sábado, 18 de dezembro de 2010

Minun kukka, Liisa

Depois de acabar o livro que estava lendo, ele largou-o sobre o seu criado-mudo e ficou a observar o quarto. Eram três da manhã mas ele não sentia sono algum, apesar de ter passado o dia inteiro trabalhando. As crianças estavam dormindo e não havia absolutamente nada que ele pudesse fazer. Liisa estava na casa de seu namorado, aparentemente decidida a ficar com ele. Antes, ele tinha esperanças. Liisa sumia na madrugada ou simplesmente dizia-lhe adeus mas sempre esquecia-se de sua camiseta favorita, sua carteira de cigarros e o isqueiro, do livro que estava lendo ou até mesmo de seus óculos de leitura, enfim, sempre restava algo dela e ao voltar para buscar o quer que fosse, ela sempre acabava por emocionar-se com a urgência e o carinho com que Arttu recebia-lhe. Ele abraçava-a fortemente contra si, e logo os dois estavam rindo com os olhos cheios d'água, com saudade e alegria, as crianças festejavam a sua volta e tudo estava bem outra vez. Mas parecia que dessa vez as coisas simplesmente não seriam dessa forma.
Arttu então começou a reconstituir os fatos com Liisa, desde o começo. Ele conhecera-a num show de sua banda, havia cerca de sete anos. Ela era uma adolescente ainda e ele já um homem formado, mas algo nela despertava-lhe uma curiosidade, um agudo interesse inédito. Ela esquivava-se dele educadamente, parecendo bem mais interessada no jovem poeta (mas que, ainda assim, era relativamente mais velho do que ela) e até mesmo um tanto assustada com Arttu. Apesar de tão jovem, ela era casada com um famoso músico, e mesmo assim ela acompanhara-os naquela turnê, onde Arttu tentou aproximar-se dela dia após dia, e parecia surpreender-se positivamente com ela a cada barreira que se quebrava. Numa tarde silenciosa, onde finalmente encontraram-se à sós, o inevitável acontecera. E desde então as coisas haviam apenas se intensificado entre eles.
Mas Liisa, apesar de ter se separado do músico e ter se mudado de Helsinki para Hirvensalmi, havia se envolvido com o tal poeta, que apaixonara-se perdidamente por ela. Enquanto o poeta apaixonava-se cada vez mais profundamente, Liisa e Arttu cada vez mais descobriam-se completamente ligados um ao outro, tendo além de uma afinidade profunda, um amor que misturava-se igualmente com a amizade e a paixão. A paixão era o sexo, o amor era todo o resto. Os filhos do primeiro casamento eram também extremamente apegados à ela, tanto que chamavam-a de mamãe quando a ex-mulher de Arttu não estava por perto, o que era a maior parte do tempo, já que as crianças moravam com ele e Liisa. Arttu sorria ao lembrar-se de um dia quando, após de muito estresse nas gravações de algumas novas faixas, ele mal estacionara o carro e podia ouvir ao longe a risada dos meninos e de Liisa. Quando entrou na cozinha havia farinha, chocolate, ovos e tudo mais que ele pudesse imaginar espalhados por toda a parte, inclusive em Liisa e nas crianças, e eles aparentemente haviam tentado fazer um bolo sem sucesso algum. Haviam algumas tentativas frustradas sobre a mesa, uns queimados, outros abetumados, nada prestável, e os longos cabelos loiros dos meninos chegavam a estar molhados e grudentos, assim como o de Liisa, com a mistura de ingredientes que cobria-lhes os cabelos, as roupas, os rostos e até mesmo a cozinha inteira. Liisa deu uma gargalhada tão sincera e tão gostosa ao ver o espanto de Arttu, que ele não teve outra alternativa senão rir também e sair para jantar com ela e os meninos, onde compraram um bolo decente e extremamente delicioso para a sobremesa.
Isso havia sido no verão, quando as crianças estavam de férias e até mesmo eles quatro foram acampar, e Arttu tinha todo o orgulho de ver as crianças dizendo que haviam ido acampar "com a mamãe e com o papai", afinal, ele não sabia o que faria se as crianças também não ao menos gostassem de Liisa. Nunca esperara que tudo fosse dar tão certo, e no fundo sabia que algum dia essa felicidade acabaria, de uma forma ou de outra. Não aguentava mais a saudade que sentia dela, e tampouco aguentava que as crianças estivessem passando o fim de semana com a mãe. Sobre o criado-mudo de Liisa, havia uma foto dela com Arttu e as crianças à beira do lago, no acampamento de verão, todos com a pele vermelha do sol e risonhos. Não havia nenhum livro dela ali, tampouco cigarros ou seu iPod. Liisa havia ido embora, ela não estava ali para ficar por horas olhando encantadamente a neve caindo ou cuidando dos girassóis que plantara no quintal. Arttu já não podia acordar e vê-la concentrada num livro, ou olhando-o séria mas com tanta ternura que os dois inevitavelmente transavam no mesmo instante.
