quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Meidän Kauneus

Sentada num banco em frente à catedral, ela chorava silenciosamente. Ao menos a neve estava caindo, o que sempre lhe agradara imensamente, não importava o quanto estivesse mal. E até então, ela nunca havia sentido tamanha dor.
Há muitos anos vinha tentando se proteger de sofrimentos, mesmo inconscientemente. Sempre que tentava abrir-se, magoava-se ainda mais, portanto não poderia imaginar que dessa vez fosse ser diferente. Mas ela sabia que em Kitee a beleza poderia ser verdadeira, no fundo sempre soubera disso. Mas não queria acreditar, para se proteger. Ele tinha belíssimos olhos cinzentos, olhos de lobo, como ela dizia, e ele gostava da comparação. Eram o tipo de casal que parecia estar junto desde sempre e para sempre, mesmo no primeiro dia em que estiveram juntos. Estranhamente, aqueles dois que todos criticavam por serem sérios demais, estudiosos demais, profundos demais, encontraram-se um no outro nas primeiras horas de conversa, nos primeiros olhares. De fato, não pareciam haver barreiras entre eles quando se olhavam nos olhos, e eles faziam isso por horas, tentando nunca deixar que essa sensação lhes escapasse. Num acordo tácito, desde a primeira vez em que os lábios se tocaram, foram fiéis e permaneceram juntos, logo morando juntos, logo habituando-se tão profundamente um com o outro no cotidiano, que se perdiam completamente se um estivesse doente ou dormisse até mais tarde.
Mas aos poucos, o veneno infiltrou-se. Porque ambos possuíam um passado um tanto obscuro, ambos haviam cometidos incontáveis erros antes de atingirem aquele estado de pureza e paz. Conforme os passados foram se revelando, os medos foram surgindo - e se não houvessem mudado? Ambos haviam mudado em essência, mas ela, principalmente, tinha medo de que ele não houvesse mudado, que outra vez ouvisse mentiras e construísse belíssimas ilusões. Diferentemente dela, ele era profundamente empático e logo notou sua desconfiança, ressentindo-se levemente disso. Ela possuía uma alma torturada, mas ele também, e talvez muito mais do que a dela. O egoísmo e o medo podem ser cruéis, ela descobria agora, enquanto sentia-se mais sozinha do que nunca naquela neve em Kitee. Ela era agora a Sra. Lautämaki, mas o Sr.Lautämaki não estava ali com ela, porque ela era tola demais para tê-lo ao seu lado, covarde demais. Subitamente, sentiu-se indigna de todas as vezes em que transaram maravilhosamente, da aliança que usava, da forma como ele a olhava. Ele fora, sem sombra de dúvida, a melhor coisa em sua vida, e ela conseguira fazer com que tudo fosse acabado, com que tudo fosse destruído debilmente. Não estava desesperada, conhecia-se bem o bastante para não estar, e por isso também sabia que carregaria a dor desse erro pelo resto de sua vida. Diferente das outras vezes em que fugira, dessa vez o erro não era consertável e o valor era insubstituível, impagável. Essa era a maior dor que suportaria.
Lembrar-se do seu estado deplorável quando conhecera-o e o quanto ele a transformara numa pessoa melhor era ainda mais doloroso. Se ela era admirável e talentosa agora, devia absolutamente tudo a ele que, dia após dia, com paciência e amor intermináveis, dava-lhe forças para aprender e construir. Quando tudo o que ela queria era desistir e sentia-se indigna do que estava aprendendo e criando, era ele quem lhe dava forças e motivação para seguir em frente, e ele era o grande homem que sustentava a mulher incrível que ela havia se tornado não apenas aos olhos dos outros, mas internamente também. Ainda havia muito a se aperfeiçoar, mas os avanços haviam sido estupendos, graças a ele. Ele mostrara-lhe toda a beleza que ela esquecera e desconhecia, trouxe-lhe as mais belas histórias e os mais belos sentimentos, dando-lhe esperança e paz, quando tudo que havia nela era desolação e angústia. Ela abandonara Helsinki, abandonara sua antiga errônea e fútil vida para estar ao seu lado, e finalmente encontrara um lugar onde ela sentia-se em casa, sentia que pertencia à aquela casa que possuía um belíssimo lago depois do quintal. Ali era o seu lar, ao lado de Erkki.
Mais memorável ainda fora aquela noite em que ela estava perdida em Kitee, havia chegado há nada mais do que 15 minutos e se perdera logo ao sair do avião. Não conhecia essa cidade antes, mas alguns amigos seus moravam ali e convidaram-na para passar uns dias ali. Ela resolvera vir antes do combinado para aproveitar uns dias sozinha, e agora estava perdida e ainda por cima desolada. Parecia que, por mais que agora houvesse decidido por tentar arduamente reconstruir a sua vida, mesmo as mínimas coisas insistiam em dar errado. Nevava exatamente como naquela tarde, e as ruas estavam completamente desertas e brancas, e ela, sentindo-se completamente desiludida, começou a vaguear pelas ruas, as mochilas fazendo-lhe com que as costas doessem, os endereços mal podendo ser lidos na penumbra. Erkki surgira como que por um milagre. Eles haviam se conhecido há apenas algumas semanas, e já haviam gostado imensamente um do outro. Quando correram para cumprimentar-se, ela parecia tão aliviada o quanto alguém que tivesse levado um tiro e agora retirassem a bala. Ele assustou-se com a angústia dela e a assombrante delicadeza que a angústia acentuava em seu rosto redondo. Seus olhos escuros brilhavam em meio à neve, e ela ainda não percebia as reais razões de estar tão sinceramente feliz em vê-lo. Ele perguntou-lhe que diabos ela fazia perdida na neve, e ela pediu que ele a levasse a qualquer hotel. Ao invés disso, ele convidou-lhe a conhecer a aconchegante casa com um lago no quintal. Enquanto ela olhava fascinada como uma criança para o lago congelado, ele tirou-lhe uma foto polaróide. Ao invés de ficar brava, ela sorriu e ele abraçou-a, supostamente para mantê-la aquecida nos -19ºC daquela noite. Os olhos de lobo encontraram-se com os olhos castanhos, e logo ela conhecia o belo quarto dele, que logo seria seu também.
Era doloroso lembrar dos detalhes supostamente mais insignificantes, mas justamente por isso mais íntimos. Depois de transarem, era maravilhoso quando perdiam-se um nos olhos do outro e ela podia observar cada mílimetro, cada inspiração de Erkki, os olhos cinzentos, o cavanhaque loiro, a intensidade de seu olhar, os longos cabelos negros esparramados pelo travesseiro, misturados aos quase ruivos dela. Esqueciam-se de qualquer coisa que não fossem seus própios sentimentos naqueles momentos que por vezes duravam horas. Ele acariciava-lhe o rosto delicadamente, beijava-lhe, possuía-lhe da forma mais intensa. E não importava o quanto isso se repetisse, não perdia o seu valor. E era desesperador amar dessa forma.
Ela se afastou aos poucos, não sem que ele percebesse e se magoasse. A dor era clara nos olhos cinzentos de Erkki, e ela fingia não se importar, quando na verdade sufocava internamente. O problema é que ele era muito além do que ela jamais ousara sonhar, e quando você ganha muito além do que pediu, você pode fazer duas coisas: ou desconfiar ou morrer de medo de perder. Ela fez ambas tolamente, porque amava Erkki, e isso não era segredo algum, por mais que ela tentasse negar, disfarçar e reprimir de todas as formas possíveis. A dimensão dos sentimentos por Erkki e o significado que ele adquiria para ela eram imensos demais, profundos e belos demais para se suportar. E ela era apenas uma criança, no fundo. Assim como ele.
- Kirsi!
Ela foi tão violentamente acordada de seus devaneios que sequer lembrou-se de limpar as lágrimas. Erkki corria na neve em sua direção, sem sequer um casaco pesado, e mesmo de longe Kirsi podia ver a dor transformando seu belíssimo rosto. Ela tinha certeza que, apesar de não ser o tipo de coisa que ele normalmente faria, ele estava ali para lhe pedir que fosse definitivamente embora, e talvez até mesmo o divórcio. Eles haviam se casado na véspera de Natal, na data favorita deles - e esse era apenas mais um dos detalhes dolorosos que Kirsi carregaria junto com o seu arrependimento. Quando ele chegou perto dela, ofegante, ela levantou-se, olhando-o completamente desesperançosa, profundamente triste. Havia uma tristeza tão óbvia, tão sincera e profunda que, mesmo se Erkki houvesse vindo com outras intenções, ele sentiria-se profundamente tocado por sua expressão. Os olhos castanhos, outrora brilhantes e vivos mesmo no escuro, agora mal refletiam o brilho da claridade da neve que cobria todo o lugar. Incapaz de conter-se, ele segurou seu rosto entre as mãos com delicadeza e urgência. Ela assustou-se tanto com essa ternura completamente inesperada que por pouco não recuou, mas agora tinha consciência suficiente de quem Erkki era em sua vida para não cometer esse tipo de erro.
- Eu sei que você está assustada - começou ele, com sua voz de trovão -, mas você não tem a mínima razão para estar, acredite em mim. Eu já fui provavelmente tão magoado e traído o quanto você, mas também mantive meu coração e minhas intenções puras. Você não pode ter certeza quando olha em meus olhos? - ele agora parecia tão desolado o quanto ela, os olhos cinzentos cheios de lágrimas, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto de Kirsi. Ele prosseguiu, descendo as mãos para segurar as delas, que estavam congelando como de costume.
- Eu sei tão bem o quanto você como é duro acreditar em uma perfeição, em uma beleza pura, e depois descobrir que tudo é uma grande e suja mentira. Sei o quanto é difícil confiar depois de ilusões e mentiras. Mas nós dois sabemos que encontramos algo raríssimo, sabemos que somos verdadeiros. Não tente mentir para si mesma, fugir ou se enganar tão erroneamente. Lembra-se do quanto estávamos assustados quando começamos, o quanto ficamos assombrados com nossas profundas semelhanças, com nossas afinidades? - ela assentiu com a cabeça, feito uma criança magoada. Se não fosse tão inseguro, ele beijaria-a no mesmo instante. - Nós ficávamos madrugadas inteiras planejando um futuro juntos para nos acalmarmos e acredite, meu amor, eu quero realizar exatamente tudo o que planejamos. Já realizamos boa parte e eu quero seguir, porque você é o meu sonho, e eu não desistiria do que encontramos por nada, absolutamente nada - ele balançou a cabeça negativamente, olhando-a profundamente, e ela sentia-se como se ele a penetrasse por inteiro, como se ele pudesse ver cada sentimento dela. Ele falava grave e desesperadamente, mas ainda assim moderado. Suas lágrimas escorriam silenciosamente, e nem por isso ele parecia-lhe detestável ou sequer sensível demais. Ele era perfeito, a perfeição que ela jamais imaginara de fato existir, e ele lutava por ela sem se humilhar, mas sim com amor, com sinceridade. Ela conhecia-o bem demais para não saber que ele lhe dizia a verdade, e então ela abraçou-o fortemente, libertando toda dor, todo choro, toda angústia que a sufocava. Erkki, completamente aliviado, beijava-a repetidamente no rosto e apertava-a contra si, sentindo-a profundamente nele. Beijaram-se sob a neve, e ela era tão delicada quanto o amor que havia nos olhos dele. E o Sr. e a Sra.Lautämaki voltaram para a sua casa com um belo lago congelado, para comemorar um ano de casamento e do amor mais sincero que jamais poderiam ter de outra forma, aquele que os construía e mantinha-os belos e admiráveis como anjos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

