitamente, ele teve uma ideia. Por que não acabar com tudo isso, agora que as coisas estavam simplesmente perfeitas? Eles haviam tido a melhor noite juntos, sem dúvida, e esse poderia ser um final perfeito para uma história tão longa e significativa. Lentamente, ele abriu a gaveta do criado-mudo e pegou sua arma, olhando-a calmamente, levantando a arma e mirando no pescoço dela. Seria um final perfeito, não? Os dois morreriam felizes e juntos, exatamente como sempre planejaram - talvez não tão exatamente, mas ainda assim, felizes e juntos, e muito mais do que isso, eles teriam acabado a vida juntos, sem ter de sofrer a perda irrecuperável um do outro.
Mas então, só por um momento, ele imaginou que, ao acordar, ela dizia que estava de volta, que ainda poderiam construir uma nova vida juntos. E essa perspectiva, por menor que fosse (e ele tinha consciência do quão pequena era), fez com que ele baixasse a arma, aproximando-se dela, tocado pela ideia de tê-la outra vez, de poder deitar naquela cama sabendo que logo ela estaria ali também, ou o simples fato de saber que ela iria com ele nas viagens de trabalho, que brigaria por ele quando necessário e, mesmo quando estivesse furiosa com ele, logo tudo estaria bem, não importando o quão errado ele estivesse. Ele guardou a arma no lugar, fechou a gaveta e voltou a se sentar, sem pegar o computador de cima da mesinha. Ao invés disso, estendeu os pés e acendeu mais um cigarro, mexendo distraidamente na aliança. Sentia-se um pouco tolo por ter deixado aquela coragem momentânea escapar, mas talvez tivesse feito a coisa certa. Sim, só talvez.
- 'Dia! - sorriu ele, repentinamente animado, notando que ela abrira os olhos. De fato, era bom vê-la acordada, viva, e talvez o desespero de vê-la morrer não fosse suportável, mesmo que ele fosse morrer junto. Ela sorriu, preguiçosa, olhando-o carinhosamente, com aquela demora saudosa que ele tanto apreciava. - Café da manhã, cigarro, banho ou almoço?
- Cigarro. Que horas são?
- 6 e 35 - disse ele, levantando-se para alcançar para ela um cigarro já aceso por ele. Ela tragou e o olhou, espantada.
- Eu não durmo tanto assim desde... Minha nossa, nem me lembro da última vez que eu dormi tanto! - os dois sorriram, enquanto ele se deitava outra vez ao lado dela, espichando o braço para que ela deitasse. Ela se acomodou nele, fumando e olhando preguiçosamente a fumaça subir, parecendo pensativa. Ele estava estranhamente consciente de que tinha a sua esposa, completamente nua, em seus braços depois de muito tempo longe. Tinha vontade de tirar as boxers e partir para cima dela antes que fosse tarde demais, mas ele também sabia dar tempo ao tempo. Por mais difícil que isso fosse, às vezes.
- Eu dormi por quase doze horas e ainda estou com preguiça de levantar e ir tomar banho - ela riu, beijando-o no maxilar. - Acho que uma noite foi suficiente para voltar aos antigos hábitos - sussurrou ela, e ele percebeu o significado bem maior do que ela pretendera deixar transparecer.
- Suas roupas estão no lugar habitual, tudo normal - disse ele, dando uma tragada profunda. Era constrangedor, mas pela primeira vez na vida não sabiam como agir, justo depois de tanto tempo juntos, simplesmente não sabiam o que fazer naquele momento. Aquele era o homem que a conhecia desde que nascera, que a vira crescer e casara com ela quando ela não passava de uma criança... Haviam tantas coisas significativas sobre ambos que o silêncio só podia estar antecedendo uma explosão, fosse ela boa ou ruim. Na cabeça dela ficara ecoando "Tudo normal", porque apesar de ter sido ela a ir embora, sempre temera profundamente tê-lo perdido. Levantou-se de súbito, indo com decisão para o banheiro, não sabendo se queria ou não que ele a acompanhasse, mas ficando certamente aliviada ao perceber que ele permanecera deitado. Precisava respirar um pouco, digerir nem que fosse uma parcela de tudo que havia acontecido. Porque mesmo que ela tivesse planejado encontrá-lo, apreciando seu trabalho, jamais pensou que isso iria tão longe, que sequer iria conversar com ele. Mas a coisa fora longe demais. Longe - e profunda demais, sem dúvida alguma.
