terça-feira, 26 de julho de 2011

A Message

Quando chegou na estação de King's Cross, ele sentou e olhou no relógio: ainda era cedo, mas a intenção era justamente a de chegar bem antes. Ajeitou seu sobretudo pardo e se acomodou para ler o livro que havia trazido consigo. Não havia lido sequer dez páginas quando o fechou, desistindo. Não conseguia se concentrar em absolutamente nada, não enquanto estava esperando por sua filha. Repassara mentalmente inúmeras vezes as coisas que queria dizer para ela, de preferência assim que ela desembarcasse do trem, porque sabia que, mesmo que essa visita houvesse sido combinada há meses atrás e fosse justificada apenas por uma ocasião especial do trabalho dele, ele sabia que poderia fazer com que fosse muito mais do que isso, poderia mudar as coisas com ela. Porque, de fato, ele sabia que as coisas precisavam mudar. E como!
No final do ano anterior, mais exatamente novembro, houvera outra cerimônia a qual ela havia sido convidada a comparecer, como sempre, e repentinamente ele teve a ideia de simplesmente convidá-la a ficar. Não por mais uma semana, nem um por um mês, mas para morar, de fato. Ele podia ter mudado de endereço algumas vezes, ter casado outra vez e ter tido outra filha, mas sempre tivera o cuidado de reservar um quarto para ela onde, inclusive, havia livros que ela gostava, roupas, enfim, tudo que haveria num quarto habitado por ela regularmente, a não ser pelo fato de ela estar morando nos Estados Unidos. Havia ido estudar medicina em Seattle e, apesar de ver que ela ser tornara uma médica brilhante e que realmente tinha talentos cirúrgicos, ele podia perceber que ela não estava em paz, o que não era de se espantar: como sempre, ela resolvera enfrentar os maiores desafios, tanto pessoais quanto profissionais, completamente sozinha. Ele desconfiava seriamente que a ida dela para Seattle não tinha nada a ver com “as lindas balsas de lá”, como ela dizia, mas era, na verdade, uma tentativa de finalmente se virar sozinha. Sua filha crescera completamente apaixonada pela Inglaterra, tanto que adorava estudar a história inglesa (principalmente quando se tratava de Elizabeth I) e se dizia orgulhosa de ser “uma garotinha inglesa”, mesmo que seu pai tivesse lhe levado para conhecer vários países europeus. Sua garotinha estava tentando crescer, mas não precisava ser dessa forma. Não mesmo. E ele é que não iria deixá-la perdida em outro continente.
Depois de intermináveis vinte minutos, finalmente podia-se ouvir o apito do trem ao longe, e em mais alguns minutos finalmente o trem chegou. Ele adorava o fato de sua filha insistir em pegar um voo até Edimburgo e então vir num trem de lá até Londres, afinal, ela dizia não haver nada mais revigorante do que uma boa viagem num trem britânico. Logo ela descia do trem, cheia de malas e com seu casaco verde favorito. Ainda parecia a mesma menininha que ele via adormecer com um livro de Jane Austen cobrindo o rosto, sempre um exemplar extremamente gasto pelo uso. Correu e o abraçou com tanta urgência que ele soube, naquele instante, que já estava mais do que na hora de fazê-la ficar. Ele tinha certeza.
Pegaram as malas dela e foram caminhando pela estação apinhada de gente, enquanto uma fina chuva recomeçava. Repentinamente, sem mais poder segurar dentro de si tudo o que sentia, ele simplesmente parou de caminhar. Ela o olhou preocupada e parou também.
- O que houve pa...?
- Por favor, só venha para casa – disse ele, subitamente emocionado. O discurso mental, todos os argumentos perfeitamente racionais, tudo isso havia se esvaído. Só havia restado nele a forte sensação de se dar por conta do quanto sentia a falta dela, todos os dias. A devastação que ele não se permitia sentir, todo santo dia, porque sabia que ela queria estar em Seattle, desceu sobre ele como uma nuvem carregada de desenho animado. Havia reunido inúmeras razões para trazê-la de volta para casa para o bem dela, mas na verdade ele precisava dela, e precisava imensamente. Respirou fundo, e simplesmente disse:
- Eu te amo, por favor, volte para casa.
Ouve-se por aí que sentem a falta dela em Seattle.

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