That's the way.

É totalmente inútil continuar pensando em você mesmo depois de tanto tempo e sob essas circunstâncias, e eu não sei porque ainda faço isso. Mas faço. De tempos em tempos, é verdade, mas faço.
Talvez a nossa distância seja justamente para eu aprender a te valorizar, ou simplesmente porque nós não éramos nada demais. Ainda assim, é difícil explicar nossa cumplicidade e nossa afinidade. Mesmo depois desse tempo, ainda não consigo entender como, mesmo sendo quase estranhos, nós nos entendíamos tão bem, silenciosamente tão bem. Aquelas duas madrugadas ótimas talvez nada tenham significado de fato em nossas vidas, mas foram maravilhosas, inegavelmente. Eu me sentia bem com você como nunca havia me sentido, simplesmente liberta. Havia algo estranho, como uma intimidade inexplicável e uma afinidade igualmente rara, uma ligação que me escapa até hoje em seus mistérios. Tenho certeza absoluta que poderíamos fazer muito bem um ao outro, como fizemos naquelas madrugadas, mas aí nós nos afastamos e acabamos ficando sem ter o que fazer. As lembranças vagas são tudo o que resta, e talvez nós pudéssemos nos reencontrar, mas não acho que isso vá acontecer, e talvez isso seja parte do seu encanto. Você é a luz esquiva daquelas madrugadas entorpecidas, o pouco de vida que havia naqueles tempos. E que me escapa.

Carta I, Destinatário V

(Escrito no começo de 2009.)

Eu sei muito bem, agora, que minha vida sem você não faz sentido algum. Um dia sem seu sorriso, sua voz ao telefone, seus abraços, fica estranho, deslocado, quebrado. É estranho me sentir assim, já que tive você ao meu lado durante toda a minha vida, mas isso não parece bastar. Afinal, que graça teria tomar um porre no Rainbow se depois não vou acordar com o seu cabelo em meu rosto e com você falando baixinho por causa da minha dor de cabeça? Passar uma semana toda à base de McDonald's, MTV e Rainbow? Só você sabe fazer isso comigo. Ao longo dos anos, estar com você se tornou uma (ótima) necessidade. Eu não conseguiria te dizer o quanto gosto de ouvir sua voz, de rir com você e de te abraçar do nada. Falando nisso, eu simplesmente amo te abraçar, porque o que mais gosto é sentir seu cheiro, sua pele. Sem seu abraço sabe-se lá Deus se eu ainda estaria aqui.
Antigamente, eu tentava não enxergar tudo o que havia entre nós. Essa nossa cumplicidade, a sintonia de nos entendermos com um olhar, a intimidade de podermos dormir abraçados sem transar, de podermos nos abraçar do nada, só para nos sentirmos ainda mais próximos.
Mas o que realmente me mata (e me faz te amar ainda mais) é o seu olhar. Através do seus olhos verdes, eu sei quando você está chateado comigo, quando está magoado, e existe uma coisa que nunca muda neles: o amor que eu vejo neles. Ele às vezes tenta se esconder, às vezes aparece de outra forma, e por muitas vezes eu própia tento ignorá-lo, mas às vezes ele aparece completamente nu, e ele sempre está lá, como um brilho incessante. E eu não saberia se alguém não houvesse me dito, mas ele sempre esteve lá. E por mais que eu tente esconder, abafar, sufocar, ele também está em meus olhos. Ele se manifesta quando te abraço forte, quando sinto seu cheiro, quando lembro dos nossos momentos juntos, e em muitos outros indizíveis momentos.
Eu já parei para pensar em como as coisas poderiam ter sido muitas vezes. Lembro das vezes em que quase nos beijamos, e que eu não permiti por puro medo. Das vezes que te magoei injustamente por causa da minha obsessão pelo meu marido. Quando eu lembro o jeito que você me olhou no dia em que eu entrei na igreja para me casar, eu penso que talvez eu devesse ter largado tudo por você naquela noite mesmo, mas naquela época eu não cogitava isso; eu continuava viciosamente ao lado do meu marido (e estou até hoje, mesmo depois de tudo, eu sei), e eu ignorava tudo que existia nas horas que passávamos juntos. Agora, não consigo mais ignorar e fingir que não há um amor reprimido entre nós. Isso transparece no modo como agimos juntos, e não acho que alguém tão próximo de nós quanto sua filha ou o marido dela não veja tudo isso - até porque ele é o seu melhor amigo.
Por mais inacreditável que possa lhe parecer, eu sei que nada dura para sempre, e talvez algum dia as coisas possam mudar entre nós. Sei que parece que isso nunca vai mudar, e que também parece que eu continuarei eternamente casada com ele, mas nunca se sabe. Você me conhece suficientemente bem para saber que isso não é uma promessa, mas é ao menos uma prova de que eu já não tento esconder de mim mesma que existe algo de muito bom entre nós, eu diria até mesmo raro, e que isso um dia pode se tornar em algo incrível para nós dois. Talvez você sequer imagine o quanto é correspondido, mas como nós nunca conversamos abertamente sobre isso, as coisas vão ficar assim até que você se decida pelo contrário ou aconteça algo que nos faça decidir sobre isso. Se até mesmo sua filha e o marido, que brigaram feio tanto até se separarem ainda possuem uma esperança, por que não nós, também? Acho que o nosso único erro é a insegurança de ambas as partes; de mim por não me divorciar, de você por não me dizer de uma vez por todas o que sente.
Tudo isso foi simplesmente para que eu te amo, que preciso profundamente de você. Em algum lugar de minha mente, eu estou com você, em paz. E te amando sem medo e nem culpa.

Deixar-te

(Escrito em uma crise sentimentalóide em agosto de 2009.)

