terça-feira, 26 de julho de 2011

A Message

Quando chegou na estação de King's Cross, ele sentou e olhou no relógio: ainda era cedo, mas a intenção era justamente a de chegar bem antes. Ajeitou seu sobretudo pardo e se acomodou para ler o livro que havia trazido consigo. Não havia lido sequer dez páginas quando o fechou, desistindo. Não conseguia se concentrar em absolutamente nada, não enquanto estava esperando por sua filha. Repassara mentalmente inúmeras vezes as coisas que queria dizer para ela, de preferência assim que ela desembarcasse do trem, porque sabia que, mesmo que essa visita houvesse sido combinada há meses atrás e fosse justificada apenas por uma ocasião especial do trabalho dele, ele sabia que poderia fazer com que fosse muito mais do que isso, poderia mudar as coisas com ela. Porque, de fato, ele sabia que as coisas precisavam mudar. E como!
No final do ano anterior, mais exatamente novembro, houvera outra cerimônia a qual ela havia sido convidada a comparecer, como sempre, e repentinamente ele teve a ideia de simplesmente convidá-la a ficar. Não por mais uma semana, nem um por um mês, mas para morar, de fato. Ele podia ter mudado de endereço algumas vezes, ter casado outra vez e ter tido outra filha, mas sempre tivera o cuidado de reservar um quarto para ela onde, inclusive, havia livros que ela gostava, roupas, enfim, tudo que haveria num quarto habitado por ela regularmente, a não ser pelo fato de ela estar morando nos Estados Unidos. Havia ido estudar medicina em Seattle e, apesar de ver que ela ser tornara uma médica brilhante e que realmente tinha talentos cirúrgicos, ele podia perceber que ela não estava em paz, o que não era de se espantar: como sempre, ela resolvera enfrentar os maiores desafios, tanto pessoais quanto profissionais, completamente sozinha. Ele desconfiava seriamente que a ida dela para Seattle não tinha nada a ver com “as lindas balsas de lá”, como ela dizia, mas era, na verdade, uma tentativa de finalmente se virar sozinha. Sua filha crescera completamente apaixonada pela Inglaterra, tanto que adorava estudar a história inglesa (principalmente quando se tratava de Elizabeth I) e se dizia orgulhosa de ser “uma garotinha inglesa”, mesmo que seu pai tivesse lhe levado para conhecer vários países europeus. Sua garotinha estava tentando crescer, mas não precisava ser dessa forma. Não mesmo. E ele é que não iria deixá-la perdida em outro continente.
Depois de intermináveis vinte minutos, finalmente podia-se ouvir o apito do trem ao longe, e em mais alguns minutos finalmente o trem chegou. Ele adorava o fato de sua filha insistir em pegar um voo até Edimburgo e então vir num trem de lá até Londres, afinal, ela dizia não haver nada mais revigorante do que uma boa viagem num trem britânico. Logo ela descia do trem, cheia de malas e com seu casaco verde favorito. Ainda parecia a mesma menininha que ele via adormecer com um livro de Jane Austen cobrindo o rosto, sempre um exemplar extremamente gasto pelo uso. Correu e o abraçou com tanta urgência que ele soube, naquele instante, que já estava mais do que na hora de fazê-la ficar. Ele tinha certeza.
Pegaram as malas dela e foram caminhando pela estação apinhada de gente, enquanto uma fina chuva recomeçava. Repentinamente, sem mais poder segurar dentro de si tudo o que sentia, ele simplesmente parou de caminhar. Ela o olhou preocupada e parou também.
- O que houve pa...?
- Por favor, só venha para casa – disse ele, subitamente emocionado. O discurso mental, todos os argumentos perfeitamente racionais, tudo isso havia se esvaído. Só havia restado nele a forte sensação de se dar por conta do quanto sentia a falta dela, todos os dias. A devastação que ele não se permitia sentir, todo santo dia, porque sabia que ela queria estar em Seattle, desceu sobre ele como uma nuvem carregada de desenho animado. Havia reunido inúmeras razões para trazê-la de volta para casa para o bem dela, mas na verdade ele precisava dela, e precisava imensamente. Respirou fundo, e simplesmente disse:
- Eu te amo, por favor, volte para casa.
Ouve-se por aí que sentem a falta dela em Seattle.

domingo, 24 de julho de 2011

Look Around (...and beyond the veil)


