Ao chegar no bar, não foi difícil localizá-la. Ela batucava impacientemente na mesa e olhava para todos os lados, ansiosa, enquanto fumava seu cigarro mecanicamente, quase sem prazer. Sua pele estava mais pálida do que o de costume e haviam olheiras tão grandes que ele as percebera de longe. Havia uma visível irritação em seu rosto geralmente gentil, ela estava outra vez realmente morrendo. Quando ele se sentou, ela o olhou aborrecida.
- Finalmente! Já estava desistindo de esperá-lo - disse ela, quase cuspindo as palavras, ao invés de falar educada e polidamente, como era o seu costume. - Afinal, por que diabos você me chamou aqui?
- Para salvá-la - disse ele, olhando-a intensamente. - Você não deduziu isso no mesmo instante? Eu honestamente acreditei que você havia se recuperado dessa vez, mas...
- Eu não quero me “salvar”! Não há razão nenhuma para isso!
- Existem razões e você sabe muito bem delas - continuou ele, calmamente. Ela era jovem e mesmo assim já havia conhecido a depressão profundamente. Apesar de agora já ter os cabelos brancos, ele também havia conhecido o desespero quando era jovem, e sabia que haviam inúmeras formas de se salvar. Ele havia se salvado, mesmo não sendo amado e talentoso como ela, por que ela não se salvaria? Ela era linda e talentosa, por que não continuar? - Você sempre pode recomeçar a sua vida, depende unicamente de você própria, e você sabe bem disso, você já fez isso uma vez.
- Reconstruir a minha vida para me encontrar envolta em mentiras? Para descobrir que todos os meus sonhos e forças eram imaginárias? - ela riu com amargura. - Não, nem pensar. Eu aprendo com os meus erros, muito obrigada. Não vou cometê-los outra vez, não vou acreditar em utopias que jamais se tornarão realidade...
- Talvez o seu erro tenha sido a forma com que estruturou a sua vida naquela época. Você é mais madura agora, pode recomeçar...
- Eu não quero recomeçar - disse ela, num tom perigosamente calmo. - Eu tinha catorze anos, que diabos eu ia saber sobre estruturar uma vida?
- É justamente a isso que me refiro. Se você conseguiu tão nova e inexperiente, por que não conseguiria agora? Tudo pode ser feito, você sabe bem. De uma forma ou de outra, tudo pode ser alcançado.
- Não é uma questão de poder ou não - diss ela, acendendo outro cigarro e oferecendo um a ele, que recusou. - Sei que seria difícil, mas eu poderia conseguir tudo isso. O problema é que eu sei que toda a estrutura um dia se desmancha, e eu não suportaria ver tudo perdido outra vez. Não quero lutar para outra vez morrer ao fim dos meus maiores esforços, justamente por aquilo que não posso controlar. Chega de buscar a grande mentira que é a felicidade.
- Nem sempre a felicidade é uma grande mentira - disse ele, tentando acariciar uma das mãos dela, mas ela se afastou bruscamente, olhando para outro lado. Seus cabelos lisos estavam bagunçados, sua regata preta antes colada ao corpo estava folgada. Havia a mais profunda desesperança naqueles olhos tristes, ele percebeu. Ele queria fazê-la enxergar que ela poderia ser a mulher mais feliz do mundo em algum tempo, mas ela se fechava. Ele sabia de seus profundos traumas, e de certa forma não podia dizer que ela não tinha razão em se fechar, em ter receio. Ela fora uma menina alegre e sincera um dia, mas agora estava completamente destruída pelo mundo. Ela agora tinha o olhar perdido num ponto inexistente, numa desolação que jamais deveria perpassar seu rosto delicado. Ela voltara para seu violento marido, voltara a viver uma vida que a destruía por inteiro, mas apenas ela própria poderia tirar-se dessa situação. Depois de dar um longo suspiro e despertar do seu devaneio, ela levantou os olhos para encarar os preocupados olhos azuis dele, que a olhavam intensamente.
- Olhe, eu compreendo que você ainda acredite em mim - ela quase sussurrava agora, num tom gentil, no seu tom costumeiro. Agora sim ela era a mesma que sempre fora. - O problema é que eu já não tenho forças para construir algo que eu sei que provavelmente será falso, já não tenho forças para viver algo que me causará dor depois. Eu sei que é difícil compreender a minha escolha, mas estou em paz, ao menos, dessa forma. Eu tenho uma paz triste vivendo assim, sabe? - ela sorriu, e por um momento seus olhos voltaram a brilhar como era de costume. - A dor me deixa mais criativa, também, apesar de eu saber que não preciso dela para criar. A verdade é que eu já não tenho mais coragem para ser feliz, e só não acabo com a minha vida para não preocupar os outros e não os fazer sofrer. Eu só me mantenho em pé para não preocupá-los, para não fazer com que ninguém sofra, por menor que seja o sofrimento.
Ele ficou sem palavras diante do que ela dissera. Não havia raiva ou desespero em suas palavras, eram de uma sinceridade extremamente profunda, a qual não deixava espaço para contra-argumentos. Ela continuava vivendo apenas e unicamente para não causar dor e preocupação para aqueles que a amavam, e não havia o que recriminar nisso. Ele sabia que ela teria coragem o suficiente para o suicídio, mas ela aguentava a tortura diária apenas para não preocupar ninguém, para não magoar ninguém. Ao final das contas, ela era muito mais forte do que ele poderia imaginar. Ele a beijou carinhosamente na testa e foi embora, deixando-a no bar, triste e tranquila. Sabia que ela continuaria vivendo seus dias, ela sempre encontrava um jeito de seguir em frente. Um dia ela precisaria de ajuda para ascender outra vez, mas ela sabia onde encontrá-lo. E esse dia cedo ou tarde chegaria, ele tinha certeza. Ou simplesmente preferia acreditar nisso.
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