Arttu colocou um sobretudo e foi até a varanda dos fundos, olhar o quintal. Os girassóis estavam morrendo porque não estavam sendo cuidados e a neve cobria-os impiedosamente. Um dia, ele fora um metaleiro que não se importava com nada a não ser a sua música e que tinha as mulheres como pura diversão, mas isso mudara há muito tempo. Começara a mudar quando se casara, quando tivera filhos, mas a mudança significativa e real se dera com a chegada de Liisa, que agora ele percebia, era a sua melhor amiga, sua melhor transa, a única que ele precisava ao seu lado. Em algumas semanas, ele estaria com 45 anos, e queria mais do que nunca tê-la ao seu lado. Porque agora sabia bem que a amava, e nunca havia sentido essa certeza antes, por ninguém.
Arttu havia se perdido no tempo, passou horas olhando para o quintal, como se Liisa pudesse simplesmente brotar em meio aos girassóis - e na verdade, ele sabia que Liisa poderia aparecer à qualquer momento, afinal, quantas vezes ela havia ido embora e voltado no meio da madrugada, morrendo de vontade de abraçá-lo forte e levá-lo para a cama, preparando o café da manhã no outro dia e levando as crianças na escola como se nunca houvesse estado ausente? É claro que no começo as crianças estranhavam, mas agora haviam se habituado aos sumiços temporários de Liisa, apenas sentiam a falta dela, e sempre era uma espécie de comemoração quando ela voltava. Arttu estava com olheiras há quinze dias, ou seja, desde que Liisa havia ido embora. Estava entrando para casa, quando ouviu uma voz chamando.
- Arttu!
Já meio sonolento, ele virou-se, julgando ter ouvido mal. Liisa descia do seu carro, caminhando com dificuldade por causa do peso das roupas e da neve que atolava o pátio. Arttu franziu o cenho, já havia sonhado com isso algumas vezes e sempre tinha sonhos desse gênero quando ela sumia, mas seria agora verdade? Ele havia tido um dia cansativo, não havia dormido e tinha bebido um pouco...Pensando bem, nada impedia que ele de fato estivesse dormindo na sua cama e esse fosse apenas outro sonho. Mas quando Liisa começou a correr em sua direção e ele viu que ela estava chorando, percebeu que nada havia de sonho ali. Sentiu-se um perfeito panaca, mas seu coração disparou enquanto Liisa corria e se jogava em seu pescoço. Ele pegou-a no colo e a levou para dentro, tentando acalmá-la e ao mesmo tempo acalmar a si própio. Quando tentou falar alguma coisa, qualquer coisa para acalmá-la, foi que percebeu que estava chorando também. Liisa era a sua flor, por mais brega e ridículo que isso fosse - mas não se podia esperar algo melhor de um machão que nunca aprendera a ser romântico em toda a sua vida.
- Ainda bem que você voltou - sussurrou ele, com a voz embargada, beijando-a repetidamente. Seus lábios conservavam aquele gosto maravilhoso de café e cigarro, que viciara-o. - Eu parecia um pássaro sem uma canção sem você aqui...
Liisa parou de beijá-lo, rindo gostosamente. Ele olhava-a rir e não podia evitar que um sorriso se espalhasse pelo seu rosto também. Ela estava ali, exatamente como antes, com a mesma pureza e intensidade de sempre! O riso sacudia-a, e os olhos escuros dela brilhavam, alegres e brincalhões.
- Que comparação mais horrível, Arttu - ela balançou a cabeça, colocando os braços ao redor de seu pescoço. Ele puxou-a para si, olhando-a amorosamente.
- Não é minha culpa, é do Prince.
- Piorou ainda - disse ela, sorrindo e beijando-lhe intensamente. Com os olhos fechados, a boca ainda próxima da dele, ela sussurrou-lhe o que ele sempre esperara ouvir. - Eu vim para ficar.
Ele não ousou perguntar se era sério ou não, mas lembrou-se prontamente dela dizendo-lhe com um olhar intenso "Eu quero te guardar em mim, eternamente", na última tarde que haviam passado na cama. Parecia uma frase banal e corriqueira, mas vinda de Liisa tinha um significado absurdamente profundo. Liisa não era adepta de qualquer tipo de declaração ou demonstração de sentimentos, apenas demonstrava-os involuntariamente, na maioria das vezes - quando mostrava deliberadamente, era porque eram muito mais profundos do que se poderia supor. No fundo, assim como sabia que aquela felicidade anterior acabaria, sabia que um dia Liisa seria definitivamente sua. E aquele dia havia finalmente chegado, o bendito e profundamente esperado 18 de dezembro de 2010.

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