Remembering that night, was really hard don’t get completely desperate. She could remember it clearly: they were all having dinner in that dark house, and even though it were hard times, oddly they were laughing. Her father was sitting by her right side, and the most shining star were by her left side. Back then, she didn’t know that they would be gone in less then three years, and then what? She couldn’t think about a life without them, even less about the pain their death would cause her. But on that night, that was just a distant fear. Occasionally, the most shining star used to lose himself into her eyes, or quietly caress her hands, getting a little bit shy at the same moment. The long days that seemed to run before their eyes in his dark room, the power to smile discovered again, the secret of a love of two people who really were good, but that lived in the darkness, ‘cause they didn’t have an option. And in the darkness they found each other, and oddly were happy, even in the middle of a cruel war.
                Now, looking back, four of the seven people that were with her on that night, well, they are dead. And between them, were the two most important people for her. But everything that is really good is supposed to be gone someday, right? Anyway, they were in her, and that’s what she would really carry with her through her life, beyond the pain.

(Não é) O Fim de Uma Era

Atenção: contém spoilers.


Dez anos. Oito filmes. Sete livros. Contando que tenho 17 anos e li o primeiro livro aos 8, posso tranquilamente dizer que passei a maior parte da minha vida envolvida pelo mundo de Harry Potter, e esse número só tende a aumentar, até o ponto em que eu nem me lembre quando isso começou, o que talvez não aconteça justamente pela importância e grande influência real de Harry Potter em minha vida, em todos os aspectos. Porque, exatamente como na música de Oliver and the Remembralls, para muitos Harry Potter é mais do que uma história, muito mais. E, apesar de não ter participado nem de longe tão diretamente quanto Emma Watson, sinto-me exatamente da mesma forma que ela revelou se sentir no vídeo de despedida do elenco: sinto-me sortuda por ter sido, sei lá eu de que forma, escolhida, e ter vivenciado tudo isso. É honestamente uma honra ter participado e ainda participar desse mundo extraordinário, que não acabou agora, e tampouco vai acabar.
Demorei quase dez dias para conseguir escrever sobre o suposto fim de Harry Potter. Há exatamente quatro anos, eu estava terminando de ler Harry Potter e as Relíquias da Morte, e mais do que o fim da série, fui profundamente abalada pela perda de inúmeros personagens muito queridos, dentre eles o meu favorito: Remus Lupin. Mesmo que tenha sido extremamente difícil me acostumar com o fato que agora não haviam mais livros pelos quais ansiar, nada mais de teorias malucas na internet, horas de discussão sobre inúmeras possíveis revelações e acontecimentos futuros, havia o consolo de que ainda haviam três filmes pelos quais esperar. Então, apesar de ter de aprender a, de alguma forma, lidar com as mortes de Remus, Fred, Severus, e até mesmo a de Sirius (que apesar de ter ocorrido bem antes, para mim é a segunda mais significativa), todos nós ainda tínhamos a grande distração e a esperança pelos novos filmes vindo. E num piscar de olhos o símbolo da Warner estava na nossa frente pela última vez e, apesar da dor, aguentávamos firme. Porque sempre soubemos que esse não é o fim.
