Rikhard cruzou os braços e ficou a observar Kirsti cuidando da pequena Kaija, fazendo-a dormir carinhosamente em seus braços. Ela observava o bebê sorrindo com ternura. Ele já a vira fazer o mesmo observando seus própios filhos gêmeos dormindo. Sem que ele percebesse, Marjatta aproximou-se dele e disse:
- Eu nunca pensei que ela havia vindo para ficar, sabe.
- Eu também achava que não - disse ele, trocando um sorriso com ela. - Mas felizmente ela se encontrou aqui. Olha a forma com que ela cuida a filha de Ransu, não é adorável? Lembra-me dela com meus filhos, ela possui uma ligação indescritível com eles...
- Com todos nós, eu diria - Marjatta sorriu outra vez, sentando-se no sofá enquanto Kirsti subia as escadas para depositar Kaija no quarto. - Acho graça na forma humilde que ela tem de me tratar, quase como se eu fosse a mãe dela. E não posso negar, ela desperta todo o meu instinto maternal, todo o meu carinho. Ela às vezes é tão sinceramente perdida que tenho vontade de pegá-la no colo e cuidar dela até que ela cresça. Ela ainda é uma criança, apesar de você não achar isso - um leve tom de censura perpassou sua voz.
- Não tenho culpa - apressou-se a justificar Rikhard. - Ela é madura para sua idade, é culta e intensa. Acho que mesmo que nós não tivéssemos convivido por tanto tempo, eu ainda assim seria encantado por ela...
- Você quis dizer apaixonado, certo? - perguntou Marjatta e ele ia outra vez justificar-se, mas ela riu. - Todos vocês, exceto por Ransu, ficaram completamente abobalhados com ela quando ela chegou. É normal, eu concordo com vocês.
- Concorda com o quê? - perguntou Heikki, trazendo cervejas para todos e sentando-se ao lado de Marjatta.
- Que Kirsti é adorável, e você certamente discorda, eu sei - os dois riram, enquanto Rikhard passava a mão pelos longos cabelos, desconfortável, e acendia um cigarro.
- A propósito, onde está ela?
- Foi colocar Kaija na cama.
- Eu estou dizendo, nossos filhos terão uma ótima mãe - disse Heikki, sonhador, os olhos cinzentos brilhando. - Kirsti cuida tão bem de Kaija e dos seus gêmeos que eu não tenho dúvidas quanto a isso - ele sorriu para Rikhard, que forçosamente conseguiu retribuir.
- Duvido que Eetu e Antti deixem-na ter outras crianças - disse ele, com uma agressividade mal disfarçada. - Eles são loucos por ela, e ela por eles, você sabe. Só essa semana, quanto tempo ela passou lá em casa conosco? A maior parte do tempo, como sempre.
Heikki ficou em silêncio e Marjatta olhava de um para outro, ansiosa. Havia uma estranha relação entre eles. Kirsti conhecera Heikki antes, porém se envolvera com Rikhard antes e eles transavam cada vez que se encontravam. Porém, depois que ela se envolveu com Heikki, descobriu que ele e Rikhard eram amigos de longa data, mas ela acabou, em tempos de crise existencial, sendo acolhida por Rikhard e, como eles não podiam mais se envolver sexualmente, acabaram por desenvolver uma amizade inesperadamente profunda, afinal, possuíam uma afinidade muito maior do que jamais imaginaram. Kirsti morou na casa de Rikhard até se sentir pronta para entregar-se ao amor que sentia por Heikki, mas nesse ínterim uma relação maravilhosa havia nascido naturalmente entre ela e Rikhard, e pior ainda, com seus filhos também. De alguma forma, os quatro, apesar de os filhos serem fruto do primeiro (e único) casamento de Rikhard, formavam uma família unida e alegre, como jamais Kirsti imaginara ter. Kirsti há tempos havia voltado a morar com Heikki, mas vivia visitando Antti e Eetu, e consequentemente via Rikhard. Ainda havia amizade, mas também havia amor. Rikhard parecia não suportar a ideia de perdê-la, de perder a vida perfeita que poderiam ter juntos, e, por mais que lhe doesse, ele preferia ser apenas amigo dela à perdê-la.
O silêncio prolongava-se enquanto os três perdiam-se em meditações sobre essa mesma história. Kirsti usava um lindo anel de diamantes, presente de noivado de Heikki. Ele lembrava-se dos primeiros meses em que moraram juntos, e viviam num mundo completamente fechado, apenas deles. Nunca os dias haviam sido tão perfeitos, mas o medo de tanta felicidade havia afastado Kirsti, havia feito com que Rikhard quase tivesse a chance de tomá-la para si. Agora, apesar de o amor entre Heikki e Kirsti ainda ser intenso, havia um amor, uma possibilidade incrível reprimida entre ela e Rikhard. Sem imaginar o que se passava, ela chegou na sala e sentou-se entre Marjatta e Heikki, descansando uma mão sobre sua perna. Ela sorriu para ele e ele tinha os olhos rasos d'água.
- Kaija está dormindo como um anjo - ela tomou um gole da cerveja que ele lhe oferecia e ele puxou-a para si. Rikhard observava os dois com dor nos olhos. Heikki beijou seus cabelos e ela olhou-o, sussurrando:
- Está tudo bem?
- Está, eu só quero ir para casa - ele sussurrou, enquanto Rikhard saía ruidosamente da sala. Kirsti percebeu que as coisas não estavam bem, mas fingiu que acreditava nas palavras de Heikki.
- Vamos, então - disse ela, prontamente levantando-se e indo pegar seus casacos. Kirsti despediu-se de Marjatta, que lançou-lhe um olhar significativo, o olhar que sempre lhe lançava quando percebia tensão entre Heikki e Rikhard. Kirsti entendeu prontamente e saiu com Heikki, que sequer esperou chegarem ao carro para começar a falar. A neve estava começando a ficar forte, mas ele não se importou.
- Escute, Kirsti, eu preciso de você - disse-lhe ele, segurando seu rosto delicadamente, olhando-a com urgência. Seus olhos cinzentos cintilavam. - Eu não escrevi nada além do que eu realmente sinto, eu quero que todos os nossos planos sejam realidade logo. Mas preciso que você me diga, me afirme que você ainda deseja tudo isso, que você ainda me ama. Porque eu sinto como se você se esvaísse de minhas mãos...
- Eu te amo tanto o quanto eu te amei na primeira noite - disse ela, mais sinceramente do que esperava. Sentia que estava sendo honesta consigo mesma, além de para com Heikki. Uma certeza profunda atingiu-a por inteiro, e ela prosseguiu. - Sim, nós teremos nosso casamento élfico, usaremos as alianças que você escolheu naquela noite e ficaremos velhinhos juntos...
Heikki sorriu entre lágrimas, ele era imensamente mais sensível do que ela, mas ela mesma se emocionou e sorria quase chorando. Eles sentiam uma certeza mútua de amor porque quando olhavam-se intensamente nos olhos, como naquele instante, não haviam barreiras entre eles. Beijaram-se delicadamente e Heikki passou um braço pelos ombros de Kirsti, levando-a para casa, absolutamente certo de que sua realidade era o seu mais belo sonho.
E Rikhard observava tudo das grandes janelas da sala, silenciosa e tristemente. No fundo, sempre soubera que Kirsti não seria sua, não enquanto Heikki existisse. Com um profundo suspiro, deixou-se cair pesadamente numa cadeira, acendendo um cigarro, olhando a neve cair, cobrindo tudo o que havia de melhor nele.
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