- Deixe-me desistir disso - disse ela, suspirando e olhando para cima, tentando não mostrar as lágrimas. Ele segurou o rosto dela, fazendo-a olhá-lo nos olhos. Ela foi desvastada por seus belos olhos azuis que olhavam-na intensamente, com um olhar que havia sido a melhor coisa nos últimos anos - mas que também era doloroso, afinal, fazia com que ela inevitavelmente encarasse a verdade. "Você sabe que está cometendo um erro", é o que parecia lhe dizer. Antes que perdesse a coragem, ela tentou justificar-se:
- É só que...isso tudo machuca, sabe? Eu já não sou a mesma pessoa, por Deus, você sabe bem, e tampouco somos os mesmos um para o outro, importamos demais agora, excessivamente, eu arriscaria dizer. Eu não quero me importar, não dessa forma - disse ela, com tanta dor que ele mordeu o lábio inferior, observando-a. Os pensamentos confundiam-se em sua cabeça. Conhecia-a bem demais para não saber que ela estava, em outras palavras, dizendo que o amava e queria lutar bravamente contra isso. Ela estava certa, por um lado - isso nunca havia sido o plano. Eles eram melhores amigos que transavam, nada além disso. Primeiro, apenas duas pessoas que transavam, e quando isso tornou-se impossível, então descobriram-se amigos. Jamais deveriam terem se tornado amigos, mas as coisas simplesmente foram seguindo esse fluxo, e não poderiam supor se encontrar nesse estado nunca. Mas acontecera, e ela lutava, enquanto ele se entregava por inteiro - e estranhamente, ele era quem estava certo.
- Bem, eu não posso te forçar a fazer o que é certo - disse ele, tentando parecer indiferente, mas sua voz traía-o - mas você sempre tenta não cometer erros, então por que cometer um, deliberadamente, agora? Sei que você acha que pode lutar contra os seus sentimentos, que pode dominar a si própia e fazer o que todos julgariam o correto, mas nós dois sabemos bem que não é isso que precisamos, você não estaria sendo leal à si mesma e ao que somos juntos. Esqueça-se dos outros, mesmo aqueles que podem se magoar profundamente. Você já perdeu demais para não magoar ninguém. E honestamente, detesto ter de admitir isso, mas você vai me magoar profundamente se outra vez agir erroneamente tentando acertar. Eu não posso deixar você cometer esse erro, não quando você já está tão machucada, não quando eu sei que você me ama tão profunda e sinceramente e ah - ele tinha os olhos marejados, mas sorriu alegremente, seu grande e belo sorriso -, eu preciso de você para fazer meu café da manhã com omelete todos os dias.
Ela riu, um riso alegre e misturado a um soluço, e beijou-o intensamente, como não fazia há tempos, como se não houvese empecilho algum no mundo para que estivessem fazendo exatamente isso. Depois de um longo e voluptuoso beijo, ela sussurrou, o rosto ainda próximo do dele, ambos ainda de olhos fechados.
- Eu só...só não quero te perder, não quero que...
- Você nunca deve temer isso - sussurrou ele de volta, segurando seu pescoço, sentindo a vida dela pulsar-lhe em suas mãos, sob os longos cabelos dela. - Eu te amo.
Ele beijou-a com a mesma urgência de antes e, pela primeira e única vez na vida, ele sentiu-se absolutamente certo em sentir isso por alguém, pela única vez, sentiu que dizia isso sinceramente. E ele cuidou-a de uma maneira que, contrariando todas as previsões quase que totalmente comprovadas, ela foi feliz por muito tempo, como nunca seria se não o tivesse ao seu lado para fazê-la ver que tudo poderia ser não apenas belo, mas feliz também.
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