Hoje olho para você, e percebo que é a única coisa que jamais mudou em minha vida. Te vejo ali, deitado tranquilamente em nossa cama, e tudo está em seu lugar. E então penso: como poderia te deixar? Em minha vida, você foi a tempestade e a calmaria, o sol e as noites longas, os sorrisos e as lágrimas. É como se você fosse minha camiseta favorita: pode parecer desbotada e velha aos olhos dos outros, porém ainda é a mesma para mim, que já não posso e talvez nunca poderia encontrar substituta à altura.
Deixar-te seria deixar a mim mesma, pois sem você já não sei quem eu seria. Não posso deixar-te porque te amo, porque sem você é como não ter um braço ou não poder comer sorvete de morango (coisa que só é suportável com você). Por outro lado, talvez te deixar possa me libertar. Se eu te deixasse, tudo em minha vida mudaria. Eu sairia de casa, iria dormir e chegar em casa a hora que eu quisesse e viajaria quando bem entendesse. Conheceria outras pessoas, reveria velhos amigos e até me envolveria com outros caras, até que você estivesse fazendo falta demais para eu continuar longe de casa.
Ir em frente ou permancer aqui são duas opções completamente diferentes, mas só é preciso de um pouco de coragem para se decidir. Permanecer é fácil, difícil é conviver com a eterna dúvida sobre o que teria acontecido se eu houvesse partido. Essa travessia será difícil, mas em algum momento eu sei que terei de fazê-la. Creio que é melhor que seja agora, enquanto eu ainda tenho esperança o suficiente para me recuperar de seja lá quantas mágoas eu sofra. Tudo o que eu preciso agora não são promessas de eternidade ou uma segurança maior: preciso me sentir viva.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Perfeição

Apesar da chuva, ele saiu para comprar mais cigarros. A madrugada mal começara e ele não ficaria até de manhã sem cigarros, ainda mais que a chuva parecia aumentar. Quando chegou em casa, com cinco maços dos cigarros favoritos deles, ouviu um barulho na cozinha. As luzes estavam ligadas, ele estranhou. Ela só deveria chegar no meio ou até mesmo no fim da madrugada mas estava ali, soluçando no chão. Seu maravilhoso vestido vermelho parecia esparramar-se por todo o piso da cozinha branca feito sangue, e as luzes eram fortes demais, tudo branco demais. E o vestido, sangue.
Cuidadosamente, ele se ajoelhou ao lado dela, que apertava o rosto com as mãos, os soluços sacudindo todo o corpo. Ela chorava ruidosamente, os cabelos desfeitos, a maquiagem provavelmente borrada. Estava linda antes de sair, parecia um anjo com sua pele clara contrastando perfeitamente com seu vestido, seus brincos de diamantes, seus olhos escuros e brilhantes, seus longos cabelos perfeitos. Agora ela estava ali, completamente desfeita, mas não parecia uma colegial abandonada (até porque, já tinha 27 anos, apesar de aparentar ser mais nova), e sim uma criança abandonada. Uma criança completamente desolada.
Carinhosamente, ele passou a mão pelo seu ombro exposto, e ele pode sentir sua respiração completamente desregulada, os soluços, o desespero. Sem falar, ele a pegou no colo como se ela fosse um bebê, de fato, e ficou embalando-a levemente ali mesmo, no chão da cozinha do apartamento deles. Aos poucos, os soluços foram diminuindo e a sua respiração normalizando. Ela o olhou então pela primeira vez, parecendo ligeiramente surpresa de a realidade ainda ser a mesma de antes de sua crise. Ele não falava nada. Olhava-a com amor e angústia em seus olhos azuis, mas principalmente empatia. Não era à toa que eles se amavam. Haviam se encontrado no mais profundo estágio de dor, e não precisaram de palavras para se unirem.
- Ela não se importa - sussurrou ela, com um fiapo de voz. - Eu... Eu achei que ela estaria orgulhosa, sabe? Que eu finalmente...fi...
A respiração dela começou a falhar e ela parecia estar prestes a ter outra crise de ansiedade. Ele a beijou na fronte e permaneceu com o rosto próximo do dela, fazendo-lhe carinho nos braços, nos cabelos, no pescoço, até que ela adquirisse uma relativa calma outra vez. Quando viu que ela parecia estar com o olhar perdido outra vez e com a respiração mais regular, ele se tranquilizou. Sabia que as crises haviam passado quando ela ficava assim. Aproximando-se bem dela, ele sussurrou carinhosamente:
- Você não precisa me contar nada agora, absolutamente nada, meu amor - ele se levantou sem grandes dificuldades com ela ainda no colo. - Nós vamos dormir bem abraçados, você vai se aninhar em mim e nós dormiremos e ficaremos na cama até não suportarmos mais isso. Então, se você quiser, você pode falar sobre isso, está bem?
Ela concordou rapidamente com a cabeça, como faria uma criança machucada. Ele então a levou para o quarto e a deitou na cama, deitando-se ao seu lado. Tirou-lhe os belos sapatos de saltos altíssimos e a acomodou junto a si, fazendo-lhe carinho nos cabelos calmamente, olhando as sombras que a chuva na janela projetavam na parede. Ela o beijou nos lábios e pareceu adormecer em algum tempo.
A verdade é que ela não precisaria contar absolutamente nada para ele. Ele sabia muito bem que naquela noite, em que ela se transformara doutora em sua área, a sua mãe não sentira grande orgulho, mesmo que ela fosse bastante jovem para a conquista e sempre houvesse sido não apenas uma filha inteligente, mas exemplar também. Mesmo dizendo-lhe os parabéns costumeiros e tentando se mostrar orgulhosa, ela no fundo sabia que a mãe, por algum motivo completamente desconhecido, repreendia-a, talvez até mesmo se envergonhasse - o que não era de se surpreender, já que toda a sua vida ela fora repreendida silenciosamente, sem nunca saber porque, mesmo que se esforçasse e conseguisse tudo, mesmo que fosse praticamente perfeita. A mãe dela fazia-a sentir-se um verme, essa era a verdade. Mas ele encontrara cada partícula, cada átomo que constituía essa mulher perfeita pela qual ele se apaixonara. Ele conhecia, descobrira dia após dia a sua perfeição rara. E mesmo que para os outros ele parecesse um verme de cabelos loiros, ela encontrara nele também uma beleza que ninguém mais vira, e que ele até então não acreditava existir. Um dia, ambos fugiriam e viveriam sozinhos. E pela primeira vez na vida inteira, teriam alguma paz.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Found

Com um sobressalto, ela acordou-se, sentando-se rapidamente na cama. Outro pesadelo onde aquela velha sensação de irrealidade voltava, a angústia corroendo-na em cada segundo de seus dias. Eles estavam tão entrelaçados que ele acordou no mesmo instante; ainda sonolento e com a voz mais rouca do que o habitual, ele perguntou:
- O que houve, querida?

- Nada demais, só um sonho ruim - disse ela, mais grave do que pretendera, aconchegando-se outra vez ao corpo que ele lhe oferecia. Ela não podia ver o rosto dele, mas ele subitamente ficou apreensivo, começando a acariciar os cabelos dela. Ela fechou os olhos, permitindo-se um profundo suspiro. Quando diabos tudo aquilo teria fim? Sentia-se tão acorrentada o quanto antes de tentar se libertar, então, de que adiantava insistir?
- Você já pensou que, em poucos dias, nós faremos aniversário de quinze anos de casamento? - sussurrou ele, carinhosamente. Ela foi despertada de seus devaneios - todos diziam-lhe que ele era um homem violento e obsessivo, mas eles desconheciam essas madrugadas, esses abrigos que ele parecia ser especialista em fornecer. Sem dramas ou grandes cenas, simplesmente um conforto subjetivo, da forma que ele sabia funcionar perfeitamente. Ele pegou sua mão esquerda e acariciou-lhe a aliança, olhando-a sorrindo. Apesar de ter os olhos cheios d'água, ela retribuiu o sorriso. Na penumbra, só podia ver o brilho dos olhos dele e alguns contornos da barba por fazer. Eles desconheciam essas doçuras súbitas, esses carinhos que só ele sabia fazer sem se tornar detestável. Ela beijou-lhe longamente nos lábios e sussurrou, ainda próxima dele:
- Sim, eu tenho perfeita consciência de que em seis de janeiro faremos quinze anos de casados - ela sorriu, enquanto ele passava a mão por seus cabelos. - Para um casal que não duraria nem seis meses juntos, acho que fomos um tanto longe, não?
Os dois riram levemente, aconchegando-se um ao outro. A diferença de idade, a diferença de personalidade, a diferença de vida fazia com que ninguém acreditasse que ambos pudessem de fato ficarem juntos. Nada disso atrapalhou-os nem que fosse por um momento. Sem que tivessem de se esforçar, as coisas simplesmente foram se acertando, como se esse fosse o rumo natural das coisas - e talvez de fato fosse. Com súbito desejo, ela começou a beijar-lhe no pescoço, apertando-lhe as coxas, puxando-o para si com firmeza. Ele prontamente começou a retribuir-lhe as carícias e em pouco ele penetrava-a intensamente, como de costume, e era tão bom que eles perdiam as contas de quantas vezes repetiam-se nesses gestos. O prazer, ah sim, o prazer que ele lhe proporcionava também era um ponto desconsiderado pelas outras pessoas que os julgavam. E honestamente, nada daquilo nunca importara.
Com as pernas entrelaçadas ao redor do corpo um do outro, eles pararam por um instante, ele apoiou sua face na dela, aspirando seu cheiro, retomando o fôlego. Ela abriu os olhos e ali estava ele, ainda tão atraente o quanto sempre, os olhos fechados, parecendo profundamente concentrado naquele exato instante que estavam vivendo. Talvez, e só talvez, ela realmente pudesse estar presa a ele, entrelaçada de uma forma irreversível, mas de alguma forma, ela não conseguia considerar isso ruim. É certo que por muitas vezes houveram brigas, por muitas vezes ela quis morrer, mas nem por isso eles se amaram menos - e se amaram de uma forma incompreensível para a maioria das pessoas. Ambos poderiam ter qualquer outra pessoa para si, mas queriam um ao outro irrevogavelmente.
Havia um segredo. Um segredo tão íntimo e profundo que ela nem ousava contar a ele própio, talvez justamente por ser tão íntimo que um pouco do sentido desse segredo escapava-lhe, deixava-lhe sem palavras, era mais uma sensação do que um fato propiamente dito ou um sentimento com forma definida. O fato era que ele simplesmente não esperava nada dela. Simples assim. Ele estava ali e amava-a naquelas madrugadas agradáveis, mas amaria-a com o mesmo fervor se fossem tempos difíceis ou se estivesse absolutamente furioso ou desapontado com o mundo. Ela cometia erros, acertos, surtava, encolhia-se, expandia-se, silenciava, e ele estava sempre ali, seus olhos azuis amando-a indefinidamente. Ele era uma paz, uma absoluta tranquilidade de não dever e não precisar nada, não esperar. Ao lado dele não fazia diferença se ela havia sido uma grande atriz ou se nunca havia conseguido mais do que uma pequena participação num seriado de tv, não importava se ela queria trabalhar o tempo todo ou se queria ser ociosa. Ele amava-a além do que os outros podiam percebê-la, amava-a além de sua própia percepção de sentimentos.
Em paz então, os dois fumavam de mãos dadas na semi-escuridão do quarto que dividiam há mais de dezoito anos. O nome dele tatuado no ombro direito era muito mais do que uma marca qualquer, era uma marca interna. Os minutos poderiam ser horas ou semanas, e isso era incrivelmente bom. Perdiam-se na imensidão das noites juntos, e não precisavam de mais nada, silenciosa e subitamente. Encontravam-se um no outro, e era tão simples que chegava a ser raro.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Soul.doc

Sohvi correu rapidamente até o quarto dos pais, abrindo a porta e pulando diretamente na cama. Sua mãe riu, abraçando-a fortemente contra si.
- Olá querida, como está? – ela lhe beijou a fronte e sorriu. Sohvi beijou a mãe e sentou-se na cama, sorridente.
- Estou bem mamãe, e você?
- Também - disse ela, com um sorriso cansado, dando uma profunda tragada em seu cigarro. - A Sra.Nevalainen estava apenas te esperando para servir o almoço.
Antes que Sohvi pudesse responder, dois jovens altos e loiros entraram no quarto, correndo a abraçar Elizabeth.
- Mamãe! - disseram os dois em uníssono, apertando-a entre ambos, fazendo-a rir.
- Olá meus amores - disse ela, risonha. - Como estão os meus meninos? - ela acariciou o belo rosto de Mikael e em seguida olhou para Perkko, que já caminhava em direção à enorme estante de livros que cobria toda uma parede do longo quarto.
- Com dores nos pulsos - disse Perkko, passando um dedo pelas lombadas dos livros, o cenho franzido. - Aonde está o volume único de O Senhor dos Anéis?
- Eu não o possuo querido, tenho os três volumes separados - disse ela, acendendo outro cigarro e deitando-se na cama outra vez. - O volume único é de Tommi, e receio que ele tenha levado junto com ele na turnê.
- Droga - resmungou Perkko, pegando A Sociedade do Anel e colocando debaixo do braço. - Queria reler todos essa noite.
- Eu preferiria reler Harry Potter, mas tenho que praticar - disse Mikael, sentando-se na cama ao lado de Elizabeth e acariciando-lhe os longos cabelos arruivados. Ela o olhou sorrindo.
- Você sabe muito bem que pode tirar uma folga, querido. É o melhor baixista de 15 anos que eu conheço.
- Você não deve conhecer muitos, então - disse Perkko, rindo e sendo repreendido por um resmungo de Elizabeth. Mikael sorriu para ela, tranquilizador.
- Não se preocupe. Ele diz que eu sou o pior baixista que ele conhece no mínimo umas 20 vezes por dia. No começo, fazia com que eu praticasse bem mais, mas agora eu já sei que ele fala da boca para fora.
- Ainda bem que você sabe, querido - ela sorriu, alisando-lhe os longos cabelos loiros. Sohvi sentou-se ao lado de Mikael, visivelmente com ciúmes.
- Mamãe, posso aprender um instrumento quando eu crescer?
- Seu pai lhe ensina teclado desde que você tinha quatro anos, o que mais você quer?
- Não sei, algo com cordas - disse ela, dando de ombros. - Já faz quatro anos que pratico e, mesmo assim, ainda não tenho certeza de que é o teclado o que eu quero.
- Tente o piano - disse Mikael.
- Grande diferença - resmungou Sohvi, enquanto Perkko sentava-se aos pés da cama e começava a reler o livro.
- Há uma grande diferença sim, filha - disse Elizabeth, levantando-se com certa dificuldade. Parecia ter envelhecido nos últimos meses, e ter perdido cerca de quatro quilos dava-lhe um aspecto ligeiramente cadavérico. Mikael pegou-lhe pela mão e a ajudou carinhosamente. Ela sorriu-lhe grata.
- Vamos, crianças, o almoço já está pronto – ela se dirigiu à sala de jantar apoiada em Mikael, que lhe conduziu gentilmente até o seu lugar à mesa. Sohvi e Perkko os seguiram sem muito entusiasmo. Sohvi estava aborrecida pelo ciúmes que sentia de Mikael e Perkko estava simplesmente distraído, relembrando a última música que estivera ensaiando na nova bateria que havia ganho de aniversário.
A governanta, uma senhora não muito mais velha do que a própia Elizabeth, fez com que o almoço fosse servido. Trouxe lasanha e galinha assada, para a alegria das crianças. Sem apetite, Elizabeth observava-os comer e conversar com um sorriso vago, quase como se o presente já houvesse se tornado uma lembrança para ela. Repentinamente, o almoço foi interrompido pela porta da sala de jantar sendo aberta. Tommi surgia ainda com as malas nas mãos. Sohvi correu e pulou em seu colo, enquanto ele sorria para Elizabeth e pegava Sohvi no colo.
- Papai, você voltou antes! - exclamou ela, extremamente alegre, beijando-o repetidamente na bochecha. Ele riu e afagou-lhe os cabelos loiros.
- Voltei sim querida, queria fazer uma surpresa para você e para a mamãe - ele soltou Sohvi e voltou-se para Elizabeth, que tinha se levantado e olhava-os de perto, sorrindo. Os dois trocaram um olhar intenso e se abraçaram fortemente. Tommi afagou-lhe os cabelos, aspirando o perfume que vinha deles e suspirando disfarçadamente. Elizabeth deu um beijo carinhoso em seu rosto e ambos trocaram um sorriso amoroso, e Sohvi sorriu observando-os. Nunca havia visto eles se beijando, exceto em vídeos dos tempos em que ainda namoravam, dos tempos em que eram noivos e do casamento. Ao vivo, ambos sempre foram extremamente púdicos em frente a ela, mas estranhamente ela adorava vê-los juntos, tinha-os como um verdadeiro conto de fadas. Sohvi suspirou, sorrindo, enquanto Elizabeth e Tommi sentavam-se à mesa, Tommi cumprimentou seus sobrinhos e eles retornaram sorrindo também. Tommi olhou-os e disse, enquanto a Sra.Nevalainen trazia-lhe talheres e um prato:
- Seu pai também está em casa, pediu que eu os avisasse.
- Como é que o titio Rikku sabia que eles estariam aqui?
- É meio óbvio, não é mesmo? - sorriu Mikael, comendo com apetite seu pedaço de lasanha. - De qualquer forma, vou acabar de comer antes de ir. Falei com papai ontem à noite, ele que espere um pouco.
- Seu pai estaria com saudade mesmo que vocês houvessem se falado há cinco minutos - disse Elizabeth, num tom de censura. Mikael apressou-se a comer rapidamente e despediu-se dos tios junto com Perkko, indo para casa. Depois de comer a sobremesa, Sohvi foi para o seu quarto dizendo que tinha de fazer a lição de casa, mas na verdade queria mesmo era deixar seus pais sozinhos. Sentia-se um pouco excluída quando seu pai começaava a contar à sua mãe como havia sido a viagem e ela o olhava amorosamente, por vezes acariciando-lhe a mão ou os cabelos. Seu pai tinha longos cabelos loiros e crespos, iguais aos dela, mas ele tinha um hábito de tingí-los de negro desde a juventude, hábito este que não dava o mínimo sinal de perder. Seu pai era poeta e músico, e que ela soubesse sua mãe havia sido a única mulher em sua vida. Em sua imaginação, seus pais eram como um rei e uma rainha com uma história especialmente bonita. Era verdade, sua mãe andava doente e abatida, mas quando fazia perguntas sobre isso sua mãe sempre sorria e dizia que estava tudo bem. Sohvi sabia que não estava, sabia ler a tristeza nos olhos de sua mãe.
Antigamente, sua mãe levava-a para passear, lia-lhe livros inteiros e contava-lhe histórias fantásticas que inventava na hora. Agora sua mãe passava a maior parte do tempo na cama, fumando ou lendo, e às vezes escrevendo por horas intermináveis. Dificilmente saía para passear e sequer ia aos ensaios da banda que Mikael e Perkko haviam recentemente formado. Isso era o que mais preocupava Sohvi - sua mãe não perdia sequer uma aula de natação de Mikael antigamente, e agora eram ele e Perkko que vinham visitá-la, porque ela não saía mais. Sohvi estava tão perdida em seus pensamentos que se assustou quando sua mãe bateu na porta de seu quarto e a abriu com seu consentimento.
- Hoje à noite tio Rikku, tia Silja, tio Ransu e tia Hemi, tio Matti ah... todos os seus tios e as crianças virão jantar. O que você sugere como cardápio?
- Por que você ainda se refere à Perkko e Mikael como "crianças", se eles tem 17 e 15 anos?
- Porque eles sempre serão crianças para mim, assim como você - disse ela, sorrindo. - Eles não passavam de bebês quando eu os conheci, e eu convivia muito com eles naquela época. É impossível perder a imagem que tenho deles.
- Hum... Ok - Sohvi parecia um tanto cabisbaixa e Elizabeth percebeu. Entrou no quarto e levantou-lhe delicadamente o rosto.
- O que houve, querida?
- Eu queria que o vovô estivesse aqui - e antes que Elizabeth pudesse fazer perguntas, ela se explicou -, porque você sempre se alegra e fica bem quando ele está por perto.
- Mas querida, a mamãe está bem - disse Elizabeth, puxando Sohvi para o seu colo. Ela afundou a cabeça no colo da mãe, quase chorando. - O que a faz pensar que não?
- Você anda abatida e não come nada, mamãe, tampouco me conta as histórias que eu tanto gosto.
- Mas posso contar-lhe uma agora...
Sohvi olhou-a nos olhos com firmeza, como quem diz "Não fuja do assunto". Elizabeth mordeu o lábio inferior, apreensiva, e beijou-lhe a fronte, saindo do quarto. Não sabia o que dizer para a filha, e Sohvi subitamente sentiu que suas preocupações tinham razão de ser - mas na verdade nunca havia duvidado disso. Chorou até que adormeceu, sendo despertada apenas quando faltava pouco tempo para o jantar.



Diferentemente dos últimos dias, no jantar Elizabeth parecia radiante. Vestia uma regata branca que lhe caía perfeitamente bem, ainda mais com os jeans que usava. Tio Rikku havia sentado ao seu lado e os dois conversavam alegremente. Ela parecia ter rejuvenescido cinco anos, no mínimo, e Sohvi não sabia se tinha essa impressão pelas roupas que ela usava ou se pela alegria que ela parecia sentir. É claro que a mãe poderia estar fingindo para que ela não se preocupasse, mas achava difícil que aquela luz nos olhos castanhos da mãe pudesse ser forjada. Mikael parecia refletir sua alegria, assim como Rikku. Tommi observava-os, entre pensativo e feliz, e Sohvi observava cada movimento da mãe. Seus outros dois tios conversavam animadamente também, e suas mulheres ocupavam-se das crianças de uma delas, Helmi. Sohvi não se importava muito, cuidava sua mãe o tempo todo. Ela havia comido bem, no começo ainda estava sem apetite mas quando ia recusar mais comida, Rikku pedia-lhe "Por favor Lizzy, para comemorar nossa chegada!" e ela aceitava com um sorriso o que ele lhe servia. Rikku parecia cuidar dela, como sempre. Tommi observava o irmão, entre pensativo e grato.
Depois de algumas horas, quando já haviam ido para a sala de estar e Sohvi entretinha-se em montar um quebra-cabeça de 500 peças com Mikael, Perkko relia A Sociedade do Anel e os adultos conversavam bebiam e riam diante da lareira, subitamente se deram por conta que haviam acabado os cigarros dos quatro (Ransu, Helmi, Matti e Heidi haviam ido embora; os primeiros por causa de seus filhos pequenos que haviam adormecido, os segundos porque acabavam de ficar noivos e precisavam de mais tempo sozinhos). Rikku prontamente ofereceu-se para buscar mais cigarros, mas Elizabeth se opôs, dizendo que ele e Silja eram convidados e ela é que deveria comprar o que faltava. Rikku não quis deixá-la sair sozinha na noite e, antes que Tommi pudesse dizer que ele próprio compraria mais cigarros e uísque, Rikku convidou Lizzy para ir com ele.
Prontamente ambos saíram, dizendo que voltariam rapidamente. Sohvi beijou a bochecha da mãe quando esta colocava um casaco de flanela azul e branco, e sorria alegre porque havia achado um último cigarro no bolso da frente. Tommi apenas riu, não reivindicou o cigarro achado em seu casaco. Sohvi ficou observando seu tio e sua mãe saindo na noite. A neve caía e sua mãe teve um leve estremecimento ao sair, mas Rikku puxou-a para si, fazendo-a rir, mais sinceramente do que Sohvi jamais lembrava ter visto. Ambos entraram no carro e Sohvi ficou pensando no que sua mãe lhe dissera uma vez, que seu tio era o melhor amigo dela. Pela lógica, não seria o seu pai quem deveria ser o seu melhor amigo? Segundo sua mãe, haviam coisas que não se podia contar para seu marido. Sohvi não entendera muito bem mas concordara, não tinha dúvidas de que sua mãe e seu tio eram melhores amigos, de fato. Com um leve suspiro, Sohvi voltou a se concentrar no quebra-cabeça com Mikael.



Estranhamente, já havia se passado mais de uma hora e Rikku e Lizzy não voltavam. Tommi estava extremamente apreensivo e Silja estava nos braços de Perkko, que tentava mantê-la tranquila, sem sucesso. Rikku e Lizzy haviam ambos se esquecido dos celulares, e todos ali sabiam muito bem que nessa época, a neve muitas vezes impossibilitava o tráfego em Kitee, mas algo dizia a Tommi que não estava tudo bem. Ele sempre fora um pouco sensitivo, e podia farejar de longe o que se passava com Elizabeth, sempre. Quando ele já estava se preparando para ir atrás dela e de seu irmão, o telefone de casa tocou. Tommi correu a atender, apreensivo. Seu rosto foi se contraindo e tornando-se ainda mais tenso, conforme ouvia e concordava, já arfante. Silja olhava-o apreensiva, a argola parecendo que ia saltar do nariz de tão rápido que respirava. Perkko acariciava os longos cabelos negros da mãe, preocupado também. Mikael parecia rezar baixinho, olhando fixamente para uma foto de Lizzy sobre o console da lareira. Desligando o telefone, Tommi simplesmente anunciou gravemente:
- Vamos todos para o hospital - e não disse mais nada, saindo sem sequer vestir um casaco. Apenas pegou as chaves do carro e foi seguido por todos, Silja tentando entender o que acontecera, mas desistiu depois que viu que Tommi parecia ter um olhar assassino e dirigia implacavelmente pelas ruas cheias de neve. Sohvi mordera o lábio inferior até fazê-lo sangrar e, apesar de estar abraçada em Mikael, não sentia conforto algum. Mikael chorava disfarçadamente, e mesmo Perkko, que era sempre o espírito alegre, estava taciturno e tinha os olhos quase transbordantes. Sentado do outro lado de Sohvi, Perkko cerrava os punhos e também adquiria um olhar parecido com o de seu tio, mesmo que cheio d'água.