Ele gostava de ouvir o barulho do chuveiro. Havia muito tempo, tanto que nem se recordava da última vez que estivera assim, deitado na cama ouvindo o barulho da água enquanto ela tomava banho ou ouvindo seus passos pelo quarto enquanto se arrumava. Repentinamente, sentiu uma súbita esperança: e se tentasse convencê-la de que poderiam tentar uma nova vida? Agora, ele possuía todos os argumentos e as provas de que mudara, de que seriam pessoas diferentes agora, que ela poderia fazer tudo o que quisesse mesmo estando com ele, naquele lugar que "a tornava inútil", na concepção dela, simplesmente porque ela passava tanto tempo envolvida com ele que não tinha tempo de dedicar 85% de seu dia ao trabalho. Se precisasse, ele iria apelar para o fato de ser bem mais velho que ela e dizer, provavelmente fazendo-a ficar brava e emocionada ao mesmo tempo, que ele morreria logo, então ele só estava pedindo mais uns anos ao seu lado, e depois ela podia passar 100% de seu tempo trabalhando, como bem entendesse. Os 31 anos de diferença podiam pesar a favor dele agora, mas ele esperava não precisar disso. Estava tão concentrado trabalhando em sua própria defesa que nem percebeu quando ela saiu do banheiro, indo procurar uma toalha no closet.
- Bom, eu acho que é inevitável dizer que a gente precisa conversar...
Ela parou o que estava fazendo para olhá-lo. Ele havia se levantado e estava parado ao seu lado, olhando-a sério. Todas as vezes em que ela voltara para casa depois que havia ido morar na Noruega eles não haviam conversado: ela vinha, eles farreavam por uma noite e tudo ficava bem, ele nem percebia quando ela saía de manhã para pegar o primeiro avião para Oslo, geralmente no dia do aniversário dele. Mas, mesmo não querendo, ela sabia que ele estava certo. Era indispensável que conversassem, porque dessa vez, havia sido tudo menos diversão o que havia acontecido. Qualquer coisa, menos isso.
- Eu acho que...
- Eu espero que você tenha notado, mas mesmo que não tenha, eu mudei nos últimos dois anos - ele a olhava como não fazia há muitos anos, talvez como não fazia desde quando ainda não eram casados. - Eu foquei no trabalho, tentei ser menos orgulhoso, dediquei-me a estruturar coisas, a ser uma pessoa melhor... De maneira geral, eu tentei ter uma vida normal, o mais normal que eu posso chegar - ele respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos ruivos que iam rareando aos poucos, mas que ainda eram compridos. - E eu, obviamente, não fiz isso por ter estado melhor desde que você se foi. Eu fiz isso porque você foi embora dizendo que tinha que "tomar jeito" - ele fez as aspas no ar, exasperado - e que simplesmente não podia continuar vivendo aqui se quisesse isso. Pois bem, eu "tomei jeito", e foi para mostrar para você que a gente pode fazer isso, que diabos! Você não precisava ir para aquela merda daquele país nórdico e se envolver com aquela bichinha loira que...
- Ei, calma aí! - ela foi perdendo a paciência junto com ele. - Depois que você concluiu seu projeto antigo, você simplesmente achou que não tinha mais nada para fazer e não fazia nada! Eu perdia todo o meu tempo tentando te mostrar que você...
- Eu ia voltar a trabalhar!
- Eu só queria que você voltasse porque isso te faz feliz! - ela já sentia as lágrimas encherem os seus olhos, nunca soubera ficar furiosa com ele sem sentir uma imensa tristeza ao mesmo tempo. - Nós sempre tivemos dinheiro e tudo o que queríamos, você sabe bem que eu só queria...
- Não interessa, não interessa - disse ele baixo, fechando os olhos e massageando as têmporas, acalmando-se com um autocontrole que a deixou estupefata. Era ele quem gritava e fazia as tempestades, que subitamente invadia o quarto convencido de que havia milhões de motivos para discutirem por uma noite inteira. Ela ficou ali, completamente surpreendida pela súbita imagem dele se acalmando ali, sozinho. Esperou em silêncio ele continuar. Ele levantou os olhos, encarando-a profundamente, medindo as palavras. Por fim, continuou:
- Se formos pensar em todas as razões para tudo o que já aconteceu, ficaremos gritando aqui noite adentro - disse ele, claramente cansado. Passou a mão pelo cavanhaque, pensativo. - Eu sei que você me apoiou na fase mais difícil da minha vida e eu te devo muito por isso, mas não acho que isso sirva de justificativa para me abandonar quando...
