domingo, 9 de janeiro de 2011

Remember The Breeze

Havia um barulho de zíper sendo fechado e depois, de coisas sendo colocadas sobre a cama. Ele entrou no quarto e ela estava arrumando suas coisas febrilmente, recolhendo seus livros e tentando organizá-los numa mala que estava no chão e estava tão concentrada na tarefa que sequer percebeu que ele havia entrado.
- Mas que diabos...? - começou a perguntar ele, quando ela se virou bruscamente para olhá-lo. Havia medo e algo mais em seus olhos, algo mais profundo, que ele desconhecia completamente, algo lupino e visceral. Seus olhos escuros brilhavam tão febrilmente quanto ela agia, e sua voz era firme quando ela se aproximou dele e disse:
- Eu estou indo embora, agora - ela tirou as alianças e estendeu-as para ele, que ficou tão estupefato que não conseguiu pegá-las ou jogá-las longe. Tudo o que conseguia era olhar nos olhos dela. - Como só estamos casados há duas semanas, não é necessário divórcio, basta pedir o anulamento. Acho que nessa semana eu peço para alguém vir buscar o resto das minhas coisas e levá-las para Helsinki...
- Você está me deixando... pelo Tapani?
- Exatamente - disse ela, e isso soou-lhe como uma sentença. - Ouça, eu sinto muito, realmente muito por isso - ela pegou em suas mãos, olhando-o profundamente, e ele sabia que ela estava sendo sincera. - É só que... eu não quero ser aquela pessoa que carrega amores reprimidos, que se priva do que poderia ter sido a melhor chance de sua vida. Não há nada mais triste do que as trocas de olhares silenciosos e significativos, nada pior do que algo como um fluxo que faz com que você esteja ao lado de uma pessoa mesmo que pareça ou realmente seja errado. Não quero olhar para trás e sempre pensar em como as coisas teriam sido.
Agora ele já chorava. Sabia que ela era corajosa demais, verdadeira demais para reprimir algo como o que havia entre ela e Tapani e, de qualquer forma, não havia sido culpa dela - era o tipo de coisa que simplesmente acontecia, ele sabia bem. E não acontecia duas vezes, mas a maioria das pessoas escolhia sempre o caminho mais fácil, nunca se arriscaria daquela forma. Mas Annikki não era assim, ele sempre soubera. E ela aguentara um ano tentando viver como uma pessoa comum, como se pudesse suportar a angústia da felicidade prometida entre ela e Tapani. Depois de dar um longo suspiro e limpar as lágrimas, ela prosseguiu:
- Olhe, eu não vou lhe perdir perdão, sei que é imperdoável uma coisas dessas. Mas eu simplesmente não posso ficar aqui ao seu lado, enlouquecendo dia após dia, pensando em como as coisas poderiam ser, e pior, ter de aguentar quando Tapani está por perto e temos fingir que nunca fomos nada mais do que melhores amigos. Eu não posso fazer isso comigo mesma, nem com Tapani e com você, porque nós três estaríamos conscientes da situação e resignados a coisas não ditas, a sentimentos reprimidos, e pior, a possibilidades enlouquecedoras, para todos nós. Eu sei que eu posso terminar sozinha, eu sei bem disso, mas sabe, eu não me importo - ela sorriu entre as lágrimas, e ele nunca a havia visto tão linda, tão nua. - Porque o que mais me importa agora é que eu quero poder olhar para trás e dizer que, ao menos, eu tentei. É isso, eu quero poder dizer que tentei e não deixei a vida passar diante de mim.
Inesperadamente, ele a abraçou fortemente contra si, porque mesmo que não quisesse e isso o magoasse, ele a entendia perfeitamente. E de fato, preferia que, se ela não pudesse amá-lo por inteiro, que fosse embora. Não queria construir uma vida baseada em mentiras, repressões e arrependimentos. Deixou-a partir, não sem dor, mas deixou. Tapani nunca esperara que algo tão bom acontecesse, e acolheu-a com tanto amor e urgência que eles finalmente passaram a viver completamente entregues um ao outro. E ela não se importava mais com o futuro, ou melhor, com futuros arrependimentos, porque pela primeira vez na vida, ela estava fazendo o que ela, profundamente, desejava - e de qualquer forma, mesmo que tudo desse errado, ela havia ao menos tentado.

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