domingo, 30 de janeiro de 2011

Comigo

Olhando aqueles tão adorados olhos castanhos, ela sorria, observando pela milésima vez os longos cabelos lisos iguais aos dela, o sorriso tranquilo dele, os traços finos, todo e cada pequeno detalhe que compunha aquele ser que lhe trazia algo de inexplicável e necessário - algo que ela sequer sabia precisar, até então. Não sabia ao certo se lhe pertencia por completo ou nem um pouco, mas provavelmente por serem tão libertos um do outro é que se amavam tanto.
Aquela paz, aquela imensidão, tudo até então havia sido apenas uma utopia, mas eis que eles estavam deitados naqueles campos sem nenhum resquício de mundanidade. Não precisavam mover os lábios para sorrir, os dois pares de olhos castanhos brilhavam e se expressavam por conta própria e, como sempre, no silêncio o gesto mais frágil dizia tudo que ficaria eternamente calado de outra forma.
Um dia, talvez nunca, ela gostaria de lhe contar o que fazia com que ela o amasse ainda mais, algo que talvez sequer fazia sentido. De qualquer forma, aquela serenidade, aquela alegria simples e honesta jamais seria possível sem ele, pois fora ele quem lhe mostrara que nenhuma de suas mágoas fazia sentido: o amor estava e sempre esteve nela própria, e não importava o quanto ela tentasse desviá-lo para outra pessoa, ela o continha por inteiro, e jamais precisaria de uma única pessoa para alojá-lo - ele podia assumir toda forma e toda luz que ela quisesse. Ela escolheu a luz dos olhos dele, e no silêncio eles fumavam de mãos dadas, porque era só isso que importava.

sábado, 29 de janeiro de 2011

...


"E agora que estou aqui, despida diante de sua alma, percebo que as coisas já não possuem dimensões ou sentidos previamente determinados, tudo pode ser mudado por uma simples inspiração. Entre nossos olhos não existem limites e me perco em sua vastidão cinzenta e brilhante; eis que adentro seus oceanos sem sequer perceber, assim como nossas águas se chocam e misturam-se naturalmente. Mal ouso respirar, sei que qualquer movimento em falso pode ser um erro ou o maior acerto que poderíamos cometer, de qualquer forma, cada inspiração é fatal.
É estranho e belo existirmos assim, mesmo que seja apenas por esses raros momentos em nossas vidas – quem sabe se essa não será a única vez? E é justamente nessa possibilidade que reside toda a beleza e a intensidade de estarmos assim, tão desarmadamente expostos um ao outro.
De alguma forma, encontramo-nos no escuro através de um jogo de palavras, e agora nossos olhos confirmam isso tudo, como uma jura secreta nessa penumbra intransponível. Por um momento, decorei cada feição, cada traço teu, mas agora que me perdi em teus olhos já não posso desviar ou recuar. Em algum momento, algo partiu-se, rompeu-se irrecuperavelmente e, ainda bem, não tivemos nem tempo de perceber o que estava acontencendo, pois a falta de dimensões é assustadora e gigantesca. Teus olhos, tua alma se aproxima de súbito, tua respiração densa – teus lábios. E nada mais existe."

Mikrokosmos VI

    - "Entre nossos olhos não existem limites e me perco em sua vastidão cinzenta e brilhante; eis que adentro seus oceanos sem sequer perceber, assim como nossas águas se chocam e misturam-se naturalmente" - leu ele, com um brilho apaixonado no olhar, absolutamente sério. Olhou-a, largando o livro sobre a cama e segurando seu rosto com delicadeza. Sussurrou, quase que apenas movendo os lábios:
    - Foi esse trecho que me fez ter a mais absoluta certeza.
    Ela sorriu entre lágrimas, e seus olhos escuros cintilavam, enquanto aproximava-se dele, enquanto outra vez perdia-se em seus vastos oceanos e mundos. No silêncio daquele quarto nada existia, o universo delimitava-se pelas curvas dos corpos que sentiam cada milímetro de pele, pelos suaves sons e intensos olhares que partiam madrugadas e dias inteiros. Havia um mundo inteiro ali, que apenas eles conheciam e adentravam, e pertencia-lhes verdadeiramente, quase como se houvessem sido destinados ao que viviam. Os cabelos dela, quase ruivos, misturavam-se aos longos cabelos negros dele, tão longos o quanto os dela, as respirações, as bocas, tudo confundia-se e fundia-se de alguma forma. Todo o sentimento se intensificava e se expandia nas milhares de estrelas criadas por eles próprios. E isso era uma das poucas coisas que eles jamais perderiam. Permaneceriam encantados, um ao lado do outro, até que os dias se acabassem e a vida tentasse inutilmente continuar.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Arte (?) Obrigatória

