Depois de apagar seu cigarro, ela ficou olhando pela janela da cafeteria o Tâmisa que aparecia ao longe e ainda era incrivelmente familiar, ainda trazia-lhe aquela incomparável sensação de estar, de fato, em casa. Ela suspirou, com um sorriso - não deveria jamais abandonar aquele lugar, era masoquismo. Mas ela sempre o fazia.
- Este lugar está ocupado, moça?
Ela mal pôde acreditar quando ouviu aquela familiar e maravilhosa voz rouca falando naquele sotaque adorável de Dublin. Ela levantou-se e, sem se importar em estarem em uma cafeteria, ela correu a abraçá-lo fortemente, sem educação mesmo, profundamente íntima. Que importava, afinal, a cara de espanto das pessoas que ali estavam? Não era indecência alguma abraçar um amigo maravilhoso como ele. Eles olharam-se sorrindo, ainda abraçados, e ela acariciou-lhe os cabelos ruivos e crespos, bagunçando-os e fazendo com que ele risse, aquela risada rouca que lembrava um cachorro, o que sempre, estranhamente, fazia com que ela também risse. Recompondo-se, ambos sentaram-se à mesa e pediram café.
- Que milagre traz você aqui outra vez? Posso ter esperanças de que tenha voltado definitivamente?
- Definitivamente não, mas...Eu estou por aqui, você sabe. Então...Eu suponho que eu possa ficar por um mês ou dez anos.
Olharam-se sorrindo outra vez, mas agora observando as diferenças. Ambos não haviam envelhecido - nem havia como, só haviam passado cinco anos longe -, ainda usavam o mesmo tipo de roupa, o mesmo corte de cabelo, tipicamente constantes britânicos. Ela ainda tinha os cabelos longos e lisos, arruivados como sempre, e soltos. Ainda gostava de suéteres cinza e/ou verdes, ainda parecia dormir mal e comer bastante - e ainda lia febrilmente, afinal, havia um grosso livro sobre a mesa, num idioma que ele desconhecia, mas que parecia escandinavo. Ele também continuava com a mania dos suéteres cinzentos, os cabelos ruivos em desalinho, a barba por fazer como sempre, o hálito de cigarro e uísque, o sorriso discreto e carinhoso, os olhos claros e perscrutadores, ainda assim amorosos. Depois de ficarem se observando por um longo tempo, os cafés chegaram e eles recomeçaram a conversar.
- Eu sempre achei que fosse mentira que você havia voltado da Finlândia, o tipo de notícia que James queria ouvir e depois queria acreditar firmemente, porque era isso que ele precisava...
Ela riu, sacudindo os cabelos, como só ela sabia, e como ele adorava. Não havia se dado por conta do quanto adorava os pequenos gestos dela, o quanto sentia falta disso, até tê-la ali outra vez.
- Eu voltei há alguns meses...Primeiro vim para visitar o papai e fiquei apenas por uma semana. Eu me senti tão incrivelmente bem ao voltar que meu pai, percebendo isso, avisou algumas editoras que eu estava aqui e precisava apenas de uma boa proposta para ficar, e muitas delas me procuraram quando eu voltei para Kitee...
- A cidade das florestas - brincou ele, e ela concordou, sorrindo.
- Exato. Houveram inúmeras propostas e eu já estava tentada à voltar, então quando eu ouvi uma proposta realmente boa, eu aceitei e vim. Estou trabalhando com a tradução de livros - ela apontou para o livro sobre a mesa e ele fez um gesto de que compreendera. - O contrato não é muito longo, justamente para não me prender aqui, mas pode ser renovado.
- Isso é maravilhoso - disse ele. - Espero que você fique por aqui. Se você tivesse a mínima ideia do quão melhor você fica quando está aqui...
- Papai diz o mesmo, mas ele é suspeito e, pensando melhor, você também - ambos riram e ele aceitou um dos cigarros dela. Podia odiar o fato de ela morar na Finlândia, mas os cigarros que ela trazia de lá eram os melhores que ele já havia provado. - De qualquer forma, o que você está fazendo aqui? Você não tinha voltado para Dublin porque não tinha conseguido se entender com a gravadora?
Ele fechou o rosto e ela olhou-o, preocupado. Aproximando-se mais, ele sussurrou gravemente, olhando nos olhos dela:
- Eu tenho um show hoje à noite, para a divulgação do meu cd.
Ela não pôde conter um "yeah!" de excitação e apertou a mão dele, sorrindo e parabenizando-o. Ele então contou-lhe que, poucos dias depois de ter voltado para Dublin, uma outra gravadora ligou, porque havia gostado da sua demo. E desde então as coisas haviam simplesmente fluido. Quando ele acabou de contar, ela sorriu e voltou a olhar pela janela, e ele realmente constatou que nada havia mudado. Carinhosamente, comentou:
- Você continua trancada em si mesma, não é?
Ela olhou-o com um sorriso triste, quase como se estivesse se desculpando. Ele balançou a cabeça e sorriu-lhe:
- Não se preocupe...Por mais que demore cinco ou vinte anos, eu estarei aqui para lhe das as boas vindas ao mundo exterior quando você se sentir pronta, estarei aqui para acompanhá-la nessa loucura que é a realidade - ficou pensativo e triste por um momento, como se não pudesse na verdade suportar a ideia de esperar mais. Subitamente lembrando-se, e tentando usar isso como argumento, acrescentou:
- James realmente sente a sua falta.
Ela suspirou e, depois de dar uma longa tragada em seu cigarrou, sorriu-lhe outra vez cansadamente.
- Eu também sinto a falta dele, mais do que eu poderia jamais imaginar, mas...Eu estou presa dentro de mim, enterrada em mim, como você costumava dizer, lembra? - ele concordou com a cabeça. - E, assim como algo inexplicável me trancou aqui, algo da mesma natureza irá me libertar. Talvez ter voltado para casa tenha sido um grande acerto, tenha sido a libertação, por mais paradoxal que isso possa parecer. Mas não quero e não posso criar esperanças, não por enquanto. É cedo demais.
Sem dizer nada, ele levantou-se e foi sentar ao lado dela, puxando-a para si. Ela aconchegou-se em seu peito, enquanto ele lhe fazia carinho nos cabelos. Estavam tristes e confusos, não sabiam o que esperar, não podiam fazer planos, não queria lembrar do passado. Eram melhores amigos cabisbaixos e um pouco ansiosos, um pouco temerosos. Talvez ele pudesse convencê-la a permanecer, talvez ele pudesse libertar o que havia de melhor nela. Mas ambos sabiam que isso dependia dela, e jamais dele: e enquanto ela não baixasse a guarda, ele simplesmente não podia fazer nada. E por isso ficavam tristes e abraçados daquela forma - mas isso logo mudaria. Logo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário