terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Resto

- Vai falar agora?
Ela se virou, olhando-o por um longo tempo. Seria mesmo possível tudo que havia passado por sua cabeça nos últimos meses? O marido a olhava pacientemente, os olhos azuis tranquilamente esperando o que talvez jamais pudesse ouvir. Vendo-o tão tranquilo, tão mudado, parecia-lhe realmente possível que pudessem voltar a viver juntos, porém de uma forma imensuravelmente melhor do que antes. Haviam passado quase dois anos separados, apenas se vendo raramente e tendo algumas recaídas que não duravam mais do que uma ou duas noites e deixavam dúvidas por meses em ambos, mas nenhum se manifestava, principalmente por medo, mas também por orgulho: medo de arriscarem uma última chance de estarem juntos e orgulho de saber que o outro talvez viesse correndo e admitisse que, depois de quase dezesseis anos de casados só sabiam viver tranquilos juntos, por mais tempestuosa que a superfície fosse. Ela mexeu no machucado que a aliança deixara em sua mão, aliança que mesmo quando separada ela nunca gostar de tirar, a aliança verde e especialmente comprada para ela, já que ela insistia em não usar a comum (na verdade, ela sempre se esquecia de colocá-la, mas ele não acreditava nisso).
- Eu quero que o meu dedo cure logo. Quero usar a minha aliança de novo, sinto-me um pouco nua sem ela.
- Não faz mal ficar nua na minha frente - disse ele, e havia algo de comovente no tom carinhoso com que disse essas palavras, quase como se eles estivessem ainda na penumbra de uma madrugada calma. Ele se sentou ao lado dela sem tocá-la, mexendo distraidamente em seu joelho. Entendia perfeitamente a saudade que ela sentia da aliança, ele próprio usava a mesma há quase 16 anos, ou melhor, 15 anos, 11 meses e 18 dias. Era ridículo, mas ele era estranhamente consciente de detalhes insignificantes como datas de noivado, casamento e similares. Sentia-se envergonhado disso e nunca admitia, porém sabia que no fundo só se lembrava de tudo pela importância que ela tinha em sua vida. Quando a conhecera, nunca pensara que aquela menininha que o adorava tanto e dizia brincando que ele era um príncipe seria sua mulher, de verdade, e o faria muito mais feliz do que jamais fora. Sua vida era terrivelmente agitada e nada parecia ser verdadeiro e/ou confiável, mas então ela cresceu e as coisas simplesmente mudaram. Ainda parecia completamente absurdo que 31 anos de diferença não os separassem nem um pouco, contudo eles se amavam muito acima disso. Sem querer, haviam ultrapassado os limites das pessoas comuns sobre os sentimentos, deixando-se levar pelos mais inesperados e sinceros impulsos. Por tudo isso, ele, que era um homem passional e difícil, conseguia se controlar e a esperava calmamente ali, sentado ao seu lado, contra todos os seus desejos de gritar com ela e lhe mostrar que era sua maldita obrigação ficar ao seu lado. Ela lhe pertencia, e ele se julgava no direito de ordernar que ela não o abandonasse, todavia ele preferia educadamente ignorar tudo à que tinha direito, porque sabia que ela significava bem mais do que isso em sua vida. Fora bastante duro, mas ele conseguira aprender até que ponto ele podia deixar seu orgulho e seus impulsos dominarem tudo que fazia para com ela. E isso era a melhor coisa que havia aprendido nos anos longe dela.
Lentamente, ele aproximou as mãos dos cabelos dela, longos e lisos, fininhos como os dele próprio. Encostou levemente os dedos na superfície macia, enquanto ela ainda encarava o chão com as mãos desajeitadamente sobre as pernas, mexendo inconscientemente no dedo da aliança. Ele não podia ver o rosto dela porque os cabelos arruivados eram exatamente como uma cortina sobre o rosto claro e de traços finos. Aos poucos, ele começou a acariciar mais de perto seus cabelos, tocando-os verdadeiramente, deixando que a sua mão aos poucos também tocassem a orelha, o pescoço dela. Ela primeiro se inclinou para se encostar na mão grande e forte dele, fechando os olhos, sentindo aquele cheiro tão familiar... Por quanto tempo aturou a distância! Não percebeu que uma lágrima caía, e o abraçou longamente, sentindo a pulsação de seu pescoço sob seu rosto, os cabelos compridos ainda macios e cheirosos como antigamente, aquele cheiro de cigarro com perfume...
- Não me deixe ser tão idiota assim, nunca mais - falou ela baixinho. - Nada disso é culpa sua. 
Ele a apertou contra si, mais emocionado do que jamais supusera poder ficar por algo aparentemente tão simples. A verdade é que, apesar de encher os seus dias com trabalho e festas e todo tipo de diversão, ele fazia tudo isso apenas porque era insuportável ficar em casa com todos os pensamentos torturando-o o tempo todo, além de que ele esperava conquistá-la por mostrar-se independente dela. Aquelas palavras ditas baixinho, tão baixo que era até difícil ouvir, elas sim eram o que ele havia secretamente desejado ouvir durante todo esse tempo, mesmo que não admitisse nem para si próprio tal sonho absurdo para um homem maduro como ele. Mas ele queria sim, queria que ela voltasse e que eles construíssem uma vida inteiramente nova se isso fosse a fazer feliz, queria ter uma vida o mais equilibrada possível, queria tudo que envolvesse estarem mais uma vez inseparavelmente casados. Fizera as pazes com amigos que não falava há anos, começara a realizar projetos que há muito deixara para trás por pura desilusão, tudo para ter apenas uma chance, mesmo que conscientemente ele apenas achasse que estava "endireitando a sua vida". Esse era o último passo para endireitá-la de vez, ele sabia disso. Precisava fazer muitas coisas ainda, mas se a conseguisse de volta, sessenta por cento já estaria feito, e muito bem feito. Então, por que não arriscar? Porém, ele nunca teve a chance de fazer isso.
- Casa comigo, às nove da noite do dia seis de janeiro de dois mil e doze?
- Não, só às dez.
- Por que? - ela já o olhou meio rindo, meio chorando, sem se desvencilhar completamente dele. Olhava-o como se jamais fosse vê-lo outra vez e tivesse que decorar cada traço, cada luz de seu rosto. Podia ver seus olhos marejados e o peito levemente arfante, os cabelos ruivos parecendo flamejantes sob a luz que entrava no quarto.
- Porque eu só caso, exatamente, de dezesseis em dezesseis anos.
Ela o beijou, ainda sorrindo, mas já sem tempo para brincadeiras. Era besteira achar que uma mudança total de vida poderia torná-la uma pessoa melhor e, afinal, qual era o tão bem estimado valor de ser uma pessoa melhor? Haviam coisas muito mais importantes na vida, pelo menos para ela, e ele era uma delas, ela simplesmente não podia mentir para si mesma - e, quem sabe, talvez isso também fizesse parte de se tornar uma pessoa melhor, admitir o quanto se ama alguém e cuidar disso acima de tudo, principalmente do próprio desejo de poder e orgulho. Porque ela sempre soubera que não havia nada melhor do que ele e, se isso fosse tolice para os outros, para ela seria tolice valorizar qualquer outra coisa. Ela o amava, sim, e ficaria ao seu lado, porque ela sabia que poderia ajeitar o resto de sua vida se tivesse um pouco de paciência e ele ao seu lado, o resto era o que menos importava, ao fim de tudo. Sim, ela sabia muito bem, e ele também.

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