Quando chegaram ao hospital, depois de quinze minutos que pareceram levar uma eternidade, todos saltaram do carro e foram correndo para a recepção. Tommi, especialmente, descera correndo do carro e abrira as portas violentamente, entrou na recepção e sua voz parecia um poderosamente sonoro trovão.
- ONDE DIABOS ESTÁ ELIZABETH? ONDE ESTÁ A MINHA LIZZY?
Nisso, de um canto ali mesmo, Rikku levantou-se, os longos cabelos loiros, assim como os braços, as roupas e até mesmo o rosto, tudo empapado de sangue, e um desespero aterrador em seu rosto redondo e geralmente brincalhão.
- Eu não pude, eu não pude salvá-la, eu... Lizzy...
Sua voz era um soluço, quase um suspiro doloroso, sua angústia era palpável. Ele parecia um garotinho que houvesse acabado de ver toda a sua família sendo brutalmente assassinada. Silja, Perkko e Mikael correram a abraçá-lo, mas Tommi ficara tão transtornado ao ver o sangue de Lizzy cobrindo seu irmão que desabou numa cadeira, sacudido violentamente por soluços. Sohvi assistia a tudo paralisada. Não compreendia, não queria compreender o que estava acontecendo, não queria saber que diabos significava aquele sangue em seu tio, tampouco o desespero dele e de seu pai. Mikael, depois de um tempo junto a Rikku, foi correndo abraçar Tommi, e ambos choravam quase com a mesma intensidade. Sohvi não conseguia absorver tudo aquilo; os homens que sempre se mostraram fortes e másculos, aqueles que ela chamaria para espantar os mais temíveis monstros, estavam ali soluçando feito crianças abandonadas, seu tio estava coberto de sangue e absolutamente desesperado. Ela não conseguia mover um músculo sequer, porque sequer havia dito para sua mãe o quanto se preocupava com ela, o quanto a amava. Era violentamente atingida por lembranças estranhamente nítidas de sua mãe, de tempos onde sua mãe parecia verdadeiramente feliz. Mal percebeu quando seu pai a pegou no colo e a levou para uma sala reservada junto com Mikael, que parecia tão desesperado ou pior do que Rikku. Estranhamente, ela caiu no sono numa maca qualquer. Mas sua mamãe não veio lhe chamar para comer o habitual omelete antes de ir para a escola.



Tudo isso havia sido há oito anos atrás. Sohvi era praticamente uma mulher agora e era bastante madura para os seus 16 anos. Há cerca de três anos havia assumido os vocais e o teclado da banda de seus primos, para grande orgulho de seu pai e de seu tio. Havia começado a praticar canto lírico depois da morte de sua mãe, e rapidamente ascendeu com sua voz de contralto. Desde então havia se tornado uma estudante aplicada e vivia tranquilamente com o seu pai, ainda na mesma casa. De fato, sequer o quarto que pertencera à Lizzy e Tommi havia mudado, ele continuava ocupando o quarto mas não tocava nas coisas dela. Sohvi cansara de ver o pai sentado na bela cama de casal que havia no quarto desde o casamento, olhando a estante de livros de Lizzy por horas a fio. Tommi ainda usava a aliança e sua vida era apenas seu trabalho e cuidar de Sohvi. Havia se tornado quase apático, muito diferente do homem feliz com quem Sohvi era habituada quando criança. Não deixava que ninguém, exceto ele próprio, Sohvi e os gêmeos mexessem nos livros dela, e tampouco deixava que Sohvi pegasse as roupas da mãe. Tommi geralmente usava uma camiseta de uma banda chamada Sonata Arctica, que sua mulher amava desde que ele lhe mostrara a primeira música. A camiseta era dele, mas Lizzy usava-a continuamente. Agora a camiseta tinha furos e estava extremamente puída, mas Tommi não se desfazia dela e tampouco deixava de usá-la de forma alguma. Sohvi preocupava-se com seu pai, ele parecia viver apenas de suas lembranças. Sempre que quisesse, podia entrar no quarto do pai sem ser notada por ele, porque ou ele estava olhando para o lago que podia ser visto pela janela, que dava para o quintal, ou ele estava assistindo vídeos antigos onde sua mãe invariavelmente aparecia, ou estava compondo e parecia sentir Elizabeth abraçando-o por trás, como ela às vezes fazia, apoiando seu queixo no ombro dele e olhando-o compor.
Sohvi entrou no quarto dos pais e Tommi só não estava lá porque estava no estúdio com Rikku e o resto de sua banda. Na verdade, ela adorava aquele lugar, porque seus pais haviam transformado-o num estúdio compartilhado - era ali que Lizzy guardava seus livros e escrevia suas histórias, e era ali também que Tommi guardava seus teclados e compunha suas canções. Sohvi cansara de encontrá-los em silêncio, cada um concentrado em seu trabalho, apenas parando para trocarem um sorriso e/ou um abraço. Uma vez perguntara, separadamente para cada um, por que trabalhavam juntos, já que faziam trabalhos diferentes e geralmente artistas preferiam trabalhar sozinhos. Ambos responderam quase com as mesmas palavras, dizendo que se sentiam mais tranquilos e mais inspirados apenas por saberem que o outro estava ali perto. O computador de Lizzy continuava na mesa perto do teclado e da janela que dava para o lago. Sohvi resolveu ligá-lo; sentia saudade das histórias de sua mãe e sabia que muitas não haviam sido publicadas, portanto, só poderiam ser encontradas em seu computador. Sohvi achou graça, na época em que fora comprado, o computador de sua mãe era o mais moderno, mas agora era tão ultrapassado que se não fosse tão bem-humorada, Sohvi provavelmente o teria jogado no lago apenas pelo tempo que demorava para ligar. No wallpaper, havia uma foto de Sohvi abraçada em seus pais, todos sorrindo no Natal. Seus pais eram apaixonados pelo Natal, muito mais do que a própia Sohvi. Ela sorriu ao lembrar-se da animação que enchia a casa na semana antecedente ao Natal; seus pais andavam empolgados pela casa decorando até mesmo a própria Sohvi, se ela deixasse.
Mexendo nas pastas, ela rapidamente achou o que queria. Mas entre as histórias, havia um rascunho de e-mail salvo. O rascunho era protegido por senha, mas Sohvi não teve dificuldades de descobrí-la: a música favorita de sua mãe se chamava Minun Enkeli, e era composição da banda de seu pai. Essa era a senha, e de certa forma era uma sorte que Sohvi houvesse se lembrado disso, porque somente ela sabia que essa era a música favorita de sua mãe. Era um sinal de sorte. O e-mail era endereçado ao seu avô, um inglês que Sohvi se lembrava com sendo gentil e bondoso, e completamente fascinado por sua mãe. Ele se chamava David e era dele que Elizabeth havia herdade sua doçura e seus olhos castanhos gentis, suas sardas, seus cabelos castanhos e lisos. Ele vinha visitar a filha e a neta no mínimo uma vez por mês e, apesar de não ter a mínima reclamação a fazer sobre Tommi, sempre o olhava com um amargor disfarçado, por ter lhe "roubado" a sua filha. Ainda assim, ele era gentil mesmo com Tommi, afinal, David era do tipo de pessoa que se entende bem até mesmo com as pessoas que não gosta. Seu avô morrera uma semana antes que sua mãe, em consequência de complicações do infarto que sofrera há pouco tempo.
O e-mail era de sua mãe para seu avô. O texto começava com notícias banais, mas logo chegava um trecho que lhe chamou a atenção:


"Papai, você acredita que Sohvi me perguntou, ainda ontem, por que Rikku era meu melhor amigo e não Tommi? Eu fiquei sem saber o que dizer, afinal, eu nunca disse que Rikku era o meu melhor amigo! Mas resolvi não tentar remendar, se ela percebeu isso merece que não lhe seja negada uma mínima parte da verdade que seja. Disse-lhe que Rikku era meu melhor amigo porque haviam coisas que não podiam ser ditas ao seu pai. Acho que não fiz o que era certo, mas é o melhor que posso fazer por hora. Já é confuso o bastante para ela os meninos não terem perdido a mania de me chamar de mamãe. Imagine como seria se ela soubesse de toda a história."


Que diabos de história seria essa? Sohvi lembrava-se perfeitamente desse dia, e lembrava que sua mãe havia corado violentamente ao responder. Ela sabia que sua mãe era jovem demais para ser mãe de Perkko e Mikael, mas haveria outro motivo para eles a chamarem de mãe? Sohvi sempre pensara que eles chamavam-na dessa forma porque ela sempre estivera por perto desde que eles eram pequenos, e porque ela era a tia mais próxima que possuíam. Soava estranho eles "não terem perdido a mania" de chamá-la assim. Que história a deixaria tão confusa?
Sohvi pesquisou por mais e-mails no computador, mas aquele era o único rascunho, e sua mãe havia mudado de assunto no parágrafo seguinte, sem se referir novamente a isso durante todo o resto do e-mail. Subitamente, Sohvi pensou que poderia encontrar os e-mails de sua mãe na sua caixa de saída do e-mail em si. Por sorte, lembrava-se do e-mail e a senha era a mesma. Sua mãe realmente não se importava muito com segurança. De fato, na caixa de entrada havia os e-mails de seu avô, de seu pai e alguns do tio Rikku e do tio Matti. Tia Heidi também parecia ser uma correspondente frequente. Felizmente, havia um mecanismo de pesquisa de conteúdo de e-mail. Sohvi pesquisou simplesmente por "Sohvi+Rikku+meninos" e logo vários e-mails surgiram. Sohvi começou a olhar o primeiro por cima, para ver se havia algo de interessante. Bingo. Havia. E Sohvi tinha um estranho pressentimento de que todos os outros seriam igualmente interessantes. Passando os olhos rapidamente pelo texto, logo chegou aos termos destacados:


"Sabe Heidi, graças à Sohvi os dias tem sido relativamente mais fáceis, mas sinto profundamente a falta dos meninos e também de Rikku, por Deus, sinto imensamente a falta deles! Sei que se passou muito tempo, já são quase cinco anos, mas não posso suportar as reuniões familiares - você já percebeu, naturalmente eu, Rikku e os meninos nos reunimos e passamos o dia nos divertindo juntos. Tommi, Sohvi e Silja inevitavelmente ficam perdidos e taciturnos, e juro que eu e Rikku tentamos ao máximo evitar isso tudo e trazê-los para nossa companhia, mas simplesmente parece que há um mecanismo estranhamente forte que nos une, e nós quatro repentinamente somos uma família sólida outra vez.
Fico feliz que Matti e você finalmente tenham ficado noivos. Rikku disse que torce para que você não descubra que, na verdade, o seu verdadeiro amor é Ransu, porque senão a família Harmaajärvi irá acabar numa disputa entre irmãos. Eu sei que é idiota, mas ainda me encanto pelo seu senso de humor, eu dificilmente consigo fazer piadas sobre nossa situação, mas Rikku consegue me fazer rir como se de fato pudéssemos resolver tudo isso e as coisas fossem ficar bem. Sei que deveríamos esquecer tudo, mas eu e ele somos simplesmente incapazes disso, e quando tento, Rikku fica tão sincera e silenciosamente desolado que não consigo permanecer indiferente, ainda mais porque ele tenta disfarçar para me ajudar, ele quer que eu não sofra mais.
Apareça nesse feriado para conversarmos, quero saber tudo de como Matti pediu-a em casamento e quero ver o seu anel, deve ser maravilhoso! Preciso ir agora, Sohvi e Tommi estão chegando do parque.


Te amo, xx."

Sohvi felizmente tinha um bom mecanismo de defesa que a fazia entrar em choque com notícias muito graves e havia duas maneiras dela reagir: ou ela ficava paralisada, ou seguia fazendo tudo como se nada houvesse acontecido, e só horas depois se dava por conta do que havia acontecido. Por sorte, dessa vez aconteceu a segunda opção. Ela passou para o segundo e-mail, que era do tio Rikku. A saudação quase fez com que Sohvi caísse da cadeira.


"Meu amor:


Você não vai acreditar a foto que encontrei hoje! Lembra daquela vez que fomos acampar no verão, logo que você veio morar conosco? Pois bem, eu a encontrei no computador de Mikael, como wallpaper, ainda! Os meninos começaram a te chamar de mamãe nesse dia, lembra? A foto está anexada ao e-mail, e eu te disse que encontraria essa foto. Demorou quase dez anos, mas encontrei. Você não quer me deixar cumprir todas as minhas outras promessas também? Sempre estarei disposto, você sabe bem, Lizzy.
Os meninos sentem a sua falta imensamente, e eu também. Que tal se você trouxesse Sohvi e nós cinco nos transformássemos numa família? Ela e os meninos já se tratam como se fossem irmãos, o problema seria o nó na cabeça dela, sua mãe se casando com o seu tio... É, nisso eu concordo com você, amor. Não seria nada fácil aceitar uma situação dessas."


O resto do e-mail seguia em divagações desse tipo, nas quais Sohvi simplesmente não conseguiu se concentrar. Depois achou um documento, intitulado "Soul.doc". Leu-o inteiro, quase sem respirar. Agora sim estava paralisada. Sua mãe... e seu tio? Por Deus, Rikku era até mesmo seu padrinho! Por sorte, seu pai ainda estava no estúdio, porque ela não conseguiria fingir que estava tudo bem se ele entrasse ali agora. Num impulso súbito e irracional, Sohvi imprimiu o "Soul.doc", pegou sua bolsa e dirigiu até o estúdio. Ela nem pensou em seguir lendo ou qualquer outra coisa, uma determinação cega havia dominado-a: precisava conversar com tio Rikku. Afinal, tudo isso tinha de ser esclarecido por ele. Ela queria acreditar que sua mãe havia amado seu pai, oras, e seu tio só havia sido seu amigo, nada mais nada menos do que isso. Nada de famílias estranhas. Nada de amores reprimidos. Subitamente, Sohvi sentiu raiva das inúmeras lembranças que tinha de Mikael e Perkko chamando Elizabeth de mamãe e tratando-na como tal - e o pior, sendo correspondidos. Sohvi era tão habituada à relação deles que nunca havia se dado por conta do quanto tudo era estranho.
Sohvi chegou ao estúdio e não cumprimentou absolutamente ninguém, e ignorando as proibições, entrou no estúdio de súbito e chamou, com a voz arfante.
- Tio Rikku, preciso falar com o senhor, agora.
Seus outros tios e seu pai tentaram falar com ela mas foram ignorados. Rikku percebeu na mesma hora o quão séria era a intenção da sobrinha; seus olhos haviam adquirido a mesma intensidade que os olhos de Tommi adquiriam quando ele estava profundamente magoado. Ambos saíram do estúdio e Sohvi conduziu seu tio até um lago que ficava um pouco distante. Sentaram-se no banco que havia à beira do lago. Rikku passava as mãos nervosamente por seus longos cabelos loiros e por sua também longa barba. Sohvi fitou os olhos azuis do tio intensamente, e ele não desviou o olhar. Parecia triste, porém seguro.
- Eu quero que o senhor me conte que diabos havia entre você e mamãe. Sem receios, sem mentiras. Eu li alguns e-mails, sei que vocês já moraram juntos.
Sohvi esperava que o tio começasse a negar freneticamente ou se sobressaltasse, mas nada disso aconteceu. Pelo contrário, Rikku parecia resignado com o fato de que cedo ou tarde isso aconteceria. Ele deu um profundo suspiro, tirou um cigarro do seu maço e ofereceu um à Sohvi, logo acendendo os dois e, depois de uma longa tragada no seu, ele começou, com os olhos perdidos num ponto qualquer do lago.
- Sua mãe foi uma mulher incrível - disse ele, e mesmo que Sohvi não houvesse herdado a imensa empatia do pai, perceberia a profunda dor que marcava cada sílaba pronunciada por seu tio. - Nós vivemos juntos apenas por cerca de seis meses, depois ela se convenceu que o melhor era honrar o noivado que tinha com o seu pai e eles se casaram, e tiveram você. Mas até então, ela viveu comigo e com os meninos como se fôssemos casados. E éramos, de fato. Acho que foi nosso único casamento verdadeiro, apesar de eu já ser casado com sua tia na época e sua mãe ter passado o resto da vida com o seu pai. Não me pergunte como ou porque, mas eu e sua mãe nos apaixonamos perdidamente um pelo outro, por mais brega e ridículo que isso possa soar. Você tem certeza que quer ouvir essa história?
- Estou aqui apenas para isso - disse Sohvi, imperturbável.
- Pois bem, então deixe-me começar pelo começo - Rikku deu um longo suspiro, parecendo ainda mais velho do que era. Havia envelhecido terrivelmente nos últimos oito anos. - Sua mãe não tinha mais do que quinze anos quando chegou à Finlândia para morar. Ela havia visitado a Finlândia quando tinha doze anos, mas só se mudou para cá três anos depois. Esses três anos foram os que ela passou nos Estados Unidos, mas essa história o seu avô já lhe contou inúmeras vezes, eu suponho.
- Sim, sei perfeitamente bem.
Sohvi lembrava-se que, mesmo depois de muitos anos, seu avô ainda parecia extremamente preocupado quando contava que Elizabeth havia conhecido um hard rocker do qual era fã em Helsinki e fugira com ele para Los Angeles. Ela tinha apenas doze anos e o homem, quarenta. David quase enlouquecera atrás da filha, mas a encontrou feliz e apaixonada, morando com um homem que Sohvi vira uma foto uma vez, ele se chamava Bill, era ruivo e corpulento, um tipo que parecia violento mas estranhamente atraente. Não imaginava uma mulher delicada como sua mãe com um homem daqueles, mas eles viveram por três anos juntos, já que seu avô não conseguiu levá-la de volta para a Inglaterra. Quando brigaram, Elizabeth decidiu morar na Finlândia, e não na Inglaterra, o que desesperou David. Ela já sabia algo de finlandês e acabou por trabalhar na tradução de livros e escrevendo contos. Logo já estava fixada como escritora em Kitee.
- Pois bem - prosseguiu Rikku. - Nós todos conhecemos sua mãe antes que ela fugisse para Los Angeles. Era uma menininha ainda. Lembro-me que todos nós adoramos ela, mas eu e seu pai, especialmente, encantamo-nos por ela. Na verdade foi Heidi que nos apresenteu a ela, parece que Heidi tinha parentes na Inglaterra e quando ia para lá, costumava brincar com a sua mãe, pois ela era vizinha dos parentes de Heidi. Entenda, Heidi e Matti começaram a namorar ainda crianças, acredito eu. Quando voltou dos Estados Unidos, sua mãe passou a dividir um apartamento com Heidi e, consequentemente, passava muito tempo com toda a nossa banda, ou seja, nossa família. Eu já era casado na época e os meninos eram praticamente bebês, Mikael era recém-nascido. Lizzy tinha um jeito especial com Mikael, e logo se aproximou de Perkko também. Não parecia especialmente interessada em ninguém, apesar de muitos homens estarem sempre ao redor dela, inclusive eu e seu pai. Tommi só faltava tatuar na testa que era louco por ela, mas eu sempre fui mais discreto. Tornei-me amigo dela. E nunca me entendi tão bem com outra mulher.
"Aos poucos, porém, apesar da timidez, seu pai conseguiu se aproximar dela. Ao mesmo tempo, nossa amizade se tornava cada vez mais profunda, a ponto de Heidi e Silja desconfiarem de nós dois. Lizzy não percebeu que estávamos apaixonados, achava que seu pai era perfeito para ela e tentava se convencer disso dia e noite, ainda mais após de ter se envolvido com um homem violento como Bill. Queria um príncipe, e Tommi possuía todos os requisitos. Ela ignorava arduamente que se sentia profundamente feliz ao meu lado, que sem querer havíamos construído um cotidiano legal para nós e para os meninos. De alguma forma, Silja passou a se envolver mais com o trabalho e passava menos tempo em casa, tempo esse que Lizzy acabava passando conosco. Ela cuidava das crianças e de mim, e nos divertíamos imensamente nas coisas mais simples. Não percebíamos a felicidade rara que tínhamos em mãos, ou melhor, Lizzy insistia em ignorá-la. E ela se arrependeu disso pelo resto de seus dias.
Lizzy tinha muito medo de se magoar outra vez. Ela me contou o quanto sofrera com Bill e não estava disposta a sofrer, não mais. Ela achava que acreditar numa felicidade idealizada ao lado do seu pai a protegeria das mágoas. Mágoas essas que eu jamais causaria".
Rikku tentou disfarçar que estava chorando, mas Sohvi percebeu imediatamente e ignorou-o educamente, sabia que ele preferiria assim. Só depois de um bom tempo foi que Rikku se recompôs e continuou, grato por Sohvi ter agido daquela forma.
- Apesar de seu medo, Lizzy não conseguia evitar a convivência comigo e com os meninos, e tampouco fazia questão de evitar. Mesmo quando passou a morar com Tommi, ela nunca deixou de nos visitar, de estar sempre por perto. Se os meninos tinham febre de madrugada, Silja ia cuidar deles, mas eles não sossegavam enquanto não chamássemos Lizzy nem que fosse para dar-lhes um beijo de boa noite e dizer-lhes que já iam ficar bem. Lizzy não tinha muito jeito com crianças em geral, mas havia essa afinidade infinita com os meninos, que durou por toda a sua vida.
"Eu sinceramente acredito que Lizzy tenha se apaixonado por Tommi, e não falo isso apenas para lhe agradar, Sohvi. Depois de tudo que estou lhe contando, nem faria sentido. Não. Acredito que eles realmente foram apaixonados um pelo outro por muito tempo, e não era sem motivo que ambos criavam juntos e se mantiveram casados. Havia algo de raro lá também, algo de muito bom. Mas Lizzy sabia bem que nada se comparava ao que havíamos, completamente sem querer, construído juntos. Mikael, você deve ter percebido, sempre foi profundamente apegado à ela. Acho que posso dizer, sem erro, que ele se sente mais filho dela do que de Silja. Não o culpo, Lizzy foi maravilhosa com ele desde sempre, e se eu pudesse escolher, não sinto vergonha em dizer que teria me casado com Lizzy e os meninos seriam filhos dela. Acho que não há um dia da minha vida, desde que realmente conheci Lizzy, que eu não tenha pensado em como seria ter vivido a minha vida com ela."
- E meu pai, sabe disso tudo?
- Sim. Seu pai sempre percebeu os sentimentos das pessoas ao seu redor, desde que éramos crianças, e não seria diferente conosco, ainda mais com sentimentos tão intensos. Sua mãe sentia-se culpada por isso, mas até mesmo seu pai e seu avô diziam a ela que não se pode controlar os sentimentos.
- É, eles tem razão - disse Sohvi, finalmente comovida. Sem dizer uma palavra, estendeu o "Soul.doc" para Rikku e disse para que ele lesse. Levantou-se, deu um beijo carinhoso nos cabelos loiros do tio e saiu, deixando que ele lesse o texto que parecia gravado nela agora.