Para muitos tudo o que estou escrevendo agora é a mais pura bobagem, e até mesmo alguns diriam que isso é uma “bobagem adolescente”. Mas ninguém, absolutamente ninguém que não faz parte do mundo bruxo tem noção do alcance efetivo que Harry Potter pode possuir em uma vida. Posso dar meu próprio exemplo aqui, dizendo que a saga e sua moral funcionaram, desde o início, como uma “filosofia de vida”, ou qualquer coisa do gênero para mim. Conforme vou crescendo, percebo cada vez mais claramente as importantes influências de Harry Potter, de uma forma geral e direta em minha vida, e sei que mesmo nesse momento essa história me guia subconscientemente, mesmo que eu não perceba. As lições de vida que J.K. Rowling passou em todos os livros podem não parecer claras algumas vezes, mas mesmo nos pontos mais obscuros consegue atingir seus objetivos – até porque, se não fosse assim, quem explicaria a cura de Evanna Lynch e de muitos outros casos que sequer sonhamos? Sei que soa religioso, mas a sabedoria encontrada nessa história é inesgotável. Temos o bem e o mal bem definidos, temos exemplos incríveis a seguir, sabemos contra o que devemos lutar. E isso é muito mais do que muitos pais conseguem ensinar.
A amizade, o amor verdadeiro, a lealdade, a força, a esperança. São coisas em que a maioria das pessoas não pensa muito, são apenas conceitos vagos para muitos. Mas em Harry Potter encontramos exemplos sólidos de todas as qualidades acima, muitas vezes reunidas em uma mesma pessoa. O que por vezes nos dá esperança de sermos pessoas melhores. E esses exemplos podem parecer vagos para quem não conhece a história a fundo, mas os fãs sabem o quanto essas figuras são, de fato, influentes em nossas vidas, por vezes nos guiando  melhor do que qualquer outra fonte. Porque foram com esses personagens que adentramos um mundo completamente fascinante, onde podemos, apesar dos perigos e de tudo mais, não importa o que seja, aprendermos a evoluir, a crescer, a lutar pelo o que realmente importa, seja livrar o mundo bruxo de Voldemort ou passar de ano com boas notas. São para eles que podemos confidenciar, onde quer que estejamos, tudo o que sentimos, sabendo que o máximo de repreensão que ganharemos é uma correção e uma indicação do que devemos realmente fazer. Uma história que influencia a vida das pessoas dessa forma pode parar de ser escrita, mas nunca irá acabar – porque está gravada nas pessoas. E nem mesmo o tempo é capaz de apagar algo assim.
Sei bem que eu ainda poderia escrever páginas e páginas sobre a grande e maravilhosa influência de J.K. Rowling sobre inúmeras pessoas ao redor do mundo, mas acredito que seja desnecessário. Há sete meses atrás já escrevi sobre a influência da infindável magia de Harry Potter, que permanecerá em nós e, eu sei bem, será ainda transmitida para as futuras gerações. Porque Harry Potter é o que vai além da febre, da modinha, da adolescência e da futilidade: foi uma história escrita por uma mulher adulta, que amadureceu muito antes de escrevê-la. E que justamente por isso é muito mais do que uma simples história, é, com o perdão pelo clichê, uma lição de vida. Por isso eu sei que nunca acaba. Sempre haverá um perdido no mundo que vai se encontrar lendo Harry Potter. E a esses, desejos as boas vindas, mesmo que seja daqui a cem anos. Porque é um acerto parecido com ganhar na loteria: se bem aplicado, pode te trazer uma vida melhor. Então obrigada, tia Jo. Você merece, descanse sua pena agora, porque já sabemos o caminho de Hogwarts sozinhos. Muito obrigada.

