sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mikrokosmos XIV

     Quando o avião finalmente pousou ela desejou, profundamente, que aquele alívio fosse por algum temor de o avião cair ou algo parecido, mas infelizmente não era. Parecia que logo iria nevar, e com isso todas as coisas pareciam se acertar outra vez. Foi a primeira a desafivelar o cinto e saiu apressadamente do avião, querendo chegar o mais rápido possível à plataforma de desembarque.
     Passou por toda a burocracia rotineira e quando finalmente estava livre olhou ao seu redor, e por um milésimo de segundo entrou em pânico, da mesma forma como quando não via sua mãe na saída da escola - só que agora o problema não seria achar o caminho para casa sozinha, mas sim um caminho para continuar vivendo. Mas, talvez como um compensação pelas coisas horríveis que vira, foi só ela se virar um pouquinho mais e encontrou aqueles cabelos negros e crespos revoltos, aqueles olhos cinzentos de lobo brilhando, olhando-a cheios de expectativa. Não houve pensamento ou qualquer outro cálculo, ela simplesmente foi correndo até ele e nem se deu por conta do quão forte o abraçou, tampouco que lágrimas absurdas de alívio desciam-lhe pelas faces - talvez absurdas para os outros, mas não para ela. Não para eles.
     Depois de ficarem por muito tempo assim, ele segurou-lhe o rosto e simplesmente perguntou:
    - Foi tão terrível assim?
   Ela assentiu com a cabeça, mas era um gesto desnecessário. Ele sabia perfeitamente que ela vira tanta imundície, tanta hipocrisia e ilusão que até mesmo culpava-se por tê-la deixado viajar, mas ela precisava ir. O trabalho exigiu, e ele também tinha trabalho a fazer - mesmo assim, o alívio de estarem juntos outra vez era tão sinceramente profundo que eles passaram a trabalhar juntos, afinal, a ausência era insuportável não tanto pela ausência física em si, mas sim pela insegurança que ela gerava. Nessas horas eles desejavam ser como os outros casais, nos quais a distância gerava apenas ciúmes e um pouco de saudade, mas esse era um preço pequeno a se pagar pela relação que possuíam. O que atormentava-os era o pânico de que, ao se reencontrarem, alguma coisa ínfima, mas aos poucos significativa, houvesse mudado.
     Sabiam que mesmo estando juntos corriam esse risco, mas ao menos teriam aproveitado cada instante antes de amanhecer. Ele passou um braço sobre os ombros dela e, aliviados, foram para casa. E a neve de Helsinki, subitamente, era a coisa mais bonita do mundo inteiro.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Disintegration