    O grafite supostamente pode ser considerado arte moderna, mas antes de classificarmos o grafite como arte moderna temos de ter classificado ele como arte, o que me parece, no mínimo, um tanto o quanto duvidoso.
    Se formos à uma exposição de arte encontraremos quadros belos e outros talvez nem tanto, esculturas, enfim, mútilplas formas onde o artista se expressa. Mas para vê-las, precisamos ir até lá, ou seja, o interesse pela arte tem de ser fruto da nossa própria vontade. Infelizmente, com o grafite (e aqui estou definitivamente me referindo ao grafite, sem confundí-lo com pichação) não há esse respeito pelo nosso interesse ou falta deste em vê-lo. Ele está tomando conta das cidades, na maioria das vezes poluindo-as ainda mais visualmente e por vezes inclusive aparecendo em lugares extremamente pobres e desagradáveis, para piorar ainda mais o clima do local.
    Assim como a arte gótica (que, ao contrário do grafite, é extremamente bem produzida e embeleza todo o local que a possue) não invade cidades pelo mundo todo, tentando "enfiar goela abaixo" que é uma expressão artística maravilhosa, assim também deveria ser com o grafite antes de se auto-intitular como arte. Pois independentemente do estilo, a arte sempre respeitou a opinião das pessoas, sendo exposta de forma que apenas as pessoas que possuem interesse por aquele determinado estilo tenham contato com ela, não se proliferando como uma praga por todo o lugar e dessa forma obrigando as pessoas a ter contato com ela mesmo que isso possa ser até mesmo opressivo ao senso artístico de algumas pessoas.
    Apesar de todas as críticas, reconheço que o grafite, assim como toda e qualquer forma de arte, possui o seu valor e certamente também possui muitos admiradores, assim como sua realização deve exigir talento como qualquer outra expressão artística. O caso é que, não importa em que tempo ou local, as outras expressões artísticas não invadem o público em geral, e é isso que não pode ser permitido, nem ao grafite nem a qualquer outra forma de arte. O gosto e as tendências pessoais do público sempre devem ser respeitadas, e, se uma forma artística quer receber seu devido respeito e valor, deve respeitar essa básica porém inexorável regra. O respeito é uma forma artística indubitavelmente maravilhosa - e rara.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mikrokosmos V

    Fazia tempo que não ventava daquela forma, mas aquela noite parecia estar especialmente agitada, e ele simplesmente não conseguia se concentrar em absolutamente nada. O mar só poderia estar extremamente agitado também, e ele resolveu ir vê-lo, até porque, há dias não fazia isso, por falta de tempo.
    Apenas o fato de ter tomado essa decisão e estar caminhando em direção ao mar já tranquilizava-o. Havia tido dias difíceis, mas já fazia algum tempo que sabia lidar com isso. Ao menos, a praia estava relativamente clara, e o vento era frio. Como ele supunha, o mar estava revolto. Deixou para parar e observá-lo quando houvesse chegado à sua pedra favorita, o seu lugar naquela praia geralmente deserta, mas não naquela noite. Com um sobressalto, ele viu, não muito distante, uma pessoa na água. Uma mulher, com os longos cabelos voando com o violento vento - e mesmo assim ela estava dentro do mar, onde a água batia acima de sua cintura. Era difícil saber se ela estava ali por dor ou alegria, o barulho do mar e do vento, unidos ao fato de ela estar de costas, não ajudavam-lhe nem um pouco a saber sobre seu estado.
    De qualquer forma, ela correria perigo, se já não estava correndo, ficando dentro do oceano numa noite como aquela. Ele entrou na água, que estava fria e agitada com mais força do que parecia, tentando alcançá-la, tendo como único guia o vislumbre de seus longos cabelos voando e o reflexo de seu vestido claro. Quando se aproximou o suficiente, apesar dos barulhos incessantes da natureza, ele pôde ouvir claramente o seu choro. Tentou avançar mais rapidamente e, sem se preocupar se assustaria-a ou não, ele pegou em seu braço, fazendo-a olhar para ele. Subitamente, estava diante dos mais belos olhos castanhos que já tinha visto - e que sonhara, debilmente, em reencontrar algum dia. Mal podia acreditar que ela estava ali, mas não haviam dúvidas: eram os mesmos traços finos, o mesmo rosto redondo, os lábios perfeitamente desenhados, o mesmo olhar. Ela própia não parecia estar acreditando no que via.     Olhava-o entre espantada e maravilhada, estupefata. Na verdade, aquele estranho encontro parecia a ambos um fruto de mais um de seus frequentes e fantasiosos devaneios. Sem se importarem com a veracidade do que acontecia, abraçaram-se sem sequer sair do agitado oceano, reflexo deles. Abraçaram-se fortemente, não tímida ou educadamente como haviam feito todas as outras vezes em que se encontraram. Depois de passarem muito tempo assim, finalmente olharam-se nos olhos. E as coisas mudaram.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Mikrokosmos IV

   Um belíssimo vestido jazia estendido sobre a cama. Era de seda vermelha, com um decote generoso, longo, belíssimo. Ela o olhava, profundamente perdida em seus devaneios, fumando vagarosa e profundamente. Havia tristeza e algo como saudade e remorso em seus brilhantes olhos escuros. Inúmeras memórias restavam-lhe daquele vestido, aquelas noites maravilhosas, impudicas, embriagadas, imensamente prazerosas. Lembrava-se da força, da paixão e do ódio daquele homem ruivo, terrivelmente maravilhoso e fascinante, que ela temia e adorava apaixonadamente. De fato, amara-o, e por quase quinze anos acreditara que passaria sua vida inteira ao seu lado. Mas então sua vida mudara.
    Mesmo que soubesse que a vida de antes era errada, fútil, passional, quase bestial, ela sentia falta daqueles dias. Aquele homem tempestuoso e apaixonante que a possuía de uma forma inexplicável era simplesmente insubstituível. Suas fúrias e suas paixões súbitas por ela, seus olhos cinzentos quando furioso, azuis quando tranquilo, seu sorriso incrivelmente amoroso quando ela vestia vermelho - sim, porque ele adorava quando ela usava vermelho, fosse um batom, um sapato, ou até mesmo as unhas. Com um profundo suspiro, ela olhou para aquele vestido que ela comprara para o 46º aniversário dele. Lembrava-se do quão feliz ele ficara com isso, o quanto amava-a, na verdade. E da dor dele ao dizer que estava abandonando-o.
    Ele entrou no quarto e a viu perdida em si mesma e, mesmo sabendo que ela estava pensando sobre seu ex-marido, tomou-a em seus braços e confortou-a. O passado não poderia ser apagado, mas ele tinha seu presente e seu futuro. E acreditava profundamente nisso, precisava acreditar.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Goodnight