Mikrokosmos XXI

    Rindo sinceramente como, aliás, ele não se lembrava de jamais tê-la visto, ela lia uma lista realmente grande que tratava de algum assunto completamente desconhecido para ele mas que, visivelmente, dava-lhe maior prazer do que qualquer outra leitura. Limitou-se então a observá-la, tanto para não atrapalhar quanto por sentir um pouco de ciúmes de vê-la se divertindo tanto sem ele. Subitamente ela o olhou e sorriu, como se só agora notasse que ele também estava no quarto.
    - E então, amor, como vai o Chudley Cannons?
    - O quê? - ele franziu o cenho, sinceramente confuso e ela caiu na gargalhada outra vez. De fato, ele não sabia da existência de nada capaz de fazê-la rir daquela forma e tampouco fazia ideia de sobre o que ela o havia questionado. Esperou pacientemente que ela explicasse uma coisa, qualquer coisa, mas haviam dias em que ela simplesmente acordava tão puramente excêntrica que o melhor era nem tentar entender. Esse parecia ser um daqueles dias.
    - Esses ingleses... - ela balançou a cabeça, sorrindo e olhando carinhosamente a lista. - Nessas horas morro de saudade do meu país. Não existe humor mais autêntico do que esse.
Levemente irritado pelo patriotismo dela não ser finlandês naquela manhã, ele atravessou o quarto e foi tocar algumas composições aleatórias no teclado, vagamente magoado pelo distanciamento dela. Ela sequer se deu por conta disso, até pelo contrário: pegou um livro na sua estante e voltou para a cama já lendo. Logo estava rindo outra vez e ele a olhou irritado, finalmente chamando sua atenção.
    - Isso é divertido - disse ela, dando de ombros. - Perdão. Vou lá para baixo para não te atrapalhar e...
    Ele foi até ela, olhando-a gravemente. Ela permaneceu esperando-o em silêncio.
    - Você não voltou da Inglaterra - acusou ele, sem raiva.
    - Demora um pouco, você sabe. Mas eu vou logo me reacostumar à Finlândia e logo serei mais patriota do que você outra vez...
    - Não é verdade. Não dessa vez.
    Ele tinha uma lista de motivos estabelecida mentalmente, e que o deixava sinceramente apavorado. Ele sabia muito bem que dessa vez ela voltara querendo ficar na Inglaterra. Nada mais justificava suas intermináveis conversas ao telefone com seu pai (quando antes eram diárias mas apenas rotineiras, no geral), seus amigos ligando constantemente, sua atual preferência (ou seria melhor dizer predileção?) por tudo que fosse inglês: de literatura e música até culinária, ela até mesmo dormia com a televisão ligada em qualquer rede britânica e quando ela finalmente estava cochilando e ele perguntava se podia desligar, ela se limitava a murmurar "Eu quero... Quero dormir com sotaque britânico... Quero inglês britânico um pouco", sem sequer abrir os olhos, como uma criança com seu desenho animado favorito.
    Mas todos esses sinais eram secundários. O real e verdadeiro problema é que ele já não podia atingí-la, simples e puramente. Via-a perdida em devaneios, escrevendo, ouvindo música ou mesmo apenas fumando e olhando pela janela, e seu olhar era simplesmente impenetrável, assim como suas conversas, mais lacônicas do que nunca. Não raramente ela o fazia duvidar do que diziam sobre os finlandeses serem mais fechados que os ingleses, porque ela podia às vezes ser tão honesta e profundamente hermética que o fazia duvidar que se a ligação que tinham antes não era apenas fruto de sua imaginação.
    Enquanto olhava-a, tentando desvendá-la em silêncio como fazia naturalmente há algum tempo atrás, o telefone dela tocou e só pela música ele sabia que era o pai dela outra vez. Não a culpava por atendê-lo e tampouco por amá-lo de forma tão extraordinariamente intensa, mas seria ela capaz de voltar para a Inglaterra simplesmente para ficar com seu pai? Sabia que ela ainda era jovem, sabia também que seu pai era um homem incrível, mas não seria o casamento mais forte do que isso, já que estando na Finlândia ela não abandonava o seu pai, mas estando na Inglaterra definitivamente abandonava ele? Talvez ele devesse ficar feliz, afinal, tivera a sorte de viver algo inexplicável, exatamente como sempre quisera. O problema é que a finitude nunca estivera incluída em seus planos. Jamais.
    Resolveu descer as escadas e preparar um café preto bem forte, já que estava tentando parar de fumar e vinha sendo relativamente bem sucedido em seu empenho, mesmo que sentisse que logo logo isso fosse esmorecer, principalmente se qualquer coisa de ruim acontecesse. Então ficou parado, ainda na escada, observando-a lá embaixo, falando e sorrindo ao telefone, usando palavras que não significavam nada para ele mas que, obviamente, eram totalmente compreendidas pelo pai dela. Deu um sorriso triste e resignado: o que ele esperava, afinal? Nunca tinha notado o quanto gostava do sotaque britânico dela, tampouco de suas características tão tipicamente inglesas. E afinal, quem saberia? Ela era livre. Mas seria amada.

