Depois de beber outro longo gole, ela o olhou sorrindo. Ele jamais conseguiria imaginá-la dessa forma cinco anos antes, mas ali estava ela, bebendo e fumando com ele, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo - e mesmo, aparentemente, tendo se afastado da imagem de menina perfeita que ela possuíra anteriormente, ainda parecia ser a menina perfeita para fazer planos, ainda a menina que poderia fazê-lo cometer crimes, se quisesse - e que mesmo assim jamais pediria coisa alguma. Com uma certa acidez na voz, ela comentou:
- Eu adoraria ver o que a sua namorada diria se soubesse que você está aqui comigo...
- Você enlouqueceu? Não sobraria nem registro da minha existência! - ambos riram, mas já sem tanta naturalidade. O ponto delicado havia sido tocado. Como que tentando se desculpar, ele prosseguiu:
- Eu sinto profundamente a sua falta, dos dias que passávamos juntos conversando por horas, as cidades que conhecemos nas nossas viagens, o seu cheiro... Você faz muita falta.
Ela suspirou, com um ar levemente magoado mas subitamente endurecido. Olhando-o friamente nos olhos, disse:
- Não, você não sente. Ou sente mas é covarde demais para não ter de sentir mais a minha falta.
- É, admito que há um pouco de covardia...
- Um pouco? - ela deu um riso amargurado, que o magoou muito mais do que qualquer outra ofensa que ela pudesse proferir. - Você ficou rastejando por mim e nunca se contentou que eu te amasse profundamente, mas apenas como amigo, e fingia conseguir ser apenas meu amigo para manter-me por perto. Mas foi só alguém dizer que casaria com você e assumiria-o para todo mundo que, apesar de não ter me esquecido, você deixou de ser meu amigo e...
- Eu te esqueci!
- Ora, não me venha com pretensões ridículas! Eu conheço você e sei o suficiente sobre relações de substituição para dizer que elas não funcionam, nunca totalmente. De qualquer forma, você deixou de estar ao meu lado quando eu mais precisei de você, e me procurava quando a sua namorada não estava por perto, porque sentia a minha falta e ainda me amava, e ela ficava histérica por saber disso e proibia-lhe de chegar perto de mim. Então eu estava desabando e você não estava lá, mesmo que você tenha dito que estaria sempre ao meu lado. Eu sempre acreditei em você, sabe? E você realmente era o meu melhor amigo, eu juro que era. Mas agora eu sei que você só esteve ao meu lado enquanto acreditava alucinadamente que havia esperança comigo, e foi só você se dar por conta de que nada nunca iria acontecer, que você foi correndo para quem poderia fazer com que você se sentisse desejado e...
- Eu admito, eu te amei, eu te amo - disse ele exasperado, olhando-a gravemente e tentando segurar suas mãos, mas ela se soltou bruscamente, olhando para outro lado. Ele sabia que quando ela afastava o olhar estava realmente brava e/ou magoada, e isso não era o que ele tinha em mente, nem naquela noite nem em qualquer outro momento. Olhando seus cabelos longos, sua boca desenhada, sua pele clara, ele ainda sentia o mesmo desejo, a mesma sensação intensa e multiforme que ele chamava de amor, mesmo sem saber se era isso mesmo - e julgando pelas suas ações, realmente não parecia. Ele estava subitamente sem palavras, ela havia dito apenas verdades que ele ignorara durante todo aquele tempo. Verdades nuas, nojentas, penetrantes. Ele sabia perfeitamente bem que jamais veria outra vez os lindos olhos castanhos dela brilharem de felicidade ao vê-lo. Há muito tempo havia uma mágoa profunda neles. E de fato, ela havia estado perdida, ela sofrera, e ele nunca estivera lá, simplesmente por medo de perder a namorada que ele tanto não amava.
- E se eu tivesse te esperado? E se eu não tivesse te abandonado, sua resposta ainda seria a mesma?
- Que diferença faz isso agora? - perguntou ela, olhando-o tristemente. - De qualquer forma, você está agindo outra vez como sempre agiu, apenas tentando dar o melhor de si para ter uma chance que seja de me mostrar como troféu a todos. Isso é tão nojento que... Por Merlin, eu não posso suportar mais isso - disse ela, levantando-se e pegando sua bolsa, com os olhos marejados. Ele se levantou e foi atrás dela, segurando-a pelo braço. Ela se virou e olhou em seus olhos com impaciência.
- Eu queria ter estado ao seu lado, eu nunca quis te magoar, você é a minha pequena, ainda. Mas eu precisava de alguém ao meu lado...
- Alguém que é tão pobre de espírito que sequer podia permitir que fôssemos amigos?
- Bem, ela era a única...
- Que lhe queria? - ela balançou a cabeça negativamente, com decepção e nojo claramente inundando seu belo rosto. - Ainda bem que eu não preciso mais de você.
Ela se desvencilhou bruscamente dele e saiu com passos firmes e duros para a rua. Ele ficou no meio do bar, paralisado, olhando-a ir embora. Sentia-se imundo, um verme, ou algo abaixo disso. Havia magoado a pessoa mais fantástica que já havia conhecido simplesmente pela sua nojenta necessidade de se sentir desejado, de poder mostrar aos outros que era capaz de grandes conquistas. Mas ela estava certa: agora nada mais fazia diferença e, resignando-se à sua desprezível realidade, ele voltou para casa, onde sua namorada estava dormindo tranquilamente - onde ele continuaria sonhando com o brilho daqueles olhos castanhos que sempre o atormentariam.
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