- Você não me deve nada - disse ela, olhando para o chão. - Você também esteve comigo na fase mais difícil da minha vida, e mesmo que não tivesse estado, não importaria. Eu ainda te amo, e isso vai continuar sendo o suficiente para que você me tenha sempre que prec...
- Não minta para mim, mulher! - disse ele, já quase gritando outra vez, quase perdendo o controle. - Quando você achou que era "a hora de mudar de vida", você simplesmente foi embora, sem sequer me perguntar se eu estava bem ou mal! Quando eu me dei por conta você estava indo cada vez mais frequentemente para a Noruega, e eu sabia o que estava acontecendo, você estava mudando e...
- Você nunca disse que precisava...
- E desde quando eu preciso te dizer alguma coisa hein? Desde quando eu preciso abrir a minha boca para dizer que você não pode sair daqui? Isso é mais do que uma desculpa esf...
- Escuta aqui! - gritou ela, subitamente fora de si. - Eu estive sim com você, quando você perdeu todos os seus amigos e perdeu seu emprego, briguei por você com meus amigos e até no tribunal, lutei e acreditei em você o tempo todo, e sim, eu costumava saber exatamente o que você precisava. Mas você já parou para pensar no que eu precisava? Nem eu sabia mais! Você me tomava por inteiro e...
- E que merda mulher, para que foi que nos casamos se não foi para isso? POR QUE DIABOS VOCÊ DISSE QUE QUERIA SE CASAR E ME FEZ IR ATÉ A INGLATERRA CONSEGUIR UMA MERDA DE UMA PERMISSÃO PARA CASAR COM UMA GAROTINHA DE 16 ANOS SE VOCÊ NÃO QUERIA ESTAR COMIGO?
- VOCÊ SABE BEM QUE NÃO É BEM ASSIM!
- ENTÃO EXPLIQUE-SE!
- Você estava me destruindo - disse ela, simplesmente, dando de ombros. - Você estava acabando comigo, literalmente. Tudo o que enchia a minha mente era como eu iria fazer para evitar que você sofresse o mínimo possível e não brigasse comigo...
- Eu não brigava com você - falou ele, num tom baixo mas ainda assim furioso.
- Brigava, sim. E adorava implicar com tudo o que eu fazia, desconfiar...
- Ah sim - ele riu debochadamente. - Você vai ver um apartamento com os meus ex melhores amigos e volta só uma semana depois, e quer que eu pense o quê? Que vocês estavam limpando o lugar? Pelo amor de Deus!
- Eu também errei, inúmeras vezes, mas não importa - retomou ela, com firmeza. - Você tinha as suas putas e tudo ficava bem, não é mesmo? Eu nunca me importei com isso, mas eu não podia respirar para...
- Se você tivesse dito uma vez, uma vez que se importava, eu não teria trepado com nenhuma delas! - explodiu ele, desarmando-se. - Eu não costumava nem olhar para outras mulheres quando começamos, quando você dizia claramente que sentia ciúmes?
- Eu queria ser madura...
- E eu queria ter você! Será que isso era pedir demais, depois de... deixa eu ver, 14 anos de casamento? Eu estava enlouquecendo, você não se importava com nada do que eu fazia e continuava saindo com esses seus amigos músicos que...
- Eu queria ser uma pessoa melhor!
- Então para você esse casamento foi uma merda? A maior merda que você fez em toda a sua vida? Vamos, pode admitir! - gritou ele, intensamente vermelho de raiva. - Eu dando o meu sangue...
- Você foi a melhor coisa...
- NÃO SE ATREVA! - berrou ele, aproximando-se ameaçadoramente dela, segurando-se para não a puxar pelos cabelos para perto de si. - Não-minta-para-mim! - ele quase cuspiu as palavras, e ela avançou para ele, segurando o seu rosto, entre furiosa e desesperada.
- VOCÊ-FOI-A-MELHOR-COISA-NA-MINHA-VIDA! - gritou ela. - Eu nunca mentiria sobre isso.
Num movimento rápido, ele correu até o criado mudo e pegou a arma, voltando e a apontado para o peito nu dela, por onde ainda escorriam pingos d'água. Agora ele podia ver na pele dela manchas vermelhas por toda parte, manchas dele, que a pele tornada mais clara e mais sensível pelo clima frio agora sentia mais profundamente, era machucada mais facilmente. Ela abriu os braços, olhando-o conformada.
