quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mikrokosmos XXXII

A caixinha de música tocava incessantemente os delicados acordes que tanto lhes faziam bem. O gracioso macaquinho batia levemente os pratos e olhava sorrindo para quem o segurasse. Ela estava sentada perto da janela, há muito tempo perdida em seus pensamentos, apenas ouvindo a bela canção que saía da caixinha. Às vezes seu olhar se perdia na neve lá fora, que tornava aquela noite um cenário ainda mais encantado do que aquele lugar já era para ela. Por muitas vezes se perguntara, não tanto por si própria mas por seus familiares, se seria certo permanecer numa terra tão distante, por mais bela que fosse. Na verdade, ninguém compreendia o quanto aquele lugar fazia bem a ela, tampouco podiam imaginar a necessidade mútua que havia entre ela e seu marido. Como uma criança, agora ela sorria feliz, ainda encantada pela mesma antiga canção da caixinha. Sim, ela podia sentir que aquilo tudo era o que ela queria, acima de ser certo ou errado, necessário ou não. E esse pensamento lhe trazia uma paz que dificilmente poderia ser alcançada de outra forma, pelo menos por ela.
Ele se sentou ao lado dela no chão, acomodando-se sobre o tapete fofo e se reunindo para desfrutarem da música da qual seus ouvidos jamais se cansavam. Ela repousou sua cabeça no ombro dele, entregando-lhe a caixinha que ele segurou com cuidado e admiração. Exatamente como na sua infância, ele ficou por muito tempo deixando-se flutuar por aqueles acordes mágicos, feliz que os sonhos daquele tempo até parecessem pequenos comparados aos que ele havia realizado agora.
Num impulso, ele abaixou a cabeça para olhá-la e percebeu suas lágrimas. Mesmo sem perguntar, ele sabia que isso era algo bom, conhecia-a suficientemente bem para isso. Soltou cuidadosamente a caixinha no chão e se virou para ela, levantando-lhe delicadamente o rosto. 
- Você pode me prometer uma coisa? Por mais sem sentido ou... não sei, impossível que possa soar?
Ele assentiu, sério, com cuidado. Eram raros os momentos em que ela pedia alguma coisa, ainda mais verbalmente. Era quase doloroso poder ver tão claramente através dela, mas também era fantástico. Nem em seus mais ousados sonhos conseguira acreditar que poderia se ligar dessa forma à alguém, e ali estavam aqueles olhos escuros dizendo mais do que ele julgava poder ouvir.
- Eu não quero que essas noites acabem - falou ela baixinho, como se estivessem embaixo das cobertas em pleno dezembro branco. - Nem essa música, muito menos a sua inocência. Pode tentar nos manter juntos? Pode fazer com que a neve continue me encantando?
Ele não pôde responder. Abraçou-a fortemente contra si por um longo tempo, sem saber sinceramente o que dizer. As coisas se invertiam agora, e era ela que dava voz ao que nem ele sabia nomear dentro de si. A caixinha continuava tocando a música suave da noite, protegendo-os. Todas as máscaras e defesas já haviam ido embora há muito tempo, então tudo aquilo era desnecessário, já não havia mais escolha. Estavam juntos, verdadeiramente, em um mundo que ninguém mais talvez fosse capaz de compreender, porém era verdadeiro. Em cada floco.

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