Depois de beber outro longo gole, ela o olhou sorrindo. Ele jamais conseguiria imaginá-la dessa forma cinco anos antes, mas ali estava ela, bebendo e fumando com ele, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo - e mesmo, aparentemente, tendo se afastado da imagem de menina perfeita que ela possuíra anteriormente, ainda parecia ser a menina perfeita para fazer planos, ainda a menina que poderia fazê-lo cometer crimes, se quisesse - e que mesmo assim jamais pediria coisa alguma. Com uma certa acidez na voz, ela comentou:
- Eu adoraria ver o que a sua namorada diria se soubesse que você está aqui comigo...
- Você enlouqueceu? Não sobraria nem registro da minha existência! - ambos riram, mas já sem tanta naturalidade. O ponto delicado havia sido tocado. Como que tentando se desculpar, ele prosseguiu:
- Eu sinto profundamente a sua falta, dos dias que passávamos juntos conversando por horas, as cidades que conhecemos nas nossas viagens, o seu cheiro... Você faz muita falta.
Ela suspirou, com um ar levemente magoado mas subitamente endurecido. Olhando-o friamente nos olhos, disse:
- Não, você não sente. Ou sente mas é covarde demais para não ter de sentir mais a minha falta.
- É, admito que há um pouco de covardia...
- Um pouco? - ela deu um riso amargurado, que o magoou muito mais do que qualquer outra ofensa que ela pudesse proferir. - Você ficou rastejando por mim e nunca se contentou que eu te amasse profundamente, mas apenas como amigo, e fingia conseguir ser apenas meu amigo para manter-me por perto. Mas foi só alguém dizer que casaria com você e assumiria-o para todo mundo que, apesar de não ter me esquecido, você deixou de ser meu amigo e...
- Eu te esqueci!
- Ora, não me venha com pretensões ridículas! Eu conheço você e sei o suficiente sobre relações de substituição para dizer que elas não funcionam, nunca totalmente. De qualquer forma, você deixou de estar ao meu lado quando eu mais precisei de você, e me procurava quando a sua namorada não estava por perto, porque sentia a minha falta e ainda me amava, e ela ficava histérica por saber disso e proibia-lhe de chegar perto de mim. Então eu estava desabando e você não estava lá, mesmo que você tenha dito que estaria sempre ao meu lado. Eu sempre acreditei em você, sabe? E você realmente era o meu melhor amigo, eu juro que era. Mas agora eu sei que você só esteve ao meu lado enquanto acreditava alucinadamente que havia esperança comigo, e foi só você se dar por conta de que nada nunca iria acontecer, que você foi correndo para quem poderia fazer com que você se sentisse desejado e...
- Eu admito, eu te amei, eu te amo - disse ele exasperado, olhando-a gravemente e tentando segurar suas mãos, mas ela se soltou bruscamente, olhando para outro lado. Ele sabia que quando ela afastava o olhar estava realmente brava e/ou magoada, e isso não era o que ele tinha em mente, nem naquela noite nem em qualquer outro momento. Olhando seus cabelos longos, sua boca desenhada, sua pele clara, ele ainda sentia o mesmo desejo, a mesma sensação intensa e multiforme que ele chamava de amor, mesmo sem saber se era isso mesmo - e julgando pelas suas ações, realmente não parecia. Ele estava subitamente sem palavras, ela havia dito apenas verdades que ele ignorara durante todo aquele tempo. Verdades nuas, nojentas, penetrantes. Ele sabia perfeitamente bem que jamais veria outra vez os lindos olhos castanhos dela brilharem de felicidade ao vê-lo. Há muito tempo havia uma mágoa profunda neles. E de fato, ela havia estado perdida, ela sofrera, e ele nunca estivera lá, simplesmente por medo de perder a namorada que ele tanto não amava.
- E se eu tivesse te esperado? E se eu não tivesse te abandonado, sua resposta ainda seria a mesma?
- Que diferença faz isso agora? - perguntou ela, olhando-o tristemente. - De qualquer forma, você está agindo outra vez como sempre agiu, apenas tentando dar o melhor de si para ter uma chance que seja de me mostrar como troféu a todos. Isso é tão nojento que... Por Merlin, eu não posso suportar mais isso - disse ela, levantando-se e pegando sua bolsa, com os olhos marejados. Ele se levantou e foi atrás dela, segurando-a pelo braço. Ela se virou e olhou em seus olhos com impaciência.
- Eu queria ter estado ao seu lado, eu nunca quis te magoar, você é a minha pequena, ainda. Mas eu precisava de alguém ao meu lado...
- Alguém que é tão pobre de espírito que sequer podia permitir que fôssemos amigos?
- Bem, ela era a única...
- Que lhe queria? - ela balançou a cabeça negativamente, com decepção e nojo claramente inundando seu belo rosto. - Ainda bem que eu não preciso mais de você.
Ela se desvencilhou bruscamente dele e saiu com passos firmes e duros para a rua. Ele ficou no meio do bar, paralisado, olhando-a ir embora. Sentia-se imundo, um verme, ou algo abaixo disso. Havia magoado a pessoa mais fantástica que já havia conhecido simplesmente pela sua nojenta necessidade de se sentir desejado, de poder mostrar aos outros que era capaz de grandes conquistas. Mas ela estava certa: agora nada mais fazia diferença e, resignando-se à sua desprezível realidade, ele voltou para casa, onde sua namorada estava dormindo tranquilamente - onde ele continuaria sonhando com o brilho daqueles olhos castanhos que sempre o atormentariam.

