Saindo do prédio para fumar um cigarro, ela o avistou num banco de madeira sob um pinheiro. Ele levantou a cabeça e sorriu para ela, enquanto ela ia se sentar junto a ele. Ele lhe ofereceu gentilmente o isqueiro e, por um momento, ambos ficaram fumando em silêncio, apenas observando as pessoas passando por ali. Apesar de toda a sua luta interior, ele ainda sentia vontade de segurar a mão dela. Na verdade, surpreendeu-se com a vontade intensa de um gesto tão simples assim. Talvez, como ele temia, amava-a mais do que podia suspeitar.
- Há um ano atrás, eu não conseguia nos imaginar nessa tranquilidade toda.
- Pois é - concordou ela, pensativa, mas sem querer conversar sobre isso. - Como estão os meninos?
- Estão bem, mas sentem a sua falta.
- Se estiver tudo bem por você, eu pretendo visitá-los hoje.
- Perfeitamente - ele deu uma tragada profunda, evitando olhá-la. Por que tornar as coisas mais difíceis? Ela estava agindo corretamente, eles realmente não deveriam conversar sobre o passado e agir como cunhados que se dão bem. - Onde vocês vão passar o ano novo? - ele se referia a ela e o marido, seu irmão.
- Na casa da mãe de vocês, onde mais? - perguntou ela, finalmente sorrindo. - Todos os irmãos irão para lá, não é mesmo?
- Sim, só pensei que vocês pudessem ir para a Lapponia outra vez.
- Só fomos ano passado por causa da lua-de-mel - respondeu ela, mordendo o lábio inferior, desconfortável. Por que todo e qualquer assunto tinha de se encaminhar para algo que lembrasse o que eles haviam sido um dia? Há muito tempo isso não acontecia, mas hoje o passado parecia simplesmente vir à tona. Decidiu não tentar resistir mais. Havia tido um dos anos mais difíceis de sua vida, e agora percebia que grande parte disso provavelmente se devia ao fato de ter se afastado dele, que apesar de tudo, sempre seria seu melhor amigo. Sentia vontade de olhá-lo, com saudade dos longos cabelos loiros, os incríveis olhos azuis, a barba longa, aquele sorriso bonachão e o rosto redondo, geralmente alegre. Como o adorava, por inteiro! Porém gostaria de não ter esses pensamentos tão facilmente dominando-a. Era ridiculamente dramático ter se envolvido com o irmão de seu marido, não precisava carregar esse tipo de coisa pelo resto de sua vida. Mas sabia que era inevitável que tudo isso ficasse marcado, não só pelo quanto os dois ainda sentiam um pelo outro, mas também pelos filhos dele, que eram tão apegados a ela o quanto duas crianças podem ser. As lembranças dos poucos meses em que moraram juntos, os quatro, eram incríveis, mesmo quando incluíam apenas um domingo entediante olhando filmes infantis na sala.
- Eu senti a sua falta esse ano - disse ela, subitamente. - Deus, e como! Acho que eu nunca tinha percebido o quanto realmente somos melhores amigos até agora.
Ele ficou em silêncio, olhando-a estupefato. Ela jamais conseguia dizer qualquer coisa, sempre guardando até seus mais simples sentimentos para si mesma, e então aquela confissão súibita... inacreditável! E isso era bom, muito bom. Há um bom tempo ele precisava conversar sobre isso com ela, precisava parar de fingir que tudo não possuía mais importância.
- Acho que nós amadurecemos um pouco, ficando longe - disse ele, dando de ombros com um sorriso cansado. - Nós não aguentaríamos por muito mais tempo do jeito que as coisas estavam. Você fez o que era certo, afinal de contas.
- É, eu acho - ela sentia seus olhos arderem, e sabia que não se manteria calma se continuassem falando sobre aquilo por muito tempo. O problema de calar tudo é que quando as coisas vêm à tona elas transbordam, e havia sido difícil demais mantê-las minimamente abaixo da superfície, mesmo que fosse apenas por um ano. Não queria que ele concordasse que ela havia feito o que era certo, sentia-se infantil, mas ainda queria vê-lo irracionalmente querendo que tudo desse certo. Se conseguisse ser um pouco mais racional, ela talvez pudesse perceber que ele havia apenas mudado de estratégia, porém ela era intensa demais para tal façanha.
- Nós podíamos continuar sendo melhores amigos, talvez - sugeriu ele, querendo mais do que nunca segurar a sua mão firmemente, oferecer-lhe conforto, mas resistindo. - Nós conseguimos conversar tranquilamente algumas vezes, lembra? E também conseguimos festejar juntos. Talvez...
