terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Carta I, Destinatário V

(Escrito no começo de 2009.)

Eu sei muito bem, agora, que minha vida sem você não faz sentido algum. Um dia sem seu sorriso, sua voz ao telefone, seus abraços, fica estranho, deslocado, quebrado. É estranho me sentir assim, já que tive você ao meu lado durante toda a minha vida, mas isso não parece bastar. Afinal, que graça teria tomar um porre no Rainbow se depois não vou acordar com o seu cabelo em meu rosto e com você falando baixinho por causa da minha dor de cabeça? Passar uma semana toda à base de McDonald's, MTV e Rainbow? Só você sabe fazer isso comigo. Ao longo dos anos, estar com você se tornou uma (ótima) necessidade. Eu não conseguiria te dizer o quanto gosto de ouvir sua voz, de rir com você e de te abraçar do nada. Falando nisso, eu simplesmente amo te abraçar, porque o que mais gosto é sentir seu cheiro, sua pele. Sem seu abraço sabe-se lá Deus se eu ainda estaria aqui.
Antigamente, eu tentava não enxergar tudo o que havia entre nós. Essa nossa cumplicidade, a sintonia de nos entendermos com um olhar, a intimidade de podermos dormir abraçados sem transar, de podermos nos abraçar do nada, só para nos sentirmos ainda mais próximos.
Mas o que realmente me mata (e me faz te amar ainda mais) é o seu olhar. Através do seus olhos verdes, eu sei quando você está chateado comigo, quando está magoado, e existe uma coisa que nunca muda neles: o amor que eu vejo neles. Ele às vezes tenta se esconder, às vezes aparece de outra forma, e por muitas vezes eu própia tento ignorá-lo, mas às vezes ele aparece completamente nu, e ele sempre está lá, como um brilho incessante. E eu não saberia se alguém não houvesse me dito, mas ele sempre esteve lá. E por mais que eu tente esconder, abafar, sufocar, ele também está em meus olhos. Ele se manifesta quando te abraço forte, quando sinto seu cheiro, quando lembro dos nossos momentos juntos, e em muitos outros indizíveis momentos.
Eu já parei para pensar em como as coisas poderiam ter sido muitas vezes. Lembro das vezes em que quase nos beijamos, e que eu não permiti por puro medo. Das vezes que te magoei injustamente por causa da minha obsessão pelo meu marido. Quando eu lembro o jeito que você me olhou no dia em que eu entrei na igreja para me casar, eu penso que talvez eu devesse ter largado tudo por você naquela noite mesmo, mas naquela época eu não cogitava isso; eu continuava viciosamente ao lado do meu marido (e estou até hoje, mesmo depois de tudo, eu sei), e eu ignorava tudo que existia nas horas que passávamos juntos. Agora, não consigo mais ignorar e fingir que não há um amor reprimido entre nós. Isso transparece no modo como agimos juntos, e não acho que alguém tão próximo de nós quanto sua filha ou o marido dela não veja tudo isso - até porque ele é o seu melhor amigo.
Por mais inacreditável que possa lhe parecer, eu sei que nada dura para sempre, e talvez algum dia as coisas possam mudar entre nós. Sei que parece que isso nunca vai mudar, e que também parece que eu continuarei eternamente casada com ele, mas nunca se sabe. Você me conhece suficientemente bem para saber que isso não é uma promessa, mas é ao menos uma prova de que eu já não tento esconder de mim mesma que existe algo de muito bom entre nós, eu diria até mesmo raro, e que isso um dia pode se tornar em algo incrível para nós dois. Talvez você sequer imagine o quanto é correspondido, mas como nós nunca conversamos abertamente sobre isso, as coisas vão ficar assim até que você se decida pelo contrário ou aconteça algo que nos faça decidir sobre isso. Se até mesmo sua filha e o marido, que brigaram feio tanto até se separarem ainda possuem uma esperança, por que não nós, também? Acho que o nosso único erro é a insegurança de ambas as partes; de mim por não me divorciar, de você por não me dizer de uma vez por todas o que sente.
Tudo isso foi simplesmente para que eu te amo, que preciso profundamente de você. Em algum lugar de minha mente, eu estou com você, em paz. E te amando sem medo e nem culpa.

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