sábado, 23 de julho de 2011

To Belong

  - Você está ficando igualzinha a mim - disse ele, entregando-lhe uma caneca de café e sentando-se ao seu lado com um sorriso. Ela o olhou e riu, estavam com óculos com armações praticamente iguais, roupas da mesma cor e ela havia herdado cerca de 90% das características físicas dele. Mas quanto à personalidade, era diferente. Ela era a nova vida dele, simplesmente. A versão jovem dele sem tirar nem por. As paixões, os medos, os erros, os hobbies e até mesmo as expressões faciais eram as mesmas, com a diferença de que ela não estava sozinha. Ela tivera a sorte de tê-lo sempre. Olhou-o demoradamente, com carinho, e disse:
    - Sinto informá-lo, mas eu sou igualzinha a você desde que fui gerada - ele abriu um largo sorriso. - É a coisa que eu mais me orgulho na minha vida, e olhe só, eu nem fiz nada para isso acontecer - ela riu com ele, mas logo ele ficou pensativo. Ela não precisou lhe perguntar nada.
    - Outro aspecto positivo de você ser tão igual a mim é que eu posso ver mais claramente seus erros - ele a olhou profundamente e ela o encarou de volta, intrigada. - E eu sei perfeitamente bem que essa história toda de ir embora sempre é um erro.
      Ela desviou o olhar, segurando a xícara como se ela pudesse lhe dar algum conforto. Ela sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria inevitável chegar nessa parte. Porque ninguém quer ver a pessoa que mais ama viajando pelo mundo, ainda mais se sabe que ela vai ficar sempre com saudade de casa. O pior de tudo, além disso, era aguentar a saudade. Quando ela estava em casa, eles não se desgrudavam e faziam festa por cada pequena coisa - até mesmo almoçarem em silêncio juntos era uma festinha interna. Porque a afinidade deles era assim mesmo, era simples e bom: estavam juntos, e não importava mais muita coisa, porque mesmo o que doía não doía tanto ali, quando estavam por perto. Que perigo poderia haver estando num lugar onde ela poderia chamar por seu pai e tê-lo ao seu lado no instante seguinte? Ambos acreditavam nisso e por isso mesmo sabiam que ele tinha razão. E por isso mesmo ele teve de pensar muito no que dizer para ela.
   - Às vezes eu te conheço melhor do que conheço a mim mesmo, e por isso posso te dizer que, definitivamente, não é por não depender mais de mim que você vai amadurecer e, afinal de contas, se fosse assim, você já provou isso muito bem nos anos que passou longe.
     - Eu nunca estive realmente longe...
    - Enquanto você não voltar todos os dias para casa e eu não tiver pelo menos uma refeição com você, você não está morando aqui. Nós sabemos disso. Visitas periódicas não significam que você ainda está aqui - ele suspirou. - Não, de forma alguma - acrescentou ele, balançando a cabeça e tentando não demonstrar tristeza, mas falhando totalmente. Ela o olhou preocupada. Não sabia que sua ausência era capaz de atingí-lo tão seriamente. Seu pai sempre fora, de certa forma, um homem sozinho, e ela honestamente não sabia que ele preferia tão intensamente estar com ela. Depois de tomar um gole de café e ficar por um longo tempo olhando uma foto deles no wallpaper do computador, ela falou baixo, mais para si mesma:
    - Eu tenho medo.
     Repentinamente, ele viu claramente a menina de quatro anos que ia para o seu quarto e era capaz de ficar uma noite inteira sem dormir se não o tivesse por perto. Reconheceu a menininha que dependia dele para viver lutando com toda a coragem que podia reunir para dormir sozinha em seu quarto, nem que fosse apenas uma noite por semana, apenas para vê-lo feliz. Passou a mão pelos seus cabelos macios e compridos que escorriam por suas mãos, como sempre fizeram, e fez com que ela o olhasse. Os olhos dela tinham aquela velha expressão de medo, aquela luta interior que ele não entendia como não a fazia chorar todos os dias. E ela ainda mordia o lábio inferior, exatamente como fazia quando ainda não era mais que um bebê.
    - Então vamos ficar juntos - sussurrou ele. - Vamos ficar juntos, e a lua vai se transformar em sol e se algo de ruim acontecer, bem, pelo menos nós estávamos juntos até o fim. Como sempre.
    Ela pulou para o seu colo e se acomodou como sempre, como se houvesse ali o espaço perfeito para ela. Ele a abraçou forte contra si, querendo sentir o cheiro dos cabelos dela e protegê-la de tudo. Protegê-la até o fim.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lullaby


Biting her lips to not cry, she observed every single trace of her father's face. She thought that it would never happen again, but there he was putting her to sleep again. His brown eyes, his light brown hair...The tired but smiling expression that she always knew so well was there again, with nothing but little scratches. In silence, they kept just looking at each other under the delicate light of her room. How could she possibly think of a life without him? He always felt that her birth gave a meaning to his life and never was afraid to show her his feelings. She was seventeen now, but feeling just like as she did when she was seven and her father got better from a really dangerous disease. The difference, this time, is that they had survived a war and the fear of losing him was much deeper - and he was terrified that he was, with 99% of chance, going to lose her. But there she was safely in her bed, with her blonde hair falling on her face and her brown eyes shining, full of water. They couldn't smile or say anything, they just stayed holding hands and looking at each other, besides, nothing else would really make sense.
After years of fight, finally he was safe with her. And every little and big sacrifice really worth, and she felt like she could do every single thing again. Nothing else really mattered then: her future, how would they do to get a job, how would they raise her brother without a mother, everything was just and completely secundary now. The only one thing real and important was the here and now; for the first time ever, they both didn't need hope or anything else: they couldn't ask more from life then what they had right on that moment. It was higher than they ever dared to dream.
Suddenly he moved his mouth trying to smile and took a deep breath. That was more than enough: she raised and embraced him so tight that he could even feel her heart beating crazily. And thanks God, she wasn't dreaming. Neither him.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

