Simone de Beauvoir escreveu em seu livro, A Velhice: "...uma obra literária. Esta última é a materialização - através de signos traçados em papel - do mundo irreal que o sujeito criara para si através de jogos, de devaneios: mundo irreal, que só pode adquirir consistência e permitir a transmissão de uma experiência porque é a projeção da realidade numa outra dimensão."
Pouco é o que se escreve sobre o ato em si de escrever, mas essa é, aos menos aos meus olhos e sensações, uma das melhores definições que existem. Por experiência pessoal, acredito que a escrita é uma forma de comunicação, de tentar mostrar o que há internamente, sejam ideias, teorias ou os mais profundos sentimentos. Escrever é tentar projetar a própria realidade de uma forma que outros possam entendê-la e apreendê-la e, se for o caso, identificarem-se com ela. Também pode ser um pedido de ajuda e um desabafo: tudo o que não pode ser dito pode ser escrito, desabafado, liberto, através de textos nus ou histórias que mascaram as histórias verdadeiras. Mas isso nem sempre funciona, porque depende não apenas do escritor, mas também do leitor para que o mundo seja transmitido. Um ótimo exemplo é que, um de meus personagens foi inspirado em uma pessoa real e esta, ao ler, mesmo que eu a tenha descrito de forma explicíta, apenas se identificou com ela como se identificaria com qualquer outra personagem parecida, não desconfiando que aqueles sentimentos e aquelas críticas eram dirigidas a ela. De qualquer forma, fez com que a pessoa pensasse e atingiu seu real objetivo, mas, se fosse um leitor que possuísse uma inteligência mais sensível, o que foi escrito teria um significado e um poder muito maior. Existem muitas pessoas que são profundamente mudadas pelo o que lêem (felizmente, incluo-me nessa lista), mas para isso é necessário não apenas um bom escritor, mas também uma receptividade e uma sensibilidade mais delicada, que possa também ver o que há por trás das palavas e metáforas, expressando o real valor da ideia do autor.
Tendo bons ou maus leitores, o autor jamais perde o seu valor, e sua obra, por mais inútil que seja aos olhos alheios, sempre terá um valor inestimável para si mesmo (o contrário também pode ocorrer, mas são casos onde a escrita vira um mero produto capitalista, e isso é tão repugnante que não vale a pena comentar). Mesmo que tudo que o autor escreveu permaneça guardado e conhecido apenas por ele mesmo, existe uma porção imensa do que ele realmente é ali, naquelas palavras, pois a escrita é uma forma de expressão interior que não pode ser substituída por outras com o mesmo resultado - talvez, no máximo, a música, já que muitas delas são praticamente poesias, e a melodia demonstra os sentimentos também. Seja poesia musical ou escrita regular, o fato é que o ato de escrever pode abrir possibilidades de comunicação inacreditáveis. Parece inacreditável mas, através da escrita, os sentimentos mais íntimos e indizíveis, as sensações mais peculiares, podem ser descritas e lidas por outra pessoa, que se reconheça naquelas palavras e, por alguma razão, se sinta melhor ao saber que alguém também se sente assim, intimamente. Através das palavras, alguém que mora no Rio Grande do Sul pode se sentir mais ligado a alguém que mora na Finlândia do que alguém que está sempre ao seu lado. E eu considero isso uma coisa maravilhosa.