- Eu acho ótimo - disse ela sorrindo, e finalmente olhando para ele, finalmente se desculpando por todos os seus sentimentos. Porque olhando para ele lhe parecia impossível que houvesse conseguido se distanciar mesmo que fosse por uma semana. Não lhe agradava encarar as coisas tão diretamente, entretanto isso também lhe fazia bem. Ficaram se olhando por um momento, calando inúmeras coisas e sentindo ainda mais saudade do que quando estavam distantes. Ela desviou o olhar primeiro, e perguntou:
- Você ainda tem que fazer alguma coisa no escritório?
- Não.
- Então por que não vamos para casa agora, no meu carro?
- Ok, e eu dirijo.
Ela lhe passou as chaves e os dois foram se encaminhando ao estacionamento. A forma com que ela dissera "vamos para casa" fora tão familiar e íntima que por um momento ele se confundiu, sentindo-se dela ainda. Ela caminhava de cabeça baixa, o que tornava difícil sondar-lhe a expressão. Entraram no carro em silêncio, e ela se limitou a observar a neve durante o caminho. Quando chegaram, ela foi reto ao quarto de Mikael, o mais novo dos meninos. Ele ficou no corredor, e só pôde ouvir a exclamação de alegria do filho, provavelmente já nos braços dela. Sorriu, enquanto ouvia Mikael falar rápida e empolgadamente com ela, e logo ouviu os passos dos dois se dirigindo ao quarto do filho mais velho. Ele entrou para o seu próprio quarto, que um dia dividira com ela, e se deitou na cama sem se despir. Fechou os olhos, tentando não pensar em nada. Sabia que os filhos estavam com ela na sala de jogos, montando o quebra cabeças de cinco mil peças que ela havia dado para Mikael no Natal. Ele adorava quebra cabeças e havia virado uma tradição ela lhe dar em todos os natais um novo, que ela montava com ele pela primeira vez. O mais velho preferia ganhar qualquer coisa relacionada à música, então ganhara camisetas de suas três bandas favoritas e iria a um show na próxima semana com ela. Não conseguia se ressentir que seus filhos gostassem mais dela do que da sua mulher, mãe deles; ele próprio cometia a mesma falta. Perturbado por esses pensamentos, resolveu ir fazer um lanche na cozinha, quando encontrou os três no corredor.
- Papai, nós vamos ao McDonald's agora e amanhã vamos terminar de montar o quebra cabeça!
- Entre três pessoas, cinco mil peças não são tanto - sorriu ela, acariciando os longos cabelos loiros de Mikael, perfeitamente iguais ao do pai. - Posso levá-los?
- É claro.
- Papai, por que você não vem junto? Depois podemos ir ao cinema também - disse o filho mais velho, alegre.
Constrangido, ele tentou encontrar uma resposta satisfatória.
- Eu não acho que eu dev...
- Eu acho que é uma ótima ideia, Perkko - disse ela, olhando-o intensamente. Eles ficaram por um momento se olhando, como se ele lhe desse um tempo para se arrepender do que dissera, mas ela se manteve firme, olhando-o pacientemente. Antes que ele pudesse recusar, o que de fato já não ia fazer, ela acrescentou:
- Aliás, minha carteira de motorista está vencida, e os meninos estão muito longe de poder dirigir. Precisamos de você.
Mikael lhe sorria, sempre alegre com esse tipo de passeio. Ele concordou, finalmente sorrindo, e ficou feliz ao vê-la sorrir abertamente e corar com sua concordância. Enquanto desciam as escadas, Mikael dizia que queria "o mesmo que a mamãe", que significava que iria pegar um super McShake de morango, como ela sempre pegava. Permitiu-se observar sorrindo ela e Mikael conversando alegres, sem perceber Perkko ao seu lado.
- Papai, ela nunca vai nos deixar, não é mesmo? - perguntou, entre triste e sonhador. Esperou ouvir uma repreensão do pai por falar em tal assunto, mas ao invés disso ele sorriu.
- É claro que não, Perkko. Ela é sua tia, estará sempre conosco, espero eu - disse ele, sabendo que o filho havia entendido mais do que ele falara, como sempre. E apesar de saber que aquela tranquilidade não poderia durar mais do que algumas horas, ele permitiu que aquela paz tão desejada (e tão necessária) se instalasse não só nele, mas em todos os quatro. Fosse por quatro horas ou por quatro décadas, eles precisavam disso. Ela olhou para trás e, tímida, sorriu para ele, e antes que percebesse ele lhe retribuía em silêncio, porém com esperança. Infinitamente, com esperança.
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