This Low

Depois de apagar seu cigarro, ela ficou olhando pela janela da cafeteria o Tâmisa que aparecia ao longe e ainda era incrivelmente familiar, ainda trazia-lhe aquela incomparável sensação de estar, de fato, em casa. Ela suspirou, com um sorriso - não deveria jamais abandonar aquele lugar, era masoquismo. Mas ela sempre o fazia.
- Este lugar está ocupado, moça?
Ela mal pôde acreditar quando ouviu aquela familiar e maravilhosa voz rouca falando naquele sotaque adorável de Dublin. Ela levantou-se e, sem se importar em estarem em uma cafeteria, ela correu a abraçá-lo fortemente, sem educação mesmo, profundamente íntima. Que importava, afinal, a cara de espanto das pessoas que ali estavam? Não era indecência alguma abraçar um amigo maravilhoso como ele. Eles olharam-se sorrindo, ainda abraçados, e ela acariciou-lhe os cabelos ruivos e crespos, bagunçando-os e fazendo com que ele risse, aquela risada rouca que lembrava um cachorro, o que sempre, estranhamente, fazia com que ela também risse. Recompondo-se, ambos sentaram-se à mesa e pediram café. 
- Que milagre traz você aqui outra vez? Posso ter esperanças de que tenha voltado definitivamente?
- Definitivamente não, mas...Eu estou por aqui, você sabe. Então...Eu suponho que eu possa ficar por um mês ou dez anos.
Olharam-se sorrindo outra vez, mas agora observando as diferenças. Ambos não haviam envelhecido - nem havia como, só haviam passado cinco anos longe -, ainda usavam o mesmo tipo de roupa, o mesmo corte de cabelo, tipicamente constantes britânicos. Ela ainda tinha os cabelos longos e lisos, arruivados como sempre, e soltos. Ainda gostava de suéteres cinza e/ou verdes, ainda parecia dormir mal e comer bastante - e ainda lia febrilmente, afinal, havia um grosso livro sobre a mesa, num idioma que ele desconhecia, mas que parecia escandinavo. Ele também continuava com a mania dos suéteres cinzentos, os cabelos ruivos em desalinho, a barba por fazer como sempre, o hálito de cigarro e uísque, o sorriso discreto e carinhoso, os olhos claros e perscrutadores, ainda assim amorosos. Depois de ficarem se observando por um longo tempo, os cafés chegaram e eles recomeçaram a conversar.
- Eu sempre achei que fosse mentira que você havia voltado da Finlândia, o tipo de notícia que James queria ouvir e depois queria acreditar firmemente, porque era isso que ele precisava...
Ela riu, sacudindo os cabelos, como só ela sabia, e como ele adorava. Não havia se dado por conta do quanto adorava os pequenos gestos dela, o quanto sentia falta disso, até tê-la ali outra vez.
- Eu voltei há alguns meses...Primeiro vim para visitar o papai e fiquei apenas por uma semana. Eu me senti tão incrivelmente bem ao voltar que meu pai, percebendo isso, avisou algumas editoras que eu estava aqui e precisava apenas de uma boa proposta para ficar, e muitas delas me procuraram quando eu voltei para Kitee...
- A cidade das florestas - brincou ele, e ela concordou, sorrindo.
- Exato. Houveram inúmeras propostas e eu já estava tentada à voltar, então quando eu ouvi uma proposta realmente boa, eu aceitei e vim. Estou trabalhando com a tradução de livros - ela apontou para o livro sobre a mesa e ele fez um gesto de que compreendera. - O contrato não é muito longo, justamente para não me prender aqui, mas pode ser renovado.
- Isso é maravilhoso - disse ele. - Espero que você fique por aqui. Se você tivesse a mínima ideia do quão melhor você fica quando está aqui...
- Papai diz o mesmo, mas ele é suspeito e, pensando melhor, você também - ambos riram e ele aceitou um dos cigarros dela. Podia odiar o fato de ela morar na Finlândia, mas os cigarros que ela trazia de lá eram os melhores que ele já havia provado. - De qualquer forma, o que você está fazendo aqui? Você não tinha voltado para Dublin porque não tinha conseguido se entender com a gravadora?
Ele fechou o rosto e ela olhou-o, preocupado. Aproximando-se mais, ele sussurrou gravemente, olhando nos olhos dela:
- Eu tenho um show hoje à noite, para a divulgação do meu cd.
Ela não pôde conter um "yeah!" de excitação e apertou a mão dele, sorrindo e parabenizando-o. Ele então contou-lhe que, poucos dias depois de ter voltado para Dublin, uma outra gravadora ligou, porque havia gostado da sua demo. E desde então as coisas haviam simplesmente fluido. Quando ele acabou de contar, ela sorriu e voltou a olhar pela janela, e ele realmente constatou que nada havia mudado. Carinhosamente, comentou:
- Você continua trancada em si mesma, não é?
Ela olhou-o com um sorriso triste, quase como se estivesse se desculpando. Ele balançou a cabeça e sorriu-lhe:
- Não se preocupe...Por mais que demore cinco ou vinte anos, eu estarei aqui para lhe das as boas vindas ao mundo exterior quando você se sentir pronta, estarei aqui para acompanhá-la nessa loucura que é a realidade - ficou pensativo e triste por um momento, como se não pudesse na verdade suportar a ideia de esperar mais. Subitamente lembrando-se, e tentando usar isso como argumento, acrescentou:
- James realmente sente a sua falta.
Ela suspirou e, depois de dar uma longa tragada em seu cigarrou, sorriu-lhe outra vez cansadamente.
- Eu também sinto a falta dele, mais do que eu poderia jamais imaginar, mas...Eu estou presa dentro de mim, enterrada em mim, como você costumava dizer, lembra? - ele concordou com a cabeça. - E, assim como algo inexplicável me trancou aqui, algo da mesma natureza irá me libertar. Talvez ter voltado para casa tenha sido um grande acerto, tenha sido a libertação, por mais paradoxal que isso possa parecer. Mas não quero e não posso criar esperanças, não por enquanto. É cedo demais. 
Sem dizer nada, ele levantou-se e foi sentar ao lado dela, puxando-a para si. Ela aconchegou-se em seu peito, enquanto ele lhe fazia carinho nos cabelos. Estavam tristes e confusos, não sabiam o que esperar, não podiam fazer planos, não queria lembrar do passado. Eram melhores amigos cabisbaixos e um pouco ansiosos, um pouco temerosos. Talvez ele pudesse convencê-la a permanecer, talvez ele pudesse libertar o que havia de melhor nela. Mas ambos sabiam que isso dependia dela, e jamais dele: e enquanto ela não baixasse a guarda, ele simplesmente não podia fazer nada. E por isso ficavam tristes e abraçados daquela forma - mas isso logo mudaria. Logo.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Remember The Breeze

Havia um barulho de zíper sendo fechado e depois, de coisas sendo colocadas sobre a cama. Ele entrou no quarto e ela estava arrumando suas coisas febrilmente, recolhendo seus livros e tentando organizá-los numa mala que estava no chão e estava tão concentrada na tarefa que sequer percebeu que ele havia entrado.
- Mas que diabos...? - começou a perguntar ele, quando ela se virou bruscamente para olhá-lo. Havia medo e algo mais em seus olhos, algo mais profundo, que ele desconhecia completamente, algo lupino e visceral. Seus olhos escuros brilhavam tão febrilmente quanto ela agia, e sua voz era firme quando ela se aproximou dele e disse:
- Eu estou indo embora, agora - ela tirou as alianças e estendeu-as para ele, que ficou tão estupefato que não conseguiu pegá-las ou jogá-las longe. Tudo o que conseguia era olhar nos olhos dela. - Como só estamos casados há duas semanas, não é necessário divórcio, basta pedir o anulamento. Acho que nessa semana eu peço para alguém vir buscar o resto das minhas coisas e levá-las para Helsinki...
- Você está me deixando... pelo Tapani?
- Exatamente - disse ela, e isso soou-lhe como uma sentença. - Ouça, eu sinto muito, realmente muito por isso - ela pegou em suas mãos, olhando-o profundamente, e ele sabia que ela estava sendo sincera. - É só que... eu não quero ser aquela pessoa que carrega amores reprimidos, que se priva do que poderia ter sido a melhor chance de sua vida. Não há nada mais triste do que as trocas de olhares silenciosos e significativos, nada pior do que algo como um fluxo que faz com que você esteja ao lado de uma pessoa mesmo que pareça ou realmente seja errado. Não quero olhar para trás e sempre pensar em como as coisas teriam sido.
Agora ele já chorava. Sabia que ela era corajosa demais, verdadeira demais para reprimir algo como o que havia entre ela e Tapani e, de qualquer forma, não havia sido culpa dela - era o tipo de coisa que simplesmente acontecia, ele sabia bem. E não acontecia duas vezes, mas a maioria das pessoas escolhia sempre o caminho mais fácil, nunca se arriscaria daquela forma. Mas Annikki não era assim, ele sempre soubera. E ela aguentara um ano tentando viver como uma pessoa comum, como se pudesse suportar a angústia da felicidade prometida entre ela e Tapani. Depois de dar um longo suspiro e limpar as lágrimas, ela prosseguiu:
- Olhe, eu não vou lhe perdir perdão, sei que é imperdoável uma coisas dessas. Mas eu simplesmente não posso ficar aqui ao seu lado, enlouquecendo dia após dia, pensando em como as coisas poderiam ser, e pior, ter de aguentar quando Tapani está por perto e temos fingir que nunca fomos nada mais do que melhores amigos. Eu não posso fazer isso comigo mesma, nem com Tapani e com você, porque nós três estaríamos conscientes da situação e resignados a coisas não ditas, a sentimentos reprimidos, e pior, a possibilidades enlouquecedoras, para todos nós. Eu sei que eu posso terminar sozinha, eu sei bem disso, mas sabe, eu não me importo - ela sorriu entre as lágrimas, e ele nunca a havia visto tão linda, tão nua. - Porque o que mais me importa agora é que eu quero poder olhar para trás e dizer que, ao menos, eu tentei. É isso, eu quero poder dizer que tentei e não deixei a vida passar diante de mim.
Inesperadamente, ele a abraçou fortemente contra si, porque mesmo que não quisesse e isso o magoasse, ele a entendia perfeitamente. E de fato, preferia que, se ela não pudesse amá-lo por inteiro, que fosse embora. Não queria construir uma vida baseada em mentiras, repressões e arrependimentos. Deixou-a partir, não sem dor, mas deixou. Tapani nunca esperara que algo tão bom acontecesse, e acolheu-a com tanto amor e urgência que eles finalmente passaram a viver completamente entregues um ao outro. E ela não se importava mais com o futuro, ou melhor, com futuros arrependimentos, porque pela primeira vez na vida, ela estava fazendo o que ela, profundamente, desejava - e de qualquer forma, mesmo que tudo desse errado, ela havia ao menos tentado.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Mother For Law

