Sentada, recostada numa árvore, no meio da floresta, seu olhar estava perdido enquanto ela se afundava em seus devaneios. Logo tudo estaria acabado, mas, a que preço? Por muitas vezes ela desejara voltar para seis anos atrás em sua vida, e gostava da ilusão de que as coisas poderiam ter acontecido de outra forma. Parecia que, toda vez que ela tentava fazer alguma coisa certa, isto logo acabava se mostrando um grande erro, e o pior, irremediável. Sabia que, apesar de suas desesperadas tentativas, não poderia manter todos em segurança, e muitos ainda iriam morrrer, tão logo a batalha eclodisse.
Por outro lado, tolamente ou não, ela tinha profundas esperanças. Apesar de ter consciência da crueldade das coisas que estavam ocorrendo, e de quanta dor isso inevitavelmente causaria nas pessoas, ela sabia que havia grandes - ou talvez nem tão grandes assim - chances de que seu pai e aqueles que ela considerava a sua família sobrevivessem. De fato, tanto eles quanto o seu pai estavam lutando bravamente, e ela jamais duvidaria da capacidade e coragem deles. O problema era que as forças contrárias nunca haviam sido tão fortes e cruéis.
- Uma libra pelos seus pensamentos - disse ele, sorrindo e sentando-se ao lado dela. Ela lhe deu um sorriso cansado.
- Eles não valem nem uma libra, papai - ela se aconchegou nele, como ele a convidava. - O que você estava fazendo?
- Tentando ler um livro, mas obviamente, sem sucesso. Não consigo me concentrar há muito tempo.
- É, eu também não - apreensiva, sua voz tornou-se pouco mais do que um sussurro. - Você ainda tem esperanças?
- Terei até o último momento, filha. E você também deveria ter.
Ele a olhou inquisidoramente, preocupado. Nunca havia visto sua filha tão sombria quanto nos últimos tempos, mas ela tinha razão para estar assim. Seus olhos escuros, antes tão duros, agora seguidamente estavam intensos e quase marejados. Subitamente, com a voz embargada, ela perguntou:
- Você acredita que teríamos sido felizes? Quero dizer, se nada disso houvesse acontecido, desde o começo?
- Eu tenho certeza que sim. Sabe, quando eu vejo você e o seu irmão conversando e lembro de vocês dois, ainda bebês, brincando com os seus pais... Nem sei colocar em palavras o que sinto, mas é desolador. Vocês são irmãos gêmeos e por uma escolha cega de um homem cruel possuíram destinos diferentes e perderam seus pais. Eu sei que você gostaria de estar lutando ao lado dele agora, querida, mas você não pode. Vocês dois são fortes o suficiente para vencer tudo isso, eu tenho certeza, não se preocupe. Em algum tempo, seja um ou dez anos, vocês poderão passar um domingo juntos sem precisar se preocupar com alguém morrendo por vocês. Nenhum de vocês dois pode perceber mas, mesmo nas menores características, vocês são exatamente iguais, principalmente na personalidade, na obstinação. Fico surpreso que ninguém tenha notado até hoje a verdade sobre vocês.
Imagens de uma infância tranquila e feliz com seu irmão e seus pais por perto vinham à sua mente, mas isso doía-lhe mais do que lhe alegrava. Brincar na neve, exatamente como na foto de poucos dias antes de seus pais morrerem, irem para a escola juntos, brigarem por coisas inúteis, tudo isso parecia um paraíso inalcançável para os dois. Tudo o que queriam era uma vida comum, sem grandes glórias mas também sem grandes dramas.
- Desculpe, eu não queria interromper...
Aquela voz faria com que ela acordasse até mesmo do túmulo. Desvencilhando-se do homem que se tornara seu pai, ela correu a abraçar o irmão, aliviada por tê-lo por perto, nem que fosse por um instante. Mesmo que quisesse evitar, ele começou a chorar, havia sentido imensamente a falta da irmã, mesmo que houvessem passado apenas um mês distantes.
Quando seu irmão beijou seus cabelos ela sentiu tanta ternura e esperança que um dia eles poderiam ser livres, que ela descobriu: nas horas mais sombrias, ela teria força se pensasse fortemente nele. Ela estava certa. E ele já havia descoberto esse segredo há muito tempo.
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