All My Life

  
                Apesar do vento frio da manhã no litoral, ela havia pego o costume de andar na praia, mesmo que apenas com o seu robe. Morava quase em frente à praia, uma das poucas praias indesejadas pelos turistas por causa do frio que geralmente fazia ali. Para ela, isso era bom. Tinha seu momento de paz caminhando de pés descalços todas as manhãs, antes de voltar para a realidade. A tão insuportável realidade.
                Talvez não tão insuportável assim. Agora seu filho havia começado a estudar, então ela passava os dias sozinha em casa, até seu marido chegar. O trabalho como colunista de um jornal não era exatamente algo que lhe ocupasse muitas horas, apesar de ela gostar muito de ler tudo o que lhe caísse nas mãos para que pudesse escrever cada vez melhor. O cotidiano era simples e até mesmo agradável: acordar cedo, arrumar o café para seu marido, comer suas habituais torradas com manteiga, caminhar na praia, escrever, ler. E provavelmente por ter um cotidiano tão simples é que o passado era tão capaz de assombrá-la.
                Certamente os anos passaram depressa. Era quase como se, num dia, estivesse no funeral de seu pai e no outro estivesse embarcando seu filho no trem para a escola. Na época, nada parecia mais justo: a guerra havia acabado, o casamento aconteceria exatamente como o planejado. Teve um filho homem, que herdou a aparência do pai com uma semelhança tão grande que não se podia distinguir as fotos de ambos. Tudo estava bem, ela repetia para si mesma, afinal, era uma mulher crescida e as marcas de tudo que passara deveriam simplesmente permanecer em silêncio. Mas não era nada fácil ignorar tudo o que havia acontecido.
                Deixando de olhar seus pés, levantou a cabeça para o olhar o mar, e nisso vislumbrou algo alaranjado. Virou-se para olhar e, quase como se fosse uma miragem, a alguns passos de distância ali estava ele, seu melhor amigo, o homem que nunca deixaria de ser o seu menino, com o qual ela poderia ter brincado pela vida afora sem receios. Poderia mesmo. Ainda abraçando seus próprios ombros, ela simplesmente ficou olhando-o, meio que não acreditando que ele estive ali, ainda mais depois de anos sem sequer vê-lo. Igualmente sério, ele caminhou na direção dela, os cabelos ruivos parecendo ainda mais flamejantes sob o amanhecer róseo. Caminhava com as mãos enterradas nos bolsos dos jeans, sem pressa, com uma certeza um tanto desconcertante.
                - Eu não fiquei longe nem sequer por um dia - disse, simplesmente, quando se aproximou. Ela o olhava séria e calada, os olhos azuis, as sardas, a boca bem desenhada, os cabelos extremamente ruivos e revoltos. O olhar grave e intenso, tão diferente do ar brincalhão costumeiro, o ar maduro que ela raramente havia visto. Não ousaram se tocar. Ainda era difícil demais.
                Provavelmente as coisas se tornavam tão difíceis pela lembrança de uma outra manhã, há mais de 19 anos. Uma manhã onde tudo que existia para ela eram suas perdas, principalmente a morte do seu pai. A manhã em que ele rompeu com o isolamento de dias dela, irrompendo pela sala íntima completamente decidido: ele largaria tudo por ela. Primeiro, ela ficou estupefata, depois achou graça, considerando isso apenas uma reação exagerada dele, causada pela sua imaturidade.
                Mas aos poucos percebeu que, por mais previsível que aquilo pudesse ser, ele estava sendo inteiramente sincero. E percebeu também que era mais do que justificável, era certo o que ele estava fazendo. Talvez não com os outros, não com mais ninguém, mas com eles próprios, sim. Faltava menos de uma hora para que ele assumisse o noivado com outra jovem, e mesmo sabendo que ela estava noiva, que estava completamente perdida em si mesma e fechada para o mundo, precisava ter certeza, saber que nada ficaria para trás. "Noivados podem ser desfeitos. Nossas vidas não." disse ele, com uma gravidade que a teria feito rir pelo próprio conteúdo da frase, mas subitamente isso parecia fazer sentido. Ele a beijou, gritou, como se ela simplesmente não houvesse acordado direito ainda e ele pudesse despertá-la, para ouvi-la dizer que tudo ficaria bem. Mas não ficaria. Para nenhum dos dois.
                Ela passou um dedo lentamente pelo rosto dele, como se apenas desejasse verificar se ele era real ou não.
                - Você e ele tiveram um filho. Você costumava trazê-lo para a praia quando ele era bebê, e vocês dois ficavam por horas perto do mar. Ele chegava do trabalho cedo da tarde, e ficava brincando com o seu filho completamente aparvalhado por ter um filho com você, por estar com você. Vocês nunca brigavam.
                - Como...?
                - Não importa. Só estou tentando te dizer que nunca deixei, por um dia sequer, de pensar em como você estava - ele respirou fundo. - Eu só continuei te cuidando de longe, exatamente como fazia na escola quando ninguém podia saber que eu te amava. E as coisas, essencialmente, não mudaram, não é mesmo?
                Ela simplesmente não sabia o que dizer. Não havia mágoa na voz dele, tampouco raiva. Ele apenas estava lhe contando coisas, exatamente como sempre fazia, quase como se contasse que havia ido mal numa prova mas talvez fosse ganhar o presente de Natal que queria. O dia já havia quase que completamente amanhecido, era hora de voltar para casa, preparar o café, escrever para o jornal e para seu filho. Mas naquela manhã, finalmente, as coisas seriam diferentes. Beijou-o, completamente segura de si, porque não era justo um protagonista se tornar um simples expectador. Um protagonista deve sempre continuar nessa situação e ele voltou, ensinando-a a rir outra vez, dando-lhe gêmeos ruivos e uma casa agitada e alegre. Quase como se o passado não houvesse acontecido. Quase.
               

