Sohvi correu rapidamente até o quarto dos pais, abrindo a porta e pulando diretamente na cama. Sua mãe riu, abraçando-a fortemente contra si.
- Olá querida, como está? – ela lhe beijou a fronte e sorriu. Sohvi beijou a mãe e sentou-se na cama, sorridente.
- Estou bem mamãe, e você?
- Também - disse ela, com um sorriso cansado, dando uma profunda tragada em seu cigarro. - A Sra.Nevalainen estava apenas te esperando para servir o almoço.
Antes que Sohvi pudesse responder, dois jovens altos e loiros entraram no quarto, correndo a abraçar Elizabeth.
- Mamãe! - disseram os dois em uníssono, apertando-a entre ambos, fazendo-a rir.
- Olá meus amores - disse ela, risonha. - Como estão os meus meninos? - ela acariciou o belo rosto de Mikael e em seguida olhou para Perkko, que já caminhava em direção à enorme estante de livros que cobria toda uma parede do longo quarto.
- Com dores nos pulsos - disse Perkko, passando um dedo pelas lombadas dos livros, o cenho franzido. - Aonde está o volume único de O Senhor dos Anéis?
- Eu não o possuo querido, tenho os três volumes separados - disse ela, acendendo outro cigarro e deitando-se na cama outra vez. - O volume único é de Tommi, e receio que ele tenha levado junto com ele na turnê.
- Droga - resmungou Perkko, pegando A Sociedade do Anel e colocando debaixo do braço. - Queria reler todos essa noite.
- Eu preferiria reler Harry Potter, mas tenho que praticar - disse Mikael, sentando-se na cama ao lado de Elizabeth e acariciando-lhe os longos cabelos arruivados. Ela o olhou sorrindo.
- Você sabe muito bem que pode tirar uma folga, querido. É o melhor baixista de 15 anos que eu conheço.
- Você não deve conhecer muitos, então - disse Perkko, rindo e sendo repreendido por um resmungo de Elizabeth. Mikael sorriu para ela, tranquilizador.
- Não se preocupe. Ele diz que eu sou o pior baixista que ele conhece no mínimo umas 20 vezes por dia. No começo, fazia com que eu praticasse bem mais, mas agora eu já sei que ele fala da boca para fora.
- Ainda bem que você sabe, querido - ela sorriu, alisando-lhe os longos cabelos loiros. Sohvi sentou-se ao lado de Mikael, visivelmente com ciúmes.
- Mamãe, posso aprender um instrumento quando eu crescer?
- Seu pai lhe ensina teclado desde que você tinha quatro anos, o que mais você quer?
- Não sei, algo com cordas - disse ela, dando de ombros. - Já faz quatro anos que pratico e, mesmo assim, ainda não tenho certeza de que é o teclado o que eu quero.
- Tente o piano - disse Mikael.
- Grande diferença - resmungou Sohvi, enquanto Perkko sentava-se aos pés da cama e começava a reler o livro.
- Há uma grande diferença sim, filha - disse Elizabeth, levantando-se com certa dificuldade. Parecia ter envelhecido nos últimos meses, e ter perdido cerca de quatro quilos dava-lhe um aspecto ligeiramente cadavérico. Mikael pegou-lhe pela mão e a ajudou carinhosamente. Ela sorriu-lhe grata.
- Vamos, crianças, o almoço já está pronto – ela se dirigiu à sala de jantar apoiada em Mikael, que lhe conduziu gentilmente até o seu lugar à mesa. Sohvi e Perkko os seguiram sem muito entusiasmo. Sohvi estava aborrecida pelo ciúmes que sentia de Mikael e Perkko estava simplesmente distraído, relembrando a última música que estivera ensaiando na nova bateria que havia ganho de aniversário.
A governanta, uma senhora não muito mais velha do que a própia Elizabeth, fez com que o almoço fosse servido. Trouxe lasanha e galinha assada, para a alegria das crianças. Sem apetite, Elizabeth observava-os comer e conversar com um sorriso vago, quase como se o presente já houvesse se tornado uma lembrança para ela. Repentinamente, o almoço foi interrompido pela porta da sala de jantar sendo aberta. Tommi surgia ainda com as malas nas mãos. Sohvi correu e pulou em seu colo, enquanto ele sorria para Elizabeth e pegava Sohvi no colo.
- Papai, você voltou antes! - exclamou ela, extremamente alegre, beijando-o repetidamente na bochecha. Ele riu e afagou-lhe os cabelos loiros.
- Voltei sim querida, queria fazer uma surpresa para você e para a mamãe - ele soltou Sohvi e voltou-se para Elizabeth, que tinha se levantado e olhava-os de perto, sorrindo. Os dois trocaram um olhar intenso e se abraçaram fortemente. Tommi afagou-lhe os cabelos, aspirando o perfume que vinha deles e suspirando disfarçadamente. Elizabeth deu um beijo carinhoso em seu rosto e ambos trocaram um sorriso amoroso, e Sohvi sorriu observando-os. Nunca havia visto eles se beijando, exceto em vídeos dos tempos em que ainda namoravam, dos tempos em que eram noivos e do casamento. Ao vivo, ambos sempre foram extremamente púdicos em frente a ela, mas estranhamente ela adorava vê-los juntos, tinha-os como um verdadeiro conto de fadas. Sohvi suspirou, sorrindo, enquanto Elizabeth e Tommi sentavam-se à mesa, Tommi cumprimentou seus sobrinhos e eles retornaram sorrindo também. Tommi olhou-os e disse, enquanto a Sra.Nevalainen trazia-lhe talheres e um prato:
- Seu pai também está em casa, pediu que eu os avisasse.
- Como é que o titio Rikku sabia que eles estariam aqui?
- É meio óbvio, não é mesmo? - sorriu Mikael, comendo com apetite seu pedaço de lasanha. - De qualquer forma, vou acabar de comer antes de ir. Falei com papai ontem à noite, ele que espere um pouco.
- Seu pai estaria com saudade mesmo que vocês houvessem se falado há cinco minutos - disse Elizabeth, num tom de censura. Mikael apressou-se a comer rapidamente e despediu-se dos tios junto com Perkko, indo para casa. Depois de comer a sobremesa, Sohvi foi para o seu quarto dizendo que tinha de fazer a lição de casa, mas na verdade queria mesmo era deixar seus pais sozinhos. Sentia-se um pouco excluída quando seu pai começaava a contar à sua mãe como havia sido a viagem e ela o olhava amorosamente, por vezes acariciando-lhe a mão ou os cabelos. Seu pai tinha longos cabelos loiros e crespos, iguais aos dela, mas ele tinha um hábito de tingí-los de negro desde a juventude, hábito este que não dava o mínimo sinal de perder. Seu pai era poeta e músico, e que ela soubesse sua mãe havia sido a única mulher em sua vida. Em sua imaginação, seus pais eram como um rei e uma rainha com uma história especialmente bonita. Era verdade, sua mãe andava doente e abatida, mas quando fazia perguntas sobre isso sua mãe sempre sorria e dizia que estava tudo bem. Sohvi sabia que não estava, sabia ler a tristeza nos olhos de sua mãe.
Antigamente, sua mãe levava-a para passear, lia-lhe livros inteiros e contava-lhe histórias fantásticas que inventava na hora. Agora sua mãe passava a maior parte do tempo na cama, fumando ou lendo, e às vezes escrevendo por horas intermináveis. Dificilmente saía para passear e sequer ia aos ensaios da banda que Mikael e Perkko haviam recentemente formado. Isso era o que mais preocupava Sohvi - sua mãe não perdia sequer uma aula de natação de Mikael antigamente, e agora eram ele e Perkko que vinham visitá-la, porque ela não saía mais. Sohvi estava tão perdida em seus pensamentos que se assustou quando sua mãe bateu na porta de seu quarto e a abriu com seu consentimento.
- Hoje à noite tio Rikku, tia Silja, tio Ransu e tia Hemi, tio Matti ah... todos os seus tios e as crianças virão jantar. O que você sugere como cardápio?
- Por que você ainda se refere à Perkko e Mikael como "crianças", se eles tem 17 e 15 anos?
- Porque eles sempre serão crianças para mim, assim como você - disse ela, sorrindo. - Eles não passavam de bebês quando eu os conheci, e eu convivia muito com eles naquela época. É impossível perder a imagem que tenho deles.
- Hum... Ok - Sohvi parecia um tanto cabisbaixa e Elizabeth percebeu. Entrou no quarto e levantou-lhe delicadamente o rosto.
- O que houve, querida?
- Eu queria que o vovô estivesse aqui - e antes que Elizabeth pudesse fazer perguntas, ela se explicou -, porque você sempre se alegra e fica bem quando ele está por perto.
- Mas querida, a mamãe está bem - disse Elizabeth, puxando Sohvi para o seu colo. Ela afundou a cabeça no colo da mãe, quase chorando. - O que a faz pensar que não?
- Você anda abatida e não come nada, mamãe, tampouco me conta as histórias que eu tanto gosto.
- Mas posso contar-lhe uma agora...
Sohvi olhou-a nos olhos com firmeza, como quem diz "Não fuja do assunto". Elizabeth mordeu o lábio inferior, apreensiva, e beijou-lhe a fronte, saindo do quarto. Não sabia o que dizer para a filha, e Sohvi subitamente sentiu que suas preocupações tinham razão de ser - mas na verdade nunca havia duvidado disso. Chorou até que adormeceu, sendo despertada apenas quando faltava pouco tempo para o jantar.
Diferentemente dos últimos dias, no jantar Elizabeth parecia radiante. Vestia uma regata branca que lhe caía perfeitamente bem, ainda mais com os jeans que usava. Tio Rikku havia sentado ao seu lado e os dois conversavam alegremente. Ela parecia ter rejuvenescido cinco anos, no mínimo, e Sohvi não sabia se tinha essa impressão pelas roupas que ela usava ou se pela alegria que ela parecia sentir. É claro que a mãe poderia estar fingindo para que ela não se preocupasse, mas achava difícil que aquela luz nos olhos castanhos da mãe pudesse ser forjada. Mikael parecia refletir sua alegria, assim como Rikku. Tommi observava-os, entre pensativo e feliz, e Sohvi observava cada movimento da mãe. Seus outros dois tios conversavam animadamente também, e suas mulheres ocupavam-se das crianças de uma delas, Helmi. Sohvi não se importava muito, cuidava sua mãe o tempo todo. Ela havia comido bem, no começo ainda estava sem apetite mas quando ia recusar mais comida, Rikku pedia-lhe "Por favor Lizzy, para comemorar nossa chegada!" e ela aceitava com um sorriso o que ele lhe servia. Rikku parecia cuidar dela, como sempre. Tommi observava o irmão, entre pensativo e grato.
Depois de algumas horas, quando já haviam ido para a sala de estar e Sohvi entretinha-se em montar um quebra-cabeça de 500 peças com Mikael, Perkko relia A Sociedade do Anel e os adultos conversavam bebiam e riam diante da lareira, subitamente se deram por conta que haviam acabado os cigarros dos quatro (Ransu, Helmi, Matti e Heidi haviam ido embora; os primeiros por causa de seus filhos pequenos que haviam adormecido, os segundos porque acabavam de ficar noivos e precisavam de mais tempo sozinhos). Rikku prontamente ofereceu-se para buscar mais cigarros, mas Elizabeth se opôs, dizendo que ele e Silja eram convidados e ela é que deveria comprar o que faltava. Rikku não quis deixá-la sair sozinha na noite e, antes que Tommi pudesse dizer que ele próprio compraria mais cigarros e uísque, Rikku convidou Lizzy para ir com ele.
Prontamente ambos saíram, dizendo que voltariam rapidamente. Sohvi beijou a bochecha da mãe quando esta colocava um casaco de flanela azul e branco, e sorria alegre porque havia achado um último cigarro no bolso da frente. Tommi apenas riu, não reivindicou o cigarro achado em seu casaco. Sohvi ficou observando seu tio e sua mãe saindo na noite. A neve caía e sua mãe teve um leve estremecimento ao sair, mas Rikku puxou-a para si, fazendo-a rir, mais sinceramente do que Sohvi jamais lembrava ter visto. Ambos entraram no carro e Sohvi ficou pensando no que sua mãe lhe dissera uma vez, que seu tio era o melhor amigo dela. Pela lógica, não seria o seu pai quem deveria ser o seu melhor amigo? Segundo sua mãe, haviam coisas que não se podia contar para seu marido. Sohvi não entendera muito bem mas concordara, não tinha dúvidas de que sua mãe e seu tio eram melhores amigos, de fato. Com um leve suspiro, Sohvi voltou a se concentrar no quebra-cabeça com Mikael.
Estranhamente, já havia se passado mais de uma hora e Rikku e Lizzy não voltavam. Tommi estava extremamente apreensivo e Silja estava nos braços de Perkko, que tentava mantê-la tranquila, sem sucesso. Rikku e Lizzy haviam ambos se esquecido dos celulares, e todos ali sabiam muito bem que nessa época, a neve muitas vezes impossibilitava o tráfego em Kitee, mas algo dizia a Tommi que não estava tudo bem. Ele sempre fora um pouco sensitivo, e podia farejar de longe o que se passava com Elizabeth, sempre. Quando ele já estava se preparando para ir atrás dela e de seu irmão, o telefone de casa tocou. Tommi correu a atender, apreensivo. Seu rosto foi se contraindo e tornando-se ainda mais tenso, conforme ouvia e concordava, já arfante. Silja olhava-o apreensiva, a argola parecendo que ia saltar do nariz de tão rápido que respirava. Perkko acariciava os longos cabelos negros da mãe, preocupado também. Mikael parecia rezar baixinho, olhando fixamente para uma foto de Lizzy sobre o console da lareira. Desligando o telefone, Tommi simplesmente anunciou gravemente:
- Vamos todos para o hospital - e não disse mais nada, saindo sem sequer vestir um casaco. Apenas pegou as chaves do carro e foi seguido por todos, Silja tentando entender o que acontecera, mas desistiu depois que viu que Tommi parecia ter um olhar assassino e dirigia implacavelmente pelas ruas cheias de neve. Sohvi mordera o lábio inferior até fazê-lo sangrar e, apesar de estar abraçada em Mikael, não sentia conforto algum. Mikael chorava disfarçadamente, e mesmo Perkko, que era sempre o espírito alegre, estava taciturno e tinha os olhos quase transbordantes. Sentado do outro lado de Sohvi, Perkko cerrava os punhos e também adquiria um olhar parecido com o de seu tio, mesmo que cheio d'água.
Quando chegaram ao hospital, depois de quinze minutos que pareceram levar uma eternidade, todos saltaram do carro e foram correndo para a recepção. Tommi, especialmente, descera correndo do carro e abrira as portas violentamente, entrou na recepção e sua voz parecia um poderosamente sonoro trovão.
- ONDE DIABOS ESTÁ ELIZABETH? ONDE ESTÁ A MINHA LIZZY?
Nisso, de um canto ali mesmo, Rikku levantou-se, os longos cabelos loiros, assim como os braços, as roupas e até mesmo o rosto, tudo empapado de sangue, e um desespero aterrador em seu rosto redondo e geralmente brincalhão.
- Eu não pude, eu não pude salvá-la, eu... Lizzy...
Sua voz era um soluço, quase um suspiro doloroso, sua angústia era palpável. Ele parecia um garotinho que houvesse acabado de ver toda a sua família sendo brutalmente assassinada. Silja, Perkko e Mikael correram a abraçá-lo, mas Tommi ficara tão transtornado ao ver o sangue de Lizzy cobrindo seu irmão que desabou numa cadeira, sacudido violentamente por soluços. Sohvi assistia a tudo paralisada. Não compreendia, não queria compreender o que estava acontecendo, não queria saber que diabos significava aquele sangue em seu tio, tampouco o desespero dele e de seu pai. Mikael, depois de um tempo junto a Rikku, foi correndo abraçar Tommi, e ambos choravam quase com a mesma intensidade. Sohvi não conseguia absorver tudo aquilo; os homens que sempre se mostraram fortes e másculos, aqueles que ela chamaria para espantar os mais temíveis monstros, estavam ali soluçando feito crianças abandonadas, seu tio estava coberto de sangue e absolutamente desesperado. Ela não conseguia mover um músculo sequer, porque sequer havia dito para sua mãe o quanto se preocupava com ela, o quanto a amava. Era violentamente atingida por lembranças estranhamente nítidas de sua mãe, de tempos onde sua mãe parecia verdadeiramente feliz. Mal percebeu quando seu pai a pegou no colo e a levou para uma sala reservada junto com Mikael, que parecia tão desesperado ou pior do que Rikku. Estranhamente, ela caiu no sono numa maca qualquer. Mas sua mamãe não veio lhe chamar para comer o habitual omelete antes de ir para a escola.
Tudo isso havia sido há oito anos atrás. Sohvi era praticamente uma mulher agora e era bastante madura para os seus 16 anos. Há cerca de três anos havia assumido os vocais e o teclado da banda de seus primos, para grande orgulho de seu pai e de seu tio. Havia começado a praticar canto lírico depois da morte de sua mãe, e rapidamente ascendeu com sua voz de contralto. Desde então havia se tornado uma estudante aplicada e vivia tranquilamente com o seu pai, ainda na mesma casa. De fato, sequer o quarto que pertencera à Lizzy e Tommi havia mudado, ele continuava ocupando o quarto mas não tocava nas coisas dela. Sohvi cansara de ver o pai sentado na bela cama de casal que havia no quarto desde o casamento, olhando a estante de livros de Lizzy por horas a fio. Tommi ainda usava a aliança e sua vida era apenas seu trabalho e cuidar de Sohvi. Havia se tornado quase apático, muito diferente do homem feliz com quem Sohvi era habituada quando criança. Não deixava que ninguém, exceto ele próprio, Sohvi e os gêmeos mexessem nos livros dela, e tampouco deixava que Sohvi pegasse as roupas da mãe. Tommi geralmente usava uma camiseta de uma banda chamada Sonata Arctica, que sua mulher amava desde que ele lhe mostrara a primeira música. A camiseta era dele, mas Lizzy usava-a continuamente. Agora a camiseta tinha furos e estava extremamente puída, mas Tommi não se desfazia dela e tampouco deixava de usá-la de forma alguma. Sohvi preocupava-se com seu pai, ele parecia viver apenas de suas lembranças. Sempre que quisesse, podia entrar no quarto do pai sem ser notada por ele, porque ou ele estava olhando para o lago que podia ser visto pela janela, que dava para o quintal, ou ele estava assistindo vídeos antigos onde sua mãe invariavelmente aparecia, ou estava compondo e parecia sentir Elizabeth abraçando-o por trás, como ela às vezes fazia, apoiando seu queixo no ombro dele e olhando-o compor.
Sohvi entrou no quarto dos pais e Tommi só não estava lá porque estava no estúdio com Rikku e o resto de sua banda. Na verdade, ela adorava aquele lugar, porque seus pais haviam transformado-o num estúdio compartilhado - era ali que Lizzy guardava seus livros e escrevia suas histórias, e era ali também que Tommi guardava seus teclados e compunha suas canções. Sohvi cansara de encontrá-los em silêncio, cada um concentrado em seu trabalho, apenas parando para trocarem um sorriso e/ou um abraço. Uma vez perguntara, separadamente para cada um, por que trabalhavam juntos, já que faziam trabalhos diferentes e geralmente artistas preferiam trabalhar sozinhos. Ambos responderam quase com as mesmas palavras, dizendo que se sentiam mais tranquilos e mais inspirados apenas por saberem que o outro estava ali perto. O computador de Lizzy continuava na mesa perto do teclado e da janela que dava para o lago. Sohvi resolveu ligá-lo; sentia saudade das histórias de sua mãe e sabia que muitas não haviam sido publicadas, portanto, só poderiam ser encontradas em seu computador. Sohvi achou graça, na época em que fora comprado, o computador de sua mãe era o mais moderno, mas agora era tão ultrapassado que se não fosse tão bem-humorada, Sohvi provavelmente o teria jogado no lago apenas pelo tempo que demorava para ligar. No wallpaper, havia uma foto de Sohvi abraçada em seus pais, todos sorrindo no Natal. Seus pais eram apaixonados pelo Natal, muito mais do que a própia Sohvi. Ela sorriu ao lembrar-se da animação que enchia a casa na semana antecedente ao Natal; seus pais andavam empolgados pela casa decorando até mesmo a própria Sohvi, se ela deixasse.
Mexendo nas pastas, ela rapidamente achou o que queria. Mas entre as histórias, havia um rascunho de e-mail salvo. O rascunho era protegido por senha, mas Sohvi não teve dificuldades de descobrí-la: a música favorita de sua mãe se chamava Minun Enkeli, e era composição da banda de seu pai. Essa era a senha, e de certa forma era uma sorte que Sohvi houvesse se lembrado disso, porque somente ela sabia que essa era a música favorita de sua mãe. Era um sinal de sorte. O e-mail era endereçado ao seu avô, um inglês que Sohvi se lembrava com sendo gentil e bondoso, e completamente fascinado por sua mãe. Ele se chamava David e era dele que Elizabeth havia herdade sua doçura e seus olhos castanhos gentis, suas sardas, seus cabelos castanhos e lisos. Ele vinha visitar a filha e a neta no mínimo uma vez por mês e, apesar de não ter a mínima reclamação a fazer sobre Tommi, sempre o olhava com um amargor disfarçado, por ter lhe "roubado" a sua filha. Ainda assim, ele era gentil mesmo com Tommi, afinal, David era do tipo de pessoa que se entende bem até mesmo com as pessoas que não gosta. Seu avô morrera uma semana antes que sua mãe, em consequência de complicações do infarto que sofrera há pouco tempo.
O e-mail era de sua mãe para seu avô. O texto começava com notícias banais, mas logo chegava um trecho que lhe chamou a atenção:
"Papai, você acredita que Sohvi me perguntou, ainda ontem, por que Rikku era meu melhor amigo e não Tommi? Eu fiquei sem saber o que dizer, afinal, eu nunca disse que Rikku era o meu melhor amigo! Mas resolvi não tentar remendar, se ela percebeu isso merece que não lhe seja negada uma mínima parte da verdade que seja. Disse-lhe que Rikku era meu melhor amigo porque haviam coisas que não podiam ser ditas ao seu pai. Acho que não fiz o que era certo, mas é o melhor que posso fazer por hora. Já é confuso o bastante para ela os meninos não terem perdido a mania de me chamar de mamãe. Imagine como seria se ela soubesse de toda a história."
Que diabos de história seria essa? Sohvi lembrava-se perfeitamente desse dia, e lembrava que sua mãe havia corado violentamente ao responder. Ela sabia que sua mãe era jovem demais para ser mãe de Perkko e Mikael, mas haveria outro motivo para eles a chamarem de mãe? Sohvi sempre pensara que eles chamavam-na dessa forma porque ela sempre estivera por perto desde que eles eram pequenos, e porque ela era a tia mais próxima que possuíam. Soava estranho eles "não terem perdido a mania" de chamá-la assim. Que história a deixaria tão confusa?
Sohvi pesquisou por mais e-mails no computador, mas aquele era o único rascunho, e sua mãe havia mudado de assunto no parágrafo seguinte, sem se referir novamente a isso durante todo o resto do e-mail. Subitamente, Sohvi pensou que poderia encontrar os e-mails de sua mãe na sua caixa de saída do e-mail em si. Por sorte, lembrava-se do e-mail e a senha era a mesma. Sua mãe realmente não se importava muito com segurança. De fato, na caixa de entrada havia os e-mails de seu avô, de seu pai e alguns do tio Rikku e do tio Matti. Tia Heidi também parecia ser uma correspondente frequente. Felizmente, havia um mecanismo de pesquisa de conteúdo de e-mail. Sohvi pesquisou simplesmente por "Sohvi+Rikku+meninos" e logo vários e-mails surgiram. Sohvi começou a olhar o primeiro por cima, para ver se havia algo de interessante. Bingo. Havia. E Sohvi tinha um estranho pressentimento de que todos os outros seriam igualmente interessantes. Passando os olhos rapidamente pelo texto, logo chegou aos termos destacados:
"Sabe Heidi, graças à Sohvi os dias tem sido relativamente mais fáceis, mas sinto profundamente a falta dos meninos e também de Rikku, por Deus, sinto imensamente a falta deles! Sei que se passou muito tempo, já são quase cinco anos, mas não posso suportar as reuniões familiares - você já percebeu, naturalmente eu, Rikku e os meninos nos reunimos e passamos o dia nos divertindo juntos. Tommi, Sohvi e Silja inevitavelmente ficam perdidos e taciturnos, e juro que eu e Rikku tentamos ao máximo evitar isso tudo e trazê-los para nossa companhia, mas simplesmente parece que há um mecanismo estranhamente forte que nos une, e nós quatro repentinamente somos uma família sólida outra vez.
Fico feliz que Matti e você finalmente tenham ficado noivos. Rikku disse que torce para que você não descubra que, na verdade, o seu verdadeiro amor é Ransu, porque senão a família Harmaajärvi irá acabar numa disputa entre irmãos. Eu sei que é idiota, mas ainda me encanto pelo seu senso de humor, eu dificilmente consigo fazer piadas sobre nossa situação, mas Rikku consegue me fazer rir como se de fato pudéssemos resolver tudo isso e as coisas fossem ficar bem. Sei que deveríamos esquecer tudo, mas eu e ele somos simplesmente incapazes disso, e quando tento, Rikku fica tão sincera e silenciosamente desolado que não consigo permanecer indiferente, ainda mais porque ele tenta disfarçar para me ajudar, ele quer que eu não sofra mais.
Apareça nesse feriado para conversarmos, quero saber tudo de como Matti pediu-a em casamento e quero ver o seu anel, deve ser maravilhoso! Preciso ir agora, Sohvi e Tommi estão chegando do parque.
Te amo, xx."
Sohvi felizmente tinha um bom mecanismo de defesa que a fazia entrar em choque com notícias muito graves e havia duas maneiras dela reagir: ou ela ficava paralisada, ou seguia fazendo tudo como se nada houvesse acontecido, e só horas depois se dava por conta do que havia acontecido. Por sorte, dessa vez aconteceu a segunda opção. Ela passou para o segundo e-mail, que era do tio Rikku. A saudação quase fez com que Sohvi caísse da cadeira.
"Meu amor:
Você não vai acreditar a foto que encontrei hoje! Lembra daquela vez que fomos acampar no verão, logo que você veio morar conosco? Pois bem, eu a encontrei no computador de Mikael, como wallpaper, ainda! Os meninos começaram a te chamar de mamãe nesse dia, lembra? A foto está anexada ao e-mail, e eu te disse que encontraria essa foto. Demorou quase dez anos, mas encontrei. Você não quer me deixar cumprir todas as minhas outras promessas também? Sempre estarei disposto, você sabe bem, Lizzy.
Os meninos sentem a sua falta imensamente, e eu também. Que tal se você trouxesse Sohvi e nós cinco nos transformássemos numa família? Ela e os meninos já se tratam como se fossem irmãos, o problema seria o nó na cabeça dela, sua mãe se casando com o seu tio... É, nisso eu concordo com você, amor. Não seria nada fácil aceitar uma situação dessas."
O resto do e-mail seguia em divagações desse tipo, nas quais Sohvi simplesmente não conseguiu se concentrar. Depois achou um documento, intitulado "Soul.doc". Leu-o inteiro, quase sem respirar. Agora sim estava paralisada. Sua mãe... e seu tio? Por Deus, Rikku era até mesmo seu padrinho! Por sorte, seu pai ainda estava no estúdio, porque ela não conseguiria fingir que estava tudo bem se ele entrasse ali agora. Num impulso súbito e irracional, Sohvi imprimiu o "Soul.doc", pegou sua bolsa e dirigiu até o estúdio. Ela nem pensou em seguir lendo ou qualquer outra coisa, uma determinação cega havia dominado-a: precisava conversar com tio Rikku. Afinal, tudo isso tinha de ser esclarecido por ele. Ela queria acreditar que sua mãe havia amado seu pai, oras, e seu tio só havia sido seu amigo, nada mais nada menos do que isso. Nada de famílias estranhas. Nada de amores reprimidos. Subitamente, Sohvi sentiu raiva das inúmeras lembranças que tinha de Mikael e Perkko chamando Elizabeth de mamãe e tratando-na como tal - e o pior, sendo correspondidos. Sohvi era tão habituada à relação deles que nunca havia se dado por conta do quanto tudo era estranho.
Sohvi chegou ao estúdio e não cumprimentou absolutamente ninguém, e ignorando as proibições, entrou no estúdio de súbito e chamou, com a voz arfante.
- Tio Rikku, preciso falar com o senhor, agora.
Seus outros tios e seu pai tentaram falar com ela mas foram ignorados. Rikku percebeu na mesma hora o quão séria era a intenção da sobrinha; seus olhos haviam adquirido a mesma intensidade que os olhos de Tommi adquiriam quando ele estava profundamente magoado. Ambos saíram do estúdio e Sohvi conduziu seu tio até um lago que ficava um pouco distante. Sentaram-se no banco que havia à beira do lago. Rikku passava as mãos nervosamente por seus longos cabelos loiros e por sua também longa barba. Sohvi fitou os olhos azuis do tio intensamente, e ele não desviou o olhar. Parecia triste, porém seguro.
- Eu quero que o senhor me conte que diabos havia entre você e mamãe. Sem receios, sem mentiras. Eu li alguns e-mails, sei que vocês já moraram juntos.
Sohvi esperava que o tio começasse a negar freneticamente ou se sobressaltasse, mas nada disso aconteceu. Pelo contrário, Rikku parecia resignado com o fato de que cedo ou tarde isso aconteceria. Ele deu um profundo suspiro, tirou um cigarro do seu maço e ofereceu um à Sohvi, logo acendendo os dois e, depois de uma longa tragada no seu, ele começou, com os olhos perdidos num ponto qualquer do lago.
- Sua mãe foi uma mulher incrível - disse ele, e mesmo que Sohvi não houvesse herdado a imensa empatia do pai, perceberia a profunda dor que marcava cada sílaba pronunciada por seu tio. - Nós vivemos juntos apenas por cerca de seis meses, depois ela se convenceu que o melhor era honrar o noivado que tinha com o seu pai e eles se casaram, e tiveram você. Mas até então, ela viveu comigo e com os meninos como se fôssemos casados. E éramos, de fato. Acho que foi nosso único casamento verdadeiro, apesar de eu já ser casado com sua tia na época e sua mãe ter passado o resto da vida com o seu pai. Não me pergunte como ou porque, mas eu e sua mãe nos apaixonamos perdidamente um pelo outro, por mais brega e ridículo que isso possa soar. Você tem certeza que quer ouvir essa história?
- Estou aqui apenas para isso - disse Sohvi, imperturbável.
- Pois bem, então deixe-me começar pelo começo - Rikku deu um longo suspiro, parecendo ainda mais velho do que era. Havia envelhecido terrivelmente nos últimos oito anos. - Sua mãe não tinha mais do que quinze anos quando chegou à Finlândia para morar. Ela havia visitado a Finlândia quando tinha doze anos, mas só se mudou para cá três anos depois. Esses três anos foram os que ela passou nos Estados Unidos, mas essa história o seu avô já lhe contou inúmeras vezes, eu suponho.
- Sim, sei perfeitamente bem.
Sohvi lembrava-se que, mesmo depois de muitos anos, seu avô ainda parecia extremamente preocupado quando contava que Elizabeth havia conhecido um hard rocker do qual era fã em Helsinki e fugira com ele para Los Angeles. Ela tinha apenas doze anos e o homem, quarenta. David quase enlouquecera atrás da filha, mas a encontrou feliz e apaixonada, morando com um homem que Sohvi vira uma foto uma vez, ele se chamava Bill, era ruivo e corpulento, um tipo que parecia violento mas estranhamente atraente. Não imaginava uma mulher delicada como sua mãe com um homem daqueles, mas eles viveram por três anos juntos, já que seu avô não conseguiu levá-la de volta para a Inglaterra. Quando brigaram, Elizabeth decidiu morar na Finlândia, e não na Inglaterra, o que desesperou David. Ela já sabia algo de finlandês e acabou por trabalhar na tradução de livros e escrevendo contos. Logo já estava fixada como escritora em Kitee.
- Pois bem - prosseguiu Rikku. - Nós todos conhecemos sua mãe antes que ela fugisse para Los Angeles. Era uma menininha ainda. Lembro-me que todos nós adoramos ela, mas eu e seu pai, especialmente, encantamo-nos por ela. Na verdade foi Heidi que nos apresenteu a ela, parece que Heidi tinha parentes na Inglaterra e quando ia para lá, costumava brincar com a sua mãe, pois ela era vizinha dos parentes de Heidi. Entenda, Heidi e Matti começaram a namorar ainda crianças, acredito eu. Quando voltou dos Estados Unidos, sua mãe passou a dividir um apartamento com Heidi e, consequentemente, passava muito tempo com toda a nossa banda, ou seja, nossa família. Eu já era casado na época e os meninos eram praticamente bebês, Mikael era recém-nascido. Lizzy tinha um jeito especial com Mikael, e logo se aproximou de Perkko também. Não parecia especialmente interessada em ninguém, apesar de muitos homens estarem sempre ao redor dela, inclusive eu e seu pai. Tommi só faltava tatuar na testa que era louco por ela, mas eu sempre fui mais discreto. Tornei-me amigo dela. E nunca me entendi tão bem com outra mulher.
"Aos poucos, porém, apesar da timidez, seu pai conseguiu se aproximar dela. Ao mesmo tempo, nossa amizade se tornava cada vez mais profunda, a ponto de Heidi e Silja desconfiarem de nós dois. Lizzy não percebeu que estávamos apaixonados, achava que seu pai era perfeito para ela e tentava se convencer disso dia e noite, ainda mais após de ter se envolvido com um homem violento como Bill. Queria um príncipe, e Tommi possuía todos os requisitos. Ela ignorava arduamente que se sentia profundamente feliz ao meu lado, que sem querer havíamos construído um cotidiano legal para nós e para os meninos. De alguma forma, Silja passou a se envolver mais com o trabalho e passava menos tempo em casa, tempo esse que Lizzy acabava passando conosco. Ela cuidava das crianças e de mim, e nos divertíamos imensamente nas coisas mais simples. Não percebíamos a felicidade rara que tínhamos em mãos, ou melhor, Lizzy insistia em ignorá-la. E ela se arrependeu disso pelo resto de seus dias.
Lizzy tinha muito medo de se magoar outra vez. Ela me contou o quanto sofrera com Bill e não estava disposta a sofrer, não mais. Ela achava que acreditar numa felicidade idealizada ao lado do seu pai a protegeria das mágoas. Mágoas essas que eu jamais causaria".
Rikku tentou disfarçar que estava chorando, mas Sohvi percebeu imediatamente e ignorou-o educamente, sabia que ele preferiria assim. Só depois de um bom tempo foi que Rikku se recompôs e continuou, grato por Sohvi ter agido daquela forma.
- Apesar de seu medo, Lizzy não conseguia evitar a convivência comigo e com os meninos, e tampouco fazia questão de evitar. Mesmo quando passou a morar com Tommi, ela nunca deixou de nos visitar, de estar sempre por perto. Se os meninos tinham febre de madrugada, Silja ia cuidar deles, mas eles não sossegavam enquanto não chamássemos Lizzy nem que fosse para dar-lhes um beijo de boa noite e dizer-lhes que já iam ficar bem. Lizzy não tinha muito jeito com crianças em geral, mas havia essa afinidade infinita com os meninos, que durou por toda a sua vida.
"Eu sinceramente acredito que Lizzy tenha se apaixonado por Tommi, e não falo isso apenas para lhe agradar, Sohvi. Depois de tudo que estou lhe contando, nem faria sentido. Não. Acredito que eles realmente foram apaixonados um pelo outro por muito tempo, e não era sem motivo que ambos criavam juntos e se mantiveram casados. Havia algo de raro lá também, algo de muito bom. Mas Lizzy sabia bem que nada se comparava ao que havíamos, completamente sem querer, construído juntos. Mikael, você deve ter percebido, sempre foi profundamente apegado à ela. Acho que posso dizer, sem erro, que ele se sente mais filho dela do que de Silja. Não o culpo, Lizzy foi maravilhosa com ele desde sempre, e se eu pudesse escolher, não sinto vergonha em dizer que teria me casado com Lizzy e os meninos seriam filhos dela. Acho que não há um dia da minha vida, desde que realmente conheci Lizzy, que eu não tenha pensado em como seria ter vivido a minha vida com ela."
- E meu pai, sabe disso tudo?
- Sim. Seu pai sempre percebeu os sentimentos das pessoas ao seu redor, desde que éramos crianças, e não seria diferente conosco, ainda mais com sentimentos tão intensos. Sua mãe sentia-se culpada por isso, mas até mesmo seu pai e seu avô diziam a ela que não se pode controlar os sentimentos.
- É, eles tem razão - disse Sohvi, finalmente comovida. Sem dizer uma palavra, estendeu o "Soul.doc" para Rikku e disse para que ele lesse. Levantou-se, deu um beijo carinhoso nos cabelos loiros do tio e saiu, deixando que ele lesse o texto que parecia gravado nela agora.
"Rikku querido, eu acabo de vê-lo e já sinto a sua falta. Mikael se parece tanto com você fisicamente, mas é tão ensimesmado o quanto eu (seria a convivência?). Perkko sim herdou sua personalidade, você também percebe isso? É claro que sim. Nós quase sempre temos as mesmas impressões sobre tudo, não seria diferente sobre "nossos" filhos.
Estou sozinha, imensamente sozinha nessa bonita casa que Tommi comprou para morarmos. Honestamente, prefiro a casa que eu e você dividíamos, lembra do quanto era pequena antes que o terceiro cd virasse o mais vendido da Finlândia? Depois nós escolhemos aquela casa maravilhosa onde você montou aquela biblioteca gigante para mim, com todos os títulos que eu ousasse sonhar. Não sei o quanto isso é errado ou certo, só sei que quero correr, nesse exato instante e ir aí ficar de joelhos aos seus pés, pedí-lo em casamento e pedir perdão por todas as minhas ausências. Quero ser acordada por você e pelas crianças todos os dias como antes, quero sentir o seu cheiro, dormir abraçada em você e me sentir verdadeiramente feliz, como você me fez o tempo todo. Como posso fazer para te guardar em mim, para não deixar que cada momento escape? É tão triste que as lembranças e você próprio escapem de mim que só consigo chorar, chorar tanto que me sinto meio tola. Mas papai sempre me disse que o amor verdadeiro nos faz sentir assim mesmo.
Falando em papai, quando ele esteve aqui, disse-me que eu seria ainda mais maluca se não ficasse com você. Ele percebeu imediatamente nossa ligação e disse que te deixar ir embora seria o maior erro que eu poderia cometer. "Enfrente seus medos, querida, ele vale o risco", foi o que papai me disse. Nunca pensei que fosse ouvir do papai qualquer estímulo desse tipo, mas você sempre consegue o impossível, não é mesmo, amor?
Sei que estou escrevendo essas linhas e você nunca irá lê-las, até porque talvez seja melhor assim. Eu não suportaria que você soubesse o quanto eu te amo, apesar de eu ter quase certeza de que meus olhos traem o meu segredo. Você mesmo diz que meus olhos são extremamente expressivos. Você pode ver o amor que sinto por você? Apesar de negar, eu espero que sim. Porque eu te amo, profundamente. Não importa o quanto eu tente fugir disso.
Se algum dia, por algum acaso, você ler essas palavras, por favor, não permaneça em silêncio. Se julgar que mereço, abrace-me bem forte, mas bem forte mesmo, como quando você chega de viagem e eu estou te esperando com as crianças no aeroporto. Você sempre me puxa contra si e eu fico sentindo você surrealmente perto de mim, e honestamente, não existe sensação melhor no mundo. Quero que o resto dos meus dias sejam apenas uma única madrugada que passaremos nus no nosso quarto, completamente entregues ao que somos juntos. Eu preferiria qualquer coisa do que morrer longe de você. Quero que seus olhos, sua boca, sua respiração seja a última em mim.
Preciso parar de escrever, estou quase estragando o teclado com minhas lágrimas, e chorar é sempre inútil, apesar do alívio que traz. Um dia, prometo que serei forte o suficiente para amá-lo sem culpa, para sempre. "
Rikku levantou-se do banco onde estivera lendo e relendo o texto nas últimas horas. Ele quase podia sentir Lizzy ao seu lado, sentir seus lábios beijando-o intensamente, o brilho de seus olhos na penumbra, seus longos cabelos caindo pelas costas brancas e nuas que ele acariciava, fazendo com que ela fechasse os olhos, maravilhada. Guardando o texto no bolso, Rikku foi até o cemitério e deitou-se sobre a lápide de Lizzy. A primeira neve daquele ano caía, e Lizzy sempre ficava feliz com isso. Rikku fechou os olhos, imaginando-a bem aconchegada em seus braços, como fazia nas noites frias. Sohvi observava-o de longe, e não conseguia sentir raiva ou repulsa pelo tio. Aquele homem havia sido o grande amor da vida da sua mãe, a sua alma. E pelo jeito, ele a amara tanto o quanto fora amado. Sohvi sorriu, sentindo-se aliviada. Sua mãe estivera doente sim, doente da alma, agora ela sabia. E um dia, onde quer que ela estivesse, ela se curaria, com o tio Rikku e os meninos.
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