sábado, 27 de outubro de 2012

Mikrokosmos XLIX


Batidas repetidas e fortes na janela a tiraram de seu devaneio. Num sobressalto, ela correu até a janela e a abriu, para ver o rosto que mais queria ver: aquele menininho dos olhos azuis que ela tanto gostava. A neve cobria todo lugar e o vento era ruidoso. Ficaram olhando-se apenas, por um momento, e então ele perguntou:
- Quer ajuda para pular?
- Mas você sabe que eu não posso...
- Não existe "não posso" enquanto você estiver tão triste - ele estendeu a mão. - Também estou triste, venha por mim.
A menininha subiu na janela e, tentando ser o mais silenciosa possível, subiu na janela e segurou a mão que ele lhe estendia para pular para fora. Os dois correram por um longo tempo, até estarem sem fôlego e longe de onde poderiam ser descobertos. As árvores estavam nuas, mas ainda eram melhores do que estar em casa. Depois de se recomporem um pouco, ele comentou:
- Nem acredito que farei 10 anos semana que vem.
- Eu acredito, você é velho - disse ela, sorrindo, enquanto ele dava um meio sorriso. - O que foi dessa vez?
- O mesmo de sempre, e você?
- Também, e um pouco de cansaço também. Você acha que vão sentir falta de nós?
- Espero que não - ele se sentou num toco de árvore por perto, e ficou em silêncio por um longo momento, olhando um ponto fixo. Ela tentava achar e colocar as luvas que ela sabia ter em algum bolso de seu casaco. 
- Nós deveríamos fugir de verdade, ao invés de fugir por algumas horas para a floresta. 
- Como se nós tivéssemos coragem o suficiente - resmungou ela, sentando-se ao lado dele, já vestindo as luvas. - Não faz diferença, eu acho.
- Não? - ele pareceu entre triste e surpreso. - Achei que você, acima de todos, pudesse entender...
- Entender o que?
- Que nós não pertencemos a esse mundo. Deve haver algum lugar onde sirvam bolos ingleses quentes e se possa dormir a noite toda, sem medo.
Ela permaneceu em silêncio, encarando os tênis azuis dele. 
- Nós iremos, algum dia, mas ainda não.
- Não?
Ela confirmou com a cabeça. Ele a encarou por um longo momento, os olhos tristes e, para surpresa de ambos, ela não se conteve e, pela primeira vez em sua vida, abraçou-o repentina e rapidamente e o soltou - mas ele segurou a sua mão até que ela estivesse segura em seu quarto outra vez.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Mikrokosmos XLVIII


Em silêncio, ele se aproximou dela e passou a também observar o bebê no berço. A barriguinha redonda subia e descia num sono tranquilo, e os cabelos loiros quase cobriam as sobrancelhas da mesma cor. 
- Você deveria descansar um pouco, mesmo se não conseguir dormir.
- Eu estou bem, obrigada - ela não se moveu, ainda observando o bebê. - Isso é a coisa mais absurda que já fizemos.
- O que? - perguntou ele, sobressaltado.
- Ela - sorrindo, ela indicou o bebê com a cabeça. - Acho que é a maior aventura que poderíamos escolher.
Ele respirou fundo. Agora, pelo menos, ela não parecia tão assustada mas... poderia ser? 
- Você tem noção de que isso mal começou?
- Sim, eu tenho. No entanto, também tenho a certeza de que é exatamente isso o que eu quero.
Ele procurou e segurou de leve a sua mão. Ela não segurou, mas também não se afastou, ainda com o olhar repousando sobre a menininha adormecida. As olheiras e o cabelo bagunçado já lhe pareciam naturais, mas havia um brilho de alegria, de persistência em seus olhos que ele desconhecia até então. Beijou-lhe os cabelos e, aos poucos, foi conduzindo-na para a cama, fazendo-a dormir feito criança em seus braços, enquanto o alívio da coragem preenchia-no, fazendo-o ter esperanças e adormecer também.