Incrivelmente, ela se sentia menos magoada quando ficava ali, olhando a baía, perdida na imensidão das águas. Era tão cansativo estar sempre magoada pela mesma razão, que o cansaço já havia aderido à sua tristeza há tempos. Hoje, justamente hoje, quando ela precisava de fato conversar com a sua mãe, ela simplesmente não tinha tempo. Como sempre.
- Quando eu tinha a sua idade, eu ficava por horas aqui pensando também.
Ela sobressaltou-se. Olhou para quem falara: era uma bonita e jovem mulher, no máximo com 28 anos. Tinha um sorriso doce e intensos olhos verdes. Seu olhar também estava perdido nas águas.
- É, é um bom alívio - respondeu então, depois de alguns instantes. - Quando eu morava em Liverpool, passava horas e horas olhando o oceano.
- Se me permite...é um namorado? - perguntou a mulher e, apesar de não gostar de intimidades, ela simplesmente gostou da curiosidade dela. Talvez fosse pela doçura ou pela gentileza daquela mulher, não sabia ao certo, mas sentia um carinho inesperado por ela, como se ela fosse uma velha amiga. Ela sorriu tristemente e disse, com um ar cansado:
- Eu até gostaria que fosse. Não, nunca foi um namorado, sempre foi a minha mãe. 

- Ah, eu também tenho problemas com a minha mãe - disse a mulher parecendo realmente consternada. - Sinto muito.
- Não, está tudo bem. Sinto muito que você tenha problemas com a sua mãe também.
- Estou acostumada - disse a mulher, dando de ombros. - Na verdade, eu nunca tive uma mãe, de verdade.
- Eu também não - disse ela, com um profundo suspiro. - Parece que tudo o que a minha mãe sabe fazer é me reprovar, é mostrar que, de alguma forma, eu não sou boa o suficiente. 
- Ei, você está falando da minha mãe ou o quê?!
- Sério? - a mulher concordou com a cabeça e as duas riram, um riso cansado mas cúmplice. Os cabelos da mulher eram quase loiros, lisos, bonitos. Ela tinha algo de profundamente adorável que ela jamais vira em outra pessoa. Enterrando as mãos nos fundos dos bolsos do casaco azul de seu pai que usava, ela voltou a olhar a baía, gesto que a mulher imitou, pensativa. Depois de permanecerem um tempo em silêncio, a mulher disse:
- Não vale à pena, sabe, você ficar triste assim. Se elas forem realmente iguais, provavelmente ela faz com que você se sinta mal consigo mesma, mas acredite, você é muito melhor do que a pessoa que ela faz com que você pense que é. Não se deixe enganar pelos severos e errôneos julgamentos dela, você tem um brilho no olhar, e parece ser do tipo de menina que não desiste facilmente das coisas. Você tem um grande valor, acredite nisso, acredite em seus amigos que provavelmente lhe dizem isso das mais diversas formas.
Ela respirou fundo, limpando bruscamente as lágrimas. Como uma estranha podia penetrá-la tão rápida e profundamente? De qualquer forma, tudo repentinamente parecia reconfortante: ela estava usando azul, ao invés de preto (e na verdade azul era a sua cor favorita, a cor dos olhos de seu pai), as águas estavam calmas, e havia aquele estranho anjo adorável ao seu lado. Com a voz ainda levemente embargada e com um sorriso, ela disse:
- Bem, eu não posso me queixar tanto assim. Meu pai é maravilhoso. Ele é o tipo de homem que faria qualquer pessoa se sentir melhor, mesmo que a pessoa estivesse se sentindo pior do que um verme. Ele é doce e cuidadoso, divertido...Acho que é impossível não gostar dele. Você tem um pai legal também? - perguntou ela, olhando para a estranha.
- Não...Na verdade, tenho, mas nós nunca fomos próximos, ele me abandonou quando eu era criança.
- Eu sinto muito. Se já foi difícil para mim, que tenho um pai ótimo, eu imagino o quanto não foi difícil para você...
- Não não, na verdade eu consigo viver com isso - ela deu um sorriso alegre. - Aliás, eu conheço um homem parecido com o seu pai, sei o quanto eles ajudam. É o meu namorado.