- Atire então - disse ela, de um fôlego só. - Atire. Seria um final justo para o nosso casamento, nada muito distante do que todos já imaginaram. Atire. Eu não queria morrer longe de você mesmo - as lágrimas começaram as escorrer pelo rosto dela, e num impulso, ele largou a arma e a pegou no colo, explodindo enfim, deixando-se destruir por tudo que o sufocara por tanto tempo. Ela se abraçou nele, chorando desesperadamente, sentindo em seu rosto a sua pulsação, com uma felicidade completamente absurda por sentir aquelas mãos fortes segurando seus cabelos e seu corpo, ouvindo-o chorar sinceramente como jamais nenhum dos dois havia chorado. Deixaram-se esvair então, perdendo-se um no outro, até que o momento se perdesse, o momento pelo qual aqueles quase 16 anos de casamento parecia ter existido. E depois - bem, depois, era complicado, como sempre fora. Mas então tudo seria mais claro, nunca mais fácil, mas mais claro. E isso bastava.

domingo, 2 de outubro de 2011

Mikrokosmos XXVIII

Mesmo que ainda faltasse mais de mês para o Natal, com toda aquela neve era difícil não pensar sobre as festas de fim de ano. Ele não deveria estar contente, mas sentia-se mais seguro e o frio só ajudava. Aquele vilarejo parecia, de fato, um cartão de Natal, o que o colocava na atmosfera de sonho que ele tanto adorava.
Eles caminhavam devagar, as mãos dadas no bolso do sobretudo dele, protegidamente aquecidas, enquanto ela observava cuidadosamente tudo ao seu redor. Ele sabia que ela tentava recuperar memórias que talvez sequer existissem, mas que ainda assim eram reais. Mais do que eles próprios.
A única coisa que ela fez ao chegar em frente à casa onde morara foi para de caminhar por um momento, olhando-a por inteiro, mas logo conduzindo-o para seguir em frente. Foi ele quem viu o cemitério primeiro, bem no final do vilarejo. Havia apenas um portal para demarcar o início, mas não havia grades ou muros. Menos de cinquenta lápides organizavam-se belamente no pequeno gramado coberto de neve, as famílias reunidas claramente localizáveis pelos seus sobrenomes. Não precisaram caminhar muito para chegar a um túmulo simples, belo e duplo, onde estava inscrito:

"In loving memory of Lily and David.
Their love shall be stronger than the tides of life;
their beloved children are the beacons of their immortal souls.
"The last enemy that shall be destroyed is death."
July 23rd, 2007."

Ela parecia paralisada diante das inscrições. Uma foto de uma bela mulher ruiva e de um bondoso homem loiro no dia de seu casamento estava emoldurada acima; ambos riam, com tal inocência que era impossível acreditar que estavam mortos. Pareciam reais, prestes a saírem da casa por onde haviam passado há pouco, David olhando inquisidoramente para ele, com ciúmes da filha; Lily entre divertida e formal, sinceramente encantada pelo genro, e ainda mais encantada pela alegria da filha. Ele podia perceber agora que ela havia herdado tudo da mãe, a não ser pelos olhos e a boca, mas emanava algo que parecia vir dos dois, uma essência inconfundivelmente misturando as expressões de ambos. 
Era desnecessário dizer qualquer coisa; ele a puxou para si no exato momento em que ela não pôde mais suportar tamanha dor. Por um longo tempo ele ficou ali a acariciá-la lenta e carinhosamente, olhando a neve cair, chorando junto sem perceber, desejando profundamente que ela não tivesse de passar por isso. Quando a conhecera ela tinha perdido sua mãe recentemente, mas jamais falava sobre isso, e ele sabia perfeitamente que ela não falava por ser difícil demais, duro demais.
- Bem, eles estão mortos, não há motivo para ficar mais tempo aqui, eu suponho - ela se afastou, virando-se novamente para o túmulo, ainda abraçada nele. Seu olhar demorou-se na foto e nos nomes, e então ela se deixou ser levada embora, caminhando pelo tapete fofo de neve que cobria todo o vilarejo.
- Seu irmão iria ficar feliz em vê-la - sussurrou ele, tentando confortá-la.
- Eu já passei bastante tempo com ele esse ano - disse ela, finalmente dando um sorriso fraco. - Agora quero voltar para casa com você e ficar no nosso quarto até ser inevitável sairmos.
Ele a beijou na cabeça, levando-a para o hotel, onde ficariam até pegarem o primeiro voo da manhã para Helsinki. Ele a viu levantar de madrugada, indo fumar na janela, e depois voltar se aconchegando nele, dormindo tranquilamente, já sem lágrimas. Voltariam para Kitee então, e talvez fosse mais fácil agora... sim, agora seria mais fácil. Ele garantiria isso, pelos dois.