"Rikku querido, eu acabo de vê-lo e já sinto a sua falta. Mikael se parece tanto com você fisicamente, mas é tão ensimesmado o quanto eu (seria a convivência?). Perkko sim herdou sua personalidade, você também percebe isso? É claro que sim. Nós quase sempre temos as mesmas impressões sobre tudo, não seria diferente sobre "nossos" filhos.
Estou sozinha, imensamente sozinha nessa bonita casa que Tommi comprou para morarmos. Honestamente, prefiro a casa que eu e você dividíamos, lembra do quanto era pequena antes que o terceiro cd virasse o mais vendido da Finlândia? Depois nós escolhemos aquela casa maravilhosa onde você montou aquela biblioteca gigante para mim, com todos os títulos que eu ousasse sonhar. Não sei o quanto isso é errado ou certo, só sei que quero correr, nesse exato instante e ir aí ficar de joelhos aos seus pés, pedí-lo em casamento e pedir perdão por todas as minhas ausências. Quero ser acordada por você e pelas crianças todos os dias como antes, quero sentir o seu cheiro, dormir abraçada em você e me sentir verdadeiramente feliz, como você me fez o tempo todo. Como posso fazer para te guardar em mim, para não deixar que cada momento escape? É tão triste que as lembranças e você próprio escapem de mim que só consigo chorar, chorar tanto que me sinto meio tola. Mas papai sempre me disse que o amor verdadeiro nos faz sentir assim mesmo.
Falando em papai, quando ele esteve aqui, disse-me que eu seria ainda mais maluca se não ficasse com você. Ele percebeu imediatamente nossa ligação e disse que te deixar ir embora seria o maior erro que eu poderia cometer. "Enfrente seus medos, querida, ele vale o risco", foi o que papai me disse. Nunca pensei que fosse ouvir do papai qualquer estímulo desse tipo, mas você sempre consegue o impossível, não é mesmo, amor?
Sei que estou escrevendo essas linhas e você nunca irá lê-las, até porque talvez seja melhor assim. Eu não suportaria que você soubesse o quanto eu te amo, apesar de eu ter quase certeza de que meus olhos traem o meu segredo. Você mesmo diz que meus olhos são extremamente expressivos. Você pode ver o amor que sinto por você? Apesar de negar, eu espero que sim. Porque eu te amo, profundamente. Não importa o quanto eu tente fugir disso.
Se algum dia, por algum acaso, você ler essas palavras, por favor, não permaneça em silêncio. Se julgar que mereço, abrace-me bem forte, mas bem forte mesmo, como quando você chega de viagem e eu estou te esperando com as crianças no aeroporto. Você sempre me puxa contra si e eu fico sentindo você surrealmente perto de mim, e honestamente, não existe sensação melhor no mundo. Quero que o resto dos meus dias sejam apenas uma única madrugada que passaremos nus no nosso quarto, completamente entregues ao que somos juntos. Eu preferiria qualquer coisa do que morrer longe de você. Quero que seus olhos, sua boca, sua respiração seja a última em mim.
Preciso parar de escrever, estou quase estragando o teclado com minhas lágrimas, e chorar é sempre inútil, apesar do alívio que traz. Um dia, prometo que serei forte o suficiente para amá-lo sem culpa, para sempre. "


Rikku levantou-se do banco onde estivera lendo e relendo o texto nas últimas horas. Ele quase podia sentir Lizzy ao seu lado, sentir seus lábios beijando-o intensamente, o brilho de seus olhos na penumbra, seus longos cabelos caindo pelas costas brancas e nuas que ele acariciava, fazendo com que ela fechasse os olhos, maravilhada. Guardando o texto no bolso, Rikku foi até o cemitério e deitou-se sobre a lápide de Lizzy. A primeira neve daquele ano caía, e Lizzy sempre ficava feliz com isso. Rikku fechou os olhos, imaginando-a bem aconchegada em seus braços, como fazia nas noites frias. Sohvi observava-o de longe, e não conseguia sentir raiva ou repulsa pelo tio. Aquele homem havia sido o grande amor da vida da sua mãe, a sua alma. E pelo jeito, ele a amara tanto o quanto fora amado. Sohvi sorriu, sentindo-se aliviada. Sua mãe estivera doente sim, doente da alma, agora ela sabia. E um dia, onde quer que ela estivesse, ela se curaria, com o tio Rikku e os meninos.