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Swallowed In The Sea


Ela não poderia estar com uma roupa mais comum. Seus jeans, seus all star, sua jaqueta verde, seu cabelo preso num rabo-de-cavalo, tudo era tão simplório que quase a desnudava. Ela olhava, calada, a luz amarelada do entardecer de domingo se estendendo pelo gramado onde estava sentada. Fechava os olhos e podia ouvir perfeitamente a voz dele: “Quando a guerra houver acabado, você estará livre. Prometa-me então seguir seu coração. Prometa-me.”
               
Parecia que tudo seria possível após o fim da guerra, menos um recomeço. Mas ele estava certo. Ela lutara por manter aqueles que ela amava seguros e, por mais que houvesse falhado com ele próprio, que era a pessoa que ela mais amava, sabia que no fundo não era sua culpa e, em algum ponto, entenderia que ele morrera por uma causa maior do que ela podia apreender agora. Mesmo que não parece justo, de forma alguma. Mesmo que, no fundo, ela jamais pudesse compreender como poderiam lhe exigir que vivesse sem o seu pai.
                Estar despida de seu orgulho era difícil. Porque, na verdade, seu orgulho era sua proteção contra o mundo que, por mais pudesse não parecer, não havia sido exatamente generoso com ela. Apesar de tudo, ela agora simplesmente fechava os olhos, abraçando os joelhos. Não queria pensar em nada, não queria fazer nada. Estava apenas respirando e, por enquanto, era o que bastava, tinha de bastar.
Passou muito tempo de olhos fechados, concentrada nisso, ou talvez apenas um minuto, e ouviu um leve farfalhar na grama. Abriu os olhos e, lentamente, um pequeno de grupo de pessoas se aproximava dela. Postou-se de pé num átimo, e olhou lentamente, de rosto para rosto amado. Ali estavam seu pai, seu melhor amigo, seu irmão, o homem que amava, sua melhor amiga, sua madrinha e seu padrinho, todos os seus grandes amigos e todos aqueles que realmente importavam. Ficou imóvel, olhando-os como se nunca mais fosse poder vê-los outra vez, e quem garantia que poderia mesmo? Até que seu pai sorriu. Um sorriso como o dela, que começava por um brilho no olhar e se espalhava pelos lábios, iluminando o rosto redondo com suas próprias feições, e então o sorriso se espalhou... Seu irmão, sua madrinha, todos rindo, inclusive ela, rindo e chorando, mostrando que ela ainda era deles. Que ela ainda tinha uma casa, um lar para voltar. Então ela se jogou -