e eu amo verde eu sempre amei verde e então seus olhos brilham assim tão nítidos tão límpidos tão seus tão dentro dos meus e eu só queria que fosse sempre assim eu queria agora eu queria sempre teus olhos meus olhos nós dois tão simples tão puro tão íntegro eu só precisava te ter por perto eu nem preciso que você me toque que me diga palavras bonitas você já me disse já me escreveu a poesia mais linda mas eu não preciso de beleza eu nunca te contei mas eu não preciso eu só preciso de você assim exatamente assim eu nunca me importei eu sempre soube da sua timidez da sua insegurança e não importa você sempre foi a exceção por você eu sempre estive disposta a abrir mão e sempre estarei porque sim porque só você tem esses olhos verdes e eu não sei mais eu não queria te precisar te adorar tanto assim eu não acho certo eu quero esquecer de tudo da minha existência das pessoas das coisas dos prédios dos oceanos das árvores das escolas das pracinhas dos parques das ruas das bibliotecas das minhas lembranças eu quero nem que seja por um momento fechar meus olhos me dissolver lenta e profundamente e não haverá música nem lembrança nem teus olhos verdes vai ser só escuro vazio vácuo e eu vou me permitir chorar me permitir desabar permitir existir e não pensar sobre isso eu vou existir eu vou ser não sendo apenas por um instante tudo isso que dói tanto que lateja mas que ama que precisa que quer tanto as coisas mais simples mais banais mas tão necessárias tão vitais tão importantes quando envolvem você e eu só vejo seus olhos eu nem estou de olhos fechados eu olho para essa tela onde surgem as palavras mas mesmo assim eu vejo teus olhos verdes olhando nos meus me enxergando lá no fundo e ao mesmo tempo tentando te mostrar me dizer alguma coisa que eu não sei enxergar porque não sei mesmo eu só sei me perder nos teus olhos eu me perco eu me desintegro e eu já não posso escrever mais porque preciso parar preciso tentar falar contigo preciso tentar te ouvir falar qualquer coisa qualquer oi sem emoção não importa eu sei que você vai demorar a responder e talvez responda de má vontade mas eu preciso eu quero eu tenho que saber uma resposta qualquer mesmo que ela me desmonte me desintegre me acabe de vez o abismo não é nada eu sei que no final eu sempre só tenho a mim mesma mas dessa vez não dessa vez eu tenho teus olhos verdes e não importa se você desistiu eu ainda vou ter sempre vou ter teus olhos verdes porque eles sim eles brilham eles são lindos são grandes e olham nos meus sem medo se entregam se abrem se integram aos meus e nem se importam se tem mais gente se os meus não querem eles vem e dominam não só meus olhos mas meu corpo minha cabeça e aos poucos minhas lembranças minha vida e eu sinto que preciso arriscar outra vez mas você não está não não está eu temia isso eu acho que eu já sabia eu não vou aguentar eu preciso parar um pouco respirar falar com alguém senão eu não sei mais --------------------------------------