- Ainda bem - disse ela, sinceramente sorrindo para a estranha, que olhava-a com carinho em seus belos olhos verdes. Por um momento, as duas ficaram apenas trocando um tímido porém sincero sorriso, quase um carinho entre ambas. Então ela lembrou-se que já era hora de ir para casa.
- Foi ótimo conhecê-la, mas tenho que ir para casa. Meu pai está me esperando, vai haver um jantar lá.
- É, eu também tenho que ir logo - disse a estranha. - Também tenho um compromisso para o jantar. Foi ótimo conhecê-la também.
- Obrigada. E boa sorte...Sei lá, com a vida. É "tudo de bom" que se deseja quando se quer desejar algo bom para uma pessoa?
A estranha riu, e ela se tornava ainda mais adorável assim.
- É, pode ser. Boa sorte com a sua mãe também...E com a vida.
Ela concordou com a cabeça, sorrindo, e foi se afastando para casa. Subitamente, sentia-se leve, alegre, como não se sentia há anos. Havia algo de realmente bom naquela doce estranha que conhecera. Chegou em casa e viu seu pai cozinhando empolgadamente, um tanto inseguro, mas ele pareceu mais tranquilo ao ver a filha tão feliz. O jantar era especial porque o pai apresentaria sua madrasta à ela. Apesar de ter ciúmes do seu pai, sentia-se tranquila agora - afinal, sua madrasta dificilmente poderia ser pior do que a sua mãe e, além do mais, seu pai parecia perfeitamente ciente de que cometera um erro casando-se com sua mãe. Depois de ela passar um pouco mais de uma hora lendo em seu quarto, seu pai chamou-a. Ela desceu as escadas e quase caiu para trás quando chegou ao vestíbulo para cumprimentar sua madrasta.
- Filha, está é...
Mas seu pai não teve tempo para continuar. As duas trocaram um enorme sorriso e, sem nenhum resquício de timidez, correrem uma para a outra e se abraçaram fortemente. As duas riram, alegres, enquanto o pai dela olhava-as, estupefato. Quando as duas se soltaram, ele olhava-as, paralisado, ainda com a mão no ar, no meio do gesto que estava fazendo quando elas se abraçaram.
- Ok, eu obviamente perdi alguma coisa por aqui...
As duas riram outra vez, trocando um olhar cúmplice, que só fez com que ele levantasse as sobrancelhas, olhando de uma para a outra, apesar de um sorriso já estar se formando em seu belo rosto. 
- Nós nos conhecemos há...deixa eu pensar, uma hora e meia talvez? - perguntou ela, olhando para a "estranha", que inacreditavelmente estava ali agora, ainda com um braço ao redor de sua cintura.
- É, mais ou menos isso - concordou ela. - Mas não sabemos o nome uma da outra, então lhe daremos esse prazer - disse a "estranha", sorrindo para ele.
Ainda surpreso, mas agora sincera e claramente maravilhado, ele começou:
- Bem...Ok. Essa é minha namorada, Ellen, e essa é a minha filha, Allison.
- Muito prazer - disseram as duas, em uníssono, e riram, abraçando-se outra vez.
Eles se dirigiam até a cozinha, onde ele ainda estava cozinhando, e as duas começaram a ajudá-lo, enquanto os três conversavam e se divertiam como se fossem uma família constituída há muito tempo. Ellen comentou que reconheceu o casaco azul da clínica, mas apenas pensou que era igual ao dele, não que fosse o casaco dele. Ele observava-as, completamente maravilhado. Allison não se dava bem com mulher alguma, nem mesmo com as de sua idade, mas ali estava ela, se comportando como a mais nova melhor amiga de infância de Ellen. Num primeiro momento, parecia inexplicável que elas subitamente se entendessem tão bem, mas ele sabia que isso acontecia - raramente, mas acontecia. De qualquer forma, ele sempre percebera, de fato, que elas haviam tido mais ou menos os mesmos problemas e reagido de forma semelhante à eles. Depois de ficar praticamente apenas observando-as conversarem, encantado, ele teve que ir buscar sorvete para elas, que queriam. Ele já estava saindo quando Allison alcançou-o, já entrando no carro.
- Papai, você realmente aprendeu a escolher por quem se apaixonar.
- Já não era sem tempo - disse ele, sorrindo. - Você não sabe o quanto me faz feliz em gostar assim de Ellen. Ela é muito importante para mim
- Espero que realmente seja, porque sinceramente, se você cometer qualquer erro com ela, é comigo que você vai ter sérios problemas - disse ela, séria. - E você sabe o quanto as coisas se tornam difíceis quando eu estou disposta a ficar furiosa com você.
Ele fingiu engolir em seco e, fazendo uma expressão de terror, disse:
- Sim senhora, querida capitã. Quer sorvete de nozes ou morango?
Os dois riram.
- Nozes. E se comporte, é sério.
Ele bateu uma continência para ela e os dois sorriram, enquanto ele se afastava, completamente maravilhado com o jeito que as coisas haviam acontecido. Nem em seus mais ousados sonhos pensou que tudo pudesse ser assim. E Ellen, por alguma estranha lei natural, tornou-se uma mãe para Allison. A sua única e verdadeira mãe, que faria toda a diferença em sua vida.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Escrever-se

