Com dificuldade para respirar, ela abriu os olhos. A claridade típica de quatro horas da tarde iluminava o banheiro de azulejos brancos e floridos, e estranhamente aquele lugar lembrava-lhe Paris, sem nenhuma razão aparente mesmo. Seus ombros e braços doíam, e ardiam-lhe as correntes. Haviam correntes entranhadas em sua carne, nos pulsos, nos calcanhares, nos seios, e, apesar de os ferimentos causados por elas estarem inflamando, ela sabia perfeitamente bem que elas não eram letais, apenas causavam dor - afinal, ela já havia perdido as contas de quantos dias estava ali e sua morte nem sequer se aproximava. Ela olhou para o seu corpo, outrora perfeito, mas agora deformado pelo seu vício, lembrou-se de tudo que fizera apenas para não decepcionar as outras pessoas. Ela sabia que se puxasse com força, estaria livre das correntes e, apesar da intensa dor, ela sobreviveria perfeitamente bem. Sabia porque uma vez já fizera isso, mas ainda estava fraca demais para viver por conta própia, e libertara-se pelos motivos errados, então logo acabara presa outra vez. Agora ela sentia que era o momento certo, o momento definitivo de se libertar, a sua única chance. Só não sabia de onde tiraria a coragem necessária para tal.
Tentando acomodar-se, ela se mexeu e as correntes repuxaram, aumentando os machucados. Ela gemeu baixo de dor e tristeza, já não podia suportar tanta dor, mas como se libertar? Flashes quase alucinavam-na com a rapidez que dominavam a sua mente, lembrava-se de um professor que lhe dissera que o que importava era o que ela realmente queria para si, o que ela acreditava, lembrou-se de uma professora que sempre fora maternal e acreditava profundamente nela, lembrava-se de anjos que a resgataram nos calabouços mais imundos, de seus amigos que um dia foram a sua força, dos livros que lera, de seu pai com o sorriso orgulhoso que a fazia encher-se de felicidade. Tudo que valia a pena, tudo que ela amava. Arruinara-se por amar demasiadamente, mas tinha de se libertar. Sentia-se fraca, mas sabia que nunca estivera mais preparada para se libertar, só não sabia daonde tiraria a força para o primeiro passo, que apesar de ser tão difícil quanto todos os outros, sempre parecia ser o mais difícil. Seus cabelos lisos estavam empapados de suor, seu peito arfante, quando ela levantou a mão direita e olhou-a, tentando tomar coragem. Doeria muito, sim, doeria. Mas não seria extremamente melhor depois? Mordendo o lábio inferior com força e fechando os olhos, ela deu um puxão para cima, que rasgou-lhe a pele dolorosamente, fazendo-a gritar de dor. Ela abriu os olhos quando ouviu o barulho da corrente caindo no chão. Seu braço sangrava muito e doía, mas estava liberto. Lágrimas correram-lhe pelo rosto que, apesar de maltratado, continuava belo. Ela tentou recuperar-se por um instante, mas era difícil. O impacto de ter começado dominava-a por inteiro.
O problema era que não bastava libertar apenas um braço, ela precisava libertar-se por inteiro. Aquela era apenas uma pequena parte do problema todo. Tentando manter o controle sobre si própia, ela levantou levemente o braço esquerdo. Se já tinha começado, era um desperdício de esforço não continuar. A segunda vez doeria tanto o quanto a primeira, mas era igualmente necessária, ou até mais, pois ela tinha o poder de fazer com que a primeira não houvesse sido em vão. Tomada de uma repentina coragem por ter conseguido a primeira, ela puxou fortemente o braço esquerdo, rasgando sua pele outra vez. A dor havia sido tão ruim o quanto a primeira, mas ela se sentia mais forte agora. Forte o suficiente para libertar-se por inteiro. Aos poucos, ela foi tirando as outras correntes, suportando a dor, engolindo o choro. Porém, quando faltava a última, no calcanhar esquerdo, ela estava a ponto de desistir, quando repentinamente a porta do banheiro abriu-se, apenas uma fresta, onde um rosto extremamente conhecido e preocupado apareceu. Os olhos verdes por trás dos oclinhos redondos olhavam-na demonstrando uma preocupação desesperada.
- Eu estou aqui, fique calma - quase berrou ele. Arfante, ele parou um segundo para pensar, olhando para o estado dela, ouvindo seu choro que agora vinha livremente. - Você está quase liberta, mas essa porta só pode ser destrancada totalmente por dentro, você sabe disso. Vamos, eu sei que doerá mas eu estou aqui e vou levá-la para casa, mamãe e papai estão esperando por nós. Por favor, querida, tente!
Finalmente percebendo o quão importante era salvar-se, ela deu um puxão final com o seu pé esquerdo, que rasgou-lhe o calcanhar mas libertou-a inteiramente. Rastejando ofegante, ela foi até a tranca da porta e abriu, e ele quase despencou para dentro do banheiro, rapidamente pegando-a no colo e puxando-a para si, chorando baixinho.
- Minha irmãzinha - sussurrou ele, acariciando seu rosto desesperadamente. - Meu anjinho, minha pequena, nós vamos para casa agora, está bem? Mamãe e papai estão nos esperando, eu te levo, você pode dormir comigo esta noite...
Ela concordava, abraçada frouxamente no irmão, deixando sua cabeça repousar em seu pescoço, sentindo aquele cheiro que tantas vezes lhe trouxera paz e força. Ele começou a caminhar com ela nos braços, levando-a para casa, quando ela sentiu que ambos estavam caindo vertiginosamente... e acordou de um salto, sentando-se em sua cama. Seu quarto estava escuro, era de madrugada, ela ligou o abajur com a respiração arfante. Seu irmão gêmeo ressonava tranquilamente na cama ao lado, os oclinhos redondos repousando sobre o criado-mudo, os cabelos negros espalhando-se para todos os lados no travesseiro. Sem conseguir segurar o choro, ela não hesitou em rapidamente enfiar-se debaixo das cobertas com ele, abraçando-o fortemente. Ele se acordou sobressaltado, mas logo começou a acariciar-lhe os cabelos e sussurrar que estava tudo bem. Sim, felizmente estava tudo bem, mas ela não podia continuar a vida que estava levando. Ela deixou que o irmão apagasse a luz, que ele lhe acariciasse os cabelos até que ela caísse no sono outra vez. Prometeu a si mesma que, por mais difícil que fosse, ela se libertaria, e seu irmão estaria ao seu lado para lhe dar forças, ela sabia bem. Sempre estaria.
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