sábado, 16 de abril de 2011

Mikrokosmos XIII

    - Ok, então vamos tentar pensar com clareza por um momento - sussurrou ele, puxando-a para si e em seguida limpando as próprias lágrimas com uma só mão. Deu um profundo suspiro e prosseguiu. - Nós correríamos tanto risco desistindo quanto persistindo, certo?
    Ela assentiu com a cabeça, olhando-o muito séria e apreensiva, e havia algo de adoravelmente infantil em sua expressão, aliás, na expressão de ambos. Pareciam crianças que subitamente haviam descoberto o valor do afeto.
    - Certo, certo... Então, é melhor arriscarmos pelo que pode trazer mais felicidade, mesmo que isso possa trazer mais dor, certo?
    Novamente ela assentiu em silêncio, e uma lágrima escorreu pelo rosto já manchado. Estavam tão aconchegados, tão abraçados um ao outro que era difícil distinguir onde começava um e terminava o outro. Mesmo que a única luz fosse a claridade da lua entrando pela janela, ambos podiam ver os olhos brilhantes e mais do que isso, subitamente viam muito mais do que quaisquer outras pessoas no mundo. Haviam encontrado um pássaro raríssimo, que talvez não fosse encontrado há, literalmente, séculos, por outros seres humanos. Eles respiravam mal, os corações martelavam dolorosamente, e um podia sentir o coração do outro acelerado. Apesar da profundidade do sexo, apesar das palavras e dos olhares trocados, isso parecia mais íntimo, parecia expô-los mais um ao outro do que qualquer outra coisa, e nenhum saberia explicar porque se sentiam assim. Ela não conseguia dizer nada, ele discursava, interrompendo-se o tempo todo.
    - Certo... Vamos arriscar então. Ok. Certo - ele suspirou, e logo ficou vermelho por ter suspirado. Aquela proximidade, aquela intensidade não era perigosa demais? E ao mesmo tempo, não era maravilhoso demais para ser verdade ter alguém tão perto e ser tão confortável, tão gostoso? Subitamente aquele quarto havia se transformado num lugar atemporal, aquela madrugada, aquela penumbra e os olhos, os medos, os futuros eram tudo que existia. Naquele exato instante, não haveria vida se não houvesse um futuro juntos, não era concebível que tivessem de viver um dia sem aquela imensidão que experimentavam juntos, aquele oceano onde só eles sabiam e podiam nadar e apreciar. Eles temiam fechar os olhos, fazer qualquer movimento, dizer qualquer coisa que quebrasse aquele encanto. Mas sabiam que, em algum momento, o sol subiria e talvez tudo desaparecesse - e eles não podiam, definitivamente não podiam deixar que isso acontecesse. Depois de um longo momento onde ambos não conseguiam sequer pensar, de tão assustados e maravilhados que estavam com tudo, ele começou:
    - Certo, nós precisamos nos acalmar - disse ele, sentindo-se ridículo. Por que ficava repetindo "Certo"? Por que se sentia tão nervoso? E por que ela não conseguia dizer sequer uma palavra, se sua mente era um turbilhão de medos e expectativas? Todos esses detalhes que talvez parecessem pequenos aos outros, eram de máxima importância para ambos, afinal, eles sabiam o quanto cada pequeno detalhe significa numa obra grandiosa. E ambos, com temor e profunda alegria, sentiam que havia algo realmente grandioso nascendo ali, naquela noite, que sempre fermentara e que finalmente iria transbordar infinitamente - mas tal ideia era tão estupenda que eles não conseguiam sequer se permitir formular este pensamento. Choravam, inseguros, assustados, quase como se estivessem diante de suas próprias vidas - e, de fato, estavam.
    Quando, depois do milésimo silêncio inquieto, eles sentiram que não aguentariam mais sequer um segundo, ele começou a falar:
    - Bem, por enquanto, nós não precisamos nos preocupar...
    Ela assentiu apressadamente com a cabeça, mordendo o lábio inferior. Com inesperada ternura, beijou-lhe o rosto e afundou-se no pescoço dele, sentindo sua vida pulsar sob seus lábios. Sentí-lo ali, tão verdadeiro e real era uma felicidade maior do que ela podia suportar, maior do que qualquer ser humano poderia. Era o tipo de beleza que dói, e ela sequer percebeu que estava chorando outra vez (o que ela consideraria ridículo sob quaisquer outras situações, mas naquele instante, isso era mais do que natural). Ninguém jamais entenderia o drama, a importância, a veracidade daquele momento entre eles - talvez nem eles próprios. Mas podiam sentir, e para isso não precisavam de palavras ou qualquer tipo de tradução.
    - Com o tempo, nós vamos casar... - começou ele outra vez, acariciando os cabelos dela. Sentir aqueles cabelos lisos e longos sob seus dedos, aqueles fios macios que escapavam por entre seus dedos era uma sensação inexplicavelmente maravilhosa. Era ela que estava ali. - Sim, e então, podemos ter um casamento élfico... Seus cabelos terão crescido ainda mais, e o vídeo de nosso casamento nos lembrará de "Born of Hope", só que nós estaremos ainda mais felizes do que Arathorn e Gilraen, pois nós esperamos por isso a vida inteira. Haverão brilhantes em seus cabelos e tocarão músicas folk, que dançaremos todos juntos e usaremos roupas adequadas a um casamento élfico, e nossas alianças...
    - Terão nossos nomes gravados em élfico, obviamente...
    Ele se surpreendeu. A voz dela não passava de um sussurro, mas podia-se sentir a certeza de quem sabe o que quer e porque quer, a firmeza de quem tem a mais absoluta certeza de que vai realizar o que está dizendo. Ela não disse mais nada, mas o simples tom de sua voz deu-lhe coragem para seguir em frente, para acreditar que tudo aquilo era verdadeiro, por mais que eles sempre se sentissem como num sonho que pode acabar a qualquer instante.
    - Acredito que teremos apenas um filho, e apesar de que iremos mimá-lo muito, também iremos ensiná-lo a ter valores sólidos e profundos, e acredito que criaremos uma espécie de paraíso para sua infância e...
    Agora havia uma calma, uma certeza límpida e profunda que fez com que ele continuasse planejando até que sua voz ficasse ainda mais rouca do que o natural e o dia amanhecesse, trazendo-lhes o sono ao qual eles se entregaram sem resistência. Ela não precisou concordar com palavras, ele sabia que ela também falava através de suas próprias palavras. Dormiram profundamente um sono sem sonhos - e sem se soltarem sequer um milímetro.