Simone de Beauvoir escreveu em seu livro, A Velhice: "...uma obra literária. Esta última é a materialização - através de signos traçados em papel - do mundo irreal que o sujeito criara para si através de jogos, de devaneios: mundo irreal, que só pode adquirir consistência e permitir a transmissão de uma experiência porque é a projeção da realidade numa outra dimensão."
Pouco é o que se escreve sobre o ato em si de escrever, mas essa é, aos menos aos meus olhos e sensações, uma das melhores definições que existem. Por experiência pessoal, acredito que a escrita é uma forma de comunicação, de tentar mostrar o que há internamente, sejam ideias, teorias ou os mais profundos sentimentos. Escrever é tentar projetar a própria realidade de uma forma que outros possam entendê-la e apreendê-la e, se for o caso, identificarem-se com ela. Também pode ser um pedido de ajuda e um desabafo: tudo o que não pode ser dito pode ser escrito, desabafado, liberto, através de textos nus ou histórias que mascaram as histórias verdadeiras. Mas isso nem sempre funciona, porque depende não apenas do escritor, mas também do leitor para que o mundo seja transmitido. Um ótimo exemplo é que, um de meus personagens foi inspirado em uma pessoa real e esta, ao ler, mesmo que eu a tenha descrito de forma explicíta, apenas se identificou com ela como se identificaria com qualquer outra personagem parecida, não desconfiando que aqueles sentimentos e aquelas críticas eram dirigidas a ela. De qualquer forma, fez com que a pessoa pensasse e atingiu seu real objetivo, mas, se fosse um leitor que possuísse uma inteligência mais sensível, o que foi escrito teria um significado e um poder muito maior. Existem muitas pessoas que são profundamente mudadas pelo o que lêem (felizmente, incluo-me nessa lista), mas para isso é necessário não apenas um bom escritor, mas também uma receptividade e uma sensibilidade mais delicada, que possa também ver o que há por trás das palavas e metáforas, expressando o real valor da ideia do autor.
Tendo bons ou maus leitores, o autor jamais perde o seu valor, e sua obra, por mais inútil que seja aos olhos alheios, sempre terá um valor inestimável para si mesmo (o contrário também pode ocorrer, mas são casos onde a escrita vira um mero produto capitalista, e isso é tão repugnante que não vale a pena comentar). Mesmo que tudo que o autor escreveu permaneça guardado e conhecido apenas por ele mesmo, existe uma porção imensa do que ele realmente é ali, naquelas palavras, pois a escrita é uma forma de expressão interior que não pode ser substituída por outras com o mesmo resultado - talvez, no máximo, a música, já que muitas delas são praticamente poesias, e a melodia demonstra os sentimentos também. Seja poesia musical ou escrita regular, o fato é que o ato de escrever pode abrir possibilidades de comunicação inacreditáveis. Parece inacreditável mas, através da escrita, os sentimentos mais íntimos e indizíveis, as sensações mais peculiares, podem ser descritas e lidas por outra pessoa, que se reconheça naquelas palavras e, por alguma razão, se sinta melhor ao saber que alguém também se sente assim, intimamente. Através das palavras, alguém que mora no Rio Grande do Sul pode se sentir mais ligado a alguém que mora na Finlândia do que alguém que está sempre ao seu lado. E eu considero isso uma coisa maravilhosa.
Além de comunicar duas almas, a escrita parece denunciar quando as coisas estão erradas, sejam com o próprio escritor ou com o mundo em que vive. Por vezes, a vida do escritor pode ser tão ruim que, através da escrita, esse se transporta para uma espécie de paraíso criado por ele mesmo, onde ele é tudo o que não pode ser em sua situação real - portanto, a escrita também é um profundo e eficaz escapismo. Ainda no mesmo ensaio, Simone continua: "Escrever é, portanto, uma atividade complexa: é, num mesmo movimento, preferir o imaginário e querer comunicar; nessas duas escolhas, manifestam-se tendências muito diferentes e, à primeira vista, contrárias. Para pretender substituir por um universo inventado o mundo real, é preciso recusar agressivamente este último. Aquele que nele sentir-se como um peixe na água, considerando que tudo acontece naturalmente, não escreverá." - e, de fato, dificilmente uma pessoa feliz e realizada escreveria. A escrita, para aqueles que realmente a fazem, não é fruto de um capricho ou de uma ambição; é antes de tudo uma necessidade, um hábito inevitável, quase como uma regra de sobrevivência. Aqueles que escrevem para vender e/ou para agradar jamais saberão o verdadeiro valor da escrita e tampouco escreverão para verdadeiros leitores; burgueses felizes escrevem para burgueses felizes e a literatura é manchada continuamente pelas porcarias produzidas. A dor, geralmente, estimula a criatividade e liberta o escritor ou poeta já latente naquele que cria, afinal, quando esse sentir que algo está errado, ele correrá diretamente para a escrita, sem sequer cogitar outra ação prévia. E geralmente é daí que surgem as mais belas obras.
Alguns escritores possuem mundos interiores facilmente comunicáveis e relativamente comuns, portanto, muitos leitores identificam-se e o autor pode ser admirado verdadeiramente por um grande número de pessoas, sem dificuldades e sem ter escrito uma obra destituída de valor literário. Porém, existem alguns autores (e estes são incrivelmente raros, mas existem) que, apesar de terem um grande público e escreverem imensamente bem, são mal compreendidos ou não totalmente compreendidos por, praticamente, todos os seus leitores. Esses autores descrevem mundos e cenas mais raras, de beleza mais profunda e significados profundamente subjetivos, que podem ser lidos até mesmo com alguma dificuldade e compreendidos superficialmente, mas de fato sentir em si o que o autor escreve e adentrar aquele mundo é raríssimo. Internamente, o que o autor mais deseja é justamente que seus leitores possam penetrar nesse mundo íntimo, nessas sensações e ideias que possuem um sentido mais empírico do que racional. O problema é que, a esmagadora maioria de seus leitores entende-os superficialmente, sem de fato adentrar seus mundos e cosmos, apenas vendo de longe uma imagem vaga deles. Um ótimo exemplo disso é Clarice Lispector: amada pelo povo, apesar de ser supostamente uma leitura difícil, comunica mundos e sensações profundamente subjetivas, que dificilmente dez pessoas conseguiriam penetrar - e o número daqueles que se dizem fãs dela é gigante. Infelizmente, a superficialidade domina boa parte dos leitores, e o imenso valor da obra de Clarice é desperdiçado nessa incompreensão, ou compreensão incompleta.
Os leitores compreendendo ou não, os verdadeiros autores nunca deixam de escrever, afinal, a criatividade é um fluxo arrebatador, apesar de muitas vezes inconstante e, de qualquer forma, muitos autores estão tão trancados dentro de si próprios que nunca desistirão de, através da escrita, comunicar seus mundos interiores na vã esperança de que alguém compreenda inteiramente e possa libertá-los. Dessa forma, os autores não apenas escrevem: eles escrevem a si próprios, moldando o seu interior com palavras em um papel. Aqueles que conseguem fazer isso, serão imortais, mesmo que jamais sejam conhecidos, pois a essência deles está imortalizada em palavras bem escritas, seu mundo interior foi exteriorizado com tanta crueza que, belo e/ou trágico, obscuro, ele assume uma beleza assustadora. Escrever-se é imortalizar-se, seja para um ou para um milhão de leitores. E mesmo uma vida profundamente tortuosa faz-se valorosa quando exorcizada através das palavras - para o alívio e a glória daqueles que, corajosamente, despem seus mundos mais sagrados diante de uma folha de papel. Escrever-se, então, é dar sentido às vidas mais destituídas deste. E é a arte mais incrivelmente bela.