Além de comunicar duas almas, a escrita parece denunciar quando as coisas estão erradas, sejam com o próprio escritor ou com o mundo em que vive. Por vezes, a vida do escritor pode ser tão ruim que, através da escrita, esse se transporta para uma espécie de paraíso criado por ele mesmo, onde ele é tudo o que não pode ser em sua situação real - portanto, a escrita também é um profundo e eficaz escapismo. Ainda no mesmo ensaio, Simone continua: "Escrever é, portanto, uma atividade complexa: é, num mesmo movimento, preferir o imaginário e querer comunicar; nessas duas escolhas, manifestam-se tendências muito diferentes e, à primeira vista, contrárias. Para pretender substituir por um universo inventado o mundo real, é preciso recusar agressivamente este último. Aquele que nele sentir-se como um peixe na água, considerando que tudo acontece naturalmente, não escreverá." - e, de fato, dificilmente uma pessoa feliz e realizada escreveria. A escrita, para aqueles que realmente a fazem, não é fruto de um capricho ou de uma ambição; é antes de tudo uma necessidade, um hábito inevitável, quase como uma regra de sobrevivência. Aqueles que escrevem para vender e/ou para agradar jamais saberão o verdadeiro valor da escrita e tampouco escreverão para verdadeiros leitores; burgueses felizes escrevem para burgueses felizes e a literatura é manchada continuamente pelas porcarias produzidas. A dor, geralmente, estimula a criatividade e liberta o escritor ou poeta já latente naquele que cria, afinal, quando esse sentir que algo está errado, ele correrá diretamente para a escrita, sem sequer cogitar outra ação prévia. E geralmente é daí que surgem as mais belas obras.
Alguns escritores possuem mundos interiores facilmente comunicáveis e relativamente comuns, portanto, muitos leitores identificam-se e o autor pode ser admirado verdadeiramente por um grande número de pessoas, sem dificuldades e sem ter escrito uma obra destituída de valor literário. Porém, existem alguns autores (e estes são incrivelmente raros, mas existem) que, apesar de terem um grande público e escreverem imensamente bem, são mal compreendidos ou não totalmente compreendidos por, praticamente, todos os seus leitores. Esses autores descrevem mundos e cenas mais raras, de beleza mais profunda e significados profundamente subjetivos, que podem ser lidos até mesmo com alguma dificuldade e compreendidos superficialmente, mas de fato sentir em si o que o autor escreve e adentrar aquele mundo é raríssimo. Internamente, o que o autor mais deseja é justamente que seus leitores possam penetrar nesse mundo íntimo, nessas sensações e ideias que possuem um sentido mais empírico do que racional. O problema é que, a esmagadora maioria de seus leitores entende-os superficialmente, sem de fato adentrar seus mundos e cosmos, apenas vendo de longe uma imagem vaga deles. Um ótimo exemplo disso é Clarice Lispector: amada pelo povo, apesar de ser supostamente uma leitura difícil, comunica mundos e sensações profundamente subjetivas, que dificilmente dez pessoas conseguiriam penetrar - e o número daqueles que se dizem fãs dela é gigante. Infelizmente, a superficialidade domina boa parte dos leitores, e o imenso valor da obra de Clarice é desperdiçado nessa incompreensão, ou compreensão incompleta.
Os leitores compreendendo ou não, os verdadeiros autores nunca deixam de escrever, afinal, a criatividade é um fluxo arrebatador, apesar de muitas vezes inconstante e, de qualquer forma, muitos autores estão tão trancados dentro de si próprios que nunca desistirão de, através da escrita, comunicar seus mundos interiores na vã esperança de que alguém compreenda inteiramente e possa libertá-los. Dessa forma, os autores não apenas escrevem: eles escrevem a si próprios, moldando o seu interior com palavras em um papel. Aqueles que conseguem fazer isso, serão imortais, mesmo que jamais sejam conhecidos, pois a essência deles está imortalizada em palavras bem escritas, seu mundo interior foi exteriorizado com tanta crueza que, belo e/ou trágico, obscuro, ele assume uma beleza assustadora. Escrever-se é imortalizar-se, seja para um ou para um milhão de leitores. E mesmo uma vida profundamente tortuosa faz-se valorosa quando exorcizada através das palavras - para o alívio e a glória daqueles que, corajosamente, despem seus mundos mais sagrados diante de uma folha de papel. Escrever-se, então, é dar sentido às vidas mais destituídas deste. E é a arte mais incrivelmente bela.