Ao entardecer, como de costume, ele pegou o livro que estava lendo (mais uma vez, Leaves of Grass), uma xícara bem quente de café, seu maço de cigarros e foi ler na beira do lago, no seu banco de madeira simples e, entretanto, seu favorito. Caminhava calmamente até o lago, quando percebeu que alguém já estava sentado no banco. Parou por um instante, não tinha certeza se deveria ou não se aproximar. Às vezes as pessoas também podem fugir assustadas por culpa de movimentos bruscos, impensados. Devagar, foi se aproximando, deixando-se notar pelo leve rangido das tábuas por onde pisava. Depois de um momento, ela se virou, sobressaltada, mas então seu susto passou ao reconhecê-lo, mesmo que estranhamente não houvesse sorrido.
- Não esperava te encontrar aqui - disse ele, baixinho, sentando-se ao lado dela.
- Eu precisava vir - ela respondeu, encarando o chão. - Já era tempo, não concorda
Ele foi surpreendido pela pergunta. Tantas coisas inesperadas haviam acontecido que ele já não guardava muitas certezas, e sua capacidade de julgar lhe parecia duvidosa. Começou a tentar refletir sobre o assunto, mas foi interrompido por ela:
- Nós fizemos inúmeras coisas no ano passado. Arriscamo-nos feito loucos, tentamos coisas novas, e fomos felizes, mesmo com todo o temor, com toda a saudade de casa. Nós tentamos, e conseguimos. Foi bastante bonito, mas acho que agora chegou a merecida hora de voltarmos para casa.
Ele ficou pensativo, surpreendido por tudo que ouvira. Ainda não havia tido tempo para pensar em tudo que havia acontecido e, de fato, as coisas postas dessa forma faziam sentido. Mas seria mesmo esse o tempo de voltar para casa? Não seria cedo ou tarde demais? As decisões que outrora surgiam tão certeiras agora eram frágeis e oscilantes. Tinha medo de expressar suas dúvidas e magoá-la, mas ao mesmo tempo realmente não sabia o que fazer. Tentou pensar na melhor forma de dizer o que sentia sem passar ideias errôneas, que poderiam machucá-la, mas o melhor que conseguiu dizer foi isso:
- Será mesmo que já é tempo? Talvez ainda tenhamos coisas por fazer.
Ela não pareceu surpresa pela hesitação dele, mas olhou-o tristemente. Parecia muito cansada, até mesmo um pouco pálida demais. Ela era capaz de reconhecer as boas intenções por trás da dúvida dele, porém sabia que eram desnecessárias.
- Nós já fizemos o suficiente, pelo menos por enquanto. Existe um limite de coisas que se pode atingir e depois simplesmente temos de descansar, antes de começar de novo. Mas é necessário descansar, é indispensável. Achei que à essa altura você já soubesse disso - mas logo ela entendeu que ele não relutava em descansar, mas sim descansar nesse momento. E então, de repente, as incertezas dele ficaram claras, e ela tomou sua mão nas dela. Ele a olhou, surpreendido e inesperadamente alegre pelo gesto.
- Nosso tempo chegou sim, muruseni. É difícil de acreditar, porque foi difícil, assustador e gratificante estarmos longe, tentando coisas novas, arriscando tudo o que deveríamos, mas agora realmente basta. Nós precisamos ir para casa - e seus olhos subitamente cintilaram. Ela se levantou, ajeitou a pesada maleta que estava do seu lado do banco e lhe estendeu a mão.
- Vamos?
Ele hesitou por um momento. Ao mesmo tempo que queria aproveitar um pouco mais o período produtivo que haviam passado, não via a hora de realmente voltar para casa, havia contado os segundos para esse momento. Respirou fundo e, num gesto firme, segurou a mão que ela lhe estendia, perguntando:
- Todos os seus livros estão aí?
Ela assentiu sorrindo, já com lágrimas correndo pelo rosto, e os dois se abraçaram forte para quase sufocar, ela finalmente se deixando chorar tudo. Parecia murmurar "casa" às vezes, e ele acariciava seus cabelos que, por Deus, ele quase havia esquecido o quanto eram cheirosos. Também quase se esquecera como seu corpo era pequeno, delicado contra o dele. Depois de um longo momento, ela se afastou, limpou as lágrimas sorrindo e perguntou:
- Podemos acampar de novo esse ano? Foi produtivo e divertido da última vez...
- Produtivo? Fale por você...
Os dois riram, emocionados; ele pegou a mala pesada com livros e eles foram caminhando devagar, conversando e olhando as árvores. De volta e, de preferência, para ficar.