Apesar da chuva, ele saiu para comprar
mais cigarros. A madrugada mal começara e ele não ficaria até de manhã sem
cigarros, ainda mais que a chuva parecia aumentar. Quando chegou em casa, com
cinco maços dos cigarros favoritos deles, ouviu um barulho na cozinha. As luzes
estavam ligadas, ele estranhou. Ela só deveria chegar no meio ou até mesmo no
fim da madrugada mas estava ali, soluçando no chão. Seu maravilhoso vestido
vermelho parecia esparramar-se por todo o piso da cozinha branca feito sangue,
e as luzes eram fortes demais, tudo branco demais. E o vestido, sangue.
Cuidadosamente, ele se ajoelhou ao lado
dela, que apertava o rosto com as mãos, os soluços sacudindo todo o corpo. Ela
chorava ruidosamente, os cabelos desfeitos, a maquiagem provavelmente borrada.
Estava linda antes de sair, parecia um anjo com sua pele clara contrastando
perfeitamente com seu vestido, seus brincos de diamantes, seus olhos escuros e
brilhantes, seus longos cabelos perfeitos. Agora ela estava ali, completamente
desfeita, mas não parecia uma colegial abandonada (até porque, já tinha 27
anos, apesar de aparentar ser mais nova), e sim uma criança abandonada. Uma
criança completamente desolada.
Carinhosamente, ele passou a mão pelo
seu ombro exposto, e ele pode sentir sua respiração completamente desregulada,
os soluços, o desespero. Sem falar, ele a pegou no colo como se ela fosse um
bebê, de fato, e ficou embalando-a levemente ali mesmo, no chão da cozinha do
apartamento deles. Aos poucos, os soluços foram diminuindo e a sua respiração
normalizando. Ela o olhou então pela primeira vez, parecendo ligeiramente
surpresa de a realidade ainda ser a mesma de antes de sua crise. Ele não falava
nada. Olhava-a com amor e angústia em seus olhos azuis, mas principalmente
empatia. Não era à toa que eles se amavam. Haviam se encontrado no mais
profundo estágio de dor, e não precisaram de palavras para se unirem.
- Ela não se importa - sussurrou ela,
com um fiapo de voz. - Eu... Eu achei que ela estaria orgulhosa, sabe? Que eu
finalmente...fi...
A respiração dela começou a falhar e ela
parecia estar prestes a ter outra crise de ansiedade. Ele a beijou na fronte e
permaneceu com o rosto próximo do dela, fazendo-lhe carinho nos braços, nos
cabelos, no pescoço, até que ela adquirisse uma relativa calma outra vez.
Quando viu que ela parecia estar com o olhar perdido outra vez e com a
respiração mais regular, ele se tranquilizou. Sabia que as crises haviam
passado quando ela ficava assim. Aproximando-se bem dela, ele sussurrou
carinhosamente:
- Você não precisa me contar nada agora,
absolutamente nada, meu amor - ele se levantou sem grandes dificuldades com ela
ainda no colo. - Nós vamos dormir bem abraçados, você vai se aninhar em mim e
nós dormiremos e ficaremos na cama até não suportarmos mais isso. Então, se
você quiser, você pode falar sobre isso, está bem?
Ela concordou rapidamente com a cabeça,
como faria uma criança machucada. Ele então a levou para o quarto e a deitou na
cama, deitando-se ao seu lado. Tirou-lhe os belos sapatos de saltos altíssimos
e a acomodou junto a si, fazendo-lhe carinho nos cabelos calmamente, olhando as
sombras que a chuva na janela projetavam na parede. Ela o beijou nos lábios e
pareceu adormecer em algum tempo.
A verdade é que ela não precisaria
contar absolutamente nada para ele. Ele sabia muito bem que naquela noite, em
que ela se transformara doutora em sua área, a sua mãe não sentira grande
orgulho, mesmo que ela fosse bastante jovem para a conquista e sempre houvesse
sido não apenas uma filha inteligente, mas exemplar também. Mesmo dizendo-lhe
os parabéns costumeiros e tentando se mostrar orgulhosa, ela no fundo sabia que
a mãe, por algum motivo completamente desconhecido, repreendia-a, talvez até
mesmo se envergonhasse - o que não era de se surpreender, já que toda a sua
vida ela fora repreendida silenciosamente, sem nunca saber porque, mesmo que se
esforçasse e conseguisse tudo, mesmo que fosse praticamente perfeita. A mãe
dela fazia-a sentir-se um verme, essa era a verdade. Mas ele encontrara cada
partícula, cada átomo que constituía essa mulher perfeita pela qual ele se
apaixonara. Ele conhecia, descobrira dia após dia a sua perfeição rara. E mesmo
que para os outros ele parecesse um verme de cabelos loiros, ela encontrara
nele também uma beleza que ninguém mais vira, e que ele até então não
acreditava existir. Um dia, ambos fugiriam e viveriam sozinhos. E pela primeira
vez na vida inteira, teriam alguma paz.
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