Sinta-se mal

    É incrível como o capitalismo se importa conosco. O tempo todo vemos propagandas com frases como "Sinta-se bem", "Fique linda e poderosa" e coisas desse gênero. 95% ou até uma parte maior da população acredita nisso. Mas não fazem a mínima ideia do quanto estão perdendo ao fugirem de toda e qualquer dor.
   Ninguém, deliberadamente, a princípio, quer sofrer. Além de ser amado, o ser humano sempre busca pela felicidade (o que, para alguns, é sinônimo de ser amado). O valor da felicidade não pode ser desmerecido, mas existem muitos tipos de felicidade e muitas formas de obtê-la, e aí é que reside a diferença entre aqueles que crescem como seres humanos ou os que permanecem numa eterna ignorância de tudo que realmente importa.
   É extremamente fácil sentir-se bem com a aparência, ou com a conquista de alguma pessoa que queríamos. É algo praticamente instantâneo: consegue-se algo efêmero e a felicidade vem, como num passe de mágica - o problema é que a maioria das pessoas não avalia o valor dessa felicidade pequena e acaba se contentando sempre com esse tipo de coisa, como um carro novo, uma refeição saborosa ou algum produto qualquer comprado, nunca param para se perguntar qual o real valor de colocar uma roupa que acham bonita, ou o quanto vai fazer diferença efetiva em sua vida usar uma determinada marca de creme dental, por exemplo, ou qualquer outra.
   Todos sabem que existe muito mais, que a dor e a felicidade podem ser muito mais profundas do que essas inutilidades cotidianas, mas ninguém se permite pensar nisso, nas imensas possibilidades que temos diante de nossos olhos. E por isso temos um mundo tão sem graça e vulgar.
Por mais que seja difícil, muitas vezes vivendo com dor é que se cresce. Através dela buscamos algo mais, pois ela não nos deixa simplesmente descansar e/ou ignorar o que realmente acontece, ou o real significado de nossas vidas. Através da dor buscamos o significado de nossas vidas, criamos o significado delas e vamos muito além do banal, das limitações do senso comum.
   Se nos sentíssemos bem o tempo todo, jamais buscaríamos ir além e evoluir, e a humanidade estaria estagnada, pois, apesar de a maioria não buscar nada além de uma forma agradável de passar seus dias, ainda existem algumas almas inquietas que buscam algo de verdadeiro e eterno, e são elas que movem o mundo e lhe dão a beleza e a magia que ainda resta nele.
   O caminho para o crescimento e a criação é a inquietude - então, se quer ser algo grande, sinta-se mal. Sinta-se mal profundamente, e busque a verdadeira cura para o seu mal. E a partir daí uma nova era começa para você.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Mikrokosmos XII

    - E então, imagine só, imagine só: vinte minutos absolutamente épicos de metal sinfônico enquanto na tela os vocalista do coral subitamente...
    Ele gesticulava enquanto falava, os olhos cinzentos brilhando num fulgor raro e realmente belo. Havia chegado em casa extremamente falante. Ela não se lembrava de tê-lo visto tão empolgado assim com um projeto antes, e ficava feliz por estar ali naquele instante. Era encantador vê-lo assim: seus olhos brilhavam, toda a sua timidez sumia e ele falava pelos cotovelos, com um meio sorriso sempre a brincar nos lábios, alegre como uma criança, os cabelos presos de qualquer jeito, as roupas atiradas pelo quarto e o cigarro praticamente esquecido entre os dedos. Era um daqueles momentos onde ela simplesmente não conseguia se concentrar em absolutamente nada do que ele estava falando de tão encantada que estava por ele. Era difícil acreditar que aquilo era real. Era difícil acreditar que ele era real. Mas ali estava ele, outra vez deitado ao seu lado, olhando-a sorrindo, seus olhos reluzindo na penumbra do quarto - e ali já não era noite, porque sua felicidade clareava tudo, tinha o poder de penetrá-la e fazer com que ela soubesse que estava exatamente onde e com quem deveria estar. Lembrou-se, subitamente, de uma das primeiras noites que passaram juntos, quando ainda era novidade que ambos eram essencialmente ligados, unidos, refletidos. Havia uma excitação parecida, mas era mais intensa, afinal, era de ambos e havia um profundo medo misturado com toda a felicidade de finalmente estarem juntos. Então, naquele estado de excitação, felicidade, medo e perplexidade, eles passaram uma noite inteira acordados, abraçados, apenas planejando o futuro, tentando se acalmar. Era uma lembrança que ambos gostavam de "ter sempre à mão", era o tipo de coisa que só eles poderiam fazer e dava-lhes força nos momentos mais inesperados.
   - O mais interessante é que, mesmo que eu esteja envolvido até o pescoço com esse projeto, é você que está sorrindo ainda mais feliz do que eu - disse ele, acariciando-lhe o rosto. - Saiba que eu sempre acreditei que o amor se defina pela teoria da felicidade compartilhada.
    -Eu também - sussurrou ela, entregando-se completamente ao que pulsava em ambos naquele momento. Ela não precisava lutar consigo mesma para ficar. Não mais.

Os Lobos

...estão espalhados pelo mundo. Geralmente, mesmo sem tentar disfarçar, não somos identificados, apenas sabem que somos diferentes dos demais. É estranho, mas os humanos nos tratam como se nós fôssemos da mesma espécie que eles, mais do que isso, desejam nos tornar parte deles. Mas isso é absolutamente impossível.
       Nós, lobos, somos completamente normais, não importa o que as pessoas digam por aí. Um pouco de solidão, um cigarro, um bom heavy metal e algumas teorias supostamente absurdas não fazem mal a ninguém, e sim, é disso que precisamos. O espaço de um lobo jamais deve ser invadido e desrespeitado - os humanos geralmente tendem a reclamar das consequências disso, mas quem não sabe que não se brinca com esses seres? Aliás, as consequências são mínimas, perto do que realmente deveriam ser. Os lobos andam adestrados, extremamente pacíficos e gentis. Mas ninguém deveria abusar disso. Não somos regidos por fases da lua, mas sim pelas reviravoltas de nossos próprios oceanos - onde ninguém jamais pode ver, mesmo entre os próprios lobos (ou pelo menos não totalmente). Somos obrigados a viver com humanos que são inúmeras vezes mais cruéis do que nós, mas que nos condenam por não sermos como eles. Mas tudo bem. Podemos fingir um perfeito adestramento quando isso nos é salutar.
       Outra coisa engraçada é que existem seres humanos querendo se transfomar em lobos. Sim, porque até mesmo os tão criticados e marginalizados lobos possuem seus fãs, e isso é inexplicavelmente hilário - só alguém que não faça a mínima ideia da verdadeira condição do lobo pode querer ser igual a ele. Mesmo assim, no fundo os lobos amam sua condição, suas especialidades, tanto que se recusam a se tornar humanos. E ninguém sabe, até hoje, se essa é a melhor ou a pior escolha.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inquietude

Somos facilmente conduzidos por aquilo que, primariamente, consideramos "bom". Seja na moral ou na estética, tendemos a seguir sempre os mesmo padrões já conhecidos e considerados seguros por nós. Mas será mesmo que isso basta?
A Filosofia deveria ser a melhor amiga do homem. É através dela que podemos construir coisas maravilhosas e encontrar a melhor forma de agir e ser, sempre. Muitas pessoas usaram a Filosofia, de fato, como guia. Questionaram-se, mudaram, evoluíram - mas a partir daí, estagnaram, o que é natural, visto que quando algo está dando certo, dificilmente mudamos. Mas para o verdadeiro crescimento como ser humano não basta encontrar uma maneira e/ou uma razão para lutar e vencer os seus dias. É necessário aprender a construir e desconstruir, criar, mudar, investir, fazer reparos - afinal, vida é movimento e transformação, e só através de ambos chegaremos à evolução.
Questionar-se, cutucar a ferida, desestruturar, tudo isso pode parecer loucura, mas é o mais certo a se fazer. É claro que quando nos questionamos estamos arriscando não só nossa felicidade, mas também o valor de nossas conquistas até então e muitas outras coisas, mas de que adianta ter uma vida grandiosa e feliz aos olhos dos outros, e talvez até mesmo aos nossos próprios olhos, se ela não foi construída sobre princípios sólidos e verdadeiros, e gerou apenas frutos de utilidade duvidosa? Muitas vezes somos cegados por supostas verdades que são tomadas por certas simplesmente por serem uma tradição e/ou por nos terem sido ensinadas desde o princípio - e mesmo quando nos questionamos sobre isso, podemos chegar a conclusões errôneas. Por isso, é extremamente importante o nosso eterno diálogo mental com Sócrates, afinal, é muito fácil acomodar-se simplesmente porque se é mais evoluído do que a maioria, porém temos que ter em mente que não é porque estamos num patamar elevado que não podemos evoluir ainda mais.
Felizmente, somos ilimitados, e quanto mais se exercita, mais nossa mente se desenvolve.
Sempre é tempo para começar uma nova forma de ver e viver a vida. Pense, questione, faça. Somos muito mais do que a nossa reles imaginação e nossas parcas esperanças podem jamais sonhar. "It's up to you, look for the wisdom"; tenhamos sempre esse verso em mente e podemos mudar talvez não o mundo inteiro, mas pelo menos o nosso próprio mundo, o que já é um grande avanço.

sábado, 9 de abril de 2011

Mikrokosmos XI

     Ouvindo um barulho por perto ela se virou e ao vê-lo seu rosto se iluminou num largo sorriso, raro em seu comportamento, mas tão sincero que fez com que ele se comovesse. Seus longos cabelos moviam-se graciosamente, como se os fios lisos brincassem com a neve ao seu redor. Mais do que nunca ela se parecia com uma versão feliz daquela menininha das fotos que ele vira. Ela pareceu hesitar, olhando-o com amor e receio, como se quisesse se desculpar pela longa ausência. Ele permaneceu sério por um instante; ainda não era capaz de simplesmente ignorar a dor, mas havia aprendido, arduamente, a lidar com ela. Sorriu-lhe com simplicidade e amor, estendendo-lhe a mão de longos dedos brancos e belos. Os olhos negros faiscaram, felizes, e ela usou a mão que ele lhe estendia apenas como uma ponte para se aproximar dele e beijar-lhe os lábios com uma intensidade até então desconhecida. Pôde ver, um milésimo de segundo antes de ser beijado, o arrependimento em seus olhos profundos. 
    Não importava o quão longe ela fosse, haveria de logo estar ali em seus braços outra vez, era quase uma lei da natureza. Abraçou-a fortemente contra si, tinha orgulho de dizer-se marido dela, mas guardava isso, exatamente como ela fazia em relação a ele. Havia uma felicidade celestial e infantil nos olhos dela.
    - Você não precisa ir embora - sussurrou ele, penetrando-a com seus olhos cinzentos e inesperadamente calorosos, faiscantes. Ela fitou-o apreensiva, como se dissesse "Será mesmo?". Ele aproximou seu rosto do dela, abraçando-a, e eles ficaram "respirando juntos", como adoravam: simplesmente ficavam de olhos fechados, no mais absoluto silêncio, com os narizes gelados encostados, sentindo a neve, suas respectivas pulsações, o vento, a vida. E um dia, a simples lembrança desse hábito faria com que ela ficasse. Mas não agora. Por enquanto...Por enquanto os flocos de neve ajudavam o amortecimento, até o dia em que ela sussurraria "Muruseni" e ele sequer precisaria responder "Mitä?", porque de antemão ambos já saberiam que o momento havia